José Saramago e os concursos públicos

José Saramago, prêmio Nobel de Literatura de 1998, construiu sua carreira literária escrevendo apenas duas páginas por dia. Duas páginas. Apenas. O que pode parecer pouco, ainda mais se considerarmos que ele começou a escrever numa idade avançada, aos sessenta e quatro anos, que é quando as pessoas geralmente já arrumam suas mesas para irem embora e dão por encerradas as suas atividades profissionais.


Mas após uma vida inteira trabalhando como jornalista, Saramago, demitido, decidiu que ali seria o seu ponto de inflexão. Numa idade em que, imagino, uma pessoa pode esperar de tudo da vida, mas não que será vencedor de um Nobel por conta de uma carreira que ainda irá se iniciar. Isto em 1975, quando Portugal vivia tempos instáveis e difíceis por conta da Revolução dos Cravos.

Como outros colegas que haviam sido mandados embora, ele poderia ter se recolhido à aposentadoria e ver o que a vida tinha para oferecer na tela da televisão. Preferiu, no entanto, outro caminho, que o tornou famoso e rico quando tudo isso pareceria improvável. Apesar de ter começado tarde, quando morreu, aos 87 anos, deixou como legado dezessete romances elogiados pela crítica e pelo público, afora seus contos, poesias, seus livros de memória e infantis. Tudo isso escrevendo apenas duas páginas por dia. Após os sessenta quatro anos de idade. Ao todo foram 41 obras publicadas, vendendo, só em Portugal, 3 milhões de exemplares e, no Brasil, 1,5 milhão.

Duas páginas por dia. Caprichosamente trabalhadas. Incansavelmente. Sábados, domingos e feriados. Dos 64 aos 87 anos de idade.

Num livro-documentário, sua esposa, Pilar (que ele também conheceu após sua bem-vinda demissão), fala sobre a constância do trabalho na vida do casal: “podemos um dia chegar quase ao limite de nossas forças, mas dormimos e recuperamos as forças, e vamos em frente, e desterramos a palavra cansaço. Que para isso já há muitíssimos jovens cansados, nasceram cansados e estão cansados o dia todo. Cansados desde que se levantam até que dormem. Alguém tem de não estar cansado no mundo. [...] Menino, depois vão ter toda a eternidade, que é um tempo que não cabe na nossa cabeça, para descansar! Além disso, descansar agora! Quando a gente está vivo e passa parte do tempo dormindo, que é como estar morto”.

Trabalho, trabalho e trabalho. Será que isso tem alguma coisa a ver com a nossa realidade de pequenos prêmios, com as nossas pequenas lutas? Lembro que durante a minha preparação para concursos um dos sentimentos mais recorrentes que havia em mim era o da desistência. Quase todo dia eu tinha vontade de desistir. Pois este era, como sempre foi e sempre será, o caminho mais fácil a se tomar em meio às turbulências.

Sempre que eu via o tanto de material que ainda tinha para estudar, e o tamanho do conteúdo programático, e mais aquele monte de conhecimentos que em nada tinham a ver com a minha formação, a única coisa que eu poderia pensar é que não seria capaz de alcançar minha meta, que essa história de concurso não era pra mim.

Bem, como diria o poeta espanhol Antônio Machado, o caminho se faz é ao caminhar, e assim fiz o meu, motivado ou não, lendo minhas “duas páginas” por dia, incansavelmente, sábados, domingos e feriados, não deixando nenhum dia passar em branco, para alcançar o meu humilde Nobel, o cargo que eu queria.


Prof. Danuzio Neto Atualidades

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