Entrevistas

Dauro


Dauro, do Rio Grande do Sul

PARTE DA HISTÓRIA DA MINHA VIDA OU UM DESABAFO

É normal ver as pessoas falarem que sua vida não é das melhores porque não tiveram oportunidade na vida. Até onde a maioria destas pessoas fizeram sua parte ou ficaram esperando as coisas acontecerem? Quem sou eu para ficar julgando os outros. Mas posso falar de mim. 

Bom. Nasci num "finzinho de mundo" chamado XX, que fica a cerca de XX Km de Porto Alegre. Vivi lá até cerca de 10 anos atrás. Falei que é "finzinho de mundo" porque lá as opções são poucas. Sou de origem de família humilde. Estudei em colégio até o 4º ano do antigo primeiro grau. Gostaria de ter continuado mas não foi possível. Após os 18 anos comecei procurar emprego e com o baixo nível de escolaridade não encontrava muita coisa interessante. De tanto sentir as dificuldades para encontrar emprego razoável devido a baixa escolaridade, teve um momento, que cheguei a conclusão que teria que mudar a minha situação. Com 20 anos recomecei os estudos. Comecei a estudar sozinho por apostilas para as provas de supletivo de 1º grau e depois para o 2º grau (para quem não sabe: era um sistema – ainda deve existir - que tinha provas duas vez por ano, feitas pela Secretaria de Educação; a pessoa fazia a inscrição de quantas disciplinas que queria, as quais, abrangia matéria de todos os anos daquele grau, até eliminar todas as disciplinas). Os materiais que usei para estudar era do meu irmão que já vinha estudando a algum tempo (...)

Até aquele momento, após ter concluído o 1º e cerca da metade das disciplinas no 2º, ainda não tinha decido que rumo deveria seguir. Apesar de não ter nenhuma vocação resolvi me inscrever para o concurso público para Sargento do Exército (ESA) no último dia de inscrição e, também, era o limite máximo de idade (na época de servir tinha feito o possível para não servir e deu certo) . Eram cerca de 70 mil para 2 mil vagas. O concurso exigia o 1º grau e como estava estudando supletivo para o 2º, abrangia todo o programa e não me preocupei com a preparação. Eram 2 dias de prova. Comentei com algumas pessoas que as provas estavam fáceis e eles deram risadas de minha cara. Seria um pouco difícil acreditar que alguém que vinha estudando sozinho tivesse condição de passar num concurso público. Fiz as provas e não verifiquei gabaritos, etc. para saber como tinha ido. Passado algum tempo, quando menos esperava, alguém foi na minha casa avisar que saiu o resultado e tinha passado. Nunca procurei saber qual foi minha classificação. Já que tinha passado, o jeito foi encarar o exército. Quem mandou brincar... Apesar de não ter nada a ver comigo, acabei ficando 10 anos. Talvez tinha que ser assim. Portanto, fui para o Rio de Janeiro fazer o curso de formação por cerca de 10 meses. Sair de um lugar minúsculo e encarar uma cidade grande foi um desafio. Não conhecia nada e ninguém lá. Não precisaria falar, o curso de formação foi uma droga, quase desisti. A impressão que ficou do CF e continuou nos últimos anos: o que estou fazendo aqui; tenho que sair desta vida. Ao terminar o CF classificatório, preferi escolher a cidade de Curitiba apesar de ter vagas na região de fronteira gaúcha. 

Chegando em Curitiba retomei os estudos de supletivo que havia interrompido a um ano. Tinha que eliminar as últimas disciplinas que faltavam para concluir o 2º grau e me preparar para o vestibular. Optei por estudar sozinho para o vestiba. Após ter inscrito para o vestiba do curso de Administração da Universidade Federal do Paraná (...) e faltar pouco tempo para as provas, saiu o resultado das provas de supletivo que havia feito. Foi difícil acreditar que tinha reprovado por uma questão na prova de língua estrangeira, a qual tinha escolhido, o espanhol. Achei que espanhol era fácil e dancei. Que situação! Liguei para vários Estados e não tinha mais como fazer prova de supletivo e pegar o certificado a tempo e fazer matrícula na faculdade, caso passasse. Mas surgiu uma luz no fim do túnel, descobri um sistema de estudo de supletivo por módulo. Mas só tinha língua estrangeira, o inglês. Eu que não gostava de estudar inglês, tive que encarar. Acabei odiando. Conseqüência, conclui o 2º grau a tempo mas reprovei no vestiba de Administração da UFPR por poucos pontos. Como neste ano teve mudança nas provas e estavam bastante difíceis, sobraram algumas vagas em alguns cursos, então, consegui uma vaga no curso de Geografia, o qual, freqüentei aula por cerca de três semanas e tranquei a matrícula. Não era o que queria. Voltei a estudar sozinho para o vestiba e passei no final do ano. Isso porque não sou pão-duro, imagina se fosse. (risos...)

Nova fase começava. Acreditava, como muita gente ainda acredita, que cursando a faculdade a vida profissional estaria praticamente resolvida. Comecei o curso bastante motivado. Mas começaram aquelas coisas de faculdade pública: ia para a aula e o professor não aparecia, greves, etc. Acabei levando o curso empurrando com a barriga. Dificilmente conseguia ler toda matéria antes da prova. Vivia dependurando num monte de disciplinas e na prova final tudo se resolvia. Só queria sacanagem: sair na night; voltar de madrugada, apesar de ter que trabalhar no dia seguinte e; acabava dormindo na aula. Nesta fase curti bastante a vida. Até onde foi bom...?

Após acabar a faculdade, em junho de 2001, resolvi descansar dos estudos por alguns meses. O meu objetivo já era estudar para concurso público. Ainda não sabia qual. Já tinha descartado o setor privado. 

Comecei a estudar no mês de fevereiro de 2002 para um concurso para área de administração da Transpetro, subsidiária da Petrobrás. Achava porque tinha acabado a faculdade estava preparado e me ferrei na prova da UNB. O maior obstáculo que encontrei no início dos estudos para concurso público foi ter que abandonar a vida de boemia. Como gandaia não combina com estudos sério, não tinha como conciliar as duas coisas. Comecei a diminuir o ritmo das festa até perder o costume. No inicio era difícil dizer não para um convite. De tanto recusar os convites e dizer que tinha que estudar, não ser encontrado em casa ou não retornar ligação, minhas amizades e, etc. foram sumindo. Sobraram as mais sólidas. 

Depois de refletir bastante sobre que rumo seguir, decidi que iria estudar para o concurso do AFRF para a área de Tributação e Julgamento, o qual comecei sozinho no mês de maio de 2002 e resolvi fazer cursinho no mês seguinte. Ao sair o edital para o concurso AFRF set/2002, não teve vaga para T&J, acabei migrando para área de Aduana. Acreditava-se que não teve para T&J devido ao número reduzido de vagas.

Passado o concurso set/2002, retomei os estudos com o objetivo de tentar a área de T&J. Apesar de alguns boatos que não teria vagas para esta área, acreditava, e resolvi arriscar. Ao sair o edital, foi difícil acreditar que não tinha vaga para T&J. Foi difícil aceitar que grande parte da dedicação, do tempo investido, dinheiro, etc. não iria servir para muita coisa. A alternativa seria migrar novamente para outra área. Sabia que naquelas alturas a chance de passar era quase mínima em outra área. O pior de tudo, não tinha ânimo para estudar. Fiquei desmotivado. Se migrasse para outra área, tinha que estudar a especializada que era 40% da prova + Org MF & SRF e parte de Direito Administrativo. Estava tão sem rumo que fiz inscrição para o concurso TRT-RS, nível médio, mas acabei não fazendo a prova. Tinha um grande sonho a ser realizado neste ano: me livrar da vida militar. 

No decorrer da segunda e última semana de inscrição decidi que iria fazer para TRF. Pensei, vou fazer para técnico. Neste tenho mais chance. Se aprovado, depois vejo o que faço. Até o momento estava decido fazer para a 9ª RF. Mas, quando estava preenchendo a inscrição na internet, resolvi tentar para a 10ª RF. Acredito que isso foi uma intuição. 

Mas as coisas não estavam tão fáceis. Tinha que estudar as disciplinas diferentes do AFRF, que eram cerca de 40% do programa do técnico em aproximadamente 40 dias. Comecei a estudar após sair as apostilas da Pró-concursos. Como peguei férias em novembro, me ajudou muito. (...). Ao começar estudar informática e IPI, IR, etc, percebi que as coisas eram bem mais difíceis que imaginava. O ritmo de estudo foi tão intenso que as vezes tinha problemas para dormir apesar do cansaço. Na semana da prova a situação se agravou. Apartir de 4ª feira e durante a dias de prova quase não conseguia dormir. Passei esses dias a base de tranqüilizante. Resumindo: fiz a prova dopado. Felizmente deu tudo certo. Não fiz muita besteira na prova. Depois da prova levei quase uma semana para me recuperar. 

Ao conferir o gabarito no dia seguinte, percebi que tinha nota para passar. Mas, como tinha acertado apenas o mínimo em espanhol, não consegui ficar tranqüilo. Quase que o espanhol me deixou na mão de novo. Graças a Deus deu tudo certo. Consegui dar a volta por cima. Ser aprovado e conseguir uma excelente classificação (2º lugar na 10ª RF). 

(...)

O concurso TRF, com certeza, foi e será algo muito importante na minha vida. O início de novos rumos, a busca de novos objetivos e realizações. É o resultado de algo que começou a ser plantado a bastante tempos atrás. É o resultado de muita dedicação, persistência, e perseverança, entre outro fatores. Sem esquecer de um fator essencial para o sucesso: a humildade. 

Esse objetivo foi alcançado. Tenho outro muito importante...

(...) 

Não sou de ficar lembrando ou revivendo o passado. Pra mim, o passado serve como refêrencia. Prefiro viver o presente pensando no futuro. portanto, não sei porque resolvi por no papel. (não revisei.) Já que escrevi, resolvi enviar para alguém. Porque não enviar para vocês. Confesso que enquanto estava escrevendo, várias vezes fui interrompido pelas lagrimas que caiam.
(...)

"NESTE MOMENTO SUBLIME..."

PARABÉNS A TODOS!!!

FELICIDADES!!!

SUCESSO!!!

ABRAÇOS...

Dauro