Entrevistas

Alessandra Requena


Alessandra Requena, de Brasília - DF

Conheci a Alessandra Requena no segundo semestre de 2006, durante um curso de Direito Constitucional que eu ministrava em Brasília – DF. Pelo nível das dúvidas que ela me trazia, não foi difícil perceber que ela estava estudando para valer, e que já estava muito bem preparada.

Lembro de certa noite em que, durante o intervalo da aula, ela se declarou “especialista em bater na trave em concurso”. Acho que foi neste dia que eu fiz o meu primeiro comentário sobre a preparação dela, algo do tipo: “Alessandra, nenhum candidato bate na trave durante muito tempo; se isso já está acontecendo com você, é porque sua aprovação está próxima”.

Felizmente, eu estava certo: menos de um ano depois, ela foi aprovada no concurso que tanto almejava – Analista de Controle Externo do Tribunal de Contas da União –, em 2º lugar, com uma pontuação altíssima para um concurso desse nível!

Lembro, também, da nossa conversa, minutos após ela ter feito a prova do ACE/TCU/2007. Primeiro, ela me deu os parabéns pelo fato de o Cespe/UNB ter citado a minha obra (Direito Administrativo Descomplicado, em parceria com o Marcelo Alexandrino) na prova. Depois, ela me disse: “Vicente, acho que eu passei nesse concurso; nessa prova, um item errado anula um item certo, mas, Vicente, eu não consegui deixar quase nada em branco!”

Agora, já trabalhando no Tribunal de Contas da União, em Brasília - DF, a Alessandra concordou em conceder essa entrevista, no intuito de repassar a sua experiência de preparação para outros candidatos que ainda estão na batalha...

1) Vicente Paulo: Vamos começar falando de insucesso. Antes do concurso do TCU, você prestou o certame da Câmara dos Deputados, também para a área de Tecnologia da Informação. Você me disse que foi reprovada justamente na parte específica, de informática, em que, em tese, você deveria ter feito uma boa prova. Como foi essa experiência de ser reprovada na prova de sua especialidade?

Alessandra Requena: Fiquei muito desapontada. Mas, por outro lado, eu tinha consciência do tanto que tinha estudado e sabia que estava bem preparada. Tive que encarar essa reprovação como um azar. Caiu muito “decoreba” e eu nunca fui boa nisso. Aquela prova não mediu os meus conhecimentos. Por isso não desanimei.

2) Vicente Paulo: Antes do concurso da Câmara dos Deputados, você foi reprovada em outros certames que prestou?

Alessandra Requena: O primeiro concurso que fiz foi para Perito Criminal Federal. Até fui classificada, mas longe do número de vagas (esse foi o meu primeiro chute na trave). Isso me estimulou a continuar estudando. Depois, veio o concurso da CGU: fui reprovada em Direito Constitucional, apesar de ter feito uma ótima prova na minha área. Só então percebi que o buraco era mais embaixo, que eu ainda precisava estudar muito disciplinas com as quais eu não estava familiarizada. Preparei-me um pouco mais e fui aprovada no Banco Central.

3) Vicente Paulo: Eu ouço todos os dias em sala de aula candidatos reclamando da dificuldade que é se preparar para um concurso trabalhando. Mas, pelo que eu sei, quando você se preparou para o concurso do TCU, você trabalhava no Banco Central do Brasil. O que você tem a dizer sobre isso?

Alessandra Requena: Eu vivi as duas situações: preparação sem trabalhar e trabalhando. Para o concurso da Polícia Federal, eu parei de trabalhar para me dedicar inteiramente aos estudos. Confesso que foi um desastre, um verdadeiro desastre psicológico! Eu me sentia na obrigação de passar, pois não tinha mais emprego. Tal sentimento me atrapalhou muito. Uma prova de concurso público envolve muitas variáveis – estudo, sorte, tranqüilidade – e não podemos achar que só depende da gente. Não consegui lidar bem com essas cobranças pessoais e, depois da má classificação na Polícia, eu decidi voltar a trabalhar e conciliar o trabalho com os estudos. Estudei para o concurso do Banco Central enquanto trabalhava na iniciativa privada. Foi bem puxado. Eu estava recém-casada, não tinha hora de lazer e estudava todos os dias, sem exceções, das seis da tarde até meia-noite. Os sábados e domingos, eu passava no cursinho e revisava a matéria. Apesar da dificuldade, eu sempre pensava que aquilo seria temporário, que era um investimento para o futuro. Uma vez aprovada no Banco Central, eu tive a oportunidade de trabalhar em horário corrido. Isso facilitou, pois eu tinha mais tempo livre e me permitia ir ao cinema no fim de semana, por exemplo. Por outro lado, o ritmo de estudos se intensificou também, até mesmo porque o concurso que eu almejava era mais difícil. Olhando para trás, eu digo que preferi estudar enquanto trabalhava, mesmo que eu tenha levado mais tempo para chegar onde queria. Senti uma segurança maior, pois me permiti errar. Caso eu não fosse aprovada, minha vida continuaria do jeito que estava.

4) Vicente Paulo: Você me parece uma pessoa extremamente disciplinada, determinada em seus projetos. Exemplo dessa determinação foi o fato de você ter sido reprovada no concurso da Câmara dos Deputados e, poucos dias depois, já estava se preparando para o TCU. O que é preciso fazer para ter tanta disciplina?

Alessandra Requena: Pergunta difícil, Vicente! O que é preciso fazer? Eu penso que a hora de batalhar é agora, para usufruir os benefícios no futuro. E não fico pensando no que eu estou deixando de fazer. Tem que pensar que é um investimento e que, com certeza, haverá um retorno. Além disso, o insucesso sempre faz parte do sucesso. Então, a preparação deve ser encarada como um treino e, a cada dia, estar-se-á melhor. Eu tento também evitar pensamentos negativos recorrentes, como pensar que eu não seria aprovada com uma concorrência tão grande. Eu também imagino e desejo muito o meu objetivo. Vivo intensamente para aquilo que eu quero.

5) Vicente Paulo: Você é casada, tem a família, os amigos. Como você fez para conciliar o convívio familiar e os estudos? Você é do tipo que se isola do mundo para estudar, ou tenta manter as duas coisas, paralelamente?

Alessandra Requena: Eu me isolo completamente. Acho que é até um defeito meu. Mas quando eu quero algo, eu deposito toda minha energia naquilo, sabe? O único espaço que eu deixo é para a família, que eu julgo ser o mais importante que temos na vida. Mas é pequenino esse espaço! Eu saía para almoçar com meus pais e minhas irmãs e fazia programas “light” com meu marido. Nada de barzinho, boate e bebidas. Isso me atrapalhava no dia seguinte. Amigos até cansaram de ligar, porque eu sempre tinha que estudar. Eu não consigo manter as duas coisas paralelamente. O tempo é muito contado.

6) Vicente Paulo: Digo sempre em sala de aula: inteligência não é tudo em concurso; disciplina é o maior diferencial. Você concorda com isso?

Alessandra Requena: Plenamente! Concordo porque as questões em concursos públicos não são para testar se você é um gênio. Passa quem tem mais conhecimento acumulado, ou seja, quem se mantém estudando. E isso é disciplina. Eu fui muito disciplinada. Conheço pessoas muito mais inteligentes que eu que não passaram ainda.

7) Vicente Paulo: Você faz o tipo “calma” ou estressada” nos dias que antecedem as provas? Você usa alguma técnica para manter o equilíbrio nesse período?

Alessandra Requena: Eu faço o tipo “estressada” total! Que o diga o meu marido... Se a prova for de manhã, eu não consigo dormir, porque acho que não conseguirei acordar. Isso é uma loucura! Fico muito nervosa na véspera e isso já me atrapalhou bastante. Eu tenho certeza que passei no TCU tão bem classificada porque eu estava muito tranqüila no dia da prova. Eu fiz um trabalho de concentração uma semana antes. Era fundamental eu me manter tranqüila, senão eu ia colocar a perder anos de estudos, como já tinha acontecido em outros certames. Por isso, ao invés de me fechar com minha ansiedade como das outras vezes, eu fiz diferente: saí falando para todo mundo que estava nervosa. E daí surgiram conversas muito interessantes e tranqüilizadoras, principalmente com meu marido. No dia da prova, meu pai e minha mãe conversaram comigo sobre nervosismo, o que me acalmou também. Na semana anterior à prova, eu procurei relaxar, ouvindo e cantando músicas que eu gosto. Essas atividades me distraem e afastam os pensamentos negativos. Além disso, eu voltei a fazer exercícios físicos um mês antes do concurso para controlar a ansiedade.

8) Vicente Paulo: Essa disciplina da sua área – Tecnologia da Informação – costuma ser muito puxada em concursos, com um programa sem fim. Como você se preparou? Existe alguma dica de material que você pode repassar para os candidatos a uma vaga em algum concurso que cobre TI?

Alessandra Requena: TI é complicado. Não conheço livros específicos de TI para concurso público. E pior: para certos assuntos, é difícil encontrar qualquer bibliografia. Além disso, há conteúdos que são altamente discutíveis e podem ser tratados a partir de diversas abordagens. Ou seja, não se sabe que tipo de visão a banca vai cobrar. Outro problema são os editais. São vagos e, a cada novo concurso, aparece um assunto que nunca se ouviu falar. E, como você bem falou, TI é um assunto sem fim. A saída é pensar que é difícil para todo mundo e não se desesperar. Ninguém domina todos os assuntos de TI; isso seria como dizer que um médico conhece todas as especialidades. A preparação em TI, na minha opinião, é para um concurso específico, pois cada um prioriza áreas distintas. Assim, se o objetivo é o TCU, é necessário estudar muito gestão de TI. Se o objetivo é a Polícia Federal, estudar redes e segurança de redes é fundamental.

Em relação a material, uma fonte para estudos são os livros acadêmicos. No entanto, eles aprofundam demais o assunto, o que  pode não ser relevante para o cobrado em concursos. Mesmo assim, eles podem ser úteis em uma preparação a longo prazo e devem ser escolhidos de acordo com o concurso de TI que se vai prestar. A minha preparação envolveu o estudo de alguns livros clássicos, tais como TCP/IP Illustrated Volume 1, do Richard Stevens, Applied Cryptography, do Bruce Schneier, Redes de Computadores, Organização Estruturada de Computadores, Sistemas Operacionais Modernos, do Andrew S. Tanenbaum e Mastering Network Security, de Chris Brenton e Cameron Hunt. A maioria desses livros foram utilizados para preparação para a Polícia Federal. Outros materiais que utilizei foram os elaborados por professores de cursinho (principalmente a parte de gestão de TI), o RUP, muitas pesquisas na Internet e os documentos oficiais de modelos de gestão de TI.

Uma estratégia que utilizei para facilitar o estudo dos temas de TI foi fazer muitos exercícios de provas anteriores. É interessantíssimo para mapear o que costuma ser pedido, como o é e qual a visão das bancas de certos assuntos. Quando me deparava com questões cujo conteúdo era desconhecido, realizava pesquisas na Internet sobre aquele assunto. E assim acumulava os conhecimentos de TI.

9) Vicente Paulo: Eu costumo dizer que “o candidato leva mais tempo para aprender a estudar do que para ser aprovado em um concurso”. Você demorou muito a aprender a estudar? O que é mais problemático no início da preparação?

Alessandra Requena: Acho que não tive problemas para aprender a estudar. O curso superior que eu fiz me exigiu bastante estudo em curtos períodos de tempo, logo, felizmente, não passei por essa fase durante minha preparação. Talvez, uma dimensão de “aprender a estudar” que eu tenha tido dificuldade foi a priorização do conteúdo. O que estudar primeiro? Em que nível de detalhe? No início, eu queria saber todos os detalhes de tudo. Com a experiência em concurso, a gente aprende a distinguir o que é fundamental saber, o que é importante e o que é diferencial. E aí, de acordo com o tempo disponível, podemos fazer as escolhas corretas do que estudar. Outro ponto problemático no início da preparação é pegar a rotina. Dá muita preguiça. Mas tudo é questão de costume. Depois que entramos na rotina, aí tudo vai bem.

10) Vicente Paulo: Além das horas que você trabalhava no Banco Central, quantas horas você estudava por dia? E nos finais de semana?

Alessandra Requena: Durante a semana, eu estudava, em média, sete horas por dia. Nos fins de semana, umas oito horas. Mas eu pensava nisso 24 horas por dia! Essa quantidade de horas é a que eu ficava sentada na mesa estudando. Além disso, no percurso casa-trabalho, que eu faço de metrô, eu ouvia gravações feitas por mim dos “decorebas” da matéria estudada no dia anterior ou lia algum texto.

11) Vicente Paulo: Ao longo da sua preparação para concursos, quais foram os seus maiores acertos, aqueles pontos decisivos para a aprovação?

Alessandra Requena: Eu acho que o meu maior acerto foi estudar pelos melhores livros. Eu sempre me preocupei com isso. Esse negócio de estudar por apostilas é uma furada. Eu sempre procuro saber qual o melhor livro para estudar determinada matéria. O estudo por tais livros é sempre mais demorado, mas desenvolve o entendimento do tema e ajuda a diminuir a quantidade de “decorebas”. Eles são importantes para adquirir um conhecimento permanente. Outro aspecto que considero um acerto foi sempre fazer resumos das disciplinas. Com eles, podemos revisar a matéria rapidamente. Além disso, sempre procurei estudar mais o que eu não conhecia bem.  Isso amplia o domínio sobre a prova.

12) Vicente Paulo: Agora, vamos inverter a pergunta, falando de erros. Quais os erros cometidos por você durante a sua preparação?

Alessandra Requena: Um dos maiores erros foi a minha cobrança pessoal de que eu tinha que passar de primeira, como se isso dependesse somente de mim. Outro erro foi perder um certo tempo estudando por livros ruins, especialmente as disciplinas de direito. Tive problemas também para aprender o quanto aprofundar na matéria. Eu entrava demais no detalhe, porém sem saber bem o básico. Devido a essa ânsia de saber o detalhe de tudo, muitas vezes me deparei com questões simples, às vezes de pura memorização, que eu não conseguia responder. Aprendi com isso e comecei a dar prioridade ao básico. Depois de saber bem o básico, eu vou para o que é detalhe. Mas, ainda assim, o detalhe não pode ser deixado de lado, pois é diferencial em uma prova de concurso público. 

13) Vicente Paulo: Você sempre estudou sozinha?

Alessandra Requena: Sempre. Não gosto de estudar em grupo. Acho que cada um tem seu ritmo e sabe quais são suas lacunas de conhecimento. Nos estudos em grupo, você não consegue atender esses dois aspectos essenciais. Estudar em grupo, para mim, é somente para tirar dúvidas.

14) Vicente Paulo: Você fazia resumos das disciplinas, ou achava isso perda de tempo? Que dica você daria para os candidatos sobre esse ponto (fazer ou não fazer resumos)?

Alessandra Requena: Sempre fiz resumo. E o engraçado é que, enquanto eu fazia o resumo, pensava que estava perdendo tempo. Mas foi muito importante para a fixação do conteúdo. Eu tenho uma memória muito visual. Escrever com canetas de cores diferentes e fazer esquemas me ajudam muito a visualizar o conteúdo na prova. Os resumos são úteis também para fazer revisão da matéria antes do concurso. Como, a cada dia que passa, os concursos públicos exigem cada vez mais uma preparação a longo prazo, como a que eu tive, não consigo imaginar essa jornada sem o uso desse recurso.

15) Vicente Paulo: Durante a sua preparação, você fez muitos exercícios, resolveu muitas provas de concursos anteriores? Que dica você daria para os candidatos sobre esse ponto (fazer ou não fazer exercícios)?

Alessandra Requena: Fiz muitos exercícios. Acho essencial para que a pessoa saiba onde está pisando. Os concursos repetem o conteúdo, mas cobrando-o de um jeito diferente.

16) Vicente Paulo: Eu sei que você fez alguns cursinhos preparatórios, inclusive comigo. Como aproveitar melhor as aulas dos cursinhos? Que tipo de cursinho você aconselharia no início e no término de uma preparação?

Alessandra Requena: Nunca fiz esses cursinhos presenciais fechados, com todas as disciplinas do concurso. Não acredito nisso. Acho que não tem qualidade e o candidato não tem tempo de acompanhar bem todas as matérias. Sempre fiz curso por matéria. No início da preparação, acho interessante pegar aquela matéria de peso na prova que a pessoa conhece menos. E no fim da preparação, se estiver perto da prova e houver tempo disponível, cursar aquela matéria de menor representatividade que não se estudou ainda. Acho legal também, ao final da preparação, fazer curso de exercícios, caso não tenha dado tempo de tê-los feito em casa.

17) Vicente Paulo: Você usou muito a internet como meio de preparação? Você tem alguma dica a dar sobre o uso da web na preparação para concursos?

Alessandra Requena: Claro! Eu não vivo sem Internet. O único cuidado que eu tinha, que é fundamental, era verificar a fonte, pois tem muita porcaria pela Internet.

18) Vicente Paulo: Se, em vez de assumir o cargo de ACE no TCU, você recebesse hoje a incumbência de orientar os estudos de um candidato que está iniciando os seus estudos, quais seriam as suas orientações? (Fique à vontade para escrever, pode escrever quantas linhas/páginas quiser, acho essa pergunta uma das mais importantes desta entrevista).

Alessandra Requena: Primeiramente, eu diria para começar a estudar as matérias básicas de quase todo concurso, como Direito Constitucional e Direito Administrativo. Mas o faça por bons livros. Crie um cronograma que mescle os estudos para essas disciplinas juntamente com o conteúdo específico, para que a rotina de estudos não fique tão monótona. Dessa forma, não dá tempo de se cansar de estudar determinada matéria. Eu acho que essa mistura dá certo principalmente quando as matérias são bem diferentes, que exijam um raciocínio distinto. Isso favorece mais horas de estudo. Iniciar a preparação com foco nas disciplinas básicas, na minha opinião, é uma boa estratégia para a preparação para concursos de TI. Nós falamos anteriormente das dificuldades que é a preparação específica para TI. Por esse motivo, os conhecimentos básicos são diferenciais em uma prova desse tipo de concurso. Eu acho que é mais garantido tirar uma nota boa nos conhecimentos básicos do que em TI. E se o concursando for mediano nos conhecimentos específicos e for muito bem nos conhecimentos básicos, ele estará dentro. As matérias básicas são mais fáceis de estudar porque dispõem de muito material específico de excelente qualidade, além de ótimos cursinhos preparatórios.

Outro aspecto que julgo importante é um planejamento de estudos a longo prazo. Sei que esse planejamento normalmente não será seguido à risca, mas ele ajuda na priorização das disciplinas. Pode-se chegar à conclusão, já no início da preparação, que não vale à pena estudar determinada matéria que tenha um peso pequeno na prova, por restrição de tempo, por exemplo. E, uma vez feita a priorização inicial, trabalhe com cronogramas de curto prazo, por semana.

Sempre comece a estudar o que se sabe menos. Faça cursinhos de matérias totalmente desconhecidas para você. Esses serão os cursinhos mais bem aproveitados; o investimento vai realmente valer à pena. E escolha bons professores, aqueles que serão um diferencial na sua preparação. Geralmente, o professor bom nunca é esquecido, porque você chega na prova e lembra dele explicando aquela matéria.

Use bons livros. E, de preferência, livros específicos para concurso público. Os livros específicos para concurso público são focados, objetivos, economizam o nosso precioso tempo.

Esta próxima orientação eu aprendi com você, Vicente: se a pessoa está determinada a passar em concurso, então se livre de tudo o que não vá favorecer a aprovação. Se faz um curso de língua, mas isso não ajuda na preparação, adie esse curso por um tempo. Use esse tempo para a preparação. Vai fazer diferença.

Por último, é fundamental trabalhar o lado emocional. Pense que a dificuldade que se está enfrentando é temporária e que vai acabar! Encare essa fase como um investimento pessoal; leve a sério. Eu sempre digo que o mais importante na preparação é disciplina e persistência. O sucesso se conquista passo após passo, após vários insucessos. Às vezes, olhamos para o nosso objetivo e achamos que está longe. Mas pode ter certeza que dá para chegar lá.

19) Vicente Paulo: E se essas orientações fossem para um candidato que já está estudando há muito tempo, que acreditava que seria aprovado em 2007, mas não foi? Quais seriam as suas orientações para esse “recomeçar” em 2008?

Alessandra Requena: Eu já passei por isso. :) Mas, definitivamente, essa situação não é um problema. Esse candidato está em vantagem, à frente de muita gente. E assim ele tem que pensar. Você mesmo me disse isso e eu nunca me esqueço. Certa vez, quando eu estava reclamando de que estava cansada de estudar para concurso, que não agüentava mais, você disse: “Alessandra, eu fico impressionado como uma pessoa bem preparada e inteligente pode reclamar assim. Tem tanta gente que não tem metade da sua preparação e está aí, firme e forte.”. Bom, eu não vou te dizer que nunca mais me queixei, pois seria mentira. Mas, nos desânimos, sempre me lembrava disso.

Então, uma orientação para o que está “recomeçando” é sempre lembrar que não se estudou em vão, ele já está à frente de muita gente, muita gente mesmo. Agora é a hora de aparar as arestas. Acho que é importante fazer uma avaliação das disciplinas em que se está mais fraco. É importante aperfeiçoar os conhecimentos nessas disciplinas, talvez até com um cursinho específico, em nível avançado. É importante também revisar todo o conteúdo das matérias que se domina, para não deixar cair no esquecimento e, se for o caso, gabaritar a prova! E, por fim, fazer exercícios. Muitos exercícios. Acho interessante, ao fazer os exercícios, revisar concomitantemente a matéria que o exercício pede.

20) Vicente Paulo: Sei que este pedido exigirá muito de você, mas não posso deixar de fazê-lo, conto com a sua compreensão e desprendimento. Você poderia fazer um resumo da sua história de preparação, isto é, de como você se preparou para os dois últimos concursos – Câmara dos Deputados e TCU (quantas horas de estudo diariamente; quando descansava; qual a metodologia empregada; como programava os estudos; como dividia o tempo entre teoria e exercícios; quando fazia cursinho e quando só estudava em casa etc.)?

Alessandra Requena: Isso vai ser um “revival”. ;)

Bom, meu objetivo sempre foi o concurso do TCU, da Câmara ou de Perito da Polícia Federal. Porém, eu tive que focar na Câmara e no TCU, pois o edital da Polícia Federal demoraria a sair. Mas sempre tive preferência pelo TCU.

Depois que comecei a trabalhar no Banco Central – em julho de 2006 –, eu já tinha em mente que era fundamental continuar estudando, mesmo sem previsão de editais desses dois concursos. Por causa da “bateção na trave”, eu sabia o quanto era importante pensar em uma preparação a longo prazo. E assim eu comecei, em agosto de 2006.

Eu fiz uma avaliação das disciplinas básicas que eu tinha dificuldade e concluí que poderia melhorar muito em Direito Constitucional e Português. Essa avaliação contemplou somente as disciplinas básicas por causa das dificuldades relacionadas ao estudo de TI, como já conversamos. Eu achei que seria um diferencial dominar as disciplinas básicas e, ao sair o edital, me concentrar no que o edital pedisse de conteúdo específico.

Então me matriculei no seu curso avançado de Direito Constitucional, que acontecia uma vez por semana.  Durante esses cinco meses de cursinho, de agosto a dezembro, dediquei-me a estudar muito bem Direito Constitucional. Nessa fase, a minha rotina não era pesada.  Eu ia à aula uma vez por semana e nos outros dias, estudava a matéria dada, fazia resumo e exercícios. Era um total de umas quatro horas por dia. Esse eu considero o melhor dos mundos. Eu estudava na semana a matéria dada em aula, fazia um bom resumo daquilo e fixava com exercícios. Levava as dúvidas para a próxima aula. Não precisava de grandes planejamentos. Eu tinha o fim de semana para descansar.

Vencida essa etapa e com toda a matéria de Direito Constitucional na ponta da língua, eu comecei um cursinho de Português. Isso foi em janeiro de 2007. Estudava Português todos os dias também, fiz muitos exercícios. Estudava um total de três horas diárias. Mas ainda tinha o fim de semana para lazer.

Em fevereiro, ainda no curso de Português, comecei um curso de gestão de TI para o TCU, que acontecia às sextas à noite e aos sábados à tarde. Foi aí que minha rotina começou a ficar bem puxada. Logo depois, o edital da Câmara foi publicado e eu tive que começar a fazer um planejamento. Eu precisava estudar Regimento Interno da Câmara, Direito Administrativo e as matérias específicas de TI. Eu visava ao TCU, mas se eu passasse na Câmara  ficaria muito feliz. O edital do TCU ainda não tinha sido publicado e não havia previsão. Mesmo assim, eu tinha que escolher qual dos dois concursos seria o meu foco principal. Optei pelo TCU. Então, a minha estratégia era estudar para a Câmara, mas não queria perder muito tempo com as matérias que só caíam na Câmara. Por isso, tentei estudar mais o que era comum entre os dois concursos e dedicar menos tempo às matérias contempladas somente no concurso da Câmara. Então, fora os cursinhos de Português e TI, eu estudava das dezesseis horas à meia-noite, em uma média de sete a oito horas por dia.

Sempre estudava em casa e sozinha. Gosto do conforto de casa, de poder comer bem e, se tiver muito cansada, poder relaxar um pouco. A alimentação é algo muito importante. Sempre tentei não descontar a ansiedade na comida e procurei comer muita fruta e ter uma alimentação saudável. Dessa forma, a gente se sente mais bem disposto para enfrentar essa rotina pesada. Infelizmente, eu parei com os exercícios físicos. Eles me tomavam muito tempo. Só retomei um mês antes do concurso do TCU, pois achei que ia ser importante para o controle emocional na prova, como de fato foi. Eu não passava muito tempo na academia. Eu corria trinta minutos na esteira e voltava para casa renovada.

Então, voltando à rotina, em fevereiro de 2007, o cenário era o edital da Câmara publicado e eu fazendo cursinho de Português e de Gestão de TI para TCU. Estudava em média sete a oito horas diárias, inclusive nos fins de semana. Nesse ano, parei todas as atividades extras que eu tinha – curso de francês, academia e natação. E coloquei todas as minhas energias em não bater na trave dessa vez... Nessa fase, o meu descanso se resumia aos sábados à noite, que eu saía com o meu marido (mas sem excessos, pois no domingo eu estava de pé cedo) e o almoço com a família aos domingos, mas que não podia demorar muito. Só. Era muito cansativo, mas quando dava aquele desânimo, eu lia umas frases de otimismo, tomava um café e vamos embora!

A rotina: Eu acordava 6:30 da manhã e chegava no trabalho às 7:30. No percurso casa-trabalho, de metrô, eu escutava as gravações da matéria que estudei no dia anterior. Eu mesma gravava no MP3: pegava os “decorebas” e lia em voz alta. No outro dia, ouvia tudo novamente para conseguir memorizar. Às 15 horas, voltava para casa novamente ouvindo as gravações. Nos dias em que não tinha cursinho, eu me sentava às 16 horas para estudar, parava para lanchar por volta das 19 horas e retomava às 20 horas até a meia-noite. Nos dias em que havia cursinho, eu estudava até umas 18 horas e ia para o cursinho. Aos sábados e domingos, eu acordava às 8 horas e começava a estudar.

O estudo: Eu estudava toda a teoria de uma disciplina antes de passar para os exercícios. Fazer exercícios sem saber bem o conteúdo é pouco produtivo e altamente desmotivador. Por isso, só fazia exercícios depois de estudar. Se não desse tempo de estudar, não fazia exercícios. Não fiz resumo de todas as matérias. Eu fiz resumo daquelas matérias que eu sabia que tinha que revisar depois. Mas, toda matéria que eu estudava, eu fazia um “resumo decoreba”, pois tudo que estudamos tem uma parte de memorização. Eu sou péssima nisso. Por isso, o que era de memorizar, eu colocava no papel, fazia a gravação e pregava na parede lá de casa. Uma hora tinha que entrar na minha cabeça.

O planejamento: Eu sempre fiz planejamento dos estudos. Confesso que nunca consegui cumprir! Mas acho que foi importante conseguir priorizar o que era mais importante. Às vezes percebe-se que não vai conseguir estudar tudo de Direito Administrativo, por exemplo. Então, a saída é estudar só os capítulos mais relevantes e replanejar a próxima semana.

Bom, fora tudo isso que eu falei, algo que foi importante na minha preparação, inclusive por causa da particularidade de eu estudar para dois concursos concomitantemente, foi fazer cursos on-line. Eu fiz vários cursos on-line no Ponto dos concursos. E isso foi muito importante para um bom planejamento. Eu podia estudar as aulas no melhor momento, inclusive acumulando várias aulas para serem estudadas juntas. É para onde caminha o mundo, você já percebeu? As coisas estão evoluindo para serem assíncronas. Isso aconteceu com a comunicação, com  o advento do e-mail, virá com a televisão digital, e agora é uma tendência no ensino. Dessa forma, eu consegui estudar algumas matérias que deviam ser estudadas mas que não eram prioridade, sem muito impacto na minha rotina. Um exemplo foi Regimento Interno da Câmara. Eu deixava acumular várias aulas, umas quatro, e estudava todas de uma só vez, quando sobrava um tempo no cronograma.

21) Vicente Paulo: O que você acha do Ponto? Que tal, agora, depois desses seus estudos para vários concursos, você passar a integrar a equipe de colaboradores do Ponto, a fim de repassar a sua experiência para candidatos de todo o País? O convite está feito.

Alessandra Requena: O ponto dos concursos fez parte da minha história de preparação para concursos. Tudo começou com os estudos pelos livros de Direito, de sua autoria e do Marcelo Alexandrino. Depois, fiz o seu curso de Direito Constitucional avançado e passei a conhecer o Ponto. Fiz vários cursos on-line durante minha preparação, como Controle Externo, Parecer, Regimento Interno da Câmara, exercícios de Direito Constitucional e Administrativo. Como eu já falei, o curso on-line é muito bom, pois permite estudar a qualquer horário. Para mim, um bom planejamento de estudos para concurso público deve priorizar esse tipo de liberdade, pois há muitos ganhos. E eu fico muito lisonjeada com o convite. Integrar essa equipe de “feras” seria uma honra e poder ajudar pessoas a conquistarem o que conquistei seria tornar a minha conquista ainda mais perfeita.