Entrevistas

José Wilson Granjeiro


Professor Granjeiro, de Brasília (DF)

Falar com o Prof. J. Wilson Granjeiro representa, para mim, uma volta no tempo, no tocante ao assunto concurso público: conheci o Prof. Granjeiro no início da década de 90, nos primeiros passos de minha preparação, no antigo Objetivo-Concursos (início do que hoje é o OBCURSOS, um dos maiores cursos preparatórios do país). Foi ele o meu primeiro professor de Direito Administrativo e de Direito Comercial.

E, de certa forma, de lá para cá, continuei a acompanhar a sua trajetória de sucesso, que é invejável: além de professor, sei que foi o primeiro Diretor da Editora Vestcon, inserindo-a ativamente no mercado de obras para concursos e, atualmente, está à frente, como Diretor, do Obcursos, uma máquina de preparação para concursos públicos.

Paralelamente a todas essas atividades, escreveu quase duas dezenas de obras voltadas para concursos (há obras suas que já estão na 22ª edição!) e sempre atuou no meio público, especialmente na Escola Nacional de Administração Pública (ENAP) e no Instituto Serzedello Corrêa, vinculado ao Tribunal de Contas da União (TCU).

Mas, para mim, o maior destaque que posso dar à vida profissional do Prof. Granjeiro é, sem dúvida, reconhecer o seu pioneirismo, suas iniciativas e sua incansável dedicação ao segmento dos concursos públicos. São poucos os profissionais que ingressaram nesse mercado e que nele permanecem depois de quase duas décadas de trabalho. Outro fato que consagra sua trajetória é o de ter trabalhado em diferentes áreas de preparação, ora atuando como professor, ora como diretor de editora, ora como dirigente de curso preparatório – o que, inegavelmente, o torna um profundo conhecedor, um especialista, no assunto “concursos públicos”. Aliás, não é à toa que foi um dos poucos professores de cursos preparatórios do país a ser entrevistado pelo Jô Soares, num reconhecimento mais do que justo pela sua história de sucesso e colaboração àqueles que se preparam para o ingresso num cargo público.

Com grande satisfação, vou tentar fazer desta entrevista uma verdadeira aula sobre Administração Pública e Concursos Públicos, para que o leitor tenha a oportunidade de acompanhar com o Prof. Granjeiro toda a evolução desses dois assuntos nos últimos anos – afinal, ninguém melhor para falar sobre esta evolução do que quem, efetivamente, dela participou.

Vicente: Como foi o início da sua relação com o mundo dos “concursos públicos”?

Prof. Granjeiro: Tudo começou quando dei baixa do Exército em uma sexta-feira e na segunda-feira, com o caderno de classificados debaixo do braço, procurava emprego. O primeiro concurso (ainda não público) consistia em fazer uma prova sobre Português, Matemática e Conhecimentos Gerais para trabalhar em uma instituição financeira (misto de banco e seguradora). Disputamos quatro vagas e fui um dos aprovados na prova e na entrevista que fazia parte do certame. Para manter a boa nota da prova objetiva, demonstrei necessitar do cargo mais do que os concorrentes. Conhecia a técnica de entrevista. Enquanto trabalhava na financeira, fazia um curso preparatório para concurso (agora público) do Banco do Brasil. O sonho dos meus pais era ver-me trabalhando no Banco oficial (sinônimo de status e estabilidade). Estudei “Muiiittto”. Com a obrigação de passar, para não desapontar os meus pais, reprovei. Fui vencido pelos principais inimigos de um candidato: fadiga, ansiedade e falta de estratégica para enfrentar a prova e administrar o pouco tempo oferecido para responder as questões. A preparação ajudou-me a passar em dois concursos públicos que aconteceram logo em seguida: o do DASP (Federal) e do IDR (aqui do DF). Passei em 13º e 9o lugares, respectivamente, para o cargo de Agente Administrativo. Terminei o curso superior e fiz outros concursos públicos, sendo aprovado em 1º lugar no concurso da FPS (SARAH), onde permaneci até a minha redistribuição para o MJ e de lá para o primeiro PDV do Governo Federal. 

Vicente: E a sua trajetória no OBCURSOS? Quais foram os passos até chegar à direção de um dos maiores cursos preparatórios do país?

Prof. Granjeiro: Como Professor concursado de Direito e Legislação da FEDF, destaquei-me e isto rendeu-me um convite da direção do OBCURSOS (Professor Ernani Pimentel) para ministrar as disciplinas de Direito Administrativo, Administração e Direito Comercial. Sou titular dessas matérias até hoje. A formação didático-pedagógica (ESQUEMA I) habilitou-me a obter sempre uma excelente nota nas avaliações de professores realizadas pela Coordenação do OBCURSOS. Bati todos os recordes de aulas já ministradas por um professor (105 h/a por semana em duas oportunidades). Tanto empenho, dedicação, energia e carisma renderam-me agora outro convite para ser sócio e Diretor Administrativo-Financeiro do OBCURSOS, o maior curso preparatório do país.

Vicente: E a decisão de começar a escrever livros voltados para concursos, como foi?

Prof. Granjeiro: Quando fui redistribuído do SARAH para o Ministério da Justiça, fiquei com certo tempo livre para pesquisar e escrever os meus livros. Criava meus próprios exercícios e apostilas de aula a aula. Servindo o Governo Federal, pude trabalhar em todas as principais áreas da Administração: financeira, orçamentária, licitação, contratos, almoxarifado, patrimônio e legislação de pessoal. O curso de pós-graduação em Administração Pública ajudou-me a escrever e editar pela VESTCON o primeiro estatuto dos servidores públicos lançado no país (hoje na 23a edição) e com venda de mais de 200 mil exemplares. Escrevi e/ou organizei 19 obras, dentre elas, Direito Administrativo Moderno (23a edição), Direito Administrativo - Exercícios (8a edição), Administração pública (7a ed), Lei 8666 interpretada pelo TCU, Administração para concursos e outros. Nos meus livros, reuni o que colegi durante 17 anos de docência: o melhor da doutrina dominante, legislação atualizada, jurisprudência correlata e muitas questões de provas anteriores.


Vicente: No seu dia-a-dia, você lida com milhares de concursandos, que freqüentam o OBCURSOS. Quais são as maiores dúvidas, ansiedades, as maiores indagações e os estresses mais freqüentes apresentados por eles?

Prof. Granjeiro: A maior dúvida dos candidatos é quanto à escolha do concurso que deverão prestar, todos os dias oriento pessoas a esse respeito. Coloco as alternativas, vejo a formação e ambições do candidato e junto elegemos um caminho a seguir. 

Mas há também outras dúvidas importantes.

Que tipo de curso fazer, pacote ou curso por matéria? Sou a favor de se começar por um pacote, para o candidato conhecer todas as disciplinas, e depois reforçar as disciplinas mais importantes, fazendo outros cursos por matéria.

Que livros comprar? Não indico livros acadêmicos. Prefiro que o candidato estude por livros mais simples, feitos especificamente para concursos, que têm a vantagem de já apresentar o melhor da doutrina dominante, de ser constantemente atualizado e de conter muitos exercícios. Quem escreve para concursos já pensa em tudo, já sabe o que é mais importante para o concurso, os temas que são mais cobrados, a forma com que os temas são abordados etc. – e com isso o candidato só tem a ganhar, seja em conteúdo, seja em tempo para estudar. Estudar por livros acadêmicos, não voltados para concursos, leva a uma grande perda de tempo (a não ser em concursos de altíssimo nível, que realmente exigem leituras de autores e mais autores).

Devo parar (ou não) de trabalhar para dedicar mais tempo aos estudos? Cada situação deve ser estudada com cuidado, avaliando a reserva financeira que o candidato tem, o tempo que ele terá que ficar sem ganhar dinheiro, se ele tem algum apoio da família etc., porque ninguém é aprovado num concurso do dia para noite. Logo, é bom avaliar todos esses aspectos antes de pedir as contas, para não se arrepender depois...

Vicente: Algum concursando já chorou durante conversa mantida com você (por causa de estresse, ansiedade, pressão etc.)?

Prof. Granjeiro: Nossa, centenas, milhares de candidatos. Costumo dizer que a maioria dos candidatos (principalmente as candidatas!) choram em quatro momentos distintos: na hora de começar o curso, na véspera da prova, depois da prova e depois que é divulgado o resultado, seja este positivo (chorará pela conquista, pela superação dos obstáculos!) ou negativo (chorará pelos equívocos cometidos na realização da prova, pelo erro na marcação do gabarito, por ter sido eliminado numa disciplina!).

E aqui gostaria de destacar um ponto importante: nunca fecho a porta da minha sala no OBCURSOS, ela está (e sempre estará) aberta para aqueles candidatos que quiserem conversar comigo, podem me procurar quando quiserem, normalmente das 14 às 19 h estou por lá. Tenho muitas atividades, trabalho muito, pode ser que eu demore um pouco no atendimento, que eu peça para o candidato esperar um pouco, mas é sempre uma grande satisfação discutir estratégias rumo à aprovação num certame público.

Vicente: Como Diretor do OBCURSOS, certamente você é uma pessoa atualizada, bem informada a respeito dos concursos que serão realizados. Neste ano de 2003, dá para esperar a realização de muitos concursos pelo Governo Federal? O Governo Lula continuará com a política de realização de concursos nas chamadas carreiras estratégicas? 

Prof. Granjeiro: Sim, pode-se esperar por muitos concursos. Tenho informações de que o Governo Lula trabalhará para preencher 96 mil cargos na Administração Pública Federal, cargos esses que oriundos das aposentadorias e demissões dos últimos anos, das grandes dispensas dos contratados por meio de contratos temporários, da necessidade de contratação pelas agências reguladoras e, especialmente, da ênfase que dará este governo nas áreas de Fiscalização, Arrecadação, Segurança Pública e Gestão Pública. 

 Vicente: De acordo com suas fontes de informação (não precisa dizer quais são!), quais os concursos que você considera certos para este ano?

Prof. Granjeiro: De memória, citaria os seguintes: Polícia Rodoviária Federal, Polícia Federal, Polícia Civil do Distrito Federal, Tribunal de Justiça do Distrito Federal, Superior Tribunal de Justiça, Auditor Tributário do Distrito Federal, Auditor do INSS, Auditor da Receita Federal, Auditor do Trabalho, Agência Brasileira de Inteligência (ABIN), Gestor Governamental, Analista de Orçamento, Analista de Finanças e Controle, Polícia Militar do Distrito Federal, Câmara dos Deputados (nas áreas de engenharia, arquitetura e comunicação), diversos cargos para as Agências Reguladoras (ANATEL, ANP etc.) e, talvez, Analista Legislativo do Senado Federal.

Vicente: A respeito de metodologia de estudo, para quem está começando a preparação, quais suas principais dicas? Na sua opinião, há um limite máximo para o estudo diário?

Prof. Granjeiro: Meus conselhos são, basicamente, para que o candidato siga os seguintes passos, nesta ordem:

(1) escolher um concurso específico;

(2) fazer um cursinho tipo pacote, voltado para esse certame escolhido;

(3) reforçar as disciplinas mais importantes por meio da realização de cursos por matéria (Direito Constitucional, Administrativo, Português, especialmente);

(4) treinar muito, realizando exercícios de concursos anteriores realizados pela banca examinadora que realizará o concurso;

(5) fazer seus próprios resumos, para uma revisão nas proximidades da data da prova.

A minha experiência indica, também, que o candidato tenha o seu próprio “Quartel General” para os estudos, um espaço privativo para os estudos, onde ele estude em paz, organize seus materiais, seus resumos etc. Acho importantíssimo o candidato ter o seu espaço privativo, voltado para os estudos.

Sobre o tempo máximo de estudo por dia, prefiro não fixar um número fixo, inflexível, acho que cada pessoa tem o seu próprio limite (é importante o candidato descobrir o seu limite e não ultrapassa-lo). Prefiro falar sobre o tempo mínimo de estudo para uma séria e boa preparação: na minha opinião, o candidato precisa de, pelo menos, quatro horas por dia para freqüentar um curso preparatório (importante para manter o estímulo, para manter-se atualizado com as dicas dos professores e dos colegas, para sentir como anda a concorrência etc.) e de mais duas a quatro horas para o estudo individual, para complementar o aprendizado do curso. 

Vicente: E para controlar o estresse, para superar o desânimo depois da reprovação num certame, qual a dica?

Prof. Granjeiro: A dica é o candidato procurar pessoas do meio, nós professores, outros colegas candidatos, para conversar sobre o assunto. A conversa é importante para que o candidato sinta que ele não é o único que enfrenta problemas numa preparação para concurso. Todo candidato enfrenta problemas, das mais variadas ordens. E o mais importante: ser reprovado num concurso não significa que o candidato está despreparado; significa, apenas, que o candidato não esteve preparado naquele concurso, naquela prova, naquele momento. A reprovação num concurso, muitas vezes, é por um detalhe, que poderá ser facilmente superado no próximo desafio. Enfim, reprovar num concurso não é uma fatalidade, nem sempre é sinônimo de estar o candidato mal preparado, pode ser um vacilo, um simples detalhe, uma marcação errônea no gabarito etc. – detalhes esses que o candidato poderá superar com facilidade no concurso seguinte.



Vicente: Qual o maior erro do candidato numa preparação?

Prof. Granjeiro: Sem dúvida ficar mudando de concurso, hoje faz o concurso X, amanhã faz o concurso Y, depois o concurso Z, no mês que vem, o concurso B etc. Perde-se muito tempo com a falta de objetividade, com a falta de direção do candidato.

Vicente: Antes da próxima pergunta, gostaria de dizer que fiquei muito contente agora com essa sua colocação (sobre não ficar mudando de concurso), pois eu também bato nesta tecla em sala de aula e aqui no site, quase todos os dias: pessoal, pessoal, não fique mudando de concurso toda hora, isso não leva a nada, pegue um rumo e siga nele, até a aprovação, vá acumulando conhecimento numa só área, que a aprovação chegará muito mais rapidamente. Infelizmente, porém, os candidatos resistem muito a adotar essa estratégia, só levam ela a sério depois de apanharem muito, de perderem muito tempo – uma pena.

Vicente: O OBCURSOS faz alguma estatística sobre concursos, a partir dos alunos que lá estudam? O OBCURSOS tem dados como: (a) quais os concursos mais procurados atualmente em Brasília? (b) qual o perfil (idade, sexo, formação acadêmica, classe social etc.) da maioria dos candidatos que hoje procura o ingresso num cargo público? (c) qual o tempo médio que um candidato estuda até ser aprovado num bom concurso?

Prof. Granjeiro: Sim, nos fazemos, temos pessoas encarregadas desse acompanhamento. É difícil generalizar, pois o perfil do candidato depende muito do tipo de concurso: o perfil dos candidatos para o concurso de Consultor Legislativo da Câmara dos Deputados é totalmente diferente do perfil padrão dos candidatos ao cargo de Analista dos Tribunais ou de Policial Rodoviário Federal, por exemplo. Mas vou citar alguns dados de memória: 35% dos nossos alunos não são de Brasília, são de outras localidades; 50% dos candidatos vêm da iniciativa privada, em busca de maior estabilidade, alguns trocando salários altíssimos por segurança; 65% são mulheres, que têm cada vez despontado nas primeiras colocações dos mais importantes concursos do país; em determinados concursos (Câmara dos Deputados, Senado Federal, Auditor de Tribunais etc.), temos candidatos de nível altíssimo, com vários cursos superiores, mestrados, doutorados; em cada novo concurso, aproximadamente 40% dos alunos nunca fizeram concurso público.

Sobre o tempo médio de preparação para aprovação num bom concurso, minha experiência diz que é de seis meses a um ano e meio (ressalvados alguns concursos específicos, que exigem três, quatro anos de preparação). Pensar em preparar-se em menos de seis meses não é uma boa estratégia, é ilusão.

Vicente: Embora seja sabido que você começou trabalhando com Direito Administrativo, o fato é que se tornou, também, nacionalmente conhecido pela sua obra, cursos e palestras sobre “Administração Pública”, na análise dos seus distintos modelos (patrimonialismo, burocracia e gerencial). Posso estar errado, mas arriscaria dizer que este seria o assunto que você mais gosta, estou certo? Você poderia enumerar, sucintamente, as características básicas de cada um desses modelos?

Prof. Granjeiro: A Administração Pública brasileira experimentou 3 modelos ou formas de Administração.

 1) PATRIMONIALISMO: caracterizado pelo nepotismo, clientelismo, fisiologismo e empreguismo. Corrupção generalizada, centralização, ausência de concursos públicos são traços deste modelo. Os cargos públicos são prebendas e sinecuras. A máquina administrativa a serviço do rei, que faz da “res publica” extensão da sua privada. Essa forma de administrar é acentuada no período do Brasil Império até 1930, quando passa a ser combatida com o modelo weberiano. 

2) BUROCRACIA: a burocracia de Weber, implementada no serviço público brasileiro em 1936, com a criação do DASP, tem como características positivas: a eficiência, a impessoalidade no trato com a “res publica”, a legalidade dos seus procedimentos, o combate à corrupção pelos seus sistemas de controle (a priori), a rapidez nas decisões, a meritocracia etc. De aspectos negativos, desvantagens e disfunções, o modelo de Weber apresenta: o apego aos rituais, a inflexibilidade, o excesso de normas, a desconsideração de maturidade das pessoas, a desconfiança em relação aos funcionários (vistos como sendo todos corruptos) e a incapacidade do servidor em lidar com o cidadão-cliente, uma vez que o funcionário se encontra voltado para os rituais e para o chefe que irá avaliá-lo e conceder-lhe promoção e gratificação (DAS).

3) GERENCIAL: a administração gerencial é a nova forma de gerir a coisa pública. Caracteriza-se, precipuamente, por: ênfase nos resultados, foco no cliente, conduta e planejamento estratégicos, descentralização, empowerment (empoderamento para os servidores tomarem decisão e o cidadão fazer o controle social), accountability (transparência dos atos e acordos firmados pelos gestores públicos), parceria com o terceiro setor, criação de agências autônomas, preocupação com a qualidade, capacitação permanente dos recursos humanos. Enfim, é a substituição do Estado executor e interventor por um Estado empreendedor, competitivo e catalisador de esforços. 

Vicente: E a Administração Pública brasileira, como vai? Como temos nos comportado nos últimos anos comparativamente a outros países? 

Prof. Granjeiro: A Administração pública brasileira tenta acompanhar as tendências do New Public Management. Estamos fazendo um benckmarke das reformas experimentadas pelos países como Inglaterra, EUA, França, dentre outros. Da experiência inglesa colhemos a idéia das privatizações, desestatizações, terceirizações de atividades operacionais, publicização da saúde, a busca da efetividade e da justiça social, o controle social e a redução do papel do Estado na vida das pessoas e dos empresários. Da experiência americana aproveitamos as idéias do empreendedorismo público, que busca um Estado empreendedor (descentralizado, orientado pela sua missão, parceiro, buscando obter receitas extratributárias, planejamento estratégico etc.) sem ser empresário. Da experiência francesa plagiamos a idéia dos órgãos de missão (colegiados) do Estado modesto para ser moderno, da ênfase nos recursos humanos (talentos) e da estrutura em rede: o Estado ligado com centros de pesquisa, universidades, sociedade, escolas técnicas etc. 

Vicente: Gostaria que você desenhasse, cronologicamente, os diferentes períodos vividos pela Administração Pública brasileira, destacando os períodos em que houve predominância de cada um dos modelos antes apontados. 

Prof. Granjeiro: A Administração Pública brasileira experimentou inúmeras reformas ao longo de sua trajetória histórica. Vou destacar as mais importantes. A primeira grande reforma é chamada de era daspeana (1936), que implementou um Estado intervencionista e administrativo, com a adoção da burocracia de Weber e valores patrimonialistas. A segunda reforma acontece com a publicação do Decreto-lei 200/67, que apresenta um Estado desenvolvimentista, descentralização como princípio fundamental, extinção de órgãos e planejamento como foco. Aqui se tem o primeiro estágio ou momento de Administração Gerencial. A terceira e grande reforma experimentada dar-se-á com a divulgação do Plano Diretor de Reforma do aparelho do Estado (1995), que propõe a perda do cargo por insuficiência de desempenho, flexibilidade da estabilidade, extinção do RJU, colocação em disponibilidade com remuneração proporcional ao tempo de serviço, acaba com a isonomia de vencimentos e com as aposentadorias precoces, dentre outras mudanças. A reforma proposta por FHC, Bresser e Cia propõe mudanças de curto, médio e longo prazos. Começando pelas mudanças no ordenamento jurídico (especialmente no Direito Constitucional e no Direito Administrativo, em suas principais Leis: 8.112, de 1990, e 8.666, de 1993) e terminando com a mudança cultural de burocrática para gerencial: do controle a priori por um controle a posteriori; da ênfase aos processos para ênfase nos resultados; do foco nos rituais para foco no cliente; de planejamento normativo (reativo e curativo) para planejamento estratégico. 

Vicente: Atualmente, qual seria o perfil esperado de um candidato que pretende ingressar num cargo público? O que o candidato deve ter em mente para ingressar (e obter sucesso) numa carreira pública?

Prof. Granjeiro: Conduta ética, espírito de equipe, inovação, criatividade, espírito empreendedor, visão senergística (estratégica), multiespecialização, atualização, capacidade de articulação (liderança), zelo pelas pessoas, uso adequado das ferramentas de trabalho, preocupação com a qualidade e a efetividade (satisfação do cidadão) dos serviços públicos. 

Vicente: Comparando este governo que ora se inicia (era Lula) com o governo pretérito (era FHC), que perspectiva você traça? Pode-se esperar grandes mudanças ou a tendência é de continuísmo em termos de gerenciamento da Administração Pública?

Prof. Granjeiro: O Governo Lula ainda é uma incógnita em matéria de Reforma Administrativa. Pelo discurso e ações preliminares de Governo, pode-se concluir que ocorrerão aperfeiçoamentos nas estratégias de mudança do Governo FHC, tais como: maior transparência nos programas de desestatização, privatizações e terceirizações. Criação de órgãos, especialmente colegiados. O discurso é o de prestigiar as carreiras típicas de Estado, como fiscalização, gestão governamental, arrecadação, segurança pública, etc. Acredito que o maior esforço dar-se-á no aprimoramento das ações e relações do Governo com a sociedade civil organizada para implementação dos programas sociais. A criação dos colegiados (Conselhos) e a idéia de parcerias parecem ser a tônica do atual governo.

Vicente: O governo passado (FHC) foi positivo em termos de Administração Pública?

Prof. Granjeiro: Sim e não. Sim no que criou a rotina/cronograma anual de realização de concursos públicos para as carreiras ditas estratégicas, aperfeiçoando e melhorando o corpo técnico da máquina administrativa e também as bases para implementação de uma administração mais preocupada com a qualidade e efetividade na elaboração e implementação das políticas públicas.

Não, porque não soube enriquecer os cargos públicos, tornando-os mais desafiadores e atraentes para os servidores. Não soube também valorizar o maior recurso disponível no serviço público que é o seu quadro de talentos (os servidores públicos). Os programas de privatizações e desestatizações foram concebidos e implementados de forma destabanada, sem muita transparência, onde os recursos arrecadados com a alienação das estatais serviram apenas para pagar indenizações. Nada foi aplicado na melhoria do serviço público, geração de empregos ou programas sociais. O Governo FHC era dono de um discurso bonito, mas de atitude medíocre e desrespeitosa com os seus agentes públicos, que ficaram sete anos sem reajuste, com autoestima baixa e sem expectativas de melhora na situação.

Vicente: Fala-se tanto em reconhecimento ao servidor público, mas nos últimos tempos praticamente só se tem más notícias (rebaixamento de remuneração inicial das principais carreiras, ausência de definição das carreiras típicas de Estado, falta de revisão das remunerações há anos etc.). É possível traçar um quadro de otimismo em face do novo governo, ou a realidade será esta que já temos presenciado?

Prof. Granjeiro: Sou otimista e aposto em mudanças na política de recursos humanos dos servidores públicos. Acredito que nos dois primeiros anos do Governo LULA haverá uma continuidade do tratamento dispensado aos servidores pelo governo pretérito. Após esse período, acredito que o atual governo dispensará uma atenção maior aos cargos efetivos de carreira.

Espero, também, que o novo Governo empenhe-se na regulação do direito de greve e na fixação e regulamentação do teto de remuneração e proventos, matérias há muito carentes de regulação legislativa. Sobre a reforma da previdência, certamente o Governo buscará estabelecer novas regras, dificultando a concessão dos benefícios - por meio do aumento do tempo de contribuição e da idade para o requerimento da aposentadoria voluntária, por exemplo -, bem assim regulamentará o sistema complementar de aposentadoria do servidor público efetivo. 

 

Vicente: Você já atuou em diferentes frentes de preparação para concursos, como professor, diretor de Editora e diretor de curso preparatório. O que você acha que atualmente está mal na legislação (e na sistemática de realização) dos concursos públicos? 

Prof. Granjeiro: No Senado Federal e na Câmara Legislativa do DF circulam dois projetos-de-lei que contemplam pelo menos treze sugestões minhas para melhorar a transparência e a eqüidade dos concursos públicos. Eis algumas idéias e sugestões que me lembro agora:

1) reduzir o valor da taxa de inscrição dos atuais 5% da remuneração do cargo para 1%;

2) fornecer no edital sugestões bibliográficas;

3) aumentar o prazo entre a divulgação do edital e a data de realização da prova para 90 dias, no mínimo;

4) ampliar o prazo para apresentação dos recursos para 5 dias úteis;

5) permitir a gravação das entrevistas, para permitir o recurso;

6) divulgar o nome dos membros da banca examinadora;

7) em prova de legislação, o edital deverá informar os artigos que serão cobrados na prova;

8) o órgão que oferece as vagas não poderá realizar o concurso;

9) o órgão ou entidade encarregado(a) da realização do certame deverá ser escolhido(a) mediante licitação;

10) o candidato deverá sair com o caderno de prova;

11) os recursos, quando indeferidos pela banca, deverão ser motivados;

12) quando houver nomeação do candidato primeiro colocado no concurso, sejam os demais aprovados dentro do número de vagas também nomeados dentro de 45 dias.

Vicente: Uma pergunta pessoal agora. Mesmo com tantas atividades profissionais, ao longo de tantos anos, sempre o vejo tranqüilo quando o encontro. Qual o segredo para o equilíbrio? Sobra tempo para a família?

Prof. Granjeiro: O segredo está em fazer aquilo que mais sei e gosto de fazer: realizar sonhos, porque sou protagonista deles. Amo a minha esposa Ivonete e os meus filhos Gabriel (10 anos) e Matheus (7 anos). Faço tudo pensando neles e por eles. A minha família é a força de que necessito para seguir os meus caminhos de educador e empresário com humildade, disciplina, alegria, simplicidade, ética e, acima de tudo, com DEUS no coração. Ficar com os meus filhos, viajar com eles, brincar com eles me dão muito prazer e remunera as 17 horas diárias que normalmente trabalho para o OBCURSOS. 

Vicente: Vou finalizar com uma pergunta pesada: se você tivesse hoje a oportunidade de fazer um pedido (ou de apresentar uma proposta) ao novo Ministro do Planejamento em termos de Administração Pública, qual seria ele? 

Prof. Granjeiro: As que constam dos projetos de lei que mencionei respondendo outra pergunta sua e uma outra proposta seria a de definir as carreiras típicas de Estado, criando o “carreirão” para que a pessoa ingresse no serviço público pela vocação, formação e interesse – e não exclusivamente pela remuneração que o cargo oferece. Os cargos do carreirão deverão ter a mesma remuneração inicial e final. 

Vicente: Gostaria de agradecer imensamente sua disposição em conceder esta entrevista, que, não tenho dúvidas, será de grande valia para os candidatos que por aqui passam. E, ao mesmo tempo, de deixar claro que as portas do Ponto dos Concursos estão abertas para outras participações suas, sempre no intuito de renovar os ânimos daqueles que se encontram na árdua batalha por um cargo público.

Prof. Granjeiro: Por oportuno, gostaria de registrar que na minha vida voltada para concursos públicos pude observar que são vencedores aqueles que têm disciplina, humildade, paciência, perseverança e método de estudo. Estudam por prazer e com muita alegria até passarem no concurso que escolheram para fazer a sua vida profissional. O concurso público é uma guerra de táticas e estratégias - e sagram-se vencedores aqueles que melhor sabem usar o tempo de estudo, de vida e de prova.

E para aqueles que residem em outras localidades, fica aqui o meu mais sincero convite: passando por Brasília, visite o OBCURSOS, passe por lá para que a gente converse e troque experiências sobre preparação para concursos. Como o Vicente disse, essa é a minha vida há mais de uma década, a gente aprende muito com o convívio diário com os candidatos e muito é muito gratificante repassar esse aprendizado, ajudando outras pessoas. Se pensarem em vir para Brasília, para uma melhor preparação, fale com a gente, que auxiliaremos no que nos for possível (biblioteca, salas de estudo, condições de pagamento, estratégias de estudo etc.).

Que o Senhor DEUS ilumine os caminhos e mentes daqueles que trilham nos difíceis degraus para ingressar em um cargo público.

Prof. Granjeiro (granjeiro@obcursos.com.br)