Entrevistas

Demetrio de Macedo Pepice


Demetrio de Macedo Pepice, 1º Colocado Nacional no AFRF/2005

Foram 269 pontos em 300! Isso mesmo, acredite! O Demetrio, 1º colocado nacional no AFRF/2005, conseguiu essa marca histórica: 269 pontos em um total de 300! Um show de bola!

Essa marca é um escândalo, o Demetrio arrebentou! Você, leitor, pode achar que eu estou exagerando, mas não estou, sei muito bem o que estou falando. Digo isso porque as provas de algumas disciplinas do AFRF/2005 foram atípicas e difíceis, especialmente as de Contabilidade, Estatística, Matemática Financeira e Direito Tributário. Lembro-me bem que no meu concurso, de 1996, o Marcelo Alexandrino fez 264 pontos e, à época, já foi uma marca invejável, muito à frente da maioria dos demais aprovados (de mim, por exemplo, nem me lembro mais exatamente quantos pontos fiz, acho que algo em torno de 240). Só que há um importante detalhe: as provas do AFRF/2005 foram infinitamente mais difíceis do que as provas do AFTN/1996! Não dá nem para comparar! É esse o fato que torna essa marca alcançada pelo Demetrio histórica...

O meu intuito nesta entrevista é repassar a vocês, visitantes do Ponto, parte da experiência de preparação do Demetrio, que certamente será um incentivo para aqueles que continuarão na árdua luta, rumo à aprovação em um bom concurso.

O Demetrio reside em São Paulo (SP), é engenheiro mecânico e tem apenas 26 anos. Começou a estudar no ano de 2003, preparando-se para o concurso de Técnico da Receita Federal - TRF. No meio da preparação, saiu o concurso da Comissão de Valores Mobiliários - CVM. Decidiu estudar as disciplinas específicas do concurso da CVM, e acabou sendo aprovado nos dois concursos. Decidiu, então, abrir mão do concurso de TRF, e sequer fez a matrícula no curso de formação deste concurso, para não tirar uma vaga de outro candidato.

Pois é, tudo certo, não? Não, de jeito nenhum! Em razão de uma ação ajuizada pelo Ministério Público, o desfecho do concurso da CVM foi suspenso por um ano, e o Demetrio ficou, durante todo esse período, sem a CVM e sem TRF! E mais: no final de 2004, decidiu-se pela anulação da prova de redação do concurso da CVM, e o Demetrio teve que fazer nova prova. Moral da história: só foi nomeado para o cargo na CVM no início de 2005!

Pois é, foi durante o ano de 2004 (sem CVM e sem TRF!) que o Demetrio deu uma guinada na sua preparação, em vez de desanimar e ficar em casa chorando o azar. Adquiriu bons livros, fez cursinhos com bons professores (ele fez questão de citar durante a nossa conversa os cursos que fez na Uni-Equipe em São Paulo, destacando os professores: Alexandre Lugon, Cláudio José, Marcelo Alexandrino, Antônio César, Fábio Zambitte, Rodrigo Luz e Vicente Paulo) e, após entrar em exercício na CVM, voltou a estudar especificamente para o AFRF a partir de março de 2005, não parando mais até a data das provas. O resultado vocês já sabem, são os tais 269 pontos!

Pronto, com uma aprovação dessas, agora é só sombra e água fresca, certo? Errado, muito errado. Falei com o Demetrio nesta semana, fiz um convite a ele para conhecer a Capital Federal, para conhecer o Ponto, para almoçarmos no Restaurante do Congresso Nacional (e não mais no corre-corre dos almoços nos intervalos das aulas na Uni-Equipe!), mas ele não topou. Não topou por que? Porque já estudando, diuturnamente, para o concurso de Fiscal de São Paulo, que tem provas previstas para abril de 2006, e dois dias de viagens seria muito tempo de estudo perdido! Pois é, esse é o Demetrio!

Bem, atrapalhando um pouco os estudos do Demetrio para o Fiscal de São Paulo, fiz a ele as seguintes perguntas:

Vicente Paulo: Sabe, Demetrio, você um dia, muito antes da divulgação do resultado do AFRF, já foi motivo de conversa na minha casa. Estava em casa tentando animar uma candidata ao AFRF, dizendo a ela que ainda havia chance de ser aprovada (e, de fato, ela acabou sendo aprovada!), e ela estressou-se comigo: “puxa, pára de me enganar, você sabe que eu não tenho chances, olha só, vi num ranking da internet que tem um tal de ‘Deme’ que fez, antes dos recursos, quase 260 pontos; como eu vou passar, com menos de 200 pontos?” Disse a ela, então: “se isso for verdade, ele será o primeiro colocado nacional no concurso, pode ter certeza”. E você, já pensava nesse primeiro lugar nacional antes da divulgação do resultado?

Demetrio: Acho que não. Com certeza eu não esperava esse resultado quando terminei de fazer a última prova. Eu lembro que quando saí do local de prova, enquanto voltava para casa, a única coisa que passava pela minha cabeça era que eu tinha chutado 9 questões de matemática financeira e estatística, todas na mesma alternativa. Não me conformava, achei que tinha sido eliminado justo na matéria em que eu achava que iria melhor. Não estava me sentindo nem um pouco seguro. Pensava assim: “essa prova foi muito maluca, o pessoal da ESAF ficou louco”. Com certeza muita gente também se sentiu assim porque nesse concurso o formato das questões foi muito diferente daquele que a ESAF adotou nas provas anteriores. 

No dia seguinte quando conferi o gabarito vi que tinha conseguido acertar exatamente 6 questões de matemática e estatística, ou seja, tinha feito exatamente a nota mínima para não ser eliminado nesta matéria. Isso foi um alívio enorme. Mas eu tive a maior surpresa quando conferi o gabarito das outras matérias: não esperava ir tão bem assim. Fiquei tão contente que comecei a falar para todos os colegas do trabalho, para os amigos, foi a maior festa.

Vicente Paulo: Você me parece uma pessoa extremamente determinada. Intensificou os estudos quando tudo deu errado no concurso da CVM, em 2004. Agora, mal passou para o AFRF, e já está pensando no Fiscal de São Paulo. De onde você tira tanta disciplina?

Demetrio: Na verdade acho que não sou tão disciplinado assim, uma coisa que me ajudou muito foi ter ficado bastante motivado. Uma coisa fundamental nos concursos públicos é a motivação: quando uma pessoa está muito motivada a passar, quando ela sente que a aprovação vai melhorar muito sua vida e a de sua família, ela consegue fazer sacrifícios enormes para atingir esse objetivo. Acho que foi o que aconteceu comigo. 

Eu comecei a estudar para concursos em 2003. Durante esses 3 anos de estudo, em diversas ocasiões eu me senti desanimado, pensei em parar e fazer outras coisas. Mas essas fases não duravam muito tempo, logo eu recomeçava a estudar. Acho que isso é muito importante no ramo dos concursos: a pessoa não pode desistir, tem que aprender a ser sempre capaz de recomeçar. Por exemplo, eu tinha alguns amigos que estudavam para o cargo de AFPS. Quando saiu a unificação da Receita com a Previdência, essas pessoas ficaram numa situação horrível pois haviam gasto anos se preparando para uma prova que não iria mais acontecer. Muitos foram perseverantes, não se deixaram abater pelo desânimo. Faltando poucos meses para a prova de AFRF elas tiveram que estudar do zero várias matérias novas (como a famigerada matemática financeira e estatística), além de se adaptar ao estilo de questões da ESAF. No fim muitas dessas pessoas conseguiram ser aprovadas no AFRF.

Esse último concurso de AFRF foi muito atrapalhado, sem dúvida. Faltando menos de 60 dias para a prova o formato do edital mudou completamente, entraram 6 matérias inéditas. As questões da prova foram atípicas e cheias de erros. Por isso muitas pessoas que vinham se preparando para esse concurso há bastante tempo foram muito prejudicadas pelas trapalhadas da ESAF e não conseguiram passar. Para essas pessoas o que eu digo é que não parem de estudar, recomecem o mais rápido possível pois esse ano de 2006 está sendo um ano com muitos concursos bons, alguns até melhores que AFRF (estão previstos 4 concursos de fiscais do ICMS, ISS de São Paulo, Fiscal do Trabalho, etc...).

Em 2003 eu consegui passar no concurso da CVM, cargo que ocupo hoje. Só que não pude tomar posse porque a prova de redação foi questionada na justiça. E o pior, depois de quase 1 ano de espera o judiciário resolveu anular a prova de redação e chamar todos candidatos para fazê-la novamente. Isso me deixou muito chateado. Mas o importante é que durante todo esse tempo de espera eu consegui me manter estudando, se não fosse por isso hoje eu não teria sido aprovado no concurso de AFRF. 

Vicente Paulo: Digo sempre em sala de aula: inteligência não é o maior diferencial em concurso, disciplina é tudo. Você concorda com isso?

Demetrio: Concordo. Durante esse tempo em que me preparei para concursos percebi que o estudo para uma prova desse porte não é semelhante a uma corrida de velocidade, mas sim a uma corrida de resistência. Não adianta nada a pessoa passar dois meses estudando 14 horas por dia, o conhecimento precisa ser adquirido aos poucos em um período longo de tempo para ser bem digerido e assimilado. Quando você pega uma prova da ESAF e percebe que o candidato deve memorizar o texto literal da constituição, do CTN e de uma infinidade de outras leis, dá para perceber que é quase impossível adquirir todo esse conhecimento em apenas alguns meses. É por isso que a maior arma do concurseiro é a disciplina, a capacidade de investir todos os dias um pouco no seu objetivo, de fazer uma preparação de longo prazo.

Além disso acho que o candidato que conta muito com a sua inteligência é justamente aquele que subestima a complexidade das matérias e a importância de estar sempre revisando os principais pontos das disciplinas. Ele é uma vítima do excesso de autoconfiança. É muito importante que a pessoa seja muito humilde no estudo. No meu caso, por exemplo, sou formado em engenharia e por isso estudei na faculdade matérias de cálculo super complicadas, mas na prova de AFRF quase fui eliminado em matemática financeira porque não fui rápido para fazer contas de divisão sem calculadora. Tem muita gente que fez Direito, Economia ou Contabilidade e que acha que só por isso já estão “garantidas” nas matérias que estudaram na faculdade. Mas na realidade o estudo para concursos é totalmente diferente do estudo acadêmico, por isso ainda que o candidato tenha base ele deve sempre começar o estudo de uma matéria de concurso usando um material bem didático, com muita humildade. E depois de atingir um bom nível de conhecimento ele não deve confiar totalmente na sua memória, é importante manter uma rotina de revisões periódicas. Deve-se procurar ficar sempre tendo algum contato com aquela matéria, fazendo e refazendo exercícios, nem que seja só uma vez por semana.

Vicente Paulo: A preparação para o AFRF foi um tanto quanto tensa, com muitas incertezas e mudanças para os candidatos (unificação do concurso, novas disciplinas, “Super Receita” etc.). Como manter o equilíbrio nesse período que antecede as provas?

Demetrio: Acho que é essencial a pessoa tentar sempre olhar para a sua situação da maneira mais otimista possível. Sempre olhar para as vantagens da posição na qual ela sem encontra. Por exemplo, eu vinha me preparando para o concurso de AFRF na àrea de Auditoria, por isso nunca tinha tido contato com Comércio Internacional. Quando saiu o edital, ao invés de ficar o tempo todo pensando que eu estava em uma posição de desvantagem em relação aos candidatos que já tinham uma bagagem nessa àrea, escolhi ver as coisas da seguinte forma: os meus concorrentes que estudavam para a área de Aduana já estavam há pelo menos um ano sem ter nenhum contato com Comércio Internacional, por isso já tinham esquecido muita coisa. Eu iria estudar aquela matéria a partir daquele momento e chegar no dia da prova com o conhecimento fresco na cabeça. Por isso as nossas chances de ter um bom desempenho na prova se igualavam. Procurei pensar assim em relação a todas as matérias novas. Se não tivesse feito isso acho que teria tido uma crise de nervos...

Outra coisa importante foi ter sempre ter em mente que nos concursos nenhum estudo é perdido: mesmo que, em um primeiro momento, o estudo de uma matéria incerta pareça ser algo muito arriscado, sempre nós aproveitamos o conhecimento de alguma forma. No ano de 2005, antes da publicação do edital, eu cheguei a estudar informática, contabilidade avançada e um pouco de direito previdenciário, mesmo quando havia a possibilidade de essas matérias não serem cobradas na prova. Isso me ajudou bastante depois da publicação do edital, me poupou tempo. Por outro lado acabei estudando duas matérias que não foram cobradas, como Auditoria, Ética e Organização do ministério da fazenda. 


Nesses períodos de incerteza acho que o importante tentar manter o equilíbrio emocional, sempre procurar fazer o melhor que possa ser feito com as informações que temos à disposição naquele momento. Parece loucura estudar uma matéria que você nem tem certeza de que será cobrada na prova, mas às vezes é o único modo de ficar em situação de igualdade com seus concorrentes. Uma vez li em um texto do Rodrigo Luz que “estudar para um concurso é como aplicar em ações, deve-se comprar na baixa para vender na alta”, ou seja, procurar sempre que possível estudar a matéria com antecedência, quando não há edital, para depois ficar em uma situação confortável quando o edital for publicado. Muitas pessoas são contra isso, pois o candidato estaria sacrificando um tempo que poderia ser usado para as matérias certas. Mas o problema é que depois de estudar durante muito tempo uma matéria, a pessoa chega em um nível muito alto de conhecimento em que ela já leu todos os livros, fez e refez todas as provas antigas... E aí há o perigo de ela se acomodar, já que não há mais nenhum desafio pela frente... nesse momento eu acho que é válido combinar a revisão das matérias tradicionais com o estudo de matérias novas, tanto matérias certas de outros concursos como matérias incertas do cargo para o qual ela se prepara.

Vicente Paulo: Quais foram os seus maiores acertos, aqueles pontos decisivos, na preparação para o AFRF/2005?

Demetrio: Acho que muitas coisas contribuíram para o meu sucesso nesse concurso. Em primeiro lugar, eu tive a sorte de conhecer diversas pessoas pela internet que, assim como eu, estudavam para esse concurso da Receita Federal. Elas me ajudaram muito a descobrir o material certo para estudar, os melhores professores e principalmente, me deram a motivação necessária para perseguir esse objetivo durante um período de tempo tão longo. Fiz grandes amigos através da Internet, primeiro no Fórum do CorreioWeb, depois no Fórum dos Concurseiros (http://concurseiros.13.forumer.com). Eu passei a conviver com outras pessoas que tinham os mesmos objetivos que eu, as mesmas dúvidas, os mesmos problemas. Acho que isso me deu um estímulo muito grande para que eu sempre tentasse superar minhas dificuldades.

Em segundo lugar, também tive a sorte de logo descobrir os livros direcionados para concursos: os livros da Editora Impetus/Campus e da Editora Ferreira. Sem esse material eu teria demorado muito mais tempo para adquirir o conhecimento necessário para fazer uma boa prova. E, por último, foi muito importante eu ter lido uma entrevista do professor Gustavo Barchet em que ele explicava como tinha sido aprovado em diversos concursos estudando através das questões de provas antigas. No ano de 2005 eu procurei incorporar essa metodologia à minha preparação, e com certeza esse foi um fator essencial para o meu bom desempenho na prova de AFRF.

Vicente Paulo: Agora, vamos inverter a pergunta: o que você fez, mas não faria novamente em uma nova preparação para concursos?

Demetrio: Acho que eu não teria feito um curso básico, estilo “pacotão”, com aulas de todas as matérias. Também não teria começado o meu estudo pelas apostilas, mesmo que de boa qualidade. Logo quando comecei a estudar, procurei conversar com pessoas que já tinham passado por essa experiência de concursos. Minha mãe foi aprovada no AFTN de março de 94, então é claro que fui bastante influenciado pela experiência dela. Mas acho que hoje o mundo dos concursos é muito diferente do que era naquela época, pois com a internet e com as editoras especializadas os candidatos têm acesso a um material com qualidade muito superior ao que existia 11 anos atrás. Hoje o nível dos candidatos é altíssimo, é comum ver pessoas gabaritando provas de português, direito tributário e contabilidade. Eu demorei algum tempo para perceber essa realidade, hoje sei que durante o meu primeiro ano de preparação (2003) meu estudo foi muito superficial. Uma pessoa que comece a estudar hoje para um concurso do porte de um AFRF deve ter em mente que será necessário estudar no mínimo de 100 a 200 horas cada matéria básica, pois com certeza é o que seus concorrentes farão. 

Vicente Paulo: Você sempre estudou sozinho, ou gostava de estudar com outros colegas?

Demetrio: Eu sempre gostei de estudar sozinho, isso porque eu preciso me concentrar muito quando estou lendo uma matéria pela primeira vez, acho difícil fazer isso junto com outra pessoa. Mas, depois de estudar um assunto, gosto de sentar com outras pessoas para discutir as dúvidas e resolver exercícios difíceis. Eu fiz muito disso através da internet, com meus amigos virtuais do fórum. Eu achava que esse tipo de estudo era muito importante para me manter sempre motivado, principalmente quando não havia notícias do edital de AFRF. Há muitas pessoas que acham que o estudo em grupo é pouco produtivo, mas acho que ele pode ser bastante útil desde que seja complementado com muito estudo individual. 

Vicente Paulo: Você faria resumos das disciplinas, ou acha isso perda de tempo? Que dica você daria para os candidatos sobre esse ponto (fazer ou não fazer resumos)?

Demetrio: Quando eu comecei a estudar fazia resumos de todas as matérias. Eu fixava melhor o conhecimento desta maneira. Fazia resumos à mão mesmo, sem computador. Isso porque eu sentia que os conceitos ficavam mais marcados na minha memória quando eu mesmo escrevia os resumos. Eu usava lápis para poder alterá-los depois se fosse necessário. Mas com o tempo fui percebendo que esse era um processo muito demorado, fiz tantos resumos que eu não conseguia mais ler todos eles quando precisava revisar. Quando comecei a trabalhar na CVM ficou impossível continuar assim. Então eu mudei o meu método de estudo. Ao invés de fazer resumos, passei a grifar as partes mais importantes dos livros e a reler esses grifos quando precisava fazer uma revisão. Se por um lado eu não fixava tão bem as informações, acho que meu estudo avançava mais depressa dessa forma.

Acho o seguinte: se a pessoa está estudando uma matéria pela primeira vez, com bastante tempo disponível, fazer um resumo é uma coisa bem legal, com certeza assim ela fixará melhor o conhecimento. Mas se o tempo estiver curto, acho desnecessário fazer resumos. Em algumas matérias de direito, pode-se usar a própria lei como um resumo: por exemplo, em direito tributário, eu fiz um resumo de 50 páginas do livro do João Marcelo Rocha, só que o próprio CTN tinha 50 páginas, então na hora de revisar eu nem lia o meu resumo, lia o próprio CTN. Quando eu lia algum artigo do CTN com redação confusa, lembrava da explicação que já tinha visto no livro. Em contabilidade meu resumo eram algumas provas antigas da ESAF, sempre que eu tinha que revisar eu refazia essas provas mais uma vez, isso era mais eficiente do que ler novamente a teoria. 

Vicente Paulo: Você fez muitos exercícios de concursos anteriores, ou dedica-se somente ao estudo da teoria?

Demetrio: Depende da fase do estudo. Quando eu estava estudando as matérias básicas pela primeira vez eu passava 70% do meu tempo estudando a teoria e 30% fazendo exercícios. Mas conforme eu fui avançando no estudo dessas matérias, fui deixando cada vez mais a teoria de lado e passei a dedicar 100% do tempo aos exercícios. Eu procurava estudar através das questões de prova, seguindo o método do professor Gustavo Barchet (vi esse método na entrevista dele no vemconcursos e na aula zero de administrativo que estava disponível no site do ponto): lia a questão e procurava comentá-la mentalmente, fundamentando todas as respostas no material que eu tinha estudado. Se a questão copiava algum artigo de lei, eu pegava essa lei e dava uma lida rápida no artigo para refrescar a memória. Esse era o tipo de estudo que eu considerava mais importante para a prova: eu já não tinha mais como objetivo aprender novos conceitos, o que eu queria era automatizar o conhecimento que tinha adquirido, dar agilidade ao raciocínio. 

Isso é o que considero mais importante na hora da prova: ter muita velocidade, agilidade para resolver os testes e ter feito infinitas vezes exercícios parecidos com as questões que forem cobradas. Só para mostrar como esse tipo de estudo foi importante: quando fiz a prova de direito administrativo de AFRF, lembro que eu tive a sensação de que já sabia a resposta de várias questões sem nem precisar ler as perguntas até o final. Depois, quando cheguei em casa, comparei essa prova de AFRF com as provas antigas da ESAF que eu tinha feito e vi que, daquelas 20 questões, 16 delas tinham sido copiadas de provas antigas, de forma literal. E eu acertei todas, pois como já tinha feito essas provas várias vezes eu sabia exatamente quais eram as respostas.

Vicente Paulo: Você fez cursinhos com vários professores, até me citou aqueles que, segundo você, fizeram a diferença na hora da prova. Como aproveitar melhor as aulas dos cursinhos? Eu sempre estudava previamente a disciplina, antes de freqüentar o cursinho. Você acha que esse é um bom caminho para aproveitar melhor as aulas?

Demetrio: Eu acho que a melhor maneira de aproveitar as aulas é tentar, na medida do possível, estudar o básico daquela matéria antes de freqüentar o cursinho. Isso porque quando assistimos uma aula mais aprofundada, em que o professor entra bastante nos detalhes, é quase impossível absorver tudo se não temos uma base anterior naquela matéria. Além disso, se o aluno já tem alguma noção da matéria ele consegue perceber com mais facilidade se aquela aula realmente vale a pena ou se o professor só está “enrolando”. Em 2004 eu tive muita sorte pois logo após ter terminado a leitura dos livros básicos eu tive a chance de fazer vários cursos excelentes aqui em São Paulo, justo dessas matérias que tinha acabado de estudar sozinho. Então o aproveitamento das aulas foi total. 

Mas se não for possível estudar a matéria com antecedência, uma coisa bastante interessante a se fazer é gravar a aula para ouvir depois. Eu fiz isso com a aula de previdenciário do professor Fábio Zambitte: em 2004 fiz o curso teórico com ele porque também pensava em prestar o AFPS. Como esse concurso não era meu objetivo principal, acabei deixando essa matéria de lado, e por isso meu aproveitamento nesse curso foi muito baixo. Mas em 2005, quando tive que estudar direito previdenciário para o AFRF, logo após de estudar essa matéria pelos livros eu ouvi novamente a gravação do curso que havia feito, aí sim tive uma boa assimilação.

Outra coisa importante é o candidato sempre ter em mente que para cada hora de aula que ele assiste será necessário que ele estude sozinho mais 3 ou 4 horas para assimilar aquelas informações. Por mais que a aula no cursinho seja importante, com certeza o que faz a pessoa passar é o estudo individual, as horas de bunda na cadeira... Vi muita gente nos cursinhos passavam o dia todo só fazendo aulas, pois achavam que as aulas iam fazer com que fossem aprovados. Na realidade eu acho que o curso só é responsável por 10% da aprovação, o resto depende do próprio candidato. 

Acho que só vale a pena assistir aulas se a pessoa tiver tempo de se dedicar sozinha em casa por pelo menos 3 vezes o tempo que gastará naquele curso. Quando saiu o edital de AFRF-2005, eu lembro de que como eu trabalhava e não poderia tirar férias, escolhi fazer um curso apenas: Comércio Internacional com o professor Rodrigo Luz. Eu já sabia que ele era um professor excelente e que seria difícil estudar essa matéria sozinho, já que quase não havia material direcionado para concursos. Decidi não fazer nenhum curso das outras matérias novas, pois sabia que não teria tempo para assistir aulas e estudar em casa também. Preferi estudar economia, finanças públicas, e direito internacional apenas por livros.

Vicente Paulo: Que tipo de cursinho você aconselharia no início e no término de uma preparação? 

Demetrio: Quando eu comecei a estudar fiz um curso básico, estilo “pacotão”, com todas as matérias. Mas não aconselho ninguém a fazer o mesmo. Hoje acho que o ideal é o candidato começar a sua preparação estudando sozinho, com um material de boa qualidade e direcionado para concursos. E, logo em seguida, após ter uma noção básica das matérias, ele pode procurar se informar com outros concurseiros quais são os melhores professores de cada matéria e fazer um curso em módulos, em que ele só fará as disciplinas que quiser e com os professores que escolher. Sempre é bom se informar com os outros concurseiros sobre quais são os cursos que valem a pena, tentar assistir uma aula gratuita para ver se o professor é bom mesmo, e ,se for possível, gravar as aulas para ouvi-las novamente depois de ter estudado a matéria com profundidade. No término de uma preparação eu o ideal é fazer somente as aulas estritamente necessárias, como por exemplo as das matérias que são novidades e para as quais não existe um material de boa qualidade para o estudo autodidata. 

Vicente Paulo: Se em vez de estudar para o concurso de Fiscal de São Paulo, você recebesse hoje a incumbência de orientar os estudos de um candidato que está iniciando os estudos na área fiscal, quais seriam as suas orientações? (fique à vontade para escrever, pode escrever quantas linhas/páginas quiser, acho essa pergunta uma das mais importantes desta entrevista)

Demetrio: Bem, antes de tudo eu aconselharia o candidato a ler o livro “como passar em provas e concursos” do Willian Douglas. Essa foi a primeira coisa que eu fiz quando comecei a estudar, e com certeza fui bastante influenciado por algumas idéias que li neste livro. Algumas das dicas não serviram para mim, mas a maior parte do que li acabou sendo incorporado de alguma forma à minha rotina de preparação. 

Eu montei um quadro com todas as matérias que eu planejava estudar, com uma meta de horas de estudo de cada uma, assim como um espaço para preencher com as horas que tinha efetivamente conseguido estudar. Sempre estudava com um relógio digital ao lado, marcava a hora exata em que tinha começado e terminado, descontava os minutos que tinha perdido indo ao banheiro, atendendo telefone e com outras distrações. Só registrava naquele quadro as horas “líquidas” de estudo de cada matéria. Isso era bom porque me mostrava a realidade: às vezes eu tinha ficado “estudando” das 8:00 às 22:00, mas só tinha realmente estudado umas 6 horas. Com isso passei a me policiar mais para aproveitar melhor o tempo. Ao mesmo tempo, com esse quadro eu sabia exatamente quanto eu tinha me dedicado para cada matéria, se tinha deixado alguma de lado, etc...

Sempre procurei estudar mais de uma matéria de cada vez. Criava um ciclo com 5 ou 6 matérias e estudava 1:30h cada uma, procurando fazer um intervalo de 10 a 15 minutos entre uma matéria e outra. Há pessoas que preferem estudar somente uma matéria por vez, mas eu não conseguia ficar muitas horas estudando a mesma coisa com concentração total. Com certeza essa é uma forma de chegar mais rápido no final do livro, mas isso não quer dizer que a pessoa assimilou tudo. Alternando as matérias eu conseguia ficar estudando com alta concentração por até 13 horas seguidas.

Hoje eu percebo claramente como a preparação para a área fiscal envolve várias fases diferentes. Num primeiro momento, o objetivo do candidato é aprender as 5 matérias básicas: direito constitucional, administrativo, tributário, português e contabilidade geral. Nessa fase o estudo é muito mais teórico e voltado para a parte conceitual das matérias. É quando ele irá fazer os resumos, as aulas nos cursos preparatórios. Essa é a fase mais demorada e que consome 50% do tempo de toda a preparação, pois essas são as matérias mais complexas da prova e com conteúdo muito amplo. Além disso, é preciso que o candidato estude essas 5 matérias como se ele tivesse querendo gabaritar as provas, pois hoje a maioria dos candidatos aprovados acerta de 70 a 80% nessas disciplinas, então é preciso garantir ao menos essa pontuação.

A segunda fase é aquela em que o candidato já tem uma boa base nas 5 matérias básicas, então seu estudo dessas matérias passa a ser muito menos conceitual e muito mais decorativo, voltado para fazer as questões de provas e leitura da lei seca. É um estudo de revisão e aprofundamento, que ocupa cerca de 30% do seu tempo. Nos outros 70% ele irá estudar as matérias específicas (inglês, matemática financeira, estatística, informática, economia, previdenciário, DIP), que são matérias de menor complexidade e com menos peso na prova. Nessas matérias ele não precisa se preocupar em gabaritar, porque não são elas que decidem a aprovação. Apenas é preciso ter um desempenho razoável para passar (60 a 70% de acertos em cada).

Na terceira fase o candidato terminou de estudar todas as matérias (as básicas e as específicas), então deve procurar concentrar 100% do tempo para resolver questões de provas e decorar a legislação. Nesse ponto aquilo que era a maior dificuldade no início dos estudos, a parte conceitual, deixa de ser um problema. Dificilmente o concurseiro erra uma questão porque não sabe um conceito. É mais fácil ele errar uma questão que pede um artigo totalmente inútil da lei do SIMPLES ou da lei de licitações, por exemplo. Ou alguma coisa que está na parte final da Constituição Federal. Então o que ele deve procurar fazer é resolver todas as provas antigas de concurso, anotando todas as pegadinhas que ele for encontrando, prestando atenção de onde a ESAF tira as perguntas (se é do texto de alguma lei, se é de súmula, etc...). Nessa terceira fase o candidato não aprende mais nada de novo, o que ele faz é automatizar o conhecimento que ele já adquiriu: ele se torna uma máquina de resolver testes, consegue fazer uma prova complicada de português ou contabilidade na metade do tempo que levaria na fase dois. E dificilmente ele erra uma questão que transcreve alguma legislação de forma literal, mesmo que seja um artigo inútil. Essa é a parte mais gostosa do estudo, em que o concurseiro começa a ver o resultado de tudo o que fez até então, começa acertar 80%, 90% das provas. Ele percebe que mesmo que tiver azar no dia da prova (caso a prova seja atípica, ele fique nervoso, com dor de barriga, etc...) ele vai conseguir ser aprovado. Isso porque ele atingiu um nível de conhecimento tão alto que, mesmo que seja prejudicado por esses fatores aleatórios, é impossível que ele não passe. 

Essas são as minhas impressões mais genéricas sobre a preparação para a área fiscal. Isso se aplica a qualquer prova de concurso de múltipla escolha, de qualquer banca examinadora, e por isso mesmo já está comentado em vários livros de técnicas de estudo. Mas eu também gostaria de transmitir para aqueles que estão começando a estudar alguma coisa mais específica, isto é, quais são os melhores livros para estudar, quais são as manhas para estudar cada uma das matérias que compõem o programa de AFRF, a que pontos se deve dar mais importância, etc... Isso é algo que só quem estudou recentemente para esse concurso pode dizer, e é claro que envolve um lado muito subjetivo, provavelmente alguns livros que agradam muito algumas pessoas são odiados por outras... Mas eu quero dizer como eu faria para aprender cada uma das disciplinas do programa de AFRF se estivesse começando meus estudos hoje. 

Direito constitucional: Essa matéria sem dúvida é a que possui o conteúdo mais amplo de todos. A prova pode cobrar tanto a literalidade da Constituição Federal como Doutrina, Jurisprudência do STF e Teoria Geral do Estado. É comum ver a ESAF mudando completamente o estilo de questões de uma prova para outra, tanto nos assuntos abordados como no nível de dificuldade. Por isso é importante estar preparado para qualquer coisa. 

O melhor é iniciar estudando pelo livro do Vicente Paulo (Aulas de Direito Constitucional, Ed Impetus), junto com o texto literal da Constituição Federal. Uma coisa complemente a outra, pois o livro é mais voltado para as questões conceituais e doutrinárias, e em algumas provas (como foi essa última de AFRF) é preciso ter memorizado o texto literal da Constituição.

Logo em seguida eu estudaria o livro de questões comentadas ESAF do Gustavo Barchet (Ed Impetus). Quase todas as questões já estão no livro do Vicente, mas são os comentários do Barchet que valem a pena, ele faz alguns “mini-resumos” da teoria, além de se aprofundar mais em alguns pontos da matéria. E Direito Constitucional é uma matéria em que vale a pena fazer também as questões do CESPE, pois elas se aprofundam muito mais na parte de doutrina / jurisprudência do que as questões da ESAF. Então, se estivesse sobrando tempo, eu estudaria também o livro do Gustavo Barchet de questões comentadas CESPE.

Na semana anterior à prova eu separaria um tempo para dar uma lida em toda a Constituição Federal. Eu fiz isso para a prova de AFRF e no fim foi o que me salvou (a prova foi burra, totalmente “decoreba”, às vezes isso acontece). É importante lembrar que se o examinador quiser inventar uma pergunta impossível de Direito Constitucional ele pode fazer isso, já fez algumas vezes (Ex: aquela questão do método hermenêutico concretizador), mas não é essa questão que vai fazer a diferença.

Um curso que vale a muito pena fazer é o de exercícios de Direito Constitucional, com Vicente Paulo (DF). Fiz esse curso em 2004, gravei aquelas aulas e cheguei a ouvir 4 ou 5 vezes essa gravação durante o ano de 2005. A cada vez que ouvia aprendia alguma coisa nova. Pena que a prova de AFRF tenha sido tão boba, não pude usar quase nada daquilo.

Direito Administrativo: Nessa matéria as provas da ESAF costumam ser bem diferentes das provas de direito constitucional: uma parte das questões é conceitual e doutrinária, essas normalmente não costumam ser muito complicadas. Há muitas questões que apenas reproduzem o texto de algumas leis. Em licitações e contratos, por exemplo, em 99% das questões a ESAF copia o texto literal da lei 8666. E por isso elas acabam sendo difíceis. Como as questões conceituais não costumam complicar muito, acho desnecessário estudar livros mais pesados de doutrina, como Maria Sylvia di Pietro. O que não se pode deixar de fazer de maneira nenhuma é ler periodicamente o texto de todas as leis que costumam ser cobradas.

Eu estudaria da seguinte maneira: primeiro começaria pelo livro do Marcelo Alexandrino (Ed Impetus), que, na minha opinião, é um livro excelente e atende uns 95% da parte conceitual e uns 80% da parte decorativa da prova. Depois de estudar esse livro e de fazer todos os seus exercícios, eu leria o texto das seguintes leis: 8666, 9784, 8112, 8987, 10520, além do capítulo da Constituição referente à administração pública. Uma lei que será muito importante nas próximas provas da ESAF é a 11079 (PPP´s), pois é novidade. Faria esse estudo junto com a leitura do livro do Gustavo Barchet de questões comentadas ESAF (Ed. Campus).

Muita gente não estuda a parte de licitação e contratos, porque não foi cobrada nos dois últimos concursos de AFRF. Mas eu a estudaria se estivesse fazendo uma preparação de longo prazo, por dois motivos: primeiro, essa matéria é cobrada em praticamente qualquer outro concurso, então se no meio do caminho eu resolvesse fazer uma prova de AFC, TCU ou fiscal do ICMS, já teria visto isso. Além disso, não é impossível que na próxima prova de AFRF o pessoal da ESAF resolva colocar a parte de licitações dentro do programa de administrativo, já que são 20 questões e essa é uma parte bem importante da matéria.

Recomendo o curso teórico com o professor Cláudio José (RJ), a aula dele é de um nível altíssimo, ele se aprofunda em pontos da doutrina que não estão nos livros da área fiscal e que de vez em quando caem nas provas. Recomendo esse curso para aqueles que já têm uma base na matéria.

Direito Tributário: Começaria o estudo de Direito Tributário pelo livro de teoria do João Marcelo Rocha (Ed Ferreira). É um livro excelente, talvez um dos melhores que eu já li. Acho ideal para quem está tendo um primeiro contato com a matéria. Como o autor não copia o texto literal das leis, é importante acompanhar o estudo do livro com a leitura simultânea do capítulo da constituição Federal referente ao STN e do Código Tributário Nacional. Logo em seguida é bom complementar com o Manual de Direito Tributário do Marcelo Alexandrino (Ed Impetus), ele se aprofunda em assuntos importantes que não estão no livro do João Marcelo, como por exemplo a parte de Jurisprudência do STF. Depois seria interessante estudar o livro de questões comentadas ESAF do João Marcelo Rocha (Ed Ferreira). Por último, vem a parte mais chata do estudo de tributário: é importante ler o CTN muitas vezes, memorizar o texto literal, porque as provas da ESAF cobram isso de uma forma muito “burra”, nessa parte da matéria decorar o texto da lei é indispensável. Quanto mais inútil for um dispositivo, maior é a chance de ele ser cobrado. Na prova de AFRF2003, por exemplo, quem sabia bem o texto do CTN e da Constituição conseguia acertar uns 80% da prova. Até artigos do ADCT eles pediram.

Ultimamente as provas da ESAF têm cobrado também questões envolvendo a legislação específica dos tributos federais. Eu só estudaria com profundidade a lei do SIMPLES (9137). Para os outros tributos eu seguiria o conselho do professor Marcelo Alexandrino, isto é, simplesmente abandonaria o estudo dessa parte do programa, se eles fossem cobrados na prova eu chutaria as questões usando o bom senso. E se, fosse o caso, perderia esses pontos. Foi essa minha estratégia na prova de AFRF 2005, daquelas 5 questões de tributos específicos acho que eu acertei 2 ou 3. Mas no total consegui fazer 17 dos 20 pontos possíveis.

Contabilidade: O melhor material nessa disciplina na minha opinião são os livros do Ricardo Ferreira (Ed Ferreira). Eu começaria estudando pelo livro de contabilidade básica. Logo em seguida estudaria o livro de questões comentadas ESAF. Depois estudaria o livro Contabilidade Intermediária e Avançada, mas sem me aprofundar muito nos capítulos de avançada, já que essa matéria não consta expressamente no programa de AFRF, apesar de ter sido cobrada nessa última prova. E por último estudaria o livro de Análise de Balanços, do mesmo autor.

Vale a pena lembrar que para ir bem nas provas de contabilidade da ESAF não basta saber a matéria, é preciso ter muita velocidade para fazer as questões, classificar as contas e montar as demonstrações. Por isso aconselho fazer esse livro de provas comentadas várias vezes. Eu mesmo fiz umas quatro ou cinco vezes. Só assim é possível memorizar a “jurisprudência esafiana” de contabilidade, ou seja, saber o quais são os nomes que a ESAF usa para as contas de despesa, de passivo, REF, qual o método que ela usa pra Reserva Legal, etc... 

Quando as provas antigas já tiverem se esgotado, uma boa fonte de exercícios diferentes e difíceis é o livro de Contabilidade Geral do Ed Luiz Ferrari (Ed Campus). Eu pessoalmente não gosto da maneira como ele explica a matéria, acho pouco didática para um iniciante, mas sem dúvida as questões que ele inventou e colocou no livro são ótimas para forçar o raciocínio, algumas do capítulo de DOAR são muito mais complexas do que qualquer questão de prova. Eu vejo o livro do Ed como boa fonte de exercícios inéditos de contabilidade geral.

Recomendo o curso presencial com o Antônio César (RJ). Fiz com ele o curso de Contabilidade Avançada em 2004, pois na época ainda não havia o boato de que as áreas do concurso de AFRF seriam unificadas. 

Português: Nessa matéria não saberia indicar um livro que cobrisse 100% do que é exigido nas provas, talvez o melhor livro para começar seja o do Professor Renato Aquino (Ed Campus), o problema é que é um livro muito básico, mais voltado para concursos de nível médio. As provas da ESAF vão muito além disso. Então acho que logo em seguida eu basearia meu estudo nas provas antigas da ESAF. Primeiro estudaria o livro do Décio Sena de provas comentadas ESAF (Ed Ferreira) e depois imprimiria todas as provas antigas que não estão nesse livro para tentar eu mesmo comentá-las. Em 2005 acho que eu imprimi e resolvi quase 40 provas de português. Eu também resolveria os simulados do professor Décio Sena, eles são muito mais difíceis do que as provas da ESAF e têm as respostas comentadas. Estão disponíveis no site do vemconcursos e no da Editora Ferreira.

Aqui em São Paulo há uma excelente professora de português, a Fátima, eu não cheguei a fazer o curso completo com ela, mas assisti algumas aulas grátis e recomendo. Várias pessoas vêm de cidades do interior para fazer o curso dela.

Matemática Financeira e Estatística: Sobre essas matérias não tenho muito a falar já que foi nelas que eu quase fui eliminado (fiz 6 questões antes das anulações, exatamente 40% da prova), acho que como sou engenheiro eu deixei essas duas matérias em segundo plano. Não cheguei a estudar por nenhum livro, só li a apostila do pró concurso e resolvi as provas anteriores.

Se estivesse começando hoje acho que estudaria pelo livro de Estatística do Sérgio Carvalho e pelo de Matemática Financeira do Benjamim César (Ed Campus). Não li esses dois livros, mas são os que a maior parte das pessoas recomenda. E, com certeza, durante o meu estudo eu passaria a fazer todas as contas de divisão, multiplicação e de raiz quadrada na mão mesmo, sem calculadora, pois é a isso que a ESAF está dando importância.

Inglês: Também não tenho muito a falar sobre essa matéria. Como eu já tinha uma base boa de inglês, essa também foi uma disciplina que praticamente não estudei. Em 2004 havia um livro que eu queria muito ler, o 5º do Harry Potter. Eu comprei a versão em inglês e passei a todos os dias tentar traduzir mentalmente três ou quatro páginas do livro. Para isso gastava uns 15 minutos por dia. Fiz isso durante uns 3 ou 4 meses, no final desse período eu já estava pronto para fazer qualquer prova da ESAF. 

Se eu estivesse começando hoje, faria alguma coisa semelhante ao que fiz com o livro do Harry Potter, mas usaria para isso textos de revistas e jornais, já que são mais parecidos com aqueles que caem nas provas. Além disso estudaria o livro da Série Questões do professor Carlos Augusto (Ed Campus), que parece ser excelente.

Informática: Essa matéria é muito problemática, o conteúdo é imenso e não há limites para o que pode cair na prova. Para a ESAF, acho que a princípio existe uma linha separando as questões cobradas na área geral e as questões da área específica de Tecnologia da Informação. Mas é muito comum ver o examinador cruzando essa linha, ou seja, colocando questões na área geral tão aprofundadas como as de TI. 

Por isso eu estudaria muito essa matéria, principalmente se não tivesse uma formação na área de Exatas. Começaria pelo livro do João Antônio. Depois estudaria os textos que o João Antônio escreveu na parte aberta do site do ponto sobre Segurança da Informação e Assinatura Digital. Em seguida resolveria as 9 provas da ESAF que o João comentou, também na parte aberta do site do ponto. E por último eu procuraria imprimir todas as demais provas da ESAF que eu encontrasse e tentaria eu mesmo comentá-las.

Aqui vale o mesmo comentário que eu fiz para Direito Constitucional, isto é, se o examinador quiser inventar uma questão impossível, que só um cara de TI saberia responder, ele pode fazer isso, mas não é essa questão que vai decidir nada. Com esse roteiro que eu fiz acho que é possível acertar de 70% a 80% das provas da ESAF com tranqüilidade.

 Sem querer fazer propaganda de ninguém, se alguém tiver a chance de fazer o curso do prof João Antônio (Recife) eu recomendo muito, por mais que os livros dele sejam excelentes a aula presencial é melhor ainda. Ele ministrou um curso “super-info” aqui em São Paulo no final de 2004. Na época não fiz esse curso pois a sala estava lotada, mas depois de alguns meses peguei emprestado as fitas com um amigo e ouvi no carro, no caminho para o trabalho, sem dúvida essa foi a base do meu estudo dessa matéria.

Direito Previdenciário: Nessa matéria eu faria um estudo mais direcionado para a prova da ESAF, que costuma ser menos voltada para a parte de doutrina/jurisprudência e muito mais literal e decorativa. Começaria o estudo pelo livro do Ivan Kertzmam (Curso Prático de direito previdenciário, Ed Juspodium). Em seguida me dedicaria ao estudo do decreto 3048, que, junto com o texto da Constituição Federal, é a base de toda prova de previdenciário decorativa. Junto com a leitura do Decreto eu resolveria as quase 600 questões de prova comentadas que estão disponíveis gratuitamente no site do Dênis Agnello (www.previdenciaweb.com.br). Eu usei essas questões para direcionar meus estudos, pois o conteúdo de Direito Previdenciário é imenso e quando se começa a estudá-lo é difícil separar o que é importante do que não é.

Se houvesse muito tempo disponível, eu estudaria também o livro do Zambitte (Curso de Direito Previdenciário, ed Impetus). Esse é sem dúvida o melhor livro de todos, o problema é que ele não é muito objetivo, muitas vezes o autor se perde em coisas que não caem na prova. É um livro muito bom para usar como fonte de consulta. Acho que ele era indispensável quando a prova tinha 50 questões e era elaborada pelo CESPE, mas para fazer 15 questões da ESAF não acho que vale a pena de aprofundar tanto. Para quem for estudar pelo livro do Zambitte eu aconselho ter lido antes o texto do Decreto 3048.

Também recomendo o curso presencial com o Zambitte (RJ), pois na sala de aula ele é totalmente objetivo, vai direto ao ponto. De todos os cursos que eu fiz na área de Direito esse foi um dos que mais valeram a pena. Para quem não puder assistir as aulas presenciais do professor, existe um “tele-curso” gravado pela Teljur, talvez seja interessante.

Economia: Nessa matéria as provas da ESAF podem ser divididas em dois níveis de complexidade: as questões da área fiscal (provas de AFRF, AFC, MPOG) e as provas de Analista do Banco Central. Essas últimas são muito mais complexas e difíceis do que as primeiras. Mas às vezes o examinador passa por cima da linha que separa esses dois estilos de prova e coloca questões muito avançadas nas provas da área fiscal: isso aconteceu nos concursos de AFTN 96 e 98 (área de PAT) e no MPOG de 2005. Por isso é preciso ter em mente que por mais que o candidato estude, é impossível fechar o programa de economia, sempre haverá a possibilidade de ele encontrar na prova uma questão sobre um assunto que ele nunca viu.

Eu basearia o meu estudo no livro do Paulo Viceconti (Introdução à Economia - Ed Frase, capítulos 7 a 12), esse livro é, junto com o de tributário João Marcelo Rocha, um dos melhores livros que já li até hoje. Eu acho ele perfeito em quase tudo, o único problema é que não cobre 100% do programa de AFRF. Para complementar eu estudaria o capítulo 15 do livro do Mankiw (Macroeconomia, Ed LTC), que cobre a parte principal da economia intertemporal, além de estudar o capítulo de Balanço de Pagamentos do livro do Rodrigo Luz (REI, Ed Campus). O restante do programa eu simplesmente abandonaria.

Logo em seguida eu tentaria resolver todas as provas de Macroeconomia aplicadas pela ESAF para a área fiscal. 

Finanças Públicas: Nessa matéria eu senti muita falta de um material de boa qualidade direcionado para concursos, que reunisse todos os assuntos cobrados no edital. A matéria em si é complexa e muito ampla, mas as provas da ESAF costumam ser bem simples, não cobram nada além de um conhecimento básico. É preciso tomar cuidado para não levar os conceitos de direito tributário para a prova de Finanças Públicas, muitas vezes o examinador comete alguns erros de nomenclatura (usa “imposto” quando deveria usar “tributo), muitos candidatos erram questões por causa disso.

Antes de começar o estudo de Finanças Públicas eu acho essencial ter terminado o estudo de Macroeconomia. Em primeiro lugar estudaria o capítulo 13 do livro de Economia do Viceconti (Ed Frase) e logo em seguida estudaria o livro do Rezende (Ed Atlas). Esse último é um livro acadêmico, não é muito didático para quem está vendo a matéria pela primeira vez, mas foi o único material que encontrei. Eu também daria uma lida na Lei de Responsabilidade Fiscal (LC 101), que costuma cair na prova de AFRF de maneira bem literal. Depois disso resolveria todas as provas de AFRF. Um professor excelente de Economia e Finanças Públicas é o Geraldo Góes (DF). 

Comércio Internacional e DIP: Sobre essas matérias acho desnecessário eu fazer qualquer tipo de comentário, eu me orientei por um roteiro de estudos que o professor Rodrigo Luz escreveu no site do ponto no mesmo dia em que o edital foi publicado, acho que é interessante dar uma olhada nesse texto (ponto 41).

Eu estudaria pelos dois livros do Rodrigo Luz, Relações Econômicas Internacionais e Comércio Internacional (Ed Campus). Também estudaria os textos que o Rodrigo Luz escreveu no site do ponto, eles abordam alguns assuntos que não estão nos livros (ponto 43 em diante).

DIP eu começaria estudando o resumo que o Rodrigo Luz colocou no site do ponto. Logo em seguida eu estudaria o livro do Rezek, que é um livro acadêmico e meio difícil de ler, mas foi o único material que encontrei.

Gostei muito das aulas presenciais do Rodrigo Luz (RJ) de Comércio Internacional, esse foi o único curso que eu fiz após a publicação do Edital e valeu muito a pena, achei excelente a didática do professor. 

Vicente Paulo: E se as orientações fossem para um candidato que já está estudando há muito tempo, que acreditava ser aprovado no AFRF/2005, mas não foi? Quais seriam as suas orientações para esse “recomeçar”? 

Demetrio: O ideal seria se o candidato pudesse tirar umas “férias” do estudo para se recuperar do stress por que passou nesse concurso de AFRF, mas nesse momento acho que isso é justamente o que ele não deve fazer. 2006 está sendo um ano com excelentes oportunidades de concursos: logo depois do AFRF veio a prova do TCU, em breve teremos a de AFC, logo após serão publicados os Editais do ICMS SP e de Fiscal do Trabalho. Há mais 3 concursos de fiscais estaduais com grandes chances de acontecer esse ano: Rio Grande do Sul, Paraíba e Rio de Janeiro. Além disso ainda há o ISS do município de São Paulo, que deve acontecer no segundo semestre. Então acho que esse candidato não poderia de modo algum deixar essas oportunidades passarem em branco, na minha opinião é muito provável que logo após essa “enxurrada” de concursos ter terminado vamos ter um longo período sem praticamente nenhum concurso bom na área fiscal. Se eu estivesse no lugar dessa pessoa, acho que agora tentaria iniciar o mais rápido possível o estudo para o concurso de ICMS de São Paulo ou de Fiscal do Trabalho.

Vicente Paulo: Sei que este pedido exigirá muito de você, mas não posso deixar de fazê-lo, conto com a sua compreensão e desprendimento. Você poderia fazer um resumo da sua história de preparação, isto é, de como você se preparou para o AFRF/2005 (quantas horas de estudo diariamente; quando descansava; qual a metodologia empregada; como programava os estudo; como dividia o tempo entre teoria e exercícios; quando fazia cursinho e quando só estudava em casa etc.)?

Demetrio: Estudei para esse concurso durante quase três anos , sendo dois com dedicação integral e um trabalhando. Durante esse tempo interrompi o estudo algumas vezes. Também fiz outras concursos, como o da CVM e o de TRF em 2003, mas meu objetivo principal sempre foi o AFRF.

Comecei a estudar em março de 2003. Eu não conhecia ninguém que estivesse no ramo dos concursos, por isso nesse ano eu fiz muitas coisas erradas, perdi muito tempo estudando por material ruim, fiz cursos que não me ajudaram em nada. Além disso, como eu não tinha amigos que tivessem os mesmos objetivos que eu, não sentia nenhuma motivação para estudar. Talvez se naquela época eu tivesse tido uma boa orientação eu teria feito tudo diferente e teria sido aprovado no AFRF de 2003. 

A primeira coisa que eu fiz foi me matricular em um cursinho do estilo “pacotão”, daqueles que duram 8 ou 9 meses e prometem preparar a pessoa para qualquer concurso da área fiscal. Mais tarde descobri que essa foi o meu primeiro erro, porque aquelas aulas eram muito superficiais e consumiam muito tempo, teria sido melhor usar esse tempo para estudar em casa com bons livros. Mas naquela época eu achava que não ia precisar estudar por livros. E esse foi o segundo erro: eu não fazia a menor idéia de que precisaria estudar tanto para passar em um bom concurso da área fiscal. 

Eu tinha o dia inteiro livre mas não aproveitava mais do que 3 ou 4 horas para o estudo. Acho que eu estava passando por um problema que é muito comum entre os concurseiros, a “desculpite” (essa palavra eu li no depoimento do Alexandre Meirelles e achei ela perfeita). A pessoa sabe o que deve fazer mas não consegue arrumar motivação para vencer a inércia e colocar seus planos em prática. Fica arrumando desculpa para tudo, era isso que eu fazia. Não estudava porque tinha acabado de sair de um curso muito puxado de Engenharia, estava cansado, etc, etc... Na verdade hoje eu vejo que isso era uma mistura de falta de informação com falta de motivação. 

No meio de Agosto de 2003 foi publicado o Edital da CVM. Era um concurso com poucas vagas. Tirando duas matérias específicas de mercado de capitais, todas as outras estavam no Edital de AFRF. E ainda nesse segundo semestre de 2003 aconteceu algo parecido com o que está acontecendo nesse primeiro semestre de 2006: muitos concursos excelentes da área fiscal foram autorizados ao mesmo tempo. Isso divide a concorrência, faz com que cada candidato tenha que escolher uma prova e abandonar as outras. Por isso alguns concursos ótimos ficam bem mais acessíveis do que seriam em condições normais. Foi o que aconteceu com esse concurso da CVM, e acho que é o que talvez acontecerá esse ano com o ICMS-SP.

Quando decidi que ia fazer essa prova da CVM eu consegui vencer a barreira da “desculpite” e comecei a estudar pra valer. Abandonei aquele curso “pacotão” e passei a estudar em casa 8 horas por dia, todos os dias semana. Usei as apostilas do próconcurso, pois esse era o melhor material que eu conhecia na época. Fiz também um curso daquelas duas matérias específicas no próconcurso, aos sábados. Fui aprovado na CVM e logo em seguida me inscrevi para a prova da Receita Federal. Eu sabia que com conhecimento que eu tinha não havia chance de disputar uma vaga de Auditor, por isso escolhi fazer a prova de Técnico. Passei para TRF na 8ª região fiscal. 

A partir de então eu parei completamente de estudar, ficava o dia todo em casa descansando. Foi nessa época eu conheci o antigo fórum do Correioweb. No começo eu só lia o que os outros escreviam, mas depois comecei a participar ativamente, fiz muitas amizades na internet, algumas das quais mantenho até hoje.

Quando eu conheci através do fórum as pessoas que se preparavam há tempo para a Receita Federal, o que mais me chamou a atenção foi como meu estudo no ano anterior havia sido superficial. Percebi que o pessoal da área fiscal estudava muito mesmo, em algumas matérias era como se eles quisessem gabaritar a prova, a maioria lia dois ou três livros por disciplina, lia 10x o CTN, fazia mais de mil de exercícios por matéria... Além disso quase todos usavam os livros escritos para concursos da Editora Ímpetus e da Editora Ferreira, ninguém estudava por apostila. Ou seja, eu vi que se eu realmente quisesse passar num concurso de AFRF ainda teria que ralar muito...

Passaram-se aproximadamente 4 meses até eu perceber que o concurso da CVM tinha melado na justiça e que eu teria que recomeçar a estudar o mais rápido possível. Retomei os estudos em março de 2004. Comecei do zero mesmo, como se nunca tivesse visto nenhuma matéria, usando o material que o pessoal do fórum me indicava. Estudava só aquelas 5 matérias básicas: Constitucional, Administrativo, Tributário, Contabilidade Geral e Português. Minha rotina era assim: acordava, fazia 30 minutos de exercício físico, estudava dois blocos de 1:30h, almoçava e estudava mais 4 blocos de 1:30h. Entre uma matéria e outra fazia um intervalo de 15 minutos. Fiz isso durante 5 meses, tempo que foi o suficiente pra terminar aquela primeira fase do estudo que eu comentei. Durante esse período eu também fiz alguns cursos aqui em São Paulo: Direito Tributário com o Lugon, Direito Previdenciário com o Zambitte e Contabilidade Avançada com o Antônio César. Eu tinha um gravador de fita cassete e com ele gravava as aulas que assistia, mais tarde essas gravações foram muito úteis para mim.

Em Agosto de 2004 começaram a surgir os boatos de que a prova de AFRF não seria mais dividida por áreas e a partir daí ninguém sabia mais quais matérias seriam cobradas. Isso foi me desestimulando e fazendo com que eu fosse reduzindo cada vez mais o meu ritmo de estudo, até parar completamente. Mas eu ainda fiz mais dois cursos nesse ano: Direito Administrativo com Cláudio José e exercícios de Direito Constitucional com Vicente Paulo. Só que não tinha mais motivação para estudar, pois eu já havia esgotado todo o material disponível daquelas cinco matérias básicas e não queria perder tempo estudando alguma coisa que não fosse cair. Hoje eu percebo que aquele era o momento de pensar em fazer outros concursos semelhantes ao AFRF, como o de ICMS de minas gerais ou da Polícia Federal, que aconteceram no final de 2004. Ou deveria ter estudado alguma das matérias incertas do AFRF, como Informática, Economia ou Finanças Públicas. Acabei ficando desestimulado e não estudei mais nada. E assim se passaram mais 4 meses.

Durante esses meses a prova de redação do concurso da CVM foi anulada e fiz uma nova prova. Finalmente, em janeiro de 2005, todos os candidatos aprovados foram nomeados. Comecei a trabalhar na CVM em fevereiro de 2005, a remuneração era equivalente à do AFC CGU, a lotação era aqui na capital de SP e o ambiente de trabalho era bom. Mas logo eu percebi que não podia desistir do concurso de AFRF, eu tinha que continuar tentando senão ficaria pra sempre com aquele peso na consciência. Então em março de 2005 eu decidi retomar os estudos para AFRF, mas agora tendo que conciliar isso com uma rotina de trabalho de 8 horas por dia.

No começo foi muito difícil, senti uma diferença enorme em relação à época em que eu tinha o dia todo livre para estudar. Eu chegava em casa cansado e a última coisa que eu tinha vontade de fazer era pegar nos livros. E mesmo quando eu conseguia fazer isso parecia que o estudo não rendia nada, eu tinha dificuldade para me concentrar, cada hora estudada não valia nem pela metade. Então tive que me adaptar a essa situação, para isso eu usei as dicas do Willian Douglas para disciplinar meus horários e as do Gustavo Barchet para mudar a metodologia de estudo.

Minha rotina de segunda a sexta passou a ser assim:, acordava 6:00 e estudava até as 8:00, tomava banho/café e 8:30 saía para o trabalho. No caminho para o trabalho escutava as fitas dos cursos que havia gravado no ano anterior, além de uma gravação do CTN que minha irmã fez pra mim. No trabalho saía para almoçar 12:30h, comia em 15 minutos num restaurante por quilo (ruim pra caramba) que ficava na frente do prédio da CVM, voltava e estudava mais 45 minutos. Das 18:00 às 18:30 voltava para casa ouvindo as fitas no carro. Jantava em meia hora e às 19:00 começava a estudar. Depois de algum tempo fazia uma pausa de 15 minutos e logo depois retomava até as 22:45. Dessa forma eu conseguia estudar 5 horas e meia por dia, com mais 1 hora ouvindo a gravação das aulas. 

Nos finais de semana eu estudava de 8 a 10 horas por dia, sendo que tanto no sábado como no domingo eu separava 1 hora para o lazer. De vez em quando eu fazia meia hora de caminhada em casa com uma esteira ergométrica, também ouvindo as fitas gravadas. Toda essa rotina era controlada numa planilha que eu fiz no computador, nela eu digitava exatamente quantos minutos tinha conseguido estudar cada dia, quantas horas tinha ouvido as fitas na semana, etc... Essa era uma forma de me policiar, garantir que eu estava cumprindo aquele planejamento.

Consegui manter essa rotina até a publicação do edital, ou seja, durante aproximadamente 8 meses. Nesse tempo eu estudei todas aquelas matérias básicas (eu havia esquecido todas elas), além de matemática, estatística, informática, contabilidade avançada, ética, organização do ministério da fazenda e um pouco de direito previdenciário. O interessante é que esse foi o ano em que menos tive tempo livre, mas ao mesmo tempo foi o ano em que eu mais estudei. Por isso hoje eu acho que é possível estudar para um concurso como o de AFRF mesmo sem largar o emprego, normalmente as pessoas que têm o dia inteiro livre para estudar não aproveitam esse tempo. E mesmo que as horas disponíveis para o estudo sejam poucas (3 ou 4 por dia), se a pessoa conseguir manter essa rotina por muitos meses seguidos ela passa na frente de quem não está trabalhando. O importante é conseguir manter a disciplina por um período longo de tempo, sem “desculpites”.

Em 2005 minha metodologia de estudos era totalmente direcionada para a resolução de exercícios e memorização da legislação. Eu já tinha lido os livros teóricos, então no começo estudava só pelos livros de questões comentadas. Mais adiante eu mesmo comecei a comentar questões de prova, só que mentalmente. Eu pegava uma prova da ESAF, lia as alternativas e tentava justificar por que cada alternativa estava certa ou errada, para isso eu consultava de vez em quando os livros que já havia lido e sempre procurava fundamentar as respostas na legislação (CF, CTN, lei 8112, etc...). Fazia isso com 20 questões de uma matéria, depois com 20 de outra, e assim sucessivamente. Era uma espécie de “ciclo” em que tudo aquilo que eu havia estudado era revisado. 

Com esse método eu fazia cerca de 200 ou 300 questões por semana. Devo ter resolvido mais de 2000 questões de cada disciplina. A princípio só estudava pelas questões da ESAF, mas depois de algum tempo essas provas se esgotaram, então passei a resolver questões de outras bancas também, além das questões de simulados inventados por professores. Mas sempre dava preferência às questões da ESAF, não importava se eu já tinha feito aquela questão antes, eu resolvia de novo. Algumas provas de contabilidade eu cheguei a resolver 5 vezes.

Quando saiu o Edital de AFRF assim como todo mundo eu fiquei muito nervoso. Achei que não ia dar tempo de aprender tanta coisa nova em menos de 60 dias, ainda mais pra mim que tinha que trabalhar também, parecia impossível. Então eu radicalizei, passei a dormir menos (6 horas por dia, no máximo), a ouvir as fitas enquanto comia (no café, almoço e jantar), além de aproveitar cada minuto que eu tivesse à minha disposição para o estudo. Nos finais de semana eu chegava a estudar até 13 horas líquidas em um dia. Eu só fiz isso porque estava muito motivado mesmo, queria muito passar. Hoje eu já não conseguiria mais estudar dessa forma por muito tempo.

Estudei até o último minuto antes da prova. Levei o material para a escola e estudei nos intervalos entre uma prova e outra também. Eu fiz isso porque estava confiante de que na hora da prova não ficaria nervoso. Para conseguir manter a calma usei um método que vi em algum livro de neurolinguística, era mais ou menos assim: um pouco antes da prova eu fechava os olhos e repetia mentalmente “tudo está dando certo”. Aí tentava me imaginar entrando na sala, abrindo o caderno de questões, lendo a prova e só vendo perguntas de assuntos que eu sabia. Eu imaginava as coisas acontecendo da melhor forma possível, com todos os detalhes. E continuava repetindo... “tudo está dando certo”. O resultado disso é que na hora da prova real tudo acabou dando certo mesmo, justamente porque eu estava calmo. 

E é isso aí, escrevi esse depoimento para deixar algumas dicas pro pessoal que acessa o site do ponto, essa foi minha experiência nos concursos, tomara que ela sirva pra ajudar outras pessoas que estão começando agora. Cada um tem um método de estudar, isso é uma coisa muito pessoal, esse método funcionou bem pra mim mas não sei se funcionaria pra todos.

Vicente Paulo: O que você acha do Ponto? Já pensou em, depois desses seus estudos para o concurso de Fiscal de São Paulo (que, aliás, eu já te disse, são dispensáveis, porque você já está aprovado neste concurso de São Paulo, é dar uma olhada rápida nas disciplinas específicas!), passar pelo Ponto novamente para, de alguma maneira, colaborar com candidatos da área fiscal de todo o País? O convite está feito.

Demetrio: Legal, talvez depois que passe esse período de curso de formação e de adaptação ao trabalho na Receita Federal eu pense em dar aulas e escrever sobre alguma matéria de concurso. Por enquanto ainda nem pensei nisso, daqui a três semanas começa o curso de formação de AFRF, não sei como será dessa vez, mas aquele que minha mãe fez em 1998 foi terrível, muito estressante. E durante o curso de formação ainda vou tentar fazer o concurso de ICMS de São Paulo. Na realidade o que eu quero mesmo é trabalhar na Receita Federal, mesmo que lá eu ganhe um pouco menos que um auditor da fazenda estadual. Mas, como nós sabemos, a ESAF fez mais algumas trapalhadas no AFRF quando publicou 3 listas diferentes de aprovados, acho que depois daquilo que aconteceu no concurso da CVM eu fiquei meio traumatizado com esses “rolos” judiciais. Por isso pensei em fazer o concurso ICMS só pra garantir. Mas ainda não estudei quase nada! Olha a “desculpite” de novo... 

Vicente Paulo: Deme (falaram-me que você é conhecido na web assim!), foi uma grande satisfação ter mantido esse contato contigo. Considero-me uma pessoa razoavelmente disciplinada, determinada, e tenho uma grande admiração por pessoas como você, jovem, que pensa grande, que não se acomoda, que vai à luta, na concretização de sonhos. Muito obrigado por esta entrevista, pelo respeito dispensado ao meu trabalho (e ao de outros professores do site). Tenho certeza de que suas palavras “viajarão” pelas mentes de muitos concursandos desse imenso País, de norte a sul, como um grande incentivo para continuarem na luta, para não se entregarem ao desânimo. Muitas realizações, a você e a todos os seus próximos, que têm a felicidade de conviver com uma pessoa tão positiva! É isso, Deme, pessoas como você merecem ir longe, e eu tenho certeza de que você irá, sei que ainda ouvirei falar muito nesse tal “Deme” por aí...