Entrevistas

Rodrigo e Vanessa Bettamio


Rodrigo e Vanessa Bettamio, do Rio de Janeiro (RJ)

VANESSA E RODRIGO BETTAMIO são Auditores-Fiscais da Receita Federal (AFRF) aprovados no último concurso, nas áreas de Aduana e Auditoria, respectivamente.

Os dois se prepararam para o concurso de AFRF na cidade do Rio de Janeiro, mas optaram pela 10ª Região Fiscal, e atualmente exercem o cargo no Estado do Rio Grande do Sul.

Rodrigo, graduado em Ciências Contábeis e Letras, tornou-se referência quando o assunto é aprovação em concurso público, com toda a justiça do mundo: ele foi o PRIMEIRO COLOCADO NACIONAL NO AFRF–2003/4. Mas, modestamente, justifica-se: “a minha formação acadêmica e o fato de já exercer o cargo de Técnico da Receita Federal facilitaram e agilizaram a minha preparação para o AFRF”.

Vanessa, graduada em Ciências Econômicas e sem nenhuma experiência anterior em concursos públicos, parou de trabalhar e mergulhou de vez na preparação para o AFRF: “às vezes, parecia papo de vagabundo deixar o emprego e ficar em casa o dia todo estudando para uma prova que ainda nem tinha data marcada”.

No passado, foram visitantes deste site, como candidatos ao cargo de AFRF (tive a felicidade de receber um e-mail dos dois, de agradecimento pelo apoio do site à preparação, que, de tão respeitoso, foi divulgado na minha página, no Ponto nº 186); hoje, como colegas AFRF, estão por aqui para colaborar com a preparação de milhares de candidatos por esse Brasil afora, repassando suas experiências – como concursandos e Auditores.

Prof. Vicente: Começarei com uma pergunta light: fiquei sabendo que você, Rodrigo, andou ministrando aulas de exercícios para os alunos do meu amigo Mauro lá no Rio, no Curso Academia do Concurso Público; e neste site Ponto dos Concursos, quando teremos você por aqui, como colaborador?

Rodrigo: É verdade. Em 2004, eu elaborei e corrigi alguns simulados para o pessoal lá da Academia do Concurso Público. Mas, devido à distância entre Rio e Uruguaiana, ficou impossível dar seguimento ao projeto.

Colaborar com o Ponto dos Concursos?! Sério?! É só me dizer como... 

Prof. Vicente: Estou falando seriíssimo, um percentual muito grande dos nossos visitantes prepara-se, exclusivamente, para o concurso de AFRF, e sei que você tem muito conhecimento/experiência para repassar. Bem, o convite está feito, publicamente, aqui só não tem salário! (risos)

Rodrigo: Eu teria muito orgulho de colaborar com o Ponto dos Concursos – na minha opinião, um dos principais instrumentos da verdadeira “nacionalização” do acesso ao serviço público federal. 

Prof. Vicente: Rodrigo, você já deve ter respondido a essa pergunta milhares de vezes, mas não resisti: qual a sensação de saber que foi o primeiro colocado nacional no concurso de AFRF?

Rodrigo: É muito boa, mas ao mesmo tempo muito estranha. Se por um lado a coisa toda é muito envaidecedora, por outro é engraçado perceber as expectativas (comportamentais, físicas etc) que as pessoas têm em relação aos primeiros colocados. E, quando você é objeto dessas expectativas, a coisa realmente fica meio estranha...

Prof. Vicente: E você, Vanessa, como se sentiu quando viu que vocês dois haviam sido aprovados no mesmo concurso?

Vanessa: Fiquei muito feliz. Foi como tirar um caminhão das minhas costas. Eu tinha certeza que o Rodrigo ia passar – o que aumentava e muito a minha responsabilidade. Estava muito bem preparada, mas essa história de tudo depender das notas das outras pessoas é de enlouquecer: às vezes, você pode ir muito bem e não passar, porque um cara acertou uma questão a mais...

Prof. Vicente: Vocês estudaram juntos para o AFRF, nas disciplinas comuns?

Vanessa: Não, nós nunca estudamos juntos. Estudamos no mesmo ano, mas não juntos. Temos métodos de estudo muito diferentes. A gente trocava figurinha, fazia exercícios juntos, comentava pontos interessantes ou complicados da matéria... mas, na hora de estudar, era cada um pro seu canto. 

Prof. Vicente: O fato de “concursando namorar concursanda” foi positivo na preparação de vocês, ou houve muito estresse?

Vanessa: Pelo contrário, acho que foi super positivo, porque concursando é uma pessoa meio neurótica, só pensa e fala em concurso, e ninguém que não esteja estudando pra concurso consegue agüentar a gente. Aqui não teve estresse nenhum: o assunto interessava aos dois.

Prof. Vicente: Vanessa, muita gente tem vontade, mas não tem coragem de parar de trabalhar para estudar para concurso. Não é muito arriscado? Não surge uma pressão, uma cobrança muito grande pela aprovação nessa situação? Como você manteve o equilíbrio?

Vanessa: Realmente foi bem difícil pra mim. O que mais me deixava nervosa é essa história de não ter a menor idéia de quando vai sair o edital, se vai sair esse ano, se vão cair as matérias que eu estudei... Além do mais, parece papo de vagabundo deixar o emprego e ficar em casa o dia todo dizendo que está estudando pra uma prova que nem se sabe quando vai acontecer, fica meio vago. Como eu não tinha experiência em concurso público, me desesperava com os boatos, achava muito estranha essa história de ficar esperando edital. 

Prof. Vicente: Rodrigo, você acha que há algum “segredo” para uma aprovação rápida num concurso público?

Rodrigo: Não. Na minha opinião, nem existe essa coisa de aprovação rápida em concurso público. Porque é impossível aferir corretamente o tempo de preparação de um concursando. E, se o tempo de preparação é indefinível, não há lógica em usar os termos “rápido” e “lento”.

Deixa eu me explicar melhor. Se sou formado em Direito e Contabilidade, por exemplo, e estudo seis meses especificamente para AFRF, qual o meu tempo de preparação? E se sou formado em Odontologia, nunca gostei de ler e me dediquei durante cinco anos ao concurso de AFRF? E o engenheiro poliglota que estudou onze meses, mas que já é TRF?

Entendeu? Não dá para medir o tempo de preparação de cada aprovado sem levar em conta uma variável que influi demais no seu desempenho: a respectiva história intelectual – e essa, essa começa no nascimento e depende de muitos fatores... 

Prof. Vicente: Vocês poderiam fazer um resumo da metodologia de estudo que utilizaram durante a preparação (como começaram a estudar, seleção de material de estudo, como distribuíam a carga diária de estudo, quantas horas estudavam por dia etc.)?

Rodrigo: Antes de mais nada, é importante dizer que, em 1997, eu já havia estudado para TTN. Naquela época, eu descobri o que era concurso público, fiz turma básica, tive o meu primeiro contato com Direito etc – ou seja, sofri o que sofre todo mundo que começa a estudar do zero. Depois que passei no concurso, me afastei totalmente desse ambiente: fui estudar literatura, filosofia e coisas afins... Entretanto, o que gostaria de ressaltar é que – por mais afastado que estivesse do ambiente de concurso público – eu já havia feito o primeiro contato, eu já tinha uma noção de boa parte da matéria. E esse fato talvez torne a minha metodologia de estudo para AFRF não muito adequada para aqueles candidatos que estão começando do zero agora. Mas, mesmo assim, vamos a ela.

Eu separei as matérias por mês: em fevereiro, estudei Constitucional; em março, Tributário; em abril, Administrativo; em maio, Contabilidade; em junho, Matemática Financeira e Estatística. Por conta da minha formação acadêmica, não estudei Português nem Inglês.

Toda essa teoria vinha acompanhada da resolução de exercícios, os quais iam ocupando cada vez mais o meu tempo à medida que as matérias iam se acumulando: se em março eu ocupava 10% de meu tempo diário de estudo com a resolução de exercícios (só havia estudado Constitucional); no fim de julho, os exercícios já ocupavam praticamente 100% de meu tempo. Além disso, quando terminei de estudar “os Direitos” e Contabilidade – ou seja, mais ou menos em junho –, comecei a fazer turma de simulado aos sábados (nesses simulados, exercitava também Português).

De meados de julho até o início de setembro (quando saiu o edital), me dediquei quase que exclusivamente à leitura das aulas e artigos que encontrava na internet e à resolução de exercícios e simulados: fazia-os, auto-corrigia-os, assistia às correções, reestudava algum ponto obscuro etc.

A partir da divulgação do edital, além dos exercícios e simulados, comecei a estudar Ética, Organização do MF e as matérias específicas. 

Quanto à carga diária de estudos, eu estudava, em média, umas cinco ou seis horas por dia. Em outubro – mês em que tirei férias – essa carga de estudos subiu um pouco: passou para umas dez horas diárias. 

Pois é, acho que, em linhas gerais, foi esse o meu esquema de estudo. 

Vanessa: Eu comecei estudando as matérias básicas, aquelas que com certeza vão cair na prova. Primeiro comecei pelos Direitos: Direito Constitucional, Administrativo e Tributário (como me formei em Economia, nunca tinha estudado Direito na vida). Acho que o Direito exige um primeiro contato mais vagaroso, senão a coisa fica muito superficial. E a prova de Direito exige mais do que uma simples “decoreba”. 

Depois veio Contabilidade, meu karma, a matéria que eu tive mais dificuldade para entender. Nesse período eu continuava a estudar os direitos, fazendo nessa etapa exercícios e provas. O meu estudo de Português foi gradual, aprendi na verdade através de exercícios, muitos exercícios do professor Décio Sena. Ele não só me ensinou a matéria, mas, a meu ver, o mais importante: a fazer a prova. As provas de Português estão bem longas e com textos bastante difíceis. Por último vieram Estatística e Matemática Financeira, porque acho mais fácil de aprender e também de esquecer. São muitas fórmulas e um raciocínio muito moldado por exercícios. Se a gente para de fazer exercícios por um tempo perde o ritmo. Como eu já sabia Inglês só fiz as provas antigas para entender como funcionavam, mas para quem não sabe nada ou muito pouco acho que o melhor é dar uma atenção especial, porque as provas estão em um nível bem alto, um vocabulário bem vasto e técnico. 

Prof. Vicente: Vocês faziam resumos das disciplinas? Faziam muitos exercícios, resolviam provas de concursos anteriores?

Rodrigo: Não, nunca consegui fazer resumos. Sou adepto do esquema leitura-exercícios-leitura: vou atrás de livros que expõem a matéria da forma mais sistemática possível, leio-os com muita atenção, rabisco-os com muitas anotações, tentando compreender o máximo de seu conteúdo, e parto para os exercícios. Quando, na resolução de exercícios, surge alguma dúvida ou detalhe não percebido anteriormente – volto para rabiscar mais os livros... 

Vanessa: Eu preciso escrever para memorizar a matéria. Por isso gravava as aulas e as transcrevia pro caderno. Assim eu conseguia fixar melhor a matéria. E é realmente impressionante como às vezes durante a aula muitas coisas passam despercebidas. Fazia esquemas das matérias, muitos exercícios (inclusive todas as provas mais recentes da ESAF). Não basta saber a matéria, é preciso treinar pra ganhar inteligência de prova, e rapidez, afinal o tempo acaba sendo curto.

Prof. Vicente: E simulados, vocês fizeram? Caso a resposta seja positiva, esses simulados foram úteis?

Rodrigo: Fiz. Para mim, os simulados são úteis por várias razões, das quais cito apenas três: primeiramente – e, talvez, principalmente (já que essa razão independe da qualidade das questões) – porque eles familiarizam o concursando com o chamado “stress de concurso”. O fato de o candidato acordar cedo, deslocar-se de sua casa até o local do simulado, sentar numa sala com outros candidatos, estar exposto a barulhos e outros inconvenientes que podem surgir durante a prova, entregar o cartão-resposta, aguardar o gabarito, comparar a sua nota com a dos demais concorrentes... tudo isso faz com que o concursando antecipe o “stress” do dia da prova e se acostume com ele. E isso é uma incomensurável vantagem psicológica.

 Em segundo lugar, se o nível do simulado for bom, o concursando terá um ótimo instrumento para a sedimentação do aprendizado e para a compreensão de pontos obscuros das matérias. Isso porque entendo por bom simulado aquele em que há, ao lado de questões que fixam o conhecimento teórico, algumas outras que colocam determinado ponto da matéria sob uma nova perspectiva, facilitando o seu entendimento por intermédio do exemplo ilustrativo.

Por fim, o simulado também “simula a competição”, o que estimula o candidato a continuar estudando quando o concurso demora a acontecer. Porque ninguém consegue ficar muito tempo no seu ápice se não for estimulado para tanto. E é esse estímulo que o simulado pode trazer: se numa semana você está entre os primeiros e na outra cai para o 23º lugar, você vai estudar um pouco mais na semana seguinte.

Tal lógica pode auxiliar também aquele candidato que ainda não teve tempo de chegar ao nível ótimo: se ele está em 165º numa semana e na outra sobe para 98º, ele vai se animar a continuar estudando...

Na verdade mesmo, o cerne da discussão acerca da utilidade dos simulados é que, à exceção da primeira razão acima citada, todas as outras dependem da qualidade de suas questões – o que, por sua vez, depende dos valores éticos de cada professor. 

Vanessa: Fiz vários simulados, muito mais por influência do Rodrigo. Mas depois parei. Eu reagia de uma forma diferente quando pegava uma prova de contabilidade, por exemplo, cheia de pegadinhas, bem mais complicada do que as aplicadas pela ESAF, e acertava 20% da prova. Eu passava a semana fazendo exercícios e provas e chegava no sábado cheia de confiança... e só acertava 20%! Ficava muito deprimida. Eu já estudava o meu máximo e estava muito bem nos exercícios e provas, aí vem um simulado e me derruba. Por isso parei de fazer, senão eu podia acabar desistindo. Mas, no caso de algumas matérias, eu fazia alguns simulados em casa, como Português, Matemática Financeira, Estatística e Direito Administrativo.

Prof. Vicente: No período entre a publicação do edital e a realização das provas, o que vocês aconselham em termos de estudo? Como o candidato deve estudar nesse período?

Rodrigo: Bem, o ideal é já ter estudado tudo e deixar esse período para os retoques finais. Mas como o ideal não existe, o melhor mesmo é chegar a essa fase com aquelas matérias clássicas já no sangue. Ainda mais agora que a gente não sabe como vai ser o próximo concurso de AFRF. Portanto, o meu conselho é o seguinte: estudem Português, Inglês, Contabilidade, Direito Constitucional, Direito Tributário, Direito Administrativo, Matemática Financeira e Estatística. Quando sair o edital, dediquem todo o seu tempo no estudo das “novidades” e na resolução de exercícios. 

Vanessa: Eu estudei as matérias específicas para Aduana só depois do Edital, antes não tinha a menor idéia do que se tratava. Nesse período, somos obrigados a estudar também as surpresas do edital, como Organização da SRF. Acho que, quando sai o edital, já devemos estar sabendo as matérias clássicas muito bem. E continuar fazendo provas e exercícios.

Prof. Vicente: Se vocês tivessem que citar um só ponto que tenha sido determinante na aprovação de vocês, que ponto seria esse?

Rodrigo: Obstinação.

Vanessa: Muita força de vontade e determinação.

Prof. Vicente: Quais os erros que vocês cometeram, e que não cometeriam mais numa nova preparação?

Rodrigo: Não sei se é um erro, também não sei se sou capaz de mudar, mas fui muito detalhista, muito perfeccionista. 

Vanessa: Talvez desse menos atenção aos boatos, eles chegam a atrapalhar a sua preparação. Fora o fato gerarem muita ansiedade desnecessária. 

Prof. Vicente: E no geral, qual o maior erro que um candidato normalmente comete durante uma preparação para concursos? 

Rodrigo: Talvez o mais sério de todos seja dar espaço para o esquecimento. O grande segredo para a aprovação num concurso público da envergadura de um AFRF é arranjar um método para não esquecer os pontos já estudados. São muitas matérias, uma infinidade de informação, é imprescindível avançar sem apagar os rastros. Daí a importância de entender a lógica da matéria (estudando-a sem pressa) e de estar sempre fazendo e refazendo exercícios. 

Vanessa: Acho que é a falta de organização e assiduidade. Como a gente não tem mais aula, nem “dever de casa” para apresentar a ninguém, a gente pode acabar amolecendo e não estudando todos os dias. Estuda na sexta-feira, não estuda no final de semana, aí só 2 horinhas na segunda... É importante não só planejar bem o que estudar, quantas vezes por semana e quantas horas, mas também cumprir o que foi planejado.

Prof. Vicente: No dia de fazer a prova, vocês tiveram alguma estratégia especial? Como deve se comportar um candidato no dia da prova? Por onde começar a responder? Como controlar o tempo e a ansiedade?

Rodrigo: Bem, na hora da prova, só existem dois problemas: controlar o tempo e os nervos. Para resolvê-los, cada um deve adotar a estratégia que mais lhe convier: mas é muito importante traçar uma estratégia antes da prova. 

Como exemplo, aí vai a minha estratégia na prova que reuniu Português (20 questões), Inglês (10), Matemática Financeira (5), Estatística (5), Ética (10) e Organização do MF (10) no último concurso para AFRF. Eu já sabia de antemão que o maior problema nessa prova seria o tempo: 5 horas. Sabia também que Ética e Organização do MF eram de resolução muito rápida – era ler a questão e marcar a resposta (ou você sabia a resposta ou não). Outros dados importantes na definição da minha estratégia: sei Inglês, tenho facilidade em Português e não tenho muita paciência para Matemática Financeira e Estatística. Sopesando tudo isso, tracei o meu roteiro para a prova.

Começaria fazendo as primeiras 10 questões de Português, para ganhar moral e acalmar os nervos (para adotar essa estratégia, você tem que ter absoluta confiança no seu desempenho, independentemente do nível da prova escolhida para ser a primeira, caso contrário você pode ficar mais nervoso ainda). Prazo máximo para essa primeira etapa: 1 hora. Passaria depois para a resolução de todas as questões de Matemática Financeira e Estatística (prazo máximo: 1 hora). Faria Inglês (prazo máximo: 1 hora) e voltaria para resolver as últimas 10 questões de Português (prazo máximo: 1 hora). Se tudo desse certo, em meia hora, resolveria as provas de Ética e Organização do MF, e sobrariam 30 minutos para marcar o cartão-resposta e decidir alguma questão deixada para trás. 

Mas é importante obedecer o plano traçado. Por exemplo, se estourasse o tempo de resolução das provas de Matemática Financeira e Estatística, eu partiria para a próxima, deixando as questões que faltaram para o final (se sobrasse tempo) ou para o chute... 

Vanessa: Comecei fazendo as questões de Estatística e Matemática Financeira, porque acho melhor fazer as provas de cálculos com a cabeça descansada. Depois parti para Português: como era uma prova muito longa e cansativa, achei melhor ser a segunda, inclusive porque se faltar 1 hora para o final da prova não há a menor condição de ler aqueles textos enormes. Também acho muito importante marcar as alternativas que achamos melhores, quando não sabemos a resposta ao certo, porque no final não vai dar para ler tudo e aí só precisaremos ler as 2 ou 3 alternativas que ficamos em dúvida. Depois resolvi as provas de Ética e Organização do MF: são as provas em que a gente sabe e marca rápido, ou não sabe e vai ter que “chutar” (o que também é rápido). Para o final, deixei Inglês, porque eu tenho mais facilidade. Também tive que retornar às questões duvidosas, principalmente de Português, antes de marcar o cartão-resposta. 

Prof. Vicente: Qual a disciplina que vocês tiveram mais dificuldade? Como superaram?

Rodrigo: Acho que foi Auditoria: era muita coisa para decorar em pouco tempo (só comecei a estudar Auditoria depois do edital). Mas dei sorte, a prova veio muito fácil. 

Vanessa: Para mim foi Contabilidade, sem dúvida. Eu não gosto da matéria. Tive que correr atrás... Primeiro fiz uma turma básica, depois comprei o livro do professor Ricardo Ferreira e aí sim, aprendi mesmo! Li do início ao fim, anotando tudo e fazendo todos os exercícios. Depois fiz turmas de exercício. Adorei as turmas de exercícios com o professor Antônio César. E resolvi todas as provas de contabilidade que vi pela frente. No final estava até empolgada e a contabilidade não foi nenhum obstáculo na prova. 

Prof. Vicente: Se você fosse chamado, hoje, para orientar os estudos de um candidato que se prepara para o próximo AFRF, quais seriam os seus conselhos básicos?

Rodrigo: Tudo iria depender do nível de conhecimento prévio do candidato. Se ele estivesse bem no início mesmo, naquela situação de quem acaba de saber da existência de concurso público, eu indicaria um bom cursinho para ele, uma “turma básica”. Nesses casos, é o melhor a se fazer: antes de mais nada, o iniciante precisa de uma bússola. Mas é importante escolher o curso pelos professores: um bom professor nessa etapa facilitará e encurtará sobremaneira o caminho. 

Em um segundo momento, sugeriria que ele elaborasse seu próprio roteiro de estudos e o seguisse, levando em conta a sua formação intelectual e sem dar ouvidos aos boatos. Ressaltaria a importância da inclusão, nesse roteiro de estudos, de uma boa dose de exercícios (ou qualquer outro antídoto contra o fantasma do esquecimento).

Por fim, quando ele estivesse mais seguro em relação ao seu desempenho, indicaria uma boa turma de simulados. 

Prof. Vicente: Os cursinhos que freqüentaram contribuíram de alguma maneira para o sucesso de vocês?

Rodrigo: Sem dúvida.

Vanessa: Com certeza, para mim foram fundamentais. 

Prof. Vicente: E sobre a seleção de material para estudo, você estudou por grandes obras, ou por obras mais simples, escritas especificamente para concursos?

Rodrigo: Nem tanto ao mar nem tanto à terra. Acho que a melhor resposta a essa pergunta é a relação dos principais livros pelos quais estudei. 

Em Direito Constitucional, utilizei o livro do Alexandre de Morais e o “Aulas de Direito Constitucional” da Juliana Maia (a partir das aulas do Vicente Paulo). Em Direito Tributário, utilizei o livro do João Marcelo Rocha. Em Direito Administrativo, utilizei o livro escrito a quatro mãos por Vicente Paulo e Marcelo Alexandrino. 

Quanto à Contabilidade, a coisa é um pouco mais complicada. Eu estudei consultando o FIPECAFI e fazendo os exercícios do livro do Ed Luiz Ferrari. Mas sou formado em Contabilidade. Para quem está começando, não acho esses livros uma boa. Talvez os livros do Ricardo Ferreira sejam melhores. 


Prof. Vicente: Vocês foram parar em Uruguaiana, fronteira com a Argentina (pelos critérios de lotação da SRF, no caso de aprovação de cônjuges, o melhor classificado deverá ir para a localidade designada para aquele de mais baixa classificação). Qual o segredo para viver bem longe de casa, nesse período inicial de AFRF (especialmente no caso de vocês, que são da Cidade Maravilhosa!)? Vocês já viajaram muito pelo Mercosul? (risos)

Vanessa: Não tem muito segredo. A gente tem é que pensar que conseguimos passar no concurso que tanto queríamos e que para isso temos que passar um período longe de casa. Não é nada fácil, mas não tem jeito.

A gente viaja bastante pela Argentina e Uruguai, e estamos programando uma grande viagem de carro para o Chile. Além disso, sempre que dá, voltamos para o melhor lugar do mundo: a nossa casa. 

Prof. Vicente: Há muitos AFRF novos em Uruguaiana? Como está dividida a lotação dessa Unidade entre AFRF novos e antigos?

Rodrigo: A rotatividade de Fiscais em Uruguaiana é grande. A quase totalidade dos que ingressam na Receita por aqui vem de outros estados, e todos desejam retornar... Viemos em 32 para cá: 28 de Aduana, 2 de Auditoria e 2 de PAT – e, à exceção de uns poucos, o mesmo contingente de AFRFs antigos já foi embora. 

Prof. Vicente: Sei que será trabalhoso, mas você poderia fazer um resumo das atividades que um AFRF poderá desempenhar numa Unidade primária como Uruguaiana? Em que tipo de atividade um AFRF recém-nomeado poderá ser alocado?

Rodrigo: Bem, Uruguaiana tem os mesmos setores das demais Delegacias: Fiscalização, Orientação Tributária, Acompanhamento e Controle de Processos, Tecnologia, Pessoal e CAC. A peculiaridade da DRF/Uruguaiana é que aqui se exercem também as atividades de controle aduaneiro.

Vou tentar resumir as atividades de cada uma dessas áreas:

Fiscalização: nesse setor, o AFRF pode trabalhar na fiscalização externa propriamente dita (especializando-se em pessoa física ou jurídica), ou trabalhar internamente, seja na análise das declarações que caem em malha, seja na programação dos contribuintes que serão fiscalizados. 

Orientação Tributária: aqui em Uruguaiana, o AFRF lotado no SEORT pode trabalhar com informação em mandado de segurança; pareceres em processos relativos à pena de perdimento, restituição, compensação e ressarcimento de tributos; análise das solicitações de benefícios fiscais do IPI etc.

Acompanhamento e Controle de Processos: como o próprio nome diz, essa área é a responsável pelo acompanhamento dos processos que circulam pela DRF\Uruguaiana. Além disso, é lá que se acompanha e controla a arrecadação dos grandes contribuintes. 

Tecnologia: é a área responsável pelos computadores e seus programas.

Pessoal: é a área responsável por tudo que seja relativo a recursos humanos. Também é a responsável pelos materiais utilizados na Delegacia e pelas licitações.

CAC: área de atendimento ao contribuinte (CPF, CNPJ, Certidão Negativa etc).

Controle aduaneiro: resumidamente, é a área que verifica a documentação e as mercadorias que são exportadas ou importadas via Uruguaiana. 

Um fiscal recém nomeado pode ser alocado em qualquer uma dessas áreas. 

Prof. Vicente: Você acha que a atual remuneração do cargo de AFRF é satisfatória para a formação de um bom quadro de Auditores?

Rodrigo: Não. Tudo é uma questão de para onde você olha. Se você olhar para o salário mínimo, é claro que um salário inicial de R$ 7.500,00 é sensacional (o salário final gira em torno dos R$ 9.500,00). Mas, se você olhar para as atividades exercidas e para o valor de mercado dessas atividades, você vai perceber que a sua remuneração não passa de razoável. Pense bem: quanto vale um bom fiscal com 15 anos de Receita? Imagine o quanto esse fiscal ganharia como consultor tributário... 

Se a Receita quiser adquirir e segurar bons fiscais, ela vai ter que rever a sua política salarial; a estabilidade sozinha já não está dando conta do recado. 

Prof. Vicente: Falem um pouco das atuais atividades de vocês, do que fazem na Receita Federal em Uruguaiana (RS).

Rodrigo: Não tenho nada do que reclamar: fiz Auditoria e estou trabalhando na fiscalização externa de pessoa jurídica. É muito interessante: não há rotina, cada procedimento fiscal é totalmente diferente dos demais. É uma área em que se aprende muito. 

Vanessa: Fiz Aduana, mas estou trabalhando com mandados de segurança e processos de pena de perdimento e restituição de imposto de renda. Apesar de não estar na área em que prestei o concurso, estou gostando do trabalho. 

Prof. Vicente: Correm boatos de que o próximo AFRF não será mais dividido por áreas de especialização (Aduana, Auditoria e PAT). Qual a sua opinião a respeito? 

Rodrigo: Sob a ótica do concursando, acredito que a divisão por áreas seja melhor, principalmente porque restringe a concorrência. 

Agora, particularmente, sou a favor de uma prova só, acho mais justo. Não concordo com o fato de haver provas de diferentes dificuldades para o mesmo cargo. Ainda mais se considerarmos o que pode acontecer na prática: o sujeito faz Auditoria e vai trabalhar na Aduana. Como, no último concurso, a prova de Aduana foi bem mais difícil que a de Auditoria, houve um candidato não aprovado em Aduana que foi passado para trás. Entendeu?

Prof. Vicente: O que poderia melhorar no processo de seleção e treinamento de novos AFRF?

Rodrigo: Se dependesse de mim, o concurso não seria dividido por áreas, e seriam aplicadas as seguintes provas: Português, Redação, Matemática Financeira, Informática, Contabilidade, Direito Constitucional, Direito Tributário, Direito Administrativo, Legislação Aduaneira e Legislação dos Tributos Federais. E mais nada.

Aqueles que fossem aprovados no concurso escolheriam, obedecendo a ordem de classificação, tanto as cidades quanto a área (Aduana, Auditoria, PAT ou Tributação) em que gostariam de trabalhar.

O Curso de Formação, por sua vez, seria uma espécie de escritório-modelo, onde os futuros AFRFs aprenderiam a prática de suas futuras atividades. 

Prof. Vicente: De uma maneira geral, vocês estão satisfeitos com o cargo de AFRF, ou pensam em prestar novos concursos públicos?

Vanessa: Por agora estou satisfeita, mas realmente não sei do futuro. Acho que no Executivo não existe melhor cargo, mas no Legislativo e Judiciário sim. 

Prof. Vicente: Que mensagem vocês deixariam para os candidatos que estão iniciando os estudos para o próximo AFRF, que estão nos primeiros meses de preparação?

Vanessa: Procure um cursinho ético para iniciar os estudos. Compre poucos, mas bons livros (a gente tende a querer comprar ou tirar cópia de tudo o que vê pela frente). Fuja de apostilas e professores sem qualquer idoneidade. Faça um planejamento mensal de estudos. Atualize-o de acordo com as necessidades. Estude. Estude muito. Mas é importante descobrir de que maneira o seu estudo rende mais. Não tenha pressa. Ignore os boatos. Muita paciência. Quem estuda, faz muitos exercícios e acerta a maioria das questões não tem como não passar. Mas é preciso ser sincero, estudar para valer, não ficar enrolando, porque no final quem está perdendo tempo é você mesmo.

Prof. Vicente: E para os que já estão na caminhada há algum tempo, e que até agora só “bateram na trave” do AFRF?

Rodrigo: Concurso público não tem nada a ver com inteligência ou cultura. Se você ainda não passou, o motivo é o mais prosaico possível: talvez tenha sido ansiedade na hora da prova, talvez a metodologia de estudo adotada...

Não se deixe subestimar por histórias geniais. 

Prof. Vicente: Vocês não fazem idéia do quanto essa colaboração de vocês será valiosa para milhares de visitantes deste site, futuros AFRF. Agradeço toda a paciência e carinho de vocês. É um orgulho, uma honra integrar uma Instituição que tem nos seus quadros pessoas como vocês, de tamanha competência – e orgulho maior ainda é saber que, ainda que timidamente, à distância, pude colaborar, de alguma forma, com a preparação de vocês. Que vocês sejam mais e mais felizes, que realizem muitos outros sonhos juntos.