Entrevistas

Davi Ferreira Gomes Barreto


O Davi é um ótimo exemplo do que eu chamo de candidato focado, que tem um norte bem definido, que sabe exatamente aonde quer chegar. Cearense, de Fortaleza, engenheiro eletrônico formado no ITA, trabalhou alguns anos na iniciativa privada, no Estado de São Paulo, antes de pensar em ingressar no serviço público. Aos 27 anos, chegou à conclusão de que estava na hora de mudar de rumo, de procurar novos desafios e qualidade de vida. Foi quando, em abril de 2007, decidiu parar de trabalhar, voltar para Fortaleza - CE, e, com a reserva financeira de que dispunha, preparar-se firmemente para concursos públicos.

Inicialmente, pensou em preparar-se para o concurso de Auditor-Fiscal da Receita Federal do Brasil, mas, em razão da indefinição sobre a realização do próximo concurso, acabou decidindo pelo cargo de Analista de Controle Externo do TCU, na Área de Auditoria. Mesmo sabendo que Fortaleza não possuía uma grande estrutura de preparação para este concurso, pegou firme nos estudos e superou candidatos de todo o País, sendo aprovado em 1º lugar no concurso!

Agora, em março de 2008, já nomeado e morando em Brasília, o Davi concordou em conceder a seguinte entrevista ao Ponto:

1) Vicente Paulo: Antes do concurso do TCU, você prestou algum outro concurso? Se afirmativa a resposta, como você se saiu neles?

Davi: Antes do TCU, enquanto ainda trabalhava, prestei as provas do ISS-SP e ICMS-CE (ambas no começo de 2007). Foram as minhas primeiras experiências em concursos públicos, tudo ainda era muito novo e não estudei o suficiente, de tal forma que não consegui passar em nenhuma das duas.

2) Vicente Paulo: Como foi a experiência de parar de trabalhar para estudar? Como conter a pressão, comum nessa situação, pela rápida aprovação?

Davi: Foi muito complicado. Sempre fui acostumado a trabalhar muito. Fazia parte da minha rotina acordar e sair de casa para o trabalho. Foi muito difícil me ver, de repente, dentro de casa todos os dias, estudando e esperando as coisas acontecerem.

Digo isso porque nenhum edital tinha sido lançado, havia apenas especulações (sobre o TCU, sobre a Receita etc.). As pessoas perguntavam constantemente sobre o concurso e eu não sabia responder.

De qualquer forma, sempre tentei manter a tranqüilidade. Tinha em mente que minhas economias eram suficientes para me manter por um bom tempo e confiava que conseguiria passar em um concurso nesse tempo.

3) Vicente Paulo: Sem trabalhar, você tinha muito tempo para estudar. Como manter o pique, como ser disciplinado durante horas e horas de estudo por dia?

Realmente, ficar sem trabalhar traz uma grande vantagem: tempo. Você passa a ter todo o tempo do mundo para se dedicar aos estudos. A partir daí, é importante ter a consciência de que o tempo não é mais o problema - o grande desafio é a dedicação, é a força de vontade, é manter o pique e não desanimar.

Eu sei que não é fácil, mas acredito que é possível.

Como manter o pique? Acho que o importante é saber administrar todo esse tempo disponível. É como correr uma maratona: se você passa a estudar 12 horas por dia, não consegue agüentar muito tempo, se você estuda 2 horas por dia, não consegue cobrir todo o conteúdo.

É nesse ponto que o planejamento passa a ser fundamental.

4) Vicente Paulo: Como você fez para conciliar o convívio familiar e os estudos? Você é do tipo que se isola do mundo para estudar, ou tenta manter as duas coisas, paralelamente?

Davi: Para mim, o convívio com a família foi muito importante, considero fundamental conciliá-lo com os estudos.

Acho que o processo de aprendizado não se resume a trancar-se dentro de casa, isolar-se do mundo e devorar os livros. Tentar levar uma vida "normal" e sair um pouco da rotina de estudos ajuda a manter a mente tranqüila, dando mais fôlego para enfrentar essa maratona.

5) Vicente Paulo: Quantas horas você estudava por dia? E nos finais de semana?

Davi: Eu tentava encarar minha rotina de estudos como uma rotina de trabalho: 8 horas por dia, 5 dias por semana.

6) Vicente Paulo: Digo sempre em sala de aula: inteligência não é tudo em concurso; disciplina é o maior diferencial. Você concorda com isso?

Davi: Concordo. Eu identifico dois principais diferenciais para se ter sucesso em uma prova de concurso público:

1- PLANEJAMENTO, que seja ao mesmo tempo desafiador e realista.

2- DISCIPLINA para cumprir o planejado

7) Vicente Paulo: Você usa alguma técnica para manter o equilíbrio e a concentração no período que antecede as provas?

Davi: Eu não tenho uma técnica específica e devo admitir que fico um pouco nervoso e ansioso antes das provas. Contudo, acho isso natural e até mesmo importante.

Digo isso porque é essa adrenalina que circula no nosso sangue e provoca um certo stress no momento da prova que nos deixa atentos e com o raciocínio mais rápido. Contudo, temos que tomar cuidado para que essa adrenalina e stress não nos paralisem na hora H.

De qualquer forma, acho que os dias que antecedem as provas devem ser dedicados ao relaxamento - ir ao cinema, ir à praia, namorar, dormir bastante etc.

Sei que é difícil não cair na tentação de continuar estudando. É nesse momento que um bom planejamento dá a segurança de saber que já fizemos o que deveria ser feito.

8) Vicente Paulo: Eu costumo dizer que "o candidato leva mais tempo para aprender a estudar do que para ser aprovado em um concurso". Você demorou muito a aprender a estudar? O que é mais problemático no início da preparação?

Davi: Realmente não é fácil aprender a estudar. Na minha concepção há dois grandes problemas no início da preparação:

1- Saber o que estudar

Quando comecei a estudar, o edital ainda não tinha saído e havia muitas incertezas e especulações sobre que matérias seriam cobradas.

Além disso, existe uma infinidade de livros, apostilas e cursos disponíveis no mercado. Nesse aspecto, acho que os fóruns de discussão na Internet são muito úteis e podem fornecer boas indicações de livros, cursos e professores voltados para os objetivos do concurseiro.

2- Elaborar uma estratégia de estudos

Depois de compreender o que estudar e por quais fontes, é necessário elaborar uma estratégia, uma metodologia de estudo.

Essa estratégia deve ser sólida para se ter a segurança de lograr os objetivos. De outro lado, há de ser, igualmente, flexível pois há muitas incertezas, impondo a adaptação às possíveis mudanças de edital.

E isso não é fácil. Acho importante dedicar algum tempo antes de começar os estudos em definir essa estratégia, esse planejamento.

9) Vicente Paulo: Fortaleza não é uma cidade com tradição em preparação de candidatos para o concurso do TCU. Você fez cursinho, ou só estudou sozinho?

Davi: Eu não fiz nenhum cursinho. Fortaleza não oferecia nenhum curso específico para o TCU e tive que estudar sozinho.

10) Vicente Paulo: Você fazia resumos das disciplinas, ou achava isso perda de tempo? Que dica você daria para os candidatos sobre esse ponto (fazer ou não fazer resumos)?

Davi: Acho que não existe fórmula certa. Algumas pessoas aprendem mais fazendo resumo, outras não.

No meu caso, comecei os estudos fazendo resumos de todas as matérias. Entretanto, quando saiu o edital, vi que não conseguiria cumprir meu planejamento se continuasse a fazê-los. Não haveria tempo hábil. Assim, decidi substituí-los e passei a grifar as partes mais importante dos livros.

Portanto, a minha dica é: independente se for fazer ou não resumos, entenda como essa decisão influencia o planejamento e se é possível ter um plano de contingência caso as coisas não corram como o planejado.

11) Vicente Paulo: Durante a sua preparação, você fez muitos exercícios, resolveu muitas provas de concursos anteriores? Que dica você daria para os candidatos sobre esse ponto (fazer ou não fazer exercícios)?

Davi: Fiz muitos exercícios e muitas provas de concursos anteriores. Na minha opinião, não há muita discussão quanto à importância disso.

Os exercícios são fundamentais para solidificar os conhecimentos. As provas anteriores são importantes para conhecer a banca, simular o tempo de prova, treinar as questões discursivas.

12) Vicente Paulo: Ao longo da sua preparação para concursos, quais foram os seus maiores acertos, aqueles pontos decisivos para a aprovação?

Davi: Acho que o meu maior acerto foi saber me planejar e ter disciplina para seguir esse planejamento.

13) Vicente Paulo: Agora, vamos inverter a pergunta, falando de erros. Quais os erros cometidos por você durante a sua preparação?

Davi: Acho que o meu maior erro foi, em alguns momentos, não ter conseguido conter minha ansiedade e me antecipado em estudar matérias que não tinha certeza se iriam cair na prova (no caso Direito Civil e Processual Civil). Perdi um bom tempo.

14) Vicente Paulo: Você usou muito a internet como meio de preparação? Você tem alguma dica a dar sobre o uso da web na preparação para concursos?

Davi: Por estar longe de São Paulo e Brasília, a internet possou a ser a minha única forma de contato com as novidades sobre o concurso do TCU.

Acho que a internet é uma ferramenta muito poderosa para ajudar na preparação. É possível acessar provas antigas, esclarecer dúvidas em fóruns de discussão, ter aulas on line, entre outros recursos.

No meu caso, usei tudo isso: pesquisei questões de provas, pedi ajuda a concurseiros mais experientes em fóruns virtuais e, inclusive, fiz um dos cursos on line do Ponto de Concursos (Redação para prova Discursiva do TCU).

Contudo, é importante usar essa ferramenta corretamente. Há muitas informações, muito material disponível na rede, mas é necessário saber filtrar o que é bom e o que é ruim, identificar as fontes confiáveis.

15) Vicente Paulo: Se, em vez de assumir o cargo de ACE, você recebesse hoje a incumbência de orientar os estudos de um candidato que está iniciando os seus estudos para o próximo concurso do TCU, quais seriam as suas orientações? (fique à vontade para escrever, pode escrever quantas linhas/páginas quiser, acho essa pergunta uma das mais importantes desta entrevista)

Davi:Essa é uma pergunta díficil. Acho que fazer um trabalho como esse, na realidade uma espécie de coaching, demanda um tempo considerável e não se enquadra em nenhuma fórmula pré-estabelecida.

De qualquer forma, acredito que existem algumas premissas que tentaria aplicar. Resumidamente, elencaria 5 etapas fundamentais nesse processo:

1- Identificar quais são os pontos fortes e fracos do candidato: qual a sua formação, que matérias tem mais ou menos aptidão, quanto tempo tem disponível para os estudos. Enfim, as principais características do indivíduo.

2- Entender quais são os objetivos do candidato: que espécie de certame deseja prestar (Receita Federal, TCU, fiscos estaduais, carreiras jurídicas em geral etc.)

3- Diagnosticar as condições externas ao candidato: quanto tempo há até a prova, que matérias são exigidas, qual o grau de certeza do conteúdo ser similar ao de certames anteriores.

4- Traçar um programa de estudos a ser seguido considerando os 3 itens anteriores: qual deve ser a rotina do candidato, ou seja, quais matérias estudar, em que profundidade, por quais fontes e quanto tempo dedicar a cada uma delas.

5- Monitorar o planejamento: como está sendo a evolução do canditado, o plano está adequado às suas reais necessidades e às eventuais mudanças que ocorreram.

Acredito que uma estratégia baseada nessas diretrizes tem grande chance de sucesso. Contudo, não se pode esquecer que outro ingrediente fundamental é a disciplina e a força de vontade do candidato em "colocar a mão na massa" e dar o melhor de si nessa batalha.

16) Vicente Paulo: E se essas orientações fossem para um candidato que já está estudando há muito tempo, que acreditava que seria aprovado em 2007, mas não foi? Quais seriam as suas orientações para esse "recomeçar" em 2008?

Davi: Apesar de serem situações bem distintas, acredito que a lógica de trabalho seria muito parecida com a de uma pessoa que começou a estudar há pouco tempo.

Em resumo, orientaria a ter uma visão crítica das estratégias de estudo que foram adotadas até então.

Neste sentido, seria possível identificar quais erros estão sendo cometidos: o problema é em alguma matéria específica, é falta de foco, é falta de tempo na preparação?

Enfim, onde o planejamento está deficiente e como melhorá-lo.

17) Vicente Paulo: Sei que este pedido exigirá muito de você, mas não posso deixar de fazê-lo, conto com a sua compreensão e desprendimento. Você poderia fazer um resumo da sua história de preparação, isto é, de como você se preparou para o concurso do TCU (quantas horas de estudo diariamente; quando descansava; qual a metodologia empregada; como programava os estudos; como dividia o tempo entre teoria e exercícios; quando fazia cursinho e quando só estudava em casa etc.)?

Davi: Acho que muito do que falei ao longo da entrevista se aplica a essa última pergunta. Mas tentando não ser repetitivo, resumiria minha história de preparação assim:

Depois que decidi largar o emprego e me dedicar aos estudos, tinha apenas a certeza de que teria muito tempo disponível e que o maior desafio a enfrentar seria conseguir me planejar de maneira adeqüada e ter disciplina para não perder o foco.

O primeiro passo foi ver o edital passado do TCU e saber quais matérias eram cobradas. Posteriormente, dediquei um tempo acessando fóruns e contactando pessoas, tentando descobrir quais os melhores livros para estudar.

Nesse tempo havia uma previsão de que a prova seria em aproximadamente 6 meses e me programei para cobrir todo o edital, fazer exercícios e revisões dentro desse tempo.

Passei a encarar os estudos como um trabalho: começava pontualmente às 8:00, parava para almoçar ao meio dia, retomava às 14:00 e parava às 18:00. Ao todo, eram 8 horas de estudo diários.

Estava sempre controlando quanto eu já havia estudado, quanto faltava e se estava dentro do planejado.

Quando o edital foi lançado, muitas coisas mudaram: novas matérias entraram (Auditoria Governamental, Contabilidade de Custos, Administração Pública) e outras sairam (Direito Civil e Processual Civil).

Adaptei meu planejamento à nova realidade e fui obrigado a aumentar minha carga horária para 9-10 horas diárias de estudo.

Continuei controlando minha evolução, fazendo um ou outro ajuste na estratégia e consegui acabar de fazer o que tinha me proposto - ler os livros, fazer exercícios e revisar a matéria - uns 15 dias antes da prova.

A partir daí, relaxei um pouco, e passei a reler alguns textos, a rever uma ou outra questão que achava mais interessante. Mas sempre tendo em mente que não estava mais no ciclo de praparação e, sim, me mantendo aquecido para a prova que estava por chegar.

Viajei para São Paulo alguns dias antes do certame, pois a prova não seria aplicada em Fortaleza. No período que lá estive, tentei relaxar, encontrar com amigos e esfriar a cabeça para dar o melhor de mim no dia D.

E foi assim que tudo aconteceu. Quando penso nessa minha experiência, acredito que a mensagem mais importante a deixar é que não existe uma fórmula mágica, sendo essencial um bom planejamento e boa dose de dedicação.

Vicente Paulo: Davi, eu, Vicente, e toda a equipe do Ponto, desejamos a você muito sucesso nessa sua nova fase profissional - e agradecemos muitíssimo esse seu gesto de extremo desprendimento, em repassar aos candidatos de todo o País a sua experiência de preparação para o concurso do TCU.