Entrevista com Aprovado - Alessandra Requena

2º lugar no concurso de Analista de Controle Externo do Tribunal de Contas da União


Conheci a Alessandra Requena no segundo semestre de 2006, durante um curso de Direito Constitucional que eu ministrava em Brasília – DF. Pelo nível das dúvidas que ela me trazia, não foi difícil perceber que ela estava estudando para valer, e que já estava muito bem preparada.


Lembro de certa noite em que, durante o intervalo da aula, ela se declarou “especialista em bater na trave em concurso”. Acho que foi neste dia que eu fiz o meu primeiro comentário sobre a preparação dela, algo do tipo: “Alessandra, nenhum candidato bate na trave durante muito tempo; se isso já está acontecendo com você, é porque sua aprovação está próxima”.


Felizmente, eu estava certo: menos de um ano depois, ela foi aprovada no concurso que tanto almejava – Analista de Controle Externo do Tribunal de Contas da União –, em 2º lugar, com uma pontuação altíssima para um concurso desse nível!


Lembro, também, da nossa conversa, minutos após ela ter feito a prova do ACE/TCU/2007. Primeiro, ela me deu os parabéns pelo fato de o Cespe/UNB ter citado a minha obra (Direito Administrativo Descomplicado, em parceria com o Marcelo Alexandrino) na prova. Depois, ela me disse: “Vicente, acho que eu passei nesse concurso; nessa prova, um item errado anula um item certo, mas, Vicente, eu não consegui deixar quase nada em branco!”


Agora, já trabalhando no Tribunal de Contas da União, em Brasília - DF, a Alessandra concordou em conceder essa entrevista, no intuito de repassar a sua experiência de preparação para outros candidatos que ainda estão na batalha...


1) Vicente Paulo: Vamos começar falando de insucesso. Antes do concurso do TCU, você prestou o certame da Câmara dos Deputados, também para a área de Tecnologia da Informação. Você me disse que foi reprovada justamente na parte específica, de informática, em que, em tese, você deveria ter feito uma boa prova. Como foi essa experiência de ser reprovada na prova de sua especialidade?


Alessandra Requena: Fiquei muito desapontada. Mas, por outro lado, eu tinha consciência do tanto que tinha estudado e sabia que estava bem preparada. Tive que encarar essa reprovação como um azar. Caiu muito “decoreba” e eu nunca fui boa nisso. Aquela prova não mediu os meus conhecimentos. Por isso não desanimei.


2) Vicente Paulo: Antes do concurso da Câmara dos Deputados, você foi reprovada em outros certames que prestou?


Alessandra Requena: O primeiro concurso que fiz foi para Perito Criminal Federal. Até fui classificada, mas longe do número de vagas (esse foi o meu primeiro chute na trave). Isso me estimulou a continuar estudando. Depois, veio o concurso da CGU: fui reprovada em Direito Constitucional, apesar de ter feito uma ótima prova na minha área. Só então percebi que o buraco era mais embaixo, que eu ainda precisava estudar muito disciplinas com as quais eu não estava familiarizada. Preparei-me um pouco mais e fui aprovada no Banco Central.


3) Vicente Paulo: Eu ouço todos os dias em sala de aula candidatos reclamando da dificuldade que é se preparar para um concurso trabalhando. Mas, pelo que eu sei, quando você se preparou para o concurso do TCU, você trabalhava no Banco Central do Brasil. O que você tem a dizer sobre isso?


Alessandra Requena: Eu vivi as duas situações: preparação sem trabalhar e trabalhando. Para o concurso da Polícia Federal, eu parei de trabalhar para me dedicar inteiramente aos estudos. Confesso que foi um desastre, um verdadeiro desastre psicológico! Eu me sentia na obrigação de passar, pois não tinha mais emprego. Tal sentimento me atrapalhou muito. Uma prova de concurso público envolve muitas variáveis – estudo, sorte, tranquilidade – e não podemos achar que só depende da gente. Não consegui lidar bem com essas cobranças pessoais e, depois da má classificação na Polícia, eu decidi voltar a trabalhar e conciliar o trabalho com os estudos. Estudei para o concurso do Banco Central enquanto trabalhava na iniciativa privada. Foi bem puxado. Eu estava recém-casada, não tinha hora de lazer e estudava todos os dias, sem exceções, das seis da tarde até meia-noite. Os sábados e domingos, eu passava no cursinho e revisava a matéria. Apesar da dificuldade, eu sempre pensava que aquilo seria temporário, que era um investimento para o futuro. Uma vez aprovada no Banco Central, eu tive a oportunidade de trabalhar em horário corrido. Isso facilitou, pois eu tinha mais tempo livre e me permitia ir ao cinema no fim de semana, por exemplo. Por outro lado, o ritmo de estudos se intensificou também, até mesmo porque o concurso que eu almejava era mais difícil. Olhando para trás, eu digo que preferi estudar enquanto trabalhava, mesmo que eu tenha levado mais tempo para chegar onde queria. Senti uma segurança maior, pois me permiti errar. Caso eu não fosse aprovada, minha vida continuaria do jeito que estava.


4) Vicente Paulo: Você me parece uma pessoa extremamente disciplinada, determinada em seus projetos. Exemplo dessa determinação foi o fato de você ter sido reprovada no concurso da Câmara dos Deputados e, poucos dias depois, já estava se preparando para o TCU. O que é preciso fazer para ter tanta disciplina?


Alessandra Requena: Pergunta difícil, Vicente! O que é preciso fazer? Eu penso que a hora de batalhar é agora, para usufruir os benefícios no futuro. E não fico pensando no que eu estou deixando de fazer. Tem que pensar que é um investimento e que, com certeza, haverá um retorno. Além disso, o insucesso sempre faz parte do sucesso. Então, a preparação deve ser encarada como um treino e, a cada dia, estar-se-á melhor. Eu tento também evitar pensamentos negativos recorrentes, como pensar que eu não seria aprovada com uma concorrência tão grande. Eu também imagino e desejo muito o meu objetivo. Vivo intensamente para aquilo que eu quero.


5) Vicente Paulo: Você é casada, tem a família, os amigos. Como você fez para conciliar o convívio familiar e os estudos? Você é do tipo que se isola do mundo para estudar, ou tenta manter as duas coisas, paralelamente?


Alessandra Requena: Eu me isolo completamente. Acho que é até um defeito meu. Mas quando eu quero algo, eu deposito toda minha energia naquilo, sabe? O único espaço que eu deixo é para a família, que eu julgo ser o mais importante que temos na vida. Mas é pequenino esse espaço! Eu saía para almoçar com meus pais e minhas irmãs e fazia programas “light” com meu marido. Nada de barzinho, boate e bebidas. Isso me atrapalhava no dia seguinte. Amigos até cansaram de ligar, porque eu sempre tinha que estudar. Eu não consigo manter as duas coisas paralelamente. O tempo é muito contado.


6) Vicente Paulo: Digo sempre em sala de aula: inteligência não é tudo em concurso; disciplina é o maior diferencial. Você concorda com isso?