A Arte da Guerra e a crise econômica

"A guerra tem importância crucial para o Estado. É o reino da vida e da morte (...). Quem não reflete seriamente sobre o assunto evidencia uma indiferença condenável pela conservação ou pela perda do que mais se preza. Isso não deve ocorrer entre nós”. Este alerta, escrito por Tzu Sun em “A arte da guerra”, foi feito no século IV a. C, quando, acredite, já havia concursos públicos.

O concurso num formato semelhante ao que conhecemos hoje, com testes escritos para seleção de servidores, surgiu na China em 165 a. C, ou seja, precede o nascimento do próprio Cristo e de outras figuras históricas que moldaram as bases da nossa cultura ocidental. Quando os primeiros candidatos se sentaram para disputar um cargo público, ainda não existiam os livros de Cervantes, os versos de Shakespeare ou as pinturas de Michelangelo para enriquecer o imaginário popular que levantaria os pilares dos séculos. Não havia também, e isto é apenas uma questão menor, ar-condicionado quebrado para se reclamar com o fiscal da prova ou caneta esferográfica preta como exigência de edital. Mas, por mais que esse tempo pareça distante, há indícios ainda mais longínquos deste tipo de admissão, que, ao que tudo indica, apareceu por volta de 2.300 a. C., na China, quando oficiais militares eram submetidos a testes físicos a fim de serem promovidos.

No nosso país, no entanto, o concurso público tem um histórico mais recente. Surgiu apenas em 1937, no governo Getúlio Vargas, e, desde então, fosse na República Velha, na Nova República ou no regime militar, nunca foi abandonado como critério de admissão pelos entes públicos. Durante esse período de aproximadamente oitenta anos desde que foi implementado, não faltaram turbulências que pudessem ameaçá-lo ou até mesmo extingui-lo. Houve, como sabemos, reflexos internos da segunda guerra mundial, o regime militar, os dois choques do petróleo na década de 70, os anos sem fim de hiperinflação, crises internacionais nos fins da década de 1990 e no ano de 2008. Por todo esse tempo, entra presidente e sai presidente, mudam-se ministros e ministérios, o concurso público se mantem como instituto forte, não sendo relegado ou substituído, independentemente do chefe do executivo, por outra forma de processo admissional.

Com essa visão histórica, é importante termos a sensibilidade de percebemos que, em todos esses momentos de dificuldade, quem estava preparado conseguiu o cargo que pretendia e gozou de todas as vantagens daí provenientes quando a oportunidade surgiu. Em “A arte da guerra”, Tzu Sun diz: “aquele que se empenha a resolver as dificuldades resolve-as antes que elas surjam”. Não há conselho mais providencial para este momento.

Sobre o tema, Tzu Sun nos deixa ainda outra lição: “se você conhece o inimigo e conhece a si mesmo, não precisa temer o resultado de cem batalhas. Se você se conhece, mas não conhece o inimigo, para cada vitória ganha sofrerá também uma derrota. Se você não conhece nem o inimigo nem a si mesmo, perderá todas as batalhas”.

Quando li “A arte da guerra”, foi quase inevitável relacioná-lo com este momento de crise e o consequente medo que ronda muitos candidatos de que não sejam publicados novos editais. É um cenário aparentemente tenebroso, eu sei, mas vamos esfriar um pouco a cabeça e pensar melhor.

Mesmo que cheguemos ao ponto de termos um governo liberal no comando do país, o que não parece ser de todo o caso, algumas funções são privativas de Estado e constitucionalmente não podem ser transferidas para a iniciativa privada. Atividades como Segurança Pública, Justiça, Diplomacia e Arrecadação de Impostos são alguns exemplos, e estas continuarão a necessitar de pessoal pelos mais variados motivos: seja pelo surgimento de novas vagas ou pela existência de vacâncias. Além disso, atividades que poderiam até ser privatizadas, como educação e saúde, não dão mostras de que passarão totalmente para a iniciativa privada num curto prazo. Pelo o que sinalizam os Presidentes da República e do Banco Central, a mesma perspectiva se aplica aos bancos públicos.

Para encerrar o raciocínio, tomo a liberdade de sugerir um pequeno exercício de imaginação. Imaginemos que você vive numa aldeia, e que nela será promovido, pelo palácio real, um concurso de habilidades onde o prêmio será um saco com trezentas onças de moedas de ouro. Mas há um porém, e, apenas este detalhe, já é capaz de atrapalhar todo o seu planejamento inicial. O que acontece é que começou o inverno e ele nunca foi tão forte na região, parece até que durará um ano inteiro pelo o que dizem os mais velhos. Dá uma preguicinha danada se preparar nestas condições, você pensa, tendendo a deixar de lado esse sonho. Além disso, você já recebeu notícias de que os concorrentes que estavam mais animados já acham que não vai dar muito certo treinar com um frio tão rigoroso. Neste cenário, você percebe que só tem duas opções. Não há meio termo. Uma é se enrolar nas cobertas e dormir placidamente até o sol voltar meses depois, a outra é tirar as armas do armário e cuidar de afiá-las para treinar com afinco todos os dias, enquanto os outros descansam, para que esse saco de ouro não vá parar em outras mãos.

Tzu Sun diz:


“As oportunidades multiplicam-se à medida que são agarradas.”

“O verdadeiro objetivo da guerra é a paz.”


Prof. Danuzio Neto Atualidades

0 comentário