Entrevistas

Lucíola e Aurélio


Lucíola e Aurélio, de Brasília (DF)

Quando tive a idéia de criar este quadro “Entrevista”, para contar histórias vitoriosas de preparação para concurso, como meio de incentivar outros concursandos que ainda estão na batalha, não tive dúvida sobre quem seria a primeira pessoa a ser entrevistada: Lucíola Calderari.

A Lucíola foi minha aluna em um curso de Direito Constitucional em Brasília, e eu havia ficado encantado com sua humildade, determinação, objetividade e concentração nos estudos. Como nada é por acaso, o resultado de toda essa dedicação não tardou: em alguns meses, aos 23 anos de idade, Lucíola foi aprovada em quatro concorridos concursos públicos do país (Auditor da Receita Federal, Analista de Finanças e Controle, Agente da Polícia Federal e Analista da Câmara dos Deputados), tendo optado por ingressar no Poder Legislativo Federal, como Analista da Câmara dos Deputados.

Passada a rápida fase de preparação da Lucíola, tive, após, a felicidade de também ser professor de seu marido, Aurélio, outro exemplo de humildade, competência e determinação. Com seus 24 anos de idade, e com uma objetividade de fazer inveja, não deixou por menos: logo após o primeiro curso que fez comigo, foi aprovado no concurso de Analista de Controle Externo do Tribunal de Contas da União.

É essa a história que eu tinha para contar a respeito desse lindo casal brasiliense! Não é muita determinação e maturidade para um casal tão jovem? Aos 24 anos, com suas vidas profissionais tão bem resolvidas: ela, Analista da Câmara dos Deputados; ele, Analista de Controle Externo do Tribunal de Contas da União! Pronto, agora é só parar, compensar o esforço envidado, viver o casamento e deixar o tempo passar, até chegarem os filhos (que certamente não darão trabalho na escola!), certo?

Errado, absolutamente errado - a história de sucesso dos dois só está começando!

No segundo semestre de 2002, o Aurélio sequer havia terminado outro curso que fazia comigo, de Direito Tributário, e já estava, simultaneamente, realizando o curso de formação de Analista de Controle Externo do Tribunal de Contas da União, etapa final para o ingresso no cargo. E foi nesse período que o Aurélio, numa conversa durante o intervalo da aula, contou-me que eles iriam tentar o concurso de Consultor Legislativo da Câmara dos Deputados.

Eu levei um susto tão grande que sequer me lembro do que disse a ele. Recordo-me, apenas, que quando o Aurélio me contou a notícia, eu disse sem vacilar: “vocês dois estão aprovados, tenho certeza disso; que privilégio o meu, terei em breve dois amigos Consultores Legislativos da Câmara dos Deputados”.

Bem, daqui por diante, melhor deixar que os próprios, Lucíola e Aurélio, contem se eles foram (ou não) aprovados no concurso de Consultor Legislativo da Câmara dos Deputados, talvez o certame de mais alto nível e prestígio do país, ao lado da Magistratura e do Ministério Público.

De minha parte, torci muito por eles, passo a passo, em cada fase desse dificílimo concurso...

Vicente: Afinal, vocês foram ou não aprovados no concurso de Consultor Legislativo da CD? Se foram, quais as modestas colocações alcançadas, já que vocês estudaram às pressas (a Lucíola trabalhando durante o dia todo, o Aurélio fazendo curso de formação do TCU)?

Aurélio: Fomos aprovados, graças a Deus. A Lucíola ficou em 4º lugar na área de Tributação (perdeu 2 posições na prova de títulos). Eu fiquei em 1º lugar na área de Finanças Públicas. E já estamos trabalhando lá.

Vicente: Brincadeiras à parte, não sei se vocês perceberam, mas naquela noite em que falei com vocês no Pró-Cursos, depois da aprovação (o Aurélio, acreditem, concluiu o curso de Direito Tributário que fazia comigo, mesmo depois de aprovado nos dois concursos), estava difícil conter a emoção, a felicidade e admiração pelo êxito de vocês, segurei as lágrimas em vários momentos da conversa. Considero-me uma pessoa determinada, detentora de muita força de vontade, mas naquela noite, confesso, me senti pequeno diante de vocês, diante de tanta maturidade e determinação. Sou admirador de carteirinha de vocês, meus futuros alunos vão cansar de ouvir eu contar a história de vocês, acho que metade de Brasília já sabe, não tem uma turma minha em que eu não tenha falado de vocês, citando-os como exemplo. De onde vocês acham que brotou toda essa determinação?

Lucíola: Nossa, Vicente, também não é assim, né? Somos pessoas normais que tiveram a sorte de encarar a vida da mesma maneira, com objetivos em comum. Isso tem facilitado muito a nossa caminhada... 

Realmente, sempre fui muito determinada. Faço os meus planos pensando a longo prazo, com um objetivo bem definido. Quando estava estudando para concursos, procurava me preparar com profundidade, visando a, um dia, passar num concurso de consultor. Pensava: pode até demorar, mas um dia chego lá!

Aurélio: Pois é, a Lucíola sempre foi muito determinada. Aliás, e ela já sabe, essa foi uma das características dela que mais me chamaram a atenção quando ainda éramos somente amigos. Quanto a mim, no decorrer de mais de 6 anos de convivência, pude observar como toda essa determinação sempre trouxe conquistas para ela. Então, achei que era hora de seguir o bom exemplo. Eu via a Lucíola estudando com tanto entusiasmo, era contagiante...


Vicente: Lucíola, qual foi a fase mais difícil de sua preparação? Preparar-se para a aprovação nos primeiros concursos, em 2001, ou agora, para o concurso de Consultor?

Lucíola: A preparação para os primeiros concursos foi bem mais difícil. Felizmente, pude optar por não trabalhar para me dedicar a concursos em tempo integral. Contei com todo o apoio do Aurélio e dos meus pais. Entretanto, colocava um peso muito maior sobre os meus ombros, pois queria conquistar a minha independência financeira o quanto antes. Além disso, como sou formada em Economia, nunca havia estudado as matérias de Direito, que têm um peso grande em vários concursos.

A minha preparação para o concurso de Consultor também foi bem desgastante, tanto física quanto psicologicamente. Ao imaginar que iria concorrer com pessoas muito mais experientes do que eu, os momentos de desânimo eram inevitáveis. Contudo, procurei compensar a minha curtíssima experiência profissional com a minha experiência de concurseira. Tirei do armário os livros de concurso, cadernos, resumos e exercícios. Vários pontos do edital só tive de revisar, o que facilitou bastante o meu estudo. 

Vicente: E para você, Aurélio, quando o estresse foi maior, na preparação para o TCU ou para a CD?

Aurélio: A preparação para o TCU foi tranqüila, quase prazerosa (risos). É claro que foi muito cansativa, pois eu trabalhava o dia todo, mas contei com o apoio incondicional da Lucíola e nunca coloquei qualquer pressão sobre meus ombros: faria tudo ao meu alcance para passar, e se fosse suficiente, ótimo; se não fosse, um dia aconteceria...

Na Câmara foi um pouco diferente. A concorrência prometia ser muito mais acirrada. Ainda estava me recuperando da batalha do TCU e veio o novo Edital. Além disso, a Lucíola também fez a prova, então não pude contar com apoio “logístico” e moral tão presente como no caso do TCU. A Lucíola costuma ser mais ansiosa com seu desempenho nesse tipo de prova, colocava um peso muito grande sobre os ombros, e acabava me contagiando com a ansiedade dela. Porém, o fato de vê-la estudando com afinco não me deixava muitas alternativas. Ainda que quisesse desistir, teria de fazê-lo sozinho.

Vicente: De quem foi a idéia inicial para enfrentar o pesadíssimo concurso de Consultor Legislativo da CD?

Lucíola: Como já mencionei, o meu sonho sempre foi passar num concurso de consultor. No final de 2001, convenci o Aurélio a fazer comigo o concurso de consultor do Senado, mas não fomos aprovados. Não tínhamos estudado nada, mas mesmo assim resolvemos fazer as provas para ter uma idéia do nível de dificuldade das questões. Sempre imaginamos que só alguém com muitos e muitos anos de experiência em determinada área teria condições de se sair bem num concurso desse. No entanto, depois das provas, concluímos que, mesmo com pouca experiência profissional, poderíamos obter um bom resultado com uma preparação séria.

Logo após o concurso do Senado, já corriam boatos de que em breve sairia o edital do concurso de consultor da CD, pois havia sido publicado um ato da Mesa da Câmara autorizando a realização desse concurso, com a indicação dos assuntos a serem cobrados em diversas áreas. Nessa época, também estava para sair o edital do concurso do TCU e, como o Aurélio estava descontente com a rotina do trabalho, nada melhor do que encarar o concurso de Analista de Controle Externo do TCU, que é um cargo com excelentes perspectivas. Mesmo que não fosse aprovado, ainda poderia apostar as fichas no concurso da CD na área de Finanças Públicas, pois já teria estudado boa parte do conteúdo programático. Somente seria necessário se aprofundar. 

Vicente: O tempo para preparação, do edital até a data da prova de Consultor da CD, foi muito curto. Qual foi a estratégia traçada por vocês, como programaram o tempo de estudo? Quantos meses vocês estudaram? Quantas horas por dia? 

Aurélio: Eu já havia estudado bastante para o TCU. A matéria era muito similar, com exceção da parte de processo legislativo e língua espanhola. Fiz alguns cursinhos, que nem cheguei a completar. Acho que curso preparatório é assim: se te ajuda a produzir mais do que você renderia se estudasse sozinho durante aquelas horas, é válido; se não, fuja. Na preparação para o TCU, cheguei a desfazer matrícula em um curso 20 minutos após o início da 1ª aula. Fui para casa estudar porque achei que ganhava mais. 

Eu nunca gostei de programar estudo, fazer cronograma, essas coisas. Eu gosto de pegar o programa, ver o que vale mais pontos, o que eu já sei, o que preciso saber, o que vale menos e eu posso descartar. Sempre estudei assim, tentando advinhar o que o examinador vai perguntar. E estudei durante todo o tempo que tinha disponível: antes do trabalho, horário de almoço, à noite, fins de semana. Quaisquer 15 minutos eram suficientes. Às vésperas do concurso da CD, já tinha vencido grande parte do conteúdo, que não era pequeno. 

Lucíola: Como havia me preparado para vários concursos, quando comecei a estudar especificamente para esse, o meu maior dilema foi optar por uma das áreas. Estava com dúvidas entre Finanças Públicas, mais relacionada com o trabalho que fazia na época, e Tributação. Até pensei em prestar para Direito Constitucional. Enquanto não me decidia, estudava as matérias comuns a todas as áreas, o que me garantiu um desempenho muito bom nessas provas – o meu maior diferencial em relação aos meus concorrentes. Procurei colocar na balança todos os prós e os contras em fazer cada área e, duas semanas depois de ser publicado o edital, decidi encarar a área de Tributação mesmo. Essa análise foi fundamental para o meu êxito, pois acredito que, para passar em qualquer concurso, é preciso ter uma boa estratégia, com muita consciência das vantagens e desvantagens envolvidas em qualquer escolha. 

Sou um pouco mais organizada que o Aurélio para estudar, mas também não gosto muito de seguir cronograma de estudo. Inicialmente, até faço um, porém, só estudo o que estou com vontade, no momento em que estou com vontade. Além disso, à medida que passo pelos pontos do conteúdo programático, procuro fazer uma reavaliação do que merece uma atenção especial. 

 No concurso da CD, como trabalhava o dia inteiro, procurava aproveitar o meu tempo da melhor maneira possível. Encarávamos, sem lamentações, finais de semana inteiros debruçados sobre os livros. Também usei todas as minhas férias de 2002 para estudar. No total, foram uns 3 meses de muito estudo até as provas objetivas, com uma média de 4 horas diárias de extrema dedicação. Mas, com certeza, se não tivesse me preparado para outros concursos, teria de investir muito mais tempo. Como já disse, muitos pontos do edital só tive de revisar.

Vicente: Vocês conseguem estudar juntos? Nesse concurso de Consultor, vocês estudaram juntos em alguma disciplina?

Lucíola e Aurélio: Estudávamos juntos, mas matérias diferentes. Só tínhamos um exemplar de cada livro e nossos métodos de estudo são bem diferentes. Também como nenhum de nós seguia um cronograma rigoroso, dificilmente tínhamos vontade de estudar a mesma matéria, ao mesmo tempo. Entretanto, nas matérias comuns às duas áreas, se algum de nós encontrasse um ponto que julgasse importante, falava para o outro. Sempre formamos uma boa equipe, desde a faculdade. 

Vicente: Um ponto da vida pessoal de vocês (mas que considero importante para aqueles casais que estudam juntos), fiquem à vontade se não quiserem responder. Tenho uma imagem de muita união, carinho e companheirismo entre vocês. Recordo-me até hoje do primeiro dia de aula do Aurélio no meu curso de Direito Constitucional, em que a Lucíola foi até o Pró-Cursos, incentivando-o. Durante a preparação, vocês dois estudando simultaneamente, para o mesmo concurso, qual o segredo para evitar o desgaste do relacionamento?

Lucíola e Aurélio: Ah, o desgaste ocorre inevitavelmente. É um período de incertezas, muita pressão, com pouquíssimo tempo para a família e para o lazer. Contudo, desde o início, tínhamos noção de que não seria nem um pouco fácil, e, o mais importante, sabíamos que seria passageiro. Então, quando rolava qualquer estresse, procurávamos ser tolerantes. E, quando um de nós ficava desanimado, o outro dava uma injeção de ânimo. Mas não somos um casal perfeito, ainda temos muitas arestas para aparar.

Vicente: Que dicas vocês teriam para aqueles que pensam em trabalhar no Legislativo Federal, no cargo de Consultor Legislativo? Por onde começar a preparação? Morar em Brasília ajuda muito na preparação ou esse fato é irrelevante?

Lucíola e Aurélio: Para sermos bem sinceros, e nisso sempre concordamos, se você analisar quem passa em concursos como esse, vai constatar que, em regra, são pessoas muito experientes e com alto grau de qualificação. A princípio, sugerimos que a pessoa procure concentrar seus estudos na área em que tenha maior interesse. Faça cursos de especialização, participe de conferências, escreva artigos e livros sobre o tema. Tudo o que não tivemos tempo de fazer, pela pouca idade e pelo modo que escolhemos conduzir nossas vidas. Passar em um concurso como esse, sem dúvidas, exige um esforço muito grande, e é preciso estar capacitado para corresponder às exigências do cargo. 

Se você já é um especialista, não seja arrogante a ponto de achar que “já está dentro”. Isso não existe em concurso público. Além dos conhecimentos específicos, também são exigidos conhecimentos de caráter geral! E alguém que é o “papa” em determinado assunto pode ser desclassificado por não ter adotado uma boa estratégia ao fazer as provas. No concurso da CD, foi aí que muita gente boa caiu. Cabe ao candidato se preparar para não ser pego por essas brechas. 

Morar em Brasília ajuda bastante na preparação para qualquer concurso público. Há excelentes professores e a oferta de cursos é muito grande. Em que outras cidades foram abertos tantos cursos de processo legislativo, ou pacotes específicos para a Câmara? No entanto, quem não mora em Brasília também pode fazer uma boa preparação. Todo o material utilizado por nós, por exemplo, está disponível na internet, e boa parte – textos e artigos de sites oficiais – é fornecida gratuitamente.

Vicente: Nas duas fases do concurso, vocês fizeram cursos preparatórios em alguma disciplina (redação, regimento da CD, português)?

Aurélio: Pude aproveitar os conhecimentos adquiridos nos vários cursinhos que fiz para o TCU: Direito Constitucional, Direito Administrativo, Administração Orçamentária e Financeira, Contabilidade Pública e Administração Pública. Quando saiu o edital da CD, comecei a fazer cursos de Português e de Processo Legislativo, mas os abandonei pela metade. O concursando deve avaliar se o curso está compensando o tempo despendido. No meu caso, concluí que ganharia mais estudando sozinho. Embora os professores fossem ótimos, tem candidato que se perde em discussões pouco objetivas – às vezes a gente chega a pensar que tem parente de concursando infiltrado só para tumultuar (risos). Aí é melhor ir para casa e aproveitar o tempo.

Para a segunda etapa, fiz o curso de redação do professor Fernando Moura. Achei o professor muito bom, extremamente objetivo e atencioso com os textos produzidos. Contudo, a turma era gigantesca, mais de cem pessoas. Isso prejudicou um pouco, mas não chegou a comprometer: fiz o curso até o fim. 

Lucíola: Eu também pude aproveitar bastante o que aprendi nos vários cursinhos que já havia feito. A maioria das matérias eu estudei pelos meus resumos e cadernos. Na primeira fase, só fiz o curso de Processo Legislativo do professor Fernando Sabóia para relembrar o que já tinha estudado para o concurso de Analista Legislativo da CD, porque é um pouco maçante estudar o Regimento Interno da CD por conta própria. Na segunda fase, fiz junto com o Aurélio o curso de redação do professor Fernando Moura.

Vicente: E para você, Lucíola, já estar trabalhando na Câmara dos Deputados, como Analista, ajudou na sua aprovação?

Lucíola: Como trabalhava com orçamento, já estar trabalhando na CD não ajudou muito para o meu bom desempenho na área de Tributação. Talvez o meu trabalho facilitasse os estudos na área de Finanças Públicas, mas achei que o Aurélio, por tudo que já havia estudado para o TCU, teria mais chances. O que realmente fez diferença foi o ambiente de trabalho. Aqui na CD todos valorizam o cargo de consultor, e, por isso, sempre encontrei muito apoio e incentivo de todos, inclusive do meu antigo chefe.

Vicente: Lucíola, deixando o concurso da Câmara dos Deputados de lado, e pensando em toda a história de sua preparação para concursos, desde o início, desde o seu primeiro dia de preparação, qual a maior lição que você tirou e que considera importante para repassar para outros candidatos? Quais os maiores acertos e os maiores erros?

Lucíola: Nossa, que pergunta difícil! Aprendi muito... Estudar para concursos me ajudou a ampliar os meus horizontes. Quando me formei, estava muito bitolada, só me interessava pelo que estivesse relacionado a Economia. Entretanto, à medida que estudava mais e mais para concursos, percebia como outras áreas também eram fascinantes. Hoje, ao iniciar os estudos sobre qualquer assunto, encaro sem preconceitos, procurando extrair o máximo que puder, de maneira prazerosa. Isso torna o aprendizado muito mais proveitoso e estimulante.

O meu maior acerto foi tirar lições dos meus maiores erros. Nesse aspecto, a participação do Aurélio na minha preparação foi decisiva. Às vezes, estava muito envolvida em determinada situação e não tinha o discernimento necessário para avaliar friamente onde havia errado. Conversávamos muito sobre isso, principalmente quando fiz os primeiros concursos. E, mais importante do que detectar os meus erros, procurei me condicionar a não os cometer mais. Devemos estar abertos àquilo que as pessoas que gostam de nós verdadeiramente têm para dizer.

Já o meu maior erro foi, no início, não reconhecer a importância de se adotar uma boa estratégia durante as provas. Pensava que, se estudasse bastante, a estratégia seria o de menos. Na verdade, um candidato que tenha estudado para valer pode deixar de ser aprovado por não ter refletido sobre a melhor maneira para resolver as provas, conforme seus pontos fortes e fracos. 

Vicente: E você, Aurélio?

Aurélio: Foi um período de muito aprendizado. Aprendi muito com outros colegas. Alguns tiveram infância humilde e não tiveram acesso a toda a estrutura que meus pais puderam me oferecer. E esses colegas venceram. Isso é algo para se tirar o chapéu. Pessoas que, diferentemente da maioria, em vez de ficarem lamentando suas dificuldades, arregaçaram as mangas e alcançaram o sucesso. 

Aprendi com a Lucíola. Hoje procuro incutir mais dedicação e empenho naquilo que faço. E não falo só da vida profissional. Também aprendi comigo mesmo...

O maior erro que alguém pode cometer é se acomodar: a pessoa se sentir insatisfeita com algo em sua vida, poder modificar a própria situação e não fazer nada a respeito. Não dá para contar com ação dos outros para mudar algo que nos incomode. Na maioria das vezes, só precisamos agir para que comecem as mudanças. 

O maior acerto é, portanto, buscar os objetivos com muita determinação. Muita gente pode achar tudo isso que estamos escrevendo uma grande bobagem, até mesmo evidente. Talvez seja. Mas são nas coisas mais evidentes, nos detalhes mais bobos, que cometemos nossos maiores enganos.

Vicente: Os candidatos que estão fora dos grandes centros, no interior do país, reclamam muito das dificuldades para uma boa preparação, especialmente em termos de cursos preparatórios. O que vocês acham disso? Honestamente, qual foi a importância (em termos percentuais) da freqüência de curso preparatório na aprovação de vocês?

Lucíola e Aurélio: Inicialmente, os cursos preparatórios ajudam a dar um gás, mas existem cursos e cursos. Alguns realmente valem a pena, até para quem já estuda há algum tempo. Outros não valem nada, são perda de tempo. Nesse caso, é muito melhor estudar sozinho. Hoje em dia o melhor material está disponível na internet. Basta saber procurar.

Aurélio: Em termos percentuais, se considerar a preparação para o TCU, os cursinhos tiveram uma importância de 40% na minha aprovação. Considerando só os cursos específicos para a Câmara dos Deputados, 5%.

Lucíola: No meu caso, tiveram uma importância de 50%. Embora tenha feito apenas dois cursinhos para o concurso de consultor, aproveitei muito o que aprendi nos cursos que fiz quando estava estudando para o concurso de Analista Legislativo da CD e de Auditor Fiscal da Receita Federal. Mas eu também praticamente não piscava durante as aulas!

Vicente: Esta é a pergunta mais pesada: se hoje vocês dois fossem escalados para acompanhar e orientar os estudos de um candidato que está iniciando a preparação para um concurso de nível superior, qual seria, em síntese, a orientação de vocês? Quais as fases pelas quais o candidato passaria, e em que ordem? Quais seriam as orientações de vocês sobre dúvidas como: por onde começar os estudos; como dividir o tempo entre teoria, curso preparatório, resolução de exercícios, elaboração de resumos de estudo etc.

Lucíola e Aurélio: Já conversamos muito sobre isso com vários amigos que também decidiram estudar para concursos públicos. O que sempre repetimos é o seguinte: antes de sair qualquer edital, comece a estudar Direito Constitucional e Língua Portuguesa. Se puder fazer cursos com bons professores, ótimo. Procure obter indicações de qual é o melhor material disponível no mercado. Quando já tiver uma base de Direito Constitucional, comece a estudar Direito Administrativo. Após decidir o cargo ou pelo menos a área de interesse, estude as matérias específicas, de acordo com os critérios de pontuação e eliminação adotados em concursos anteriores. Leia bons textos, faça muitos exercícios, elabore resumos. Mas é preciso fazer tudo isso sem estresse, pois a aprovação virá conforme o bom planejamento e o esforço de cada um. Também é fundamental se cercar de pessoas que entendam a sua realidade de concursando e o estimulem. Desconfie de quem agir de forma contrária.

Vicente: E se a incumbência de vocês fosse orientar um candidato que está desanimado, pelo fato de já ter estudado muito e ainda não ter sido aprovado num bom concurso?

Lucíola e Aurélio: Cada caso é um caso. Alguma coisa está errada ou está faltando algo. Aí vai da autocrítica de cada um. Também ajuda muito procurar alguém que nos conheça, que acompanhe a nossa jornada e que realmente torça pelo nosso sucesso, pois é difícil reconhecermos os nossos próprios erros. 

Vicente: E agora, quais são os planos? Não me digam que vão fazer o próximo concurso que pintar na praça! (risos)

Lucíola e Aurélio: Pelo menos por enquanto, pretendemos dar um tempo na nossa carreira de concurseiros. Agora vamos buscar especialização nas nossas áreas, sempre estudando, para correspondermos à altura da grande responsabilidade que teremos no nosso novo cargo. Sem falar nas merecidas férias...

Vicente: Para terminar, um apelo: vocês sabem o quanto eu gostaria de poder contar com a colaboração de vocês aqui no site, no repasse de experiências e dicas para outros candidatos de todo o país. Infelizmente, o site ainda não tem como remunerar a dedicação e a competência já demonstradas por vocês, mas sei que milhares de concursandos, se pudessem, pagariam caro para ter esse privilégio. De qualquer forma, mais uma vez, fica registrado, agora publicamente, o meu convite, que poderá ser aceito a qualquer hora.

Depois de três anos de trabalho gratuito na web, só posso dizer que colaborar com outros candidatos na busca pela aprovação num concurso, pela melhoria de suas condições de vida, é muito gratificante. E, apesar de minhas deficiências e falhas (que são várias), Deus tem me dado grandes surpresas, grandes e únicos presentes na vida - como este, que foi conhecer e poder acompanhar o sucesso, o vôo dos garotos Lucíola e Aurélio até a Câmara dos Deputados! 

Que Deus cuide com muito carinho dessa união e de todos os projetos de vocês.

Lucíola e Aurélio: É com imensa satisfação que aceitamos esse convite, ainda mais vindo de alguém que tanto contribuiu para o nosso êxito. Graças às suas valiosas dicas, a nossa caminhada foi bem mais fácil. No início, é normal ficar perdido, não saber o que estudar, por onde começar. É um mundo desconhecido, uma nova realidade. Seria um prazer repassar o que aprendemos com pessoas como você e as lições que tiramos ao longo desse período de intensa dedicação a concursos públicos.