Entrevistas

Luiza de Vasconcelos Machado


Conversamos hoje com Luiza de Vasconcelos Machado, graduada em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília - UNB, que passará aos candidatos sua experiência vitoriosa:

1ª colocada - Distrito Federal no concurso de Assistente-Técnico Administrativo - ATA/2009 do Ministério da Fazenda; neste ano aprovada no concurso para Analista Administrativo da Agência Nacional Civil (ANAC), e tomará posse no cargo de Técnico de Controle Externo - TCU/2009.

1) Ponto: Há quanto tempo estuda para concurso?

Luiza: Comecei a estudar em janeiro de 2008, para o concurso de Técnico de Finanças e Controle da Controladoria Geral da União (CGU). Foi o meu primeiro contato com esse "mundo" e serviu para "quebrar o gelo". Até então, sentia uma certa resistência em estudar para concursos, achava que isso não era para mim. Entretanto, estava insatisfeita com o meu trabalho e via pessoas próximas de mim se preparando e tendo sucesso. Decidi tentar. Apesar de não ter passado, fiquei muito próxima da nota de corte e isso me animou bastante. Foi o estímulo que eu precisava para continuar.

2) Ponto: Muitos candidatos reclamam da dificuldade de conciliar trabalho e estudo. Precisou largar o emprego para estudar? Como foi com você?

Luiza: No começo, eu trabalhava o dia todo, oito horas (ou mais) por dia, e estudava à noite e fins de semana. Era corrido e cansativo, mas era uma questão de disciplina: o estudo exige esforço. Mas, ao mesmo tempo em que vivia essa rotina, ia concretizando o meu "plano B": juntar dinheiro suficiente para parar de trabalhar por uns tempos e me dedicar integralmente aos estudos. E isso aconteceu em março deste ano, quando pedi demissão do meu emprego e passei a estudar para concursos em tempo integral. Entretanto sei que essa não é a realidade da maioria dos concurseiros. E ressalto: não é preciso fazer isso para passar em concursos. A maioria dos aprovados trabalha e estuda. Tudo é uma questão de gerenciar o tempo de forma a aproveitá-lo da melhor maneira possível. E o mais importante: disciplina e persistência. A rotina não é fácil, e é preciso estar consciente disso desde o início.

3) Ponto: Estudava nos finais de semana?

Luiza:Quando trabalhava, estudava à noite e durante os finais de semana. Além disso, aproveitava feriados e férias para estudar. Quando parei de trabalhar, ao mesmo tempo em que dispunha de mais tempo de estudo, estava diante de um novo desafio: como aproveitar essa oportunidade? Sim, porque quando o tempo é apertado, procuramos usar cada segundo da melhor forma possível. Quando há mais folga, tendemos a relaxar mais. E era justamente isso que eu não queria que acontecesse. Portanto, estabeleci uma rotina de estudo, com horários rígidos e intervalos controlados. Adotei o esquema de cronometrar o tempo de estudo e achei extremamente vantajoso. A gente começa a ter real noção do nosso ritmo e, assim, passa a se cobrar mais. Nos períodos de pico, cheguei a estudar algo em torno de 12 horas líquidas por dia. Mas é claro que não conseguimos manter esse nível sempre. Não faz nem bem isso. No geral, tentava ficar na marca de 7 a 8 horas líquidas diárias.

4) Ponto: Você acha importante ter um ambiente específico para os estudos?

Luiza: Sim é importante escolher o ambiente de estudo. Durante muito tempo, meu esquema era sair do trabalho e ir para bibliotecas. Achava que assim meu estudo renderia mais. Porém comecei a ficar cansada dessa rotina e decidi experimentar estudar em casa mesmo. Funcionou bem. Claro que, nesse caso, é preciso um esforço maior para não cair na tentação de fazer outras coisas e não estudar direito. Mas, por outro lado, é mais fácil consultar seus livros e materiais de apoio, sem contar o conforto, que é muito maior. Claro que eu tinha a vantagem de a minha casa ser um ambiente tranqüilo e silencioso, no qual eu poderia estudar sem ser interrompida. Se esse não for o seu caso, é melhor tentar outro lugar.

5) Ponto: Como você conseguia estudar sete a oito horas líquidas por dia, em que horas do dia estudava?

Luiza: Quando parei de trabalhar, fiz do estudo uma rotina semelhante a um trabalho normal. Acordava cedo e estudava durante todo o dia e um pedaço da noite, fazendo intervalos regulares para descanso. Fim de semana também estudava, em ritmo mais lento, para não sobrecarregar muito. Claro que há dias em que fica mais difícil manter essa rotina, seja pelo cansaço ou pela falta de concentração mesmo. Mas eu tentava me manter fiel a esse cronograma o máximo possível. Com o tempo, o estudo é incorporado ao seu dia-a-dia de forma natural.

É importante respeitar o próprio ritmo. Por exemplo, quando percebia que meu rendimento era melhor à noite, intensificava os estudos nesse período para descansar mais nos outros. Do mesmo modo, acho legal alternar matérias. Depois de umas duas horas estudando sobre o mesmo assunto, é difícil manter o mesmo nível de interesse e atenção. Além disso, isso proporciona um contato mais constante com todas as matérias, facilitando a fixação do conteúdo.

6) Ponto: Qual foi seu primeiro concurso? Como se saiu?

Luiza: Meu primeiro concurso foi o da CGU, em 2008. Nesse mesmo ano, fiz o do Supremo Tribunal Federal (STF) e da Agência Brasileira de Inteligência (Abin). Não passei em nenhum deles (ou passei e fiquei fora do número de vagas), mas a cada prova ia melhor e ficava mais próxima da tão sonhada aprovação. Como dizem, estava "batendo na trave". Em 2009, cheguei a fazer o da Agência Nacional de Águas (ANA) e o da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (ANTAQ), mas não estudei para nenhum dos dois especificamente. Fiz porque queria testar meu desempenho em algumas matérias que estava estudando para o concurso de Analista de Controle Externo do Tribunal de Contas da União (TCU). Não passei (nem tinha esperança), mas foram ótimos exercícios.

7) Ponto: Os seus familiares lhe apoiaram nessa trajetória?

Luiza: É muito importante contar com o apoio das pessoas próximas de você, sejam familiares, companheiros ou amigos. Trata-se de um período difícil que exige esforço de todos. E isso é importante para coisas bem triviais, como respeitar o momento de estudos, sem interrompê-lo com conversas ou telefonemas desnecessários. Além disso, o tempo gasto no preparo para concursos implica necessariamente abrir mão de momentos de lazer e convívio social. Tive a sorte de ter sempre muito apoio e estímulo e, certamente, isso me ajudou bastante.

8) Ponto: Qual foi sua maior dificuldade durante a preparação para o concurso?

Luiza: Acredito que a maior dificuldade foi vencer o pensamento que me assombrava: passar em concursos era para os outros, não para mim. Ouvia muitas histórias de sucesso, mas pensar que eu poderia viver aquilo ainda estava muito distante da minha realidade. Afinal, deparei-me com uma quantidade enorme de matéria que nunca havia estudado e, naturalmente, pensava naquelas pessoas que se preparavam há muito mais tempo do que eu. Além disso, quando trabalhava, pensava também que sempre havia aqueles concurseiros que se dedicavam integralmente aos estudos, enquanto eu me "matava" em minhas poucas horas disponíveis. Entretanto, como disse um professor que conheci, o importante não é a quantidade, mas a qualidade. E isso é verdade. Fui percebendo que o meu desempenho era melhor do que o de muitas pessoas que não trabalhavam ou que estudavam há mais tempo. Além disso, é preciso se dar um tempo. Não adianta querer aprender tudo da noite para o dia. O estudo vai se consolidando de forma natural e na proporção do seu esforço. E, finalmente, com a minha aprovação no concurso do Ministério da Fazenda, tive a certeza: é possível passar sim!

9) Ponto: Como você se sentiu a véspera da prova? O que vez para manter o controle emocional?

Luzia: Não sou uma pessoa muito calma, mas tento sempre manter a ansiedade em um nível tolerável. No começo era mais difícil, ficava mais nervosa, mas com o tempo você vai aprendendo a fazer isso mais naturalmente. Fazer provas de concursos passa a fazer parte da sua vida. A saída é trabalhar a cabeça mesmo, cultivando pensamentos positivos do tipo "fiz o que pude e vou tentar fazer o melhor disso". Acho que chegar a uma prova com segurança em todo o conteúdo é praticamente impossível, mas reconhecer o próprio esforço ajuda muito. Procuro, ainda, manter meu foco até a véspera, estudando em ritmo leve, apenas para manter a matéria "fresca" na cabeça (é um momento bom para reler leis, por exemplo). Mas isso é muito pessoal. Há quem fique mais ansioso fazendo isso e, portanto, cada um deve pensar a própria estratégia.

10) Ponto: Considera cursinho importante durante a preparação para o concurso?

Luzia: Bons professores podem ajudar muito, mas é preciso ter consciência de que não são eles que vão fazer você passar. Eles são importantes porque facilitam o seu estudo, direcionando-o para os assuntos mais importantes e tornando algumas matérias menos árduas para você. Mas isso não substitui as horas que você tem que separar no seu dia-a-dia para estudar por conta própria. Agradeço muito aos professores que tive, mas sei que o diferencial foi a minha dedicação.

Além disso, é bom contar com a experiência de outras pessoas. Vale dicas sobre métodos de estudo, bibliografia, etc.

Eu, por exemplo, li um texto do Alexandre Meirelles que me ajudou muito http://www.pontodosconcursos.com.br/admin/imagens/upload/2632_D.pdf. A sessão de depoimentos do Fórum Concurseiros também é uma ótima opção. Entretanto, é sempre bom saber que não é porque determinado método funcionou para alguém que ele funcionará para você também. O segredo é tentar adaptá-los para o seu jeito de estudar.

Tive muita sorte porque conhecia várias pessoas que já tinham passado pelo que eu estava vivendo. Não só você aprende com os erros dos outros, mas também pode servir como uma fonte de inspiração. Afinal de contas, se aquela pessoa venceu todos aqueles desafios e conseguiu, por que você não pode fazer o mesmo?

11) Ponto: Já participou de algum grupo de estudo? Se sim, achou proveitoso?

Luiza: Sempre tive um estilo mais solitário de estudar, esclarecendo dúvidas pontuais com colegas. Mas nessa trajetória dos concursos, aprendi que a solidariedade é fundamental. Seja compartilhando material ou o próprio conhecimento, em grupos presenciais ou virtuais, essa troca ajuda muito. O Fórum Concurseiros é um ótimo exemplo disso. Acho incrível como pessoas que nem se conhecem se ajudam mutuamente nessa luta por uma vaga no serviço público. Em um primeiro momento, você pode pensar que está perdendo tempo, que enquanto, por exemplo, você resolve dezenas de exercícios sozinho, num grupo esse número reduz bastante. Mas acredito que o balanço final é positivo: acrescenta muito em conteúdo. Sem contar que você percebe que as dificuldades não são só suas, que você não está sozinho nisso. Mas, claro, isso depende muito do estilo de cada um. E acho importante que os membros do grupo tenham um mesmo foco de estudo.

No momento, estou participando de um grupo de estudos para correção cruzada de redações e estou gostando muito.

12) Ponto: Qual o conselho daria para quem está iniciando os estudos?

Luzia: Primeiro, ter consciência de que não é fácil. Não quero desanimar ninguém, apenas acho importante que as pessoas que estão iniciando essa trajetória saibam que os desafios são muitos. Acredito que isso ajuda a não desistir diante de eventuais fracassos. Querer passar é só o primeiro passo; estudar para isso é algo muito mais além. Em segundo lugar, ter um foco. Não adianta estudar para um concurso diferente a cada edital que for publicado. Escolha uma área e se concentre nela, aproveitando, claro, as oportunidades que forem aparecendo no caminho. Por fim, não desistir, nunca! O resultado esperado sempre chega, mesmo que demore um pouco.

13) Ponto: O que levou a fazer o concurso do ATA-MF?

Luzia: Pensei que fosse uma oportunidade boa. O concurso tinha um conteúdo relativamente pequeno (uma vez que a maioria das matérias eu já havia estudado em algum momento), o que me permitiria continuar estudando para outros concursos. Acreditava que tinha chances e deu certo. Foi bom porque meu resultado superou totalmente as minhas expectativas e isso contribuiu para ganhar confiança. Passar nesse concurso serviu para quebrar a barreira do medo da reprovação.

14) Ponto: No concurso ATA-MF, foi a primeira colocada, mas não assumiu, está se preparando para outros concursos?

Luzia: Sim. Tinha feito outros concursos e estava aguardando os resultados. Cheguei a tomar posse no cargo, mas antes de entrar em exercício saiu o resultado definitivo do concurso do TCU e eu tinha sido aprovada para Técnico Federal de Controle Externo. Como ficaria aproximadamente um mês apenas no Ministério da Fazenda, decidi não assumir e aguardar o TCU. Achei que seria melhor, inclusive, para o próprio órgão (sem contar que a vaga ficaria disponível para que outra pessoa pudesse ocupá-la). Além disso, ganhava um pouco mais de tempo para continuar estudando. Na semana seguinte, recebi também a notícia da minha aprovação no concurso para Analista Administrativo da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC).

15) Ponto: Luiza, você passou em tantos concursos... você estudava a matéria específica de todos eles?

Luiza: Na medida do possível, sim.

16) Ponto: Como dividia o seu tempo na preparação de vários certames?

Luzia: Nesse ponto, ler sobre a experiência de outros concurseiros foi fundamental (já mencionei o texto do Alexandre Meirelles e as entrevistas do Fórum Concurseiros. Recomendo fortemente a leitura!). Pode parecer impossível estudar tantas matérias ao mesmo tempo, mas com um pouco de organização e disciplina não fica tão complicado.

Em primeiro lugar, acho importante ter alguma segurança em matérias básicas como Direito Constitucional e Administrativo. Elas são cobradas em praticamente todos os concursos e, no geral, os bons candidatos são muito fortes nelas. Portanto, você não pode se dar ao luxo de ficar para trás nesse quesito, pois seria como se você já largasse em uma corrida em situação de desvantagem.

Outro ponto importante, que já mencionei anteriormente, é escolher um foco de estudo - ele será como a sua "espinha dorsal". Isso não impede, entretanto, que você possa aproveitar as oportunidades que surgirem, abrindo espaço para algumas matérias específicas, sem perder o foco, claro. A dica de concurseiros mais experientes é seguir com o ritmo de estudo, abrindo a agenda para as matérias específicas algumas semanas antes da prova. Eu tentei seguir essa orientação. Para o concurso do Ministério da Fazenda, por exemplo, concentrei mais esforços nas matérias de Tributário e Previdenciário, pois além de serem novidades para mim, tinham grande peso na prova e poderiam fazer a diferença na aprovação.

Já para o concurso do TCU, quando saiu a distribuição de vagas e vi que não tinha sido contemplada a área de Auditoria Governamental - que era o meu objetivo inicial -, optei pelo cargo de Técnico Federal de Controle Externo, pois achei que a área de obras públicas me desviaria muito do caminho que havia traçado. Desse modo, foi necessário reforço em certos pontos do edital, como, por exemplo, Execução Orçamentária e Financeira. Ao mesmo tempo, ampliei um pouco meu foco e comecei a estudar outras matérias, tais como economia, pensando em provas que ainda estavam por vir, como o concurso de Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental e o de Analista de Planejamento e Orçamento, do MPOG.

Quando foi lançado o edital do concurso da ANAC, algum tempo depois, vi que a prova seria apenas uma semana após o concurso do TCU. Decidi manter-me focada na prova do Tribunal e apenas revisei alguns pontos para a ANAC na semana que antecedia o certame. Graças aos meus estudos para o TCU, já tinha adquirido uma boa base em matérias como Administração Financeira e Orçamentária e Contabilidade Pública. Deu certo.

17) Ponto: Acha importante o candidato fazer concursos durante a preparação, ainda que como teste?

Luzia: Acho muito importante. Quase todos os que estudam há mais tempo fazem isso e os professores também recomendam. Segui a dica e comprovei: faz diferença. Ganhava mais confiança a cada prova, e isso é muito positivo para os estudos. Mesmo se ia aquém do que esperava, é uma forma de aprender com os erros. Além disso, você ganha o que os concurseiros chamam de "ritmo de prova" e aprende a trabalhar sob pressão, controlando o tempo das questões, redações, intervalos etc. Sem contar que, mais cedo ou mais tarde, você acaba passando em algum e vai conquistando aos poucos o seu objetivo final.

18) Ponto: Muitíssimo obrigado pelo carinho, pela atenção em responder a todas essas perguntas, que Deus ilumine seus passos nessa nova caminhada - e, por favor, fique inteiramente à vontade para tecer outros comentários que julgar relevantes para os visitantes do Ponto dos Concursos.

Luiza: Obrigada. Eu quem devo agradecer, primeiramente pelo interesse em me entrevistar e, depois, pela atenção que me foi dispensada.

Nessa trajetória, aprendi que passar em concursos não é nenhum bicho-de-sete-cabeças. Não há segredo: basta estudar. É fácil? Claro que não. E se fosse, garanto que não seria tão bom passar. Por isso, tenha em mente que é preciso muito esforço, mas vale a pena. O sucesso não é só para os outros, pode ser seu também.