Entrevistas

Flávia e Estevão Eli Vieira dos Santos


Flávia e Estevão Eli Vieira dos Santos, de Brasília (DF)

A história desses dois concursandos vencedores – Flávia e Estevão Eli – tem algo muito bonito, um exemplo e tanto para ser seguido: a união de pai e filha numa árdua preparação para concursos.

Na atualidade, os dois aguardam a nomeação em dois importantes concursos públicos: Estevão Eli (49 anos) foi aprovado no último concurso de Analista de Finanças e Controle Externo do Tribunal de Contas do Distrito Federal (TCDF), realizado em setembro/2002, um dos cargos mais disputados em Brasília; Flávia (22 anos) está aprovadíssima no concurso para Procurador da Fazenda Nacional (PFN), cargo no qual terá a incumbência de executar a dívida ativa de natureza tributária da União, nos termos do art. 132, § 3º, da Constituição Federal.

Mas se hoje estão nessas confortáveis situações, é porque batalharam muito por isso, com uma determinação de dar inveja.

O Senhor Estevão Eli conhece o assunto concurso público há muitos anos: em 1976, ganhando salário mínimo na cidade de Ceres (GO), decidiu dar uma guinada na sua vida profissional, prestando concurso para o grande filão da época, que era a rede bancária oficial. Como nessa época o emprego exigia demais, toda a preparação para os concursos deu-se entre 23 e 24 h e das 4 às 6 h da madrugada. Depois de muito estudo, foi aprovado no concurso do Banco de Brasília - BRB, realizado em outubro/1976, instituição em que trabalha até hoje.

Por mais de duas décadas, o emprego no Banco possibilitou um bom padrão de vida em Brasília, e recursos suficientes para uma boa educação para as filhas. Porém, os tempos passaram, e trabalhar na rede bancária deixou de ser um bom negócio, em face do achatamento salarial imposto por sucessivos governos.

Consciente dessa realidade, mesmo depois de 21 anos sem estudar, Estevão Eli não se deu por vencido e resolveu mudar novamente de vida, por meio da aprovação em novo concurso público. Começou preparando-se para o concurso de Analista do Banco Central, seu sonho pessoal, no início de 1998, no velho e bom ritmo pesado: com uma média de 5 h de estudo por dia, estudou 300 h nos dois meses entre a publicação do edital e a prova do concurso...

A recompensa veio com a divulgação do resultado do concurso do Banco Central: foi aprovado, embora não tenha conseguido ficar entre os classificados no número de vagas oferecido – um grande estímulo para quem estava há mais de 21 anos sem estudar.

Após o concurso do Banco Central de 1998, Estevão Eli continuou firme no seu objetivo, especializando-se em bater na trave em diversos concursos importantes: Banco Central novamente em 2000, Auditor da Receita Federal , Auditor do INSS, Fiscal de Tributos do Distrito Federal, entre outros. Em 2002, deu um basta no azar: foi aprovado numa ótima classificação no concurso do Tribunal de Contas do Distrito Federal (TCDF).

A história da Flávia (22 anos), filha de Estevão Eli, também é um exemplo e tanto de dedicação e sucesso: em 1998, ainda durante a faculdade de Direito, colava uma segunda luminária junto do pai e começavam os estudos às 4 h da manha; decidiu prestar concursos para os Tribunais Superiores, tendo ingressado nos quadros do Superior Tribunal de Justiça (STJ) no ano de 2000; encerrada a faculdade em 2002, continuou firme nos estudos, dividindo a luz das luminárias com o pai, até ser aprovada no concurso para Procurador da Fazenda Nacional em 2003.

“Meu pai sempre foi um grande estímulo para os meus estudos, o tempo todo. Eu parava, olhava para ele e pensava: puxa, ele sempre trabalhou 8 h por dia, cuidou muito bem da esposa e das três filhas, e ainda assim tem todo esse pique para estudar – eu não posso reclamar, não vou decepcioná-lo”, comenta Flávia.

Pronta para entrar em exercício no cargo de Procurador da Fazenda Nacional, Flávia já está iniciando a preparação para vôos mais altos: ela quer ser aprovada no concurso para titularidade de cartório, seguindo o exemplo de seu namorado, que assumiu a titularidade de um cartório em Brasília aos 24 anos de idade.

Bem, que essa linda história de parceria em família, de muito esforço, dedicação e sucesso sirva de exemplo para aqueles que estão buscando uma melhoria de vida via aprovação em concurso público. Para quem reclama de dificuldades, é bom perceber que toda essa história de realização começou com uma decisão do Estevão Eli, quando ainda ganhava um salário mínimo, no interior de Goiás.

No mais, meus agradecimentos à Flávia e ao Estevão Eli – e meus mais carinhosos parabéns pelas conquistas: ao Estevão Eli, pela determinação, pela coragem de dar a virada, reiniciando os estudos depois de 21 anos de idade; à Flávia, pela lição de maturidade dessa “menina”, que aos 22 anos de idade ingressará num dos cargos jurídicos de altíssimo nível do nosso País; e aos dois, pelo exemplo de parceria, incentivo e carinho compartilhados durante a preparação. Tomara que um dia Deus me dê de presente uma filha assim – e que Deus me faça um pai assim, como o Estevão Eli, presente, incentivador...

Vicente: Estevão Eli, qual decisão (e que preparação) foi mais difícil na sua vida? Aquela de 1976, para o ingresso no Banco, ou agora, depois de 21 anos sem estudar, para a aprovação no TCDF?

Estevão Eli: Sem dúvida nenhuma foi a última, tendo em vista que atualmente os concursandos estão muito melhor preparados, e, com o advento da internet, praticamente todos os concursos passaram a ser nacionais, o que fez com que a concorrência aumentasse drasticamente.

Vicente: Quando os amigos ficaram sabendo que você, depois de 21 anos, iria voltar a preparar-se para concurso, qual foi a reação deles?

Estevão Eli: De uma pequena parte foi de ceticismo, mas da maioria foi de apoio e incentivo.

Vicente: Em todas as preparações, você trabalhava durante o dia. De onde tirar tanta determinação para horas de estudo após 8 h de trabalho?

Estevão Eli: Tudo depende da motivação. Quando a pessoa está motivada, até o cansaço desaparece. Como eu tinha muita vontade de aprender e alcançar o meu objetivo, Deus renovava as minhas energias e eu sempre conseguia cumprir as horas programas de estudo sem muito sacrifício.

Estevão Eli: Nada é impossível. Só depende de você. Se o seu objetivo é passar em um concurso público, arregace as mangas e estude muito. Seja disciplinado e exigente com você mesmo, que, com a graça de Deus, você será mais que vencedor.

Vicente:
 Bem, Flávia, agora é com você. De onde você tirou essa determinação toda?

Flávia:
 Sempre lutei com afinco pelos meus objetivos. Sempre tive vontade de crescer rápido e não gosto de perder tempo. Tenho um grande exemplo de disciplina e força de vontade: o meu pai! E a partir de seus incentivos, que também podem ser somados à torcida da minha mãe, consegui alcançar o alvo. 

Vicente:
 Em que momento você começou a pensar no assunto concurso público?

Flávia:
 No ano de 1998, quando ingressei na faculdade. Com o início do assunto relativo à privatização dos Bancos, meus pais começaram a se preocupar com as condições de vida e passaram a me dar força para ingressar no serviço público. 

Vicente:
 Normalmente as pessoas fazem uma imagem equivocada de pessoas vencedoras como você, ficam todos pensando que se trata ou de uma “super dotada”, de “excepcional mente brilhante”, ou de uma “nerd” que nada mais faz na vida a não ser estudar. O que você tem a dizer sobre isso?

Flávia:
 Esses “títulos” são engraçados! Sou uma pessoa normal, gosto de sair, ir à igreja, passear, namorar e refrescar a cabeça. Ocorre que também gosto de estudar, o que me fez separar um período do dia para me dedicar a essa atividade. Só isso! Minha vida não parou. Apenas passei a dividir o tempo.

Vicente:
 O que você considera mais importante numa preparação para um concurso difícil, como é o caso de Procurador da Fazenda Nacional?

Flávia:
 Muita disciplina e certeza dos objetivos a serem alcançados. Não dá pra titubear! A partir daí é que se consegue o ânimo para estudar, estudar muito.

Vicente:
 Que conselhos você daria para pessoas jovens iguais a você, que terminaram a faculdade há pouco e que estão começando a pensar em prestar concurso público?

Flávia:
 Não parem de estudar, nem que os estudos sejam restritos a informações obtidas em salas de aulas de cursos diversos. As chamadas “férias” da faculdade podem estender-se por muito tempo e vai ser preciso gastar muito mais energia para recuperar o período de inércia! O diferencial está na habitualidade dos estudos.

Vicente:
 Digo sempre para os meus alunos que a “maturidade” é ingrediente fundamental numa preparação para concurso. Como encontrar o equilíbrio entre diversão, família, namorado e estudos?

Flávia:
 É muito difícil! Porém, acredito que o equilíbrio veio com a junção do apoio e compreensão dos meus pais, irmãs, amigos e namorado, com a determinação que eu tinha em me esforça o máximo, pois seria recompensador. Eu sabia que o tempo era curto, além de que, para ter chance frente aos concorrentes, seria preciso abdicar um pouco do lazer. 

Vicente:
 Estudar para concurso junto com o seu pai deve ter sido uma experiência muito legal. Quais as melhores lembranças dessa época?

Flávia:
 Muitos momentos trazem saudades... Gostava muito de ver meu pai empenhado nas matérias jurídicas, muitas vezes mais do que eu, que era estudante de direito! Adorava quando ele respondia as minhas perguntas.

Vicente:
 Quem dava bronca em quem?

Flávia:
 Acho que as broncas do meu pai eram indiretas... ele perguntava quantas horas eu havia estudado no dia, ou em que pé estava o rendimento dos estudos, e eu considerava esses comentários como broncas! Da minha parte, as broncas se resumiam nos pedidos para que ele parasse de estudar por alguns dias!

Vicente:
 Que tal deixar uma mensagem final para os concursandos, uma mensagem com a “cara da concursanda Flávia”?

Flávia:
 Pessoal, é preciso confiar em DEUS, que sabe o melhor para as nossas vidas e é o excelente “remedinho” para a ansiedade. Lembro-me de um versículo bíblico que diz que “o temor do Senhor é o princípio da sabedoria” (Provérbios 15: 31). Sempre me lembro disso... Acreditar que somos capazes é um passo importantíssimo também. Não devemos “entrar na batalha” já derrotados. Estudar com ânimo, disciplina, força de vontade e alegria fará a diferença. Encarem os estudos como algo prazeroso. Estudar para um concurso público é como uma fase da vida que irá culminar numa grande vitória. Perseverança é fundamental. Desejo a todos muito sucesso e que DEUS os abênçõe!!! FLÁVIA.



Vicente: A Flávia diz que você é muito disciplinado durante a preparação, nos horários de estudo etc. Como é isso?

Estevão Eli: Em tudo na vida é preciso ter disciplina e determinação, mesmo naquele dia em que não se tem muita concentração; pois caso contrário, a acomodação vem e aí não se chega a lugar nenhum. Para todo concurso eu fazia uma tabela diária de horas de estudo, que era a carga máxima que a princípio, eu achava que conseguiria estudar. Mas graças a Deus, sempre estudei no mínimo 50% a mais do programado.

Vicente: Quais as melhores lembranças das madrugadas de estudo junto com a Flávia? Quem cochilava mais? (risos)

Estevão Eli: Interessante é que dificilmente o sono nos rondava, pois nós procurávamos estar realmente concentrados em cada linha da matéria de nossas apostilas.

Vicente: Como conciliar bem, como encontrar o equilíbrio entre família (esposa, filhas, parentes) e preparação para concursos? Existe algum segredo para evitar grandes desgastes?

Estevão Eli: Quando a pessoa é disciplinada, as demais da casa a respeita. A minha querida esposa e minhas não menos queridas filhas, sabendo de minha determinação, não me incomodavam no meu período de estudo. Mas é preciso ter sabedoria, pois não se pode abandonar as pessoas que amamos.

Vicente: Que conselhos você daria para uma pessoa próxima à sua realidade, com família e trabalhando 8 h por dia, que pretenda preparar-se para concurso?

Estevão Eli: Muita força de vontade, disciplina e determinação, não dando lugar ao desânimo. Programe-se para os seus estudos e cumpra fielmente, todo dia, pelos menos o mínimo programado. Se você estipulou que diariamente iria estudar a partir das 4 horas da manhã, não deixe nunca de levantar e cumprir a sua carga horária, pois se em uma dessas madrugadas estiver chovendo e você não levantar, no outro dia, com certeza, você também não terá disposição para isso. Seja muito exigente e rígido com você mesmo. Tenha em mente que o pódio é para poucos, e com certeza os acomodados não o alcançarão.

Vicente: Qual a maior dificuldade encontrada por você nesta última preparação?

Estevão Eli: Era a falta de tempo para estudar. Eram dezoito matérias e eu como sempre queria rever todas elas. Nunca fiz qualquer concurso por fazer. Queria sempre ser vitorioso, pois sou muito exigente comigo mesmo, e para isso é preciso estar muito bem preparado. 

Vicente: A maturidade e o sucesso da Flávia certamente têm muito a ver com a boa educação, com o exemplo e com o estímulo dados em casa. Como os pais podem influenciar positivamente durante a preparação dos filhos para um concurso?

Estevão Eli: Graças a Deus minhas filhas são muito estudiosas e inteligentes. Sempre foram as primeiras colocadas nos colégios em que estudaram. A Flavinha não é exceção com relação a estudos para concursos. O maior estímulo que dávamos era pagando, logicamente com muito sacrifício, alguns cursinhos preparatórios. O resto foi com ela. E como valeu a pena.

Vicente: Deve ser muito legal ver uma filha tão jovem com um futuro tão brilhante pela frente. Vocês dois têm outros projetos de estudo juntos?

Estevão Eli: Como o projeto da Flavinha é passar no concurso para cartório que exige formação em direito, e como sou contador, não poderei me inscrever para estudarmos juntos. Além do mais, já estou por demais satisfeito com o meu êxito no concurso do TCDF. Por enquanto, estou apenas aguardando a convocação do tribunal, apesar de que o meu sonho continua sendo o de trabalhar no Banco Central. 

Vicente: Qual a mensagem que você deixaria para pessoas como você (não tão mocinhos, pais de famílias, que estejam há muitos anos sem estudar), que pretendem dar uma virada de mesa, preparando-se para concurso?