Às vezes você reprova por um ponto. Às vezes, por 0.01. Mas e daí?

Quando falamos de concursos, é muito comum ouvir histórias de sucesso. O sucesso é lindo: ele motiva, encoraja, fortalece. Tudo relacionado ao sucesso é bom e bonito. Só que histórias assim tem um defeito: Normalmente, elas são seletivas. Todo mundo é incrível se contar só as partes legais da própria vida.

E com esse tipo de retrato, se a gente não tomar cuidado acaba criando uma realidade que tem um efeito colateral muito triste: o de fazer a pessoa que não conseguiu de primeira se sentir incapaz de uma segunda tentativa. Aí, logo de cara, aquele que mal começou acaba desistindo. E lá se vai um sonho que poderia ter sido realizado...

Por isso resolvi fazer esse breve relato para vocês. Quero mostrar que apesar do meu saldo de resultados ser bastante positivo (felizmente), nem tudo foi só alegria. Existem pedras no meio do caminho para todos. Comigo não foi diferente.

Se eu for seletivo, fica muito bacana. Número de aprovações, colocações, nomeações e não sei mais o quê. Mas a grande verdade é que nem tudo são flores. Só que isso não tira o mérito conquistado. Na verdade, é justamente por ser assim que vale a pena correr atrás!

Pois então. Estava eu estudando para a prova do certame PMDF 2012. Naquela época, já tinha tomado uma surra de um concurso e aprendido a minha lição de estudar de uma maneira séria (mas isso é uma história para outro dia). Estava tentando me dedicar ao máximo, com toda aquela vontade de passar que sei que vocês também conhecem.

Acordava, ia trabalhar, voltava, estudava. Eu e minha esposa (então namorada) estudávamos juntos. E então chegou a prova. Nervosismo total, é claro. No dia seguinte, gabarito provisório: Havia marcado uma boa quantia de pontos. Olhando as listas de notas da internet, e calculando mais ou menos o número de vagas, pensei: “será que deu?”

Foi então que saiu o resultado preliminar. Eu havia ficado em 36º. P*** que me p***! Nunca tinha conseguido um resultado desses! No concurso do BRB, onde eu trabalhava, eu havia sido aprovado em 1517º. É sério.

Eu já estava treinando pro TAF, e assim continuei. Faltava só o resultado da redação. Se tudo desse certo, estaria dentro das vagas! E foi então que veio o resultado. 4.99 de 10.

4.99. Eu precisava de 5.


Pra não dizer que estou inventando a nota ou exagerando, faço questão de postar a foto do DODF:





Na hora, a palavra ELIMINADO parecia estar em letra Arial 95. Demorei um tempinho pra entender o que havia acontecido. Eu tinha certeza que tinha feito uma boa redação... Não esqueço do telefonema que fiz em seguida. “Amor, saiu o resultado. Eu reprovei.”

Lembro que virei uma sensação no grupo do concurso no Facebook. “Caramba, o cara passou em 36º e faltou 0.01 na redação!” Mas que m**** hein! Só me restava fazer um recurso. Fui atrás de uma excelente professora de português para me ajudar. Não é possível que não dava para conseguir 0.01. Não era 0.1. Era 0.01!

A professora elaborou o recurso com o máximo de cuidado e com toda a experiência de quem já conseguiu reverter redações, segundo ela, muito mais complicadas. E dito isso... não deu certo. Resultado definitivo: Eliminado. Não tem como não ficar decepcionado. Quem falar que não ficaria está mentindo. Mas depois de um tempo você entende aquele velho ditado: O que não tem remédio...

Nessas horas a gente aprende muito. Principalmente a valorizar quem te coloca pra cima e te faz não desistir. Minha esposa foi a primeira pessoa a dizer que tinha certeza que eu passaria no próximo concurso. Palavras que eu nunca poderei agradecer o suficiente. O detalhe mais importante? Ela havia passado.

Como disse um excelente professor com quem tive a felicidade de estudar: A DPP (Depressão-Pós-Prova) só pode durar 24h. Depois disso você chacoalha a poeira e continua. Seguindo o que me ensinaram e honrando o apoio recebido, era hora de voltar para os livros.

Com o tempo você percebe que uma coisa boa do mundo dos concursos é que sempre tem um edital vindo por aí. Esteja você estudando ou não, esteja você interessado ou não, os editais são inevitáveis. Mais cedo ou mais tarde, você vai ter uma nova chance de tentar.

E assim vieram os outros concursos. Polícia Federal, PRF, Polícia Civil. E lá estava eu, estudando e fazendo um atrás do outro. Gradativamente as aprovações começaram a vir. Um concurso, depois outro, depois outro. Aquele 4.99 que um dia tinha sido motivo de chateação, parecia apagado. Felizmente, algum tempo depois, eu tinha páginas melhores do DODF para lembrar.


Agora me diga: Olhando só essa última foto, tem como imaginar que tudo começou com uma reprovação por 0.01? Acredito que não... Mas a verdade é que isso faz parte. Fez pra mim, e pode ser que faça pra você também. Eu espero que não seja necessário, mas caso isso aconteça, saiba que a solução é simples: continuar tentando.

Inúmeras pessoas que eu conheço e que hoje são servidores públicos passaram por situações parecidas. Todo mundo já reprovou em alguma coisa. Mas sabe o que todos tem em comum? Eles não desistiram. O desistente fica em último em todos os concursos.

E ah, quando eu digo tentando, é tentando MESMO. Estudando, se dedicando, procurando melhorar. Fazer um concurso atrás do outro pelas coxas não conta. Faça sua parte! E acima de tudo, valorize quem te apoia. Seja seu namorado ou namorada, seus pais, seus avós, seus amigos. Eu tenho certeza que todos esses resultados não teriam acontecido sem minha esposa ao meu lado. O mérito não é só meu, e eu sou muito grato por isso.

Uma última coisa: depois daquela reprovação na redação, a próxima que eu tive corrigida foi no concurso da PRF, que também valia 10 pontos. O resultado? 9.93. Parecia mais um recado do que uma nota: “Tá vendo moleque? Você dá conta.”

Em todos os concursos que fiz depois, nunca mais tirei uma nota tão alta em um redação. Mas não importa. O 4.99 tinha cumprido seu papel.


Prof. Douglas Vargas Direito Penal e Processual Penal

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