A criança mimada

Durante os acompanhamentos que realizei, testemunhei as mais diversas dificuldades para se implementar uma rotina de estudos eficiente. Vi de tudo, desde alunos que não conseguiam estudar por preguiça mesmo, até alunos com problemas muito sérios, como alcoolismo e doenças graves (tive uma aluna, por exemplo, que tinha fibromialgia e ficava dias sem estudar por conta da dor relacionada à doença).


Salvo raras exceções legítimas, quase todas as dificuldades que observei foram inventadas e tinham origem em questões de ego. O ego é aquela voz interna que pede por conforto quando é necessário o emprego de uma conduta disciplinada (malhar, estudar ou trabalhar). É aquela reclamação sobre a segunda-feira ou fato de ser necessário estudar quando está passando um programa interessante na TV. O ego é como se fosse uma criança mimada dentro de cada um de nós. Você sabe que precisa se alimentar bem para ter uma vida saudável ou que é necessário estudar muito para passar no concurso de seus sonhos, mas a criança grita por conforto e não dá sossego enquanto não consegue o quer. Alguns tem a habilidade de manter a criança sobre controle, já outros são totalmente escravos dessa criança.


O que fazemos para educar o ego? O mesmo que fazemos para educar uma criança mimada. Focamos em mudar seu comportamento. Quando você aprende a adestrar seu ego, coisas mágicas começam a acontecer na sua vida. Você controla o medo do desconhecido, assim como uma criança controla o medo do escuro. Você se sente mais seguro de suas ações e capaz de ultrapassar as barreiras do desconforto.


Para nos ajudar nessa missão, gostaria de chamar ao palco um americano que inventou de ser escritor, mas acabou ficando famoso na psicologia. Com vocês…Skinner.


Super Nanny


As técnicas de Skinner se tornaram muito populares num passado recente no programa de TV Super Nanny, onde uma babá, como que num passe de mágica, domava crianças ensandecidas. A babá premiava comportamentos bons e punia comportamentos ruins. E, na repetição, a criança ia se moldando ao comportamento pretendido pela babá.


Segundo Skinner, todo comportamento é fruto de um condicionamento. Há uma experiência famosa neste sentido, em que ratinhos de laboratório são induzidos a certos comportamentos com base em punições e recompensas. Se o ratinho apertar o botão ele ganha uma comida. Se ele fizer outra coisa ele toma um choque. E, de tanto repetir, acaba automatizando o comportamento de fazer o que o cientista quer.


No caso concreto, o cientista somos nós e a criança ou o ratinho é o que desejamos educar, nosso ego. A missão aqui é singular: criar uma espécie de chama interna, capaz de mover você em direção ao que é certo, sempre. Não importa o dia, a hora ou mesmo o quê: você cumprirá sua missão e não dará ouvidos à criança mimada que carrega dentro de si.


Dois princípios fundamentais:


- Boas condutas devem ser premiadas.


- Más condutas devem ser punidas.


O que você não pode nunca fazer:


- Premiar uma conduta ruim.


Vamos à prática!


Imagine que você já estuda há algum tempo, chega do trabalho à noite e tem que estudar uma matéria que detesta (matemática, eu sei). Você olha para o material e não vê sentido algum em ter que estudar matemática. A criança dentro de você entra em choque e começa a gritar desesperadamente por conforto (NETFLIX, por favor!!!). O que você faz?


- Crie reforços positivos/recompensas. Exemplo: se você estudar por uma hora, você terá acesso a dez minutos de internet para fazer o que quiser. E, se você estudar seis dias na semana, você terá o domingo livre para ver séries de TV o dia todo. Esses exemplos são reforços positivos ou recompensas que vão estimular você a fazer o que é certo. No meu caso, eu me dava de presente o sábado e o domingo à tarde para fazer o que quisesse com meu filho, caso eu cumprisse minha meta semanal de estudos. Uma dica: o ideal é que a meta seja quantificável e flexível. Não adianta você dizer que sua meta é estudar quatro horas por dia, sendo que quatro horas é verdadeiramente seu limite. Aí não é meta. O ideal é uma meta em páginas, questões ou provas…essas são metas mais quantificáveis, de fácil mensuração e que permitem remanejamentos em caso de imprevistos.


- Crie reforços negativos/punições. Exemplo: se eu não estudar, eu também não acessarei à internet. E pior: tirarei a noite para arrumar as gavetas do armário. Reforços negativos são como balizas de mau comportamento. Elas não deixarão você sair do trilho.


- Nunca premie uma conduta ruim. Se você não estudar por pura preguiça, também não se deixe levar pela tentação de fazer exatamente o que você quer fazer (TV, sair, etc), pois você estará criando trilhas mentais associadas a hábitos ruins, uma vez que estará se premiando por um mau comportamento. O mesmo acontece com o comedor compulsivo ou o usuário de drogas, que sente prazer depois do comportamento ruim. Você não estudou e ainda se deu de presente uma ida ao seu restaurante japonês favorito. Um perigo isso!


O Normando dá um jeito


O Capitão-Tenente (Fuzileiro Naval) Normando era o terror em forma de ser humano. No Colégio Naval, quando uma turma pisava na bola, o comandante do Colégio pedia ao CT (FN) Normando que ministrasse um corretivo para o grupo de “deliquentes”.


Normando tinha o dom da maldade. Ele nos deixava horas parados no sol, num tremendo desconforto, suando rios, enquanto gritava discursos inflamados sobre a necessidade de cumprirmos nossa missão e de sermos disciplinados.


O Capitão Normando usava técnicas de Skinner, especialmente punições, para educar nossos egos fora de controle e nos lembrar que a missão era mais importante que o desejo por conforto.


Hoje, quando encontro colegas daquela época, lembramos dos discursos e das horas no sol. Foram lições de desapego e de disciplina que nos foram úteis em várias áreas da vida.


O fato é que, quando sua criança se descontrolar, explore o desconforto, vá em direção a ele. Seja seu próprio Normando e pratique a disciplina pura de fazer o que precisa ser feito, independentemente do que você (sua criança) pensa a respeito.


Disciplina é comportamento e comportamento é condicionamento, já disse Skinner. Você só aperfeiçoa aquilo que pratica. Quanto mais você, deliberadamente, ir em direção ao desconforto, mais você vai se acostumar a ele, até que chegará um dia em que o significado de conforto e desconforto não farão o menor sentido pra você. Seu grau de condicionamento será tal que a única coisa que importará será o cumprimento da tarefa desejada, tal como o ratinho de Skinner, a criança da Super Nanny ou o aluno do Normando.


Abs!


Prof. Igor Oliveira. Coach

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