Volume ou Constância?

Por que você não deve tentar ser o Usain Bolt dos concursos


Quando falamos em concursos, um fato é quase unanimidade entre estudantes e professores: estamos em tempos cada vez mais competitivos. A cada dia os candidatos evoluem. As notas de corte se tornam mais altas. As reprovações em testes físicos são cada vez menores. Gosto sempre de lembrar aquela máxima do esporte:


Não são as coisas que ficam mais fáceis - é você que fica melhor.


O contraponto dessa nova realidade parece óbvio: Cargas de estudo cada vez mais altas, mais e mais “tempo líquido de estudo”, resolução de centenas de milhares de questões. Tudo em nome da aprovação e de manter um alto volume de aprendizado. Alguns chegam a calcular a quantidade de horas estudadas até a aprovação.


Embora tais argumentos não estejam errados – afinal de contas estudar mais é importante e deve ser uma das metas do candidato – devemos nos lembrar de um fator que parece esquecido, mitigado pelos volumes massivos de estudo recomendados por muita gente: a constância.


Estava conversando com um amigo do trabalho, e ele cunhou uma frase a qual não me canso de repetir: “estudando em velocidade de cruzeiro”. Ele me disse que quando iniciou sua segunda graduação, estava cursando o maior número de créditos possíveis para se formar antecipadamente. Lá pela metade do curso, percebeu que se continuasse a fazê-lo, ia abandonar a faculdade por conta do cansaço.


Resolveu então reduzir o ritmo, e finalizar de uma maneira mais tranquila. Acertadamente, ele percebeu que estudar está muito mais para uma maratona do que para uma corrida de 100 metros rasos. E partindo dessa premissa, não faz sentido tentar ser um Usain Bolt dos estudos!


Numa corrente contrária de pensamento, já ouvi histórias sobre vários instrutores que cobram de seus alunos volumes absurdos de estudo. Catorze horas líquidas por dia, dez mil exercícios resolvidos por semana. Admito que o raciocínio tem lógica (quanto mais você estudar, maior a sua chance de passar), mas parece esquecer uma premissa bastante singela:


De nada adianta forçar a barra e acabar desistindo, desmotivando-se ao tentar manter uma jornada de estudos para a qual ainda não se está preparado.


Nessa esteira de pensamento, imagine um pai de dois filhos, que tem dois empregos e apenas duas horas por dia para estudar. Estará ele fadado a nunca ser aprovado? Claro que não. Talvez ele leve mais tempo estudando até sua aprovação. Afinal de contas, ele precisa de mais prazo para conseguir alcançar o mesmo volume de estudo de um concorrente com mais tempo livre.



No entanto, de que adianta entregar a esse pai de família um plano de estudos de 14 horas líquidas por dia? Esse plano não será adequado à sua realidade. Entregue a ele um plano realista, dentro do que ele pode fazer, e lhe dê tempo hábil para ir acumulando conhecimento. Acredito de verdade que ele irá passar, desde que não abandone sua melhor amiga: a constância.


É claro que você deve se esforçar. Tentar estudar o máximo que você puder. Tentar aumentar um pouco sua carga horária de estudo a cada dia. Se você tem tempo livre, você pode se condicionar a estudar até preencher todo esse tempo. Mas não desista porque no começo você só consegue estudar por uma hora sem parar. Lembre-se que você não entrou na academia agachando com 50 quilos. Com os estudos é a mesma coisa: evolução gradual e constante.


Mas não me compreendam mal: Não estou demonizando o foco em aumentar o volume de estudos, apenas defendendo que a constância é tão importante quanto. A partir do momento em que estudar se torna uma rotina para você, aí sim deve-se buscar o tão almejado volume de estudos.


No meu caso, comecei estudando uma hora por dia, e fui aumentando gradativamente. Após um ano, já estudava tranquilamente por oito horas diárias. E antes que digam qualquer coisa, eu já trabalhava na época. Felizmente mesmo trabalhando, me sobrava o tempo livre necessário para empreender essa jornada de estudos.


O que eu não tinha tempo era para outras coisas – como para ir a todas as festas a que eu era convidado, por exemplo. Mas isso senhores, é uma questão de escolha. Da qual, algumas aprovações depois, confesso que não me arrependo.


E não digo isso com o objetivo de me gabar, e sim para validar meu ponto de vista. Honestamente, o que vocês consideram que foi mais importante para esse êxito: a quantidade de horas de estudo diárias, ou a disciplina de estudar por um ano e meio, sem perder o foco?


Ter a consciência de suspender, temporariamente, as coisas que eu gosto de fazer, em prol das que eu precisava fazer para alcançar meu objetivo?


Pensem nisso.


Sejam regulares. Transformem o estudo em uma parte da sua rotina. Se você conseguir fazer 10.000 exercícios por semana, faça. Se conseguir fazer só 1.000, faça também. Se for capaz de fazer apenas 10, não tem problema. Deixe o tempo trabalhar. Só não desista.


Deixo vocês com uma pequena citação do sábio Confúcio:


“Se há pessoas que não estudam ou que, se estudam, não aproveitam, elas que não se desencorajem e não desistam; se há pessoas que não interrogam os homens instruídos para esclarecer as suas dúvidas ou o que ignoram, ou que, mesmo interrogando-os, não conseguem ficar mais instruídas, elas que não se desencorajem e não desistam; pois o que outros fariam numa só vez, elas o farão em dez, o que outros fariam em cem vezes, elas o farão em mil. Porque aquele que seguir verdadeiramente esta regra da perseverança, por mais ignorante que seja, tornar-se-á uma pessoa esclarecida, por mais fraco que seja, tornar-se-á necessariamente forte.”


Se você tiver que escolher entre volume e constância, confie em mim: Escolha a segunda. Se você puder manter ambas, e aumentar seu volume de estudos cada vez mais, meus parabéns: você encontrou o atalho para sua aprovação.


O que você não pode fazer é simples: Desistir. Nenhum desafio é inalcançável.


Lembre-se disso!


Acredite em você. Eu acredito!


Bons estudos a todos!


Douglas Vargas

Direito Penal e Direito Processual Penal

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