Cegueira sistêmica

Nosso cérebro foi programado, desde os primórdios de nossa evolução, para reagir rapidamente a perigos próximos e imediatos. Escapar do ataque de um predador e conseguir comida para o dia de hoje eram uma realidade recorrente. Com efeito, no contexto em que o cérebro humano evoluiu não fazia sentido falarmos em estudar para concurso público ou economizar para aposentadoria. Era muito mais interessante termos capacidade de reação rápida que consciência sobre o resultado futuro de nossas ações presentes.


Quando pegamos esse cérebro “pré-histórico” e inserimos em um mundo repleto de estímulos e necessidades de escolha temos um cérebro que reage exageradamente a situações triviais do cotidiano como o recebimento de uma mensagem no celular, o erro em uma questão de direito administrativo ou mesmo um esbarrão de alguém no transporte público. É como se nos faltasse a capacidade de avaliar a realidade dos fatos ou ter noção do contexto em que estamos inseridos.


Neste sentido, a atenção humana pode ser vista sob diversas perspectivas. Há aquela atenção mais pontual, que você utiliza para escrever uma redação, por exemplo, e também há aquela atenção utilizada para planejar ações num contexto macro. Pessoas bem sucedidas, em maior ou menor grau, conseguem aproximar e afastar sua atenção dependendo da situação. São trabalhadores focados e excelentes planejadores. Steve Jobs, por exemplo, conseguia se preocupar com a estética dos componentes internos dos computadores da Apple e rapidamente chavear para estabelecer uma diretriz de longo prazo, que iria mudar totalmente a forma como utilizamos a tecnologia.


O contrário também é verdadeiro. Pessoas que se frustram exageradamente em determinadas situações pontuais podem possuir uma espécie de cegueira sistêmica. Ou seja, não conseguem se afastar do problema para ter noção do todo. É como se dessem autorização apenas para o lado pré-histórico do cérebro funcionar.


Vou dar um exemplo prático para você entender melhor o que estou dizendo. Imagine que você nunca tenha estudado contabilidade geral na vida. Quem já estudou sabe que é uma disciplina enjoada de aprender. A matéria é grande e, em alguns pontos, complexa. Você estuda essa matéria há um mês e resolve pegar a prova da Receita Federal para responder as questões. Se você não tem noção sistêmica do que está fazendo e apenas utiliza sua atenção focada, aposto com você que, certamente, irá se frustrar. Você vai se julgar a pessoa mais incompetente do mundo e estará arriscando a continuidade de seus estudos por uma inabilidade de conseguir ver o todo.


Toda semana eu respondo literalmente dezenas de mensagens cuja a causa é a mesma: cegueira sistêmica. Alunos que querem resolver seus problemas pra ontem e não conseguem ter a noção do processo como um todo. É o típico caso do aluno que estuda há pouco tempo e diz que “a memória é ruim, que não lembra de TUDO que estudou e que, desse jeito, NUNCA passará no concurso”. Outro caso comum é do aluno que erra meia dúzia de questões e fica DESESPERADO (assim mesmo, tudo maiúsculo) porque não sabe NADA da matéria. Mais um exemplo (o último, prometo): o aluno que diz que seu sonho de infância é ser Auditor Fiscal da RFB, mas também não estuda. Quando abre o edital inventa de botar sua vida naqueles dois meses que antecedem a prova na esperança de passar num concurso super complexo em um tempo recorde de estudo. Falta noção do todo. Cegueira sistêmica.


Ter a noção do todo já me salvou muitas vezes. Quando minha esposa estava aborrecida com algo sem motivo (vulgo TPM) ou meu trabalho me exigia além do devido, é claro que tais fatores influenciavam negativamente meu rendimento. No entanto, por diversas vezes eu conseguia estudar um pouco por utilizar uma visão mais ampla do processo. Eu me perguntava: “ela vai se separar de mim por causa disso”? Resposta: “não. Então vamos estudar”. Idem para meu trabalho: “o mundo vai acabar se eu não fizer isso agora”? Resposta: “não. Então deixa eu estudar”.


Uma forma prática de ter visão sistêmica é brincar de general. Bem fácil (eu adoro fazer isso). Imagine-se olhando por cima de um grande mapa povoado de unidades militares e você ordenando o movimento dessas tropas, estabelecendo o ritmo, criando soluções para ultrapassar obstáculos ou dando mais atenção a determinadas unidades que estão em apuros. Cada unidade dessas pode ser uma disciplina do concurso, um problema a ser resolvido na sua vida ou uma tarefa que está envolvido. Ao invés de você viver para apagar focos de incêndio, você se preocupa em se organizar de maneira que os incêndios não mais ocorram. É por aí.


Quando afastamos nossa atenção entendemos que errar meia dúzia de questões não é o fim do mundo. E que também guardar TUDO o TEMPO TODO é humanamente impossível. Ao suspender sua atenção e ter noção do todo, você muda o discurso e a mentalidade, pois você sabe que está num processo de aprendizado e que esquecer de detalhes é normal, assim como aprender contabilidade geral leva um tempinho. Você passa a agir de maneira menos reativa e mais coordenada. Fica menos ansioso e não interrompe o seu avanço por conta de problemas menores. Você lida melhor com os obstáculos do cotidiano, pois sabe que a vida é assim e que errar e aprender são faces de uma mesma moeda.


Abs!


Prof. Igor Oliveira