Entrevistas

Denise Loiane 6ª Colocada no TCU/2009


Para mim, Vicente Paulo, falar sobre a aprovação da Denise é muito fácil, porque eu sei muito bem o quanto ela batalhou por essa conquista.

Quando a conheci, em um dos meus cursos de Direito Constitucional, em Brasília - DF, ela estava apenas iniciando os estudos, com todo o entusiasmo. Depois, vieram as reprovações, alguns momentos em que parou de estudar, mas o bonito é que ela nunca desistiu do sonho: ser servidora do TCU!

Tive a oportunidade, também, de encontrá-la num momento difícil, na véspera do concurso de 2007, quando ela adoeceu. Estava visivelmente abalada, macérrima, foi muito triste vê-la naquele estado, em pleno momento importante de sua preparação, no momento de chegada às provas.

Mas, a sua grande virada começou no concurso da CGU/2008, em que ela, mesmo sem estudar muito, bateu na trave! Pronto, era o que faltava para ela conscientizar-se de que era só estudar mais um pouco que a aprovação do TCU era certa! Nem mesmo a mudança de área praticada pelo Tribunal - mudando todas as vagas de Auditoria Governamental para Auditoria de Obras - foi capaz de abalar o seu pique, a sua determinação.

Pois é, agora, é só alegria! Na festa que o Ponto organizou, em Brasília - DF, para os 128 aprovados no TCU/2009, era impossível encontrar alguém mais feliz, mais vibrante do que a Denise (mais bonita, então, nem pensar!). É a velha máxima: "a alegria da aprovação compensa todas as dificuldades e frustrações vivenciadas durante a preparação; aliás, estas só valorizam ainda mais a aprovação, pois são as dificuldades e frustrações que nos dão a real dimensão da nossa vitória, da superação de obstáculos".

Você, Denise, é um exemplo de superação, de pessoa que mergulha com paixão na busca de realizar um sonho. Fico imaginando quantas pessoas neste país não possuíam as mesmas (ou até mais!) condições de serem aprovadas no TCU/2009 e desistiram, em razão da mudança das vagas para Auditoria de Obras. Quantas? Certamente, foram milhares e milhares. E você, com sua formação em odontologia, foi corajosa, não se curvou diante do obstáculo - e fez bonito!

Essas atitudes me emocionam muito, porque praticamente todas as coisas que eu construí na vida foram na base da pura coragem! Foi assim quando eu, um economista absolutamente desconhecido, resolvi escrever um livro de Direito Tributário para concursos. Em seguida, quando eu mal sabia enviar um email, resolvi abrir um site direcionado para concursos públicos. Nessas ocasiões, sempre me chamaram de maluco! Depois, quando esses sonhos transformam-se em realidade, aparecem os "pequenos" e frustrados de plantão para dizer que "foi pura sorte", "como o Vicente Paulo é sortudo"!

Por isso, Dê, se alguém disser por aí que a sua aprovação no TCU/2009 - Auditoria de Obras, pelo fato de você ser dentista, foi "pura sorte", concorde plenamente com essa pessoa, agradeça à "sorte", e solte um belo sorriso! Afinal, são pensamentos assim - pequenos e mesquinhos, que tentam ofuscar a vitória dos outros - que fazem pessoas lindas como você brilhar, mais e mais!

Vamos à entrevista, no intuito de que a sua história de coragem possa incentivar outros concursandos por esse imenso Brasil.

1) Ponto: Quando você decidiu que prestaria concursos públicos? O que te levou a isso?

Denise: Fui graduada no curso de Odontologia na Universidade de Brasília no ano de 2003. Logo em seguida, fiz cursos de aperfeiçoamento em Ortodontia, e já planejava a especialização nessa mesma área. Trabalhava em consultório e no Centro Odontológico do CAJE. Era desgastante. Chegava a casa, depois de 10 horas de trabalho, exausta.

Comecei, então, a pensar no futuro que eu queria para mim e definitivamente não era aquele. Queria estabilidade e horário de trabalho com espaço suficiente para cuidar da minha saúde e da minha família, mas não queria sair da minha área de formação.

2) Ponto: Como foi para você, formada em odontologia, concorrer no concurso do TCU/2009 na área de Auditoria de Obras que é voltado principalmente para engenheiros?

Denise: Em novembro de 2008, parei com todos os atendimentos no consultório. Habituei-me a estudar em média 8 horas por dia, inclusive sábado, domingo e feriados. Tinha certeza de que, naquele ritmo, o TCU seria meu. Então, em abril, o Tribunal publicou uma notícia de que o concurso de 2009 teria apenas vagas para Auditoria de Obras, TI e técnico.

Listei as alternativas que me restavam. Pesquisei outros concursos que estavam próximos e que tinham matérias que já pertenciam à minha grade de estudo. Havia muitos previstos: MPOG, SEPLAG DF, ANTAQ, ANAC, MPU... Conversei com algumas pessoas que trabalham no TCU, com os professores e com minha família. Em relação ao trabalho que executaria no Tribunal, era unânime a opinião de que, se houvesse dificuldades, elas poderiam ser superadas. Em relação ao concurso, as opiniões se dividiam: uns achavam que era uma loucura estudar para Auditoria de Obras; outros achavam que era difícil, mas possível. Ninguém achou que seria uma missão fácil, nem eu.

A verdade é que eu não me empolgava com nenhum outro concurso. Minha meta era ingressar no TCU, outros cargos públicos não me despertavam tanto interesse. E foi por isso que eu resolvi me dedicar a um edital completamente novo, com matérias de engenharia. Muitos amigos bem preparados desistiram.

3) Ponto: Você me disse que no início de sua preparação começou estudando para concursos em sua área de formação, até chegar no concurso do TCU. O que te levou a focalizar os estudos para esse concurso?

Denise: Comecei estudando, em 2005, para concursos na área de odontologia. As dificuldades foram: falta de previsão desses concursos, poucas vagas, muitos exigiam especialização (que eu não tinha), não havia material, nem cursos para as matérias específicas.

Nesse tempo, vi alguns colegas de faculdade se dedicando para concursos de outras áreas e conquistando seu espaço. Foi então que um amigo me apresentou o TCU. Em 2006, Bruno, também dentista, foi aprovado no concurso do TCU e foi meu grande estímulo. O TCU é um órgão competente e respeitado na Administração Pública. Quando aprofundei meus estudos, achei a auditoria uma área muito interessante e, além disso, os servidores do Tribunal são bem remunerados e têm boas condições de trabalho. É um órgão que mantém seu pessoal sempre motivado.

4) Ponto: Qual era sua metodologia de estudo, costumava mesclar o estudo de várias disciplinas ou preferia estudar somente uma disciplina o tempo que fosse necessário para terminá-la? Fez muitos exercícios ou só estudava teoria?

Denise: Quando decidi estudar Auditoria de Obras, fui atrás de material. Eu tinha um banco de dados no meu computador com provas do CESPE desde 2004, na área de engenharia e arquitetura. Eram mais de 100 provas. Fiz um horário de estudo, priorizando as matérias da prova específica (70% do meu tempo livre), mas sem esquecer as matérias de conhecimento básico (30% do tempo). Segui item por item do edital de 2007. Estudava a teoria e, em seguida, fazia exercícios e questões de provas. Tive aulas presenciais e cursos online das matérias específicas.



5) Ponto: Como se preparou para a prova discursiva do concurso - TCU/2009, você utilizou algum método?

Denise: Fiz aulas específicas de Redação e Língua Portuguesa. Aprendi a forma de um parecer e de uma dissertação, não tive dificuldades nisso. O que me assustava nas provas discursivas era me deparar com um assunto que eu não dominava. Na minha preparação, procurei fazer uma redação por semana. Pedia para um amigo escolher um assunto, sempre uma surpresa, para simular a reação perante um tema inesperado na prova. Fazia os textos sem rascunho e cronometrava o tempo. Essa era a minha maior preocupação nas questões discursivas, não podia gastar muito tempo nelas. Foi uma preparação útil, pois, no primeiro dia de prova desse último concurso, faltou tempo para responder as questões objetivas e tive que escrever as duas discursivas diretamente no caderno definitivo e em tempo recorde.

Li muitos textos técnicos do próprio TCU para melhorar o vocabulário, sempre prestando atenção nas expressões utilizadas. Isso me ajudou muito na hora da prova, pois me deu agilidade para achar palavras e para desenvolver minhas ideias.

6) Ponto: Que tipo de cursinho você aconselharia no início e no término de uma preparação? (pacotão, disciplina isolada,curso online)

Denise: Quando optei em estudar para o TCU procurei os cursinhos especializados, comprei os livros que me recomendavam e fui atrás dos melhores professores. Tenho que fazer um destaque e agradecimento especial a você, Vicente Paulo, e ao André Luis de Carvalho, que foram pessoas iluminadas que me guiaram durante toda essa caminhada. Gostava muito das aulas do Ponto, pois são organizadas e bem direcionadas, sem falar na credibilidade dos professores.

No início, fiz aulas de disciplinas isoladas e me dedicava a uma ou duas matérias de cada vez.

Mas, mesmo com uma boa base teórica, não conseguia passar nos concursos. Faltaram exercícios, fixação e revisão. Neste momento senti necessidade de mais aulas e procurei uma turma de exercícios. Foi excelente, pois ficou claro para mim quais eram os assuntos em que eu tinha mais dificuldade. Então pude melhorar os estudos em pontos específicos.

Não gosto muito dos pacotes de aulas, pois dificilmente teremos os melhores professores em todas as matérias. A carga horária é menor e os assuntos não são tão bem fixados e aprofundados como em cursos de disciplinas isoladas.

7) Ponto: Qual maior acerto, e o ponto alto, que realmente fez diferença para sua aprovação?

Denise: Posso resumir os principais contribuintes para minha aprovação:

1. Não estudei para passar num concurso; estudei para realizar um sonho. Queria o TCU. Se não fosse esse pensamento, talvez tivesse mudado meu foco quando saiu o comunicado da mudança da área de orientação. Muito provavelmente se estudasse para outro eu também passaria, pois estava estudando com garra, mas a felicidade não seria tão grande.

2. Formei parceria com amigos (Alexandre, Marcele, Marcelo, Leandro e Patrícia) bem preparados e focados no TCU. O grupo me deu estímulo e orientou meus estudos. Fizemos uma planilha distribuindo o tempo entre as matérias. Realizávamos nossos encontros uma vez por semana. Cada um de nós ficava responsável por selecionar questões interessantes de uma matéria. Assim montávamos um simulado semanal, seguindo o modelo da última prova do TCU.

3. Fiz um horário rígido de estudo. Aprendi a dizer NÃO para a família, namorado, amigos. Sacrifiquei os finais de semana e feriados.

4. Tive apoio da minha família, que foi fundamental. Entenderam que eu estava estudando e contribuíram no que foi possível. Minha única preocupação era estudar. E ainda sabia que, se minha reserva financeira não fosse suficiente para o período que fiquei sem trabalhar, eu poderia contar com a ajuda deles.

5. É preciso pedir a Deus que dê tudo certo. Ele estava comigo e me ajudou a conquistar o meu objetivo. Nada acontece por acaso, basta seguir com fé. Deus nos deu o potencial, precisamos acreditar nele e desenvolvê-lo.

8) Ponto: Agora me diga, em sua preparação se pudesse apontar um erro, qual seria?

Denise: O grande erro que cometi e que prolongou o tempo de preparação foram as seguidas desistências depois de um resultado negativo em um concurso.

Quando me preparei para o concurso de 2007, trabalhava o dia inteiro e reservava a noite pra estudo e cursinho. No final de semana ainda não tinha conseguido estabelecer uma rotina, às vezes estudava, outras não. Claro que não passei! Viajei logo em seguida, abandonei os livros por quase 6 meses. Isso aconteceu outras vezes ao longo desses anos de estudo: parava para férias, para festas de fim de ano, para carnaval.

Depois fiz o concurso da CGU em 2008. Apesar de não ter estudado, tive uma boa pontuação nas matérias que já tinha visto anteriormente. Então me animei de novo e no mesmo dia recomecei meus estudos para o TCU. Aí não parei mais.

Outro erro foi priorizar algumas matérias e esquecer completamente de outras. No TCU/2007, meu desempenho foi pior na prova de conhecimentos específicos. Por isso, em 2008, resolvi focar nas matérias que valiam mais, que tinham peso 2. Estudei muito bem Auditoria e Administração Financeira e Orçamentária. Quando saiu o edital, me deparei com muitas matérias que não sabia: Direito Civil, Processo Civil e Direito Penal. Elas estavam na prova de conhecimentos gerais e tinha peso 1. Decidi seguir a mesma estratégia, mas novamente não passei. Fui muito bem na prova de peso 2 (65%), mas não fiz nem 40% na prova de peso 1. Fui eliminada. Tem que ser malabarista para passar nesse concurso. Não pode negligenciar nenhuma matéria, nenhuma bola pode cair.

9) Ponto: Como você se comportou nos dias que antecederam as provas? Cuidados com a alimentação e com o sono podem fazer a diferença?

Denise: Sim, isso faz muita diferença. E não é só nos dias que antecedem as provas, mas também durante toda a preparação. Cuidei da alimentação, fiz acupuntura, mantive a atividade física até o momento que publicaram o edital. Manter o equilíbrio emocional e a saúde é fundamental para qualquer concurso. Nos outros anos, adoeci antes das provas. Em 2007 tive rubéola, passei as noites imediatamente antes das provas com febre alta e forte dor de cabeça. Em 2008 tive uma faringite e tossia sem parar. Dessa vez não tive nada.

10) Ponto: No período entre a publicação do edital e a realização das provas, como foi o seu ritmo de estudo, aumentou ou manteve o mesmo?

Denise: Quando saiu o edital foi outro momento de turbulência. Estava firme na matéria nova, mas esperava me diferenciar dos engenheiros nas matérias básicas. Tiraram auditoria e enxugaram o conteúdo de Direito Constitucional e de Administração Financeira e Orçamentária. Colocaram ainda mais novidades: Estatística, Matemática Financeira e Raciocínio Lógico. Tive que reformular a estratégia e selecionar material de estudo. Cancelei o tempo da corrida (esporte é importante, mas naquele momento era urgente encontrar tempo para estudar). Resolvi acordar uma hora mais cedo e aumentar uma hora no estudo durante a noite. Passei a estudar 10 horas por dia, ou mais. Deixei três semanas para a revisão final. Nessa revisão, voltei aos slides das aulas, aos exercícios que eu marcava como mais interessantes e às anotações do meu caderno. Esse momento de revisão é indispensável.

11) Ponto: Você não estava trabalhando durante a preparação. Quantas horas você estudava por dia?

Denise: De 8 a 10 horas por dia, inclusive finais de semana e feriado.

12) Ponto: Depois de assumir o cargo de Auditora Federal de Controle Externo do TCU, quais são os seus projetos?

Denise: Quero estudar muito para o TCU. Primeiro, preciso conhecer bem o trabalho e saber das minhas necessidades e deficiências. Depois, vou estabelecer uma nova meta, uma graduação em outra área, mestrado ou especialização.

13) Ponto: Sua formação acadêmica é em Odontologia. Como foi o início de seus estudos quando se deparou com matérias jurídicas? Teve dificuldades?

Denise: Minha maior dificuldade foi saber como estudar e criar uma rotina. A inicialização nas matérias jurídicas foi mais difícil que a inicialização na engenharia. Mas não significa que as matérias de direito sejam mais difíceis que engenharia. A diferença foi que, para este concurso de Auditoria de Obras, eu já sabia exatamente como estudar. Tinha disciplina nos meus horários e sabia qual o melhor local para buscar as informações. Quando comecei a estudar direito, lia os livros sem ter um objetivo, não fazia exercícios, não esquematizava meus estudos. Fico perdida quando vejo uma matéria pela primeira vez. Mas logo me acostumo com o vocabulário e termos técnicos e fico mais à vontade com as questões.

14) Ponto: Você iniciou sua preparação estudando sozinha, ou logo procurou um cursinho?

Denise: Experimentei de tudo. Comecei sozinha, lendo livros. Lia, mas não entendia. Então resolvi procurar a ajuda dos cursinhos. Depois optei em não fazer aulas, para sobrar mais tempo para estudar e não gastar tanto dinheiro, já que tinha reduzido minhas horas no trabalho. Nessa época estudar sozinha rendeu bem mais que no início, pois já tinha uma base em todas as matérias. Em 2009, de volta à sala de aula, percebi que cursinho para mim era muito bom, pois me motivava e me mantinha atualizada.

15) Ponto: O concurso do TCU/2009 foi realizado pelo Cespe/UNB, você considera importante conhecer o estilo da banca examinadora?

Denise: Com certeza, considero fundamental conhecer muito bem a banca que realizará o certame. Nesse concurso, além de procurar os melhores professores, selecionar o melhor material, fazer os melhores cursos, eu praticamente esgotei as questões de provas anteriores do CESPE e aprofundava na matéria de cada item. Durante a prova, deparei-me com muitos itens que já havia resolvido anteriormente. Isso é ótimo, pois além de ponto garantido, traz segurança e tranqüilidade para resolver o resto.

16) Ponto: Em sua caminhada rumo a aprovação, você os concursos de 2007, 2008 e 2009. Por favor, deixe uma mensagem para os que já estão na caminhada há algum tempo, mas ainda não conseguiram aprovação.

Denise: Não é uma caminhada fácil. O principal é manter o entusiasmo, acreditar que é possível e que você é capaz. Concurso parece algo muito repentino, um dia você dorme desempregado, no outro acorda com o emprego dos seus sonhos. Mas a construção desse sonho é feita dia a dia, cada minuto de estudo é um tijolinho a mais. E não tem para onde correr: se estudar, vai passar. Basta não desistir.

"Consulte não a seus medos, mas a suas esperanças e sonhos. Pense não sobre suas frustrações, mas sobre seu potencial não usado. Preocupe-se não com o que você tentou e falhou, mas com aquilo que ainda é possível a você fazer." (Papa João XXIII)

17) Ponto: Muito obrigado pela atenção e desejo-lhe muito sucesso em sua nova atividade profissional. Que Deus ilumine seus passos concedendo sabedoria e discernimento neste novo desafio.