Entrevistas

Maíra Rezende


Maíra Rezende, de Brasília (DF)

Conheci a Maíra em Brasília, em uma das minhas turmas de Direito Constitucional Avançado, no Pró-Cursos, no ano de 2002. Nessa época, ela iniciava sua preparação para o concurso de Auditor-Fiscal do Trabalho, seu único objetivo em termos de concurso, que veio a ser concretizado agora, em 2003: ela foi a 20ª colocada no concurso de Auditor-Fiscal do Trabalho.

Formada em nutrição, servidora do Tribunal de Justiça do Distrito Federal, Maíra é um exemplo e tanto de pessoa que sabe muito bem o que quer da vida, e que tem tranquilidade para a busca de seu objetivo. Desde o início dos estudos, em 2002, teve sempre em mente o concurso de Auditor do Trabalho, devido ao caráter social da atividade desse cargo, que busca assegurar o mínimo de dignidade ao trabalhador – num País que, infelizmente, ainda são vistas, quase todos os dias, notícias sobre trabalho escravo.

Infelizmente, embora eu fale sobre esse aspecto quase todos os dias em sala de aula, ainda são poucos os candidatos que conseguem fazer o que a Maíra fez: definir um concurso, iniciar os estudos para ele e manter-se fiel ao longo da preparação; a maioria opta pelo "pular de galho em galho", fazendo todo e qualquer concurso que aparece pela frente, num equívoco quase sem fim. Espero que a sabedoria da Maíra, que se manteve fiel ao concurso almejado desde o início da preparação, possa incentivar outros candidatos a fazerem o mesmo...

Bem, atrapalhei um pouco as comemorações da Maíra, para que ela respondesse as seguintes perguntas:

Prof. Vicente Paulo: Você é formada em nutrição, e atualmente é servidora do Tribunal de Justiça do Distrito Federal. Como surgiu na sua vida o concurso de Auditor-Fiscal do Trabalho? Por que a escolha desse concurso?

Maíra: Bom, eu sempre quis fazer da minha profissão uma forma de vida que fosse útil não só para mim, até por isso escolhi a área das ciências biológicas. A princípio queria estudar medicina, como meu pai. Mas a pressa de entrar na faculdade me fez prestar o vestibular para nutrição, com o intuito de continuar estudando para medicina. Logo no primeiro semestre (estudei na UnB e temos várias matérias em comum com a medicina e a odontologia nos 3 primeiros semestres) pude perceber que medicina não era minha "praia" (odiei ver os cadáveres nas aulas de anatomia, odiei o clima de um hospital e odiei ver sangue). Desisti e segui em frente com o curso de nutrição, mesmo sem muita certeza do que eu queria pra minha vida. Trabalhei muito pouco na área e resolvi fazer uma pós-graduação em Vigilância Sanitária de Alimentos, também na UnB. Adorei o curso, que em sua grande parte tratava de legislação de alimentos. Logo vi que meu negócio não era trabalhar em clínica e muito menos em cozinha industrial (que eu detesto). Como estava desempregada, resolvi estudar para concursos (alguns amigos me deram a idéia). Comecei com um curso de direito constitucional básico, com o professor Nilo, do Pró-cursos, em Brasília. Foi um primeiro contato excelente com o direito, me estimulou a estudar mais e ir mais a fundo. Mais ou menos nessa época ouvi falar do concurso do fiscal do trabalho, me interessei, mas o concurso de 98 estava na justiça. Em junho de 2000 surgiu o concurso do TJDF, mas eu só poderia fazer para nível médio, pois para nível superior só estavam sendo oferecidas vagas para quem era formado em direito. Não achei ruim, queria trabalhar e além do mais era um emprego de meio período que me permitiria continuar estudando. Eu me matriculei num "pacote", que me permitiu conhecer de forma superficial outras matérias do direito, e foi suficiente para passar dentro das vagas e tomar posse já em outubro do mesmo ano. Em 2001 fiquei parada, nem pensei em concursos. E em 2002 voltei a estudar. Comecei meio sem rumo, apenas aprofundando algumas matérias, como direito constitucional avançado na sua turma. E logo nesse ano, voltei a procurar informações sobre o cargo de auditor fiscal do trabalho, li uma entrevista com um fiscal e me apaixonei. Eu poderia trabalhar, ser bem remunerada, e ajudar uma porção de gente a ter uma vida mais digna. Mas o concurso ainda estava parado na justiça, então comecei a me preparar de uma forma lenta e eficaz. Estudei direito constitucional, administrativo, trabalhista (meu primeiro contato com direito do trabalho foi no seu curso, em julho de 2002 e amei de cara!), previdenciário, tributário (também com você) e contabilidade (diziam que iam cair essas últimas). Nesse ano prestei o concurso para auditor do INSS e logicamente não passei (fui sem ter visto direito comercial, civil, processo civil e uma parte enorme de contabilidade). No ano seguinte, início de 2003, comecei a focalizar mesmo para o auditor do trabalho. Fiz 2 meses de um pacote específico no Obcursos. Abandonei o curso, que era fraquíssimo. Não recomendo pacote pra quem já tem boa noção das matérias. É uma perda de tempo. Então, entrei em cursos específicos das matérias que eu ainda não tinha visto. Quando saiu o edital, me concentrei em direito do trabalho, economia e sociologia (essas duas últimas estudei sozinha). E deu certo, graças a Deus.

Prof. Vicente Paulo: Durante a preparação, com a divulgação de editais de vários outros concursos, não dava vontade de mudar de rumo, de fazer outros concursos?

Maíra: O único concurso que eu prestei no período de 2003 foi o do TST, por ter afinidade com as matérias que eu estava estudando e mesmo assim sem a intenção de passar. Eu apenas queria voltar a ter contato com as provas. Antes de sair o edital, eu pensava no auditor do INSS como uma segunda opção já que todos pensavam que as matérias seriam praticamente as mesmas. Na verdade eu devo muito ao CESPE, que mudou o edital e acrescentou matérias muito diversas das que eu estava estudando, como contabilidade avançada. Eu sabia que essa última não constaria no programa do trabalho e não queria sair do meu rumo de forma alguma, então nem fiz a inscrição - foi a decisão mais certa que eu tomei - de modo que me concentrei pra valer no que eu queria.

Prof. Vicente Paulo: Qual foi o seu maior acerto na sua preparação?

Maíra: Saber o que eu queria, focalizar meus estudos. Outro acerto foi ter feito um concurso mais simples antes. Eu acho um erro terrível as pessoas que largam seus empregos para estudar. A pressão psicológica é muito grande. Se você tem que pedir pra alguém pagar seus cursos, e seus livros, e sua gasolina, e sua comida, puxa... Você vai fazer a prova com a obrigação de passar, a cobrança fica muito maior.

Prof. Vicente Paulo: E erro, algo que você não faria novamente numa nova preparação, houve algum?

Maíra: Eu me estressei demais. Sou muito ansiosa, e minha saúde sentiu bastante. Agora estou tentando me recuperar de alguns probleminhas que ficaram crônicos. Não acho que as pessoas devam deixar de fazer uma atividade física, nem deixar seus hobbies totalmente de lado, como eu fiz. Como diz meu irmão, nada é mais valioso que sua saúde. E eu não precisava ter feito isso, pois minha preparação foi a longo prazo, como deve ser.

Prof. Vicente Paulo: Na sua opinião, de um modo geral, quais são os erros mais comumente cometidos por candidatos no início de uma preparação para concursos?

Maíra: Acho que o erro mais comum é não focalizar, sair fazendo tudo quanto é concurso que pinta pela frente, como você mesmo disse. Outro erro grande é a desistência. Muitas pessoas ficam muito frustradas com uma reprovação e desistem. Como diz William Douglas, “não se estuda para passar, mas até passar”. 

Prof. Vicente Paulo: Quais os aspectos você considera mais importantes, decisivos para uma aprovação em concurso público?

Maíra: Persistência, paciência, disciplina e fé. Além é claro de uma boa biblioteca, em casa, e muita disposição para freqüentar cursinhos. Outro aspecto relevante é a sua organização. É importante estudar com critério, fazer resumos, e ler o máximo que se conseguir, sabendo que você nunca vai conseguir ler toda a matéria (os conteúdos programáticos são muito extensos). Na última semana eu só li meus resumos e foi ótimo. Ah, e eu sempre gosto de relaxar antes da prova, nada de ficar lendo até em cima da hora (mas isso é muito pessoal). E aprendi também que o conhecimento vai se agregando de tal forma que com o tempo você relaciona as matérias e tudo fica mais fácil. Eu fiz a prova do Analista de Finanças e Controle da Controladoria Geral da União, que foi agora em janeiro – um mês depois da minha prova - sem estudar muito (já estava bem cansada) e fui bem de uma forma geral (mesmo naquelas matérias que eu não tinha estudado).

Prof. Vicente Paulo: A respeito de curso preparatório (fazer ou não fazer cursinho?) e material didático (até que ponto é importante a escolha?), quais seriam os seus comentários?

Maíra: Eu acho importante freqüentar cursinhos, principalmente para alguém, que como eu, que vem de uma área tão diferente. Com o tempo, eu pude me familiarizar mais com os direitos e os livros foram melhores companheiros que muitos professores (cá pra "nóis", a maioria dos professores que tem por aí é muito picareta). Eu já larguei muitos cursos que não estavam me ajudando, pelo contrário, estavam tomando meu precioso tempo de estudo. Não vou citar nomes de professores ruins, vou citar nomes de alguns que são excelentes e que eu recomendo: prof Vicente, em primeiro lugar, sem querer ser "puxa-saco", é a mais pura verdade (nunca vi nenhum professor para concursos com tamanho conhecimento, não só da matéria, mas também dos concursos atuais, além de entusiasmo, didática e preparo); o prof Marcelo Alexandrino (com seu curso de exercícios, gabaritei a prova de direito administrativo) e a prof Gláucia (EXCELENTE!) de direito do trabalho. Quanto ao material didático, recomendo os livros de direito Administrativo do professor Vicente e Alexandrino, direito do Trabalho dos mesmos e os outros da editora Impetus, que é especializada em concursos públicos, além da leitura cuidadosa das leis (inevitável). 

Prof. Vicente Paulo: Em que disciplina você teve maiores dificuldades? Como foram superadas as dificuldades? Você já havia estudado Direito antes?

Maíra: Eu tive dificuldades com contabilidade (a básica até que não, mas a parte final da contabilidade geral foi um tormento), que, ainda bem, não caiu na minha prova. E tive também com economia do trabalho (eu nunca tinha visto nada parecido antes). Eu comprei um livro didático ENORME faltando 4 semanas para a prova e me apavorei, pensei que não teria mais chances. Porém, vi que não teria como eu me aprofundar naquela matéria em tão pouco tempo e sem professor, então resolvi ler apenas as 27 páginas da apostila da Vestcon (que eu ganhei quando fiz o pacote, o qual eu abandonei). Sociologia eu gostei de cara e comprei um livrinho do Ricardo Antunes (além da cópia de algumas aulas de uma amiga). E quanto ao direito eu já havia estudado antes para o concurso do TJDF e já tinha me afinizado bastante. Como eu disse antes, até na nutrição o que mais me atraiu foram as leis! E ajudou muito o fato de eu sempre ter gostado de estudar, meus pais foram fundamentais nesse sentido - devo tudo a eles!

Prof. Vicente Paulo: Na sua preparação para o concurso de Auditor do Trabalho/2003, quantas horas você estudava por dia?

Maíra: Eu nem sei te dizer. Sempre tive disciplina para cumprir meus programas, mas nunca tive muita pra acordar cedo. Como eu trabalhava à tarde, tinha que aproveitar as manhãs e as noites, e me angustiava por não conseguir levantar cedo. Com o tempo percebi que tinha que respeitar meu organismo e concentrei meus estudos mais à noite (já que no ano de 2003 eu já não fazia mais tantos cursos à noite). Não sei, acho que umas 4, 5 horas por dia. Quando eu tirava férias (há 2 anos estudo em minhas férias - descanso de alguns dias apenas) aumentava para uma média de 7 horas bem distribuídas (com descansos intercalados). 

Prof. Vicente Paulo: Que mensagem você gostaria de deixar para aqueles candidatos que estão iniciando agora sua preparação para concursos?

Maíra: Comecem devagar, façam as matérias em módulos (os pacotes, cursos intensivos, só são úteis para quem nunca viu nenhuma matéria), tracem um objetivo e não desistam.

Prof. Vicente Paulo: E para aqueles que já estão estudando há algum tempo e ainda não conseguiram a aprovação, qual seria o conselho?

Maíra: Não desistir. E muitas vezes colocar o pé no freio é bom. Tem gente que estuda 10 horas por dia, larga o emprego, esquece que tem marido, namorado, filhos... Não acho que seja por aí.

Prof. Vicente Paulo: Agradeço carinhosamente sua atenção, e desejo muito sucesso no cargo de Auditor-Fiscal do Trabalho – e na nova cidade, para a qual você e sua família estão se mudando, em função da assunção desse cargo.

Maíra: Eu é que agradeço poder participar do seu trabalho tão bacana e poder, de alguma forma, ajudar quem ainda está neste caminho árduo dos concursos públicos. Também quero agradecer você por seu empenho, competência e simpatia em sala de aula e no site. Seu trabalho é muito importante, que Deus te ilumine sempre!