Entrevistas

Ricardo Alexandre


Ricardo Alexandre, de Campina Grande (PB)

Após as primeiras entrevistas no site, na semana passada, recebi um caloroso e incentivador e-mail do Ricardo, no qual exteriorizava sua satisfação com o conteúdo e utilidade delas e também me contava um pouco da sua luta, na faculdade de Direito que acaba de concluir e na preparação para o último AFRF, no qual foi aprovado em 3º lugar geral.

E não foi só no último AFRF que ele sagrou-se vencedor não: listou-me vários outros concursos nos quais obteve ótimas classificações (AFC/2001; 1º lugar nacional no TRF/98; 2º lugar nacional no TFC/98; 1º lugar em concurso da TELESP etc.) e disse que agora dedica-se à preparação de outros candidatos na sua cidade, Campina Grande (PB).

Fiquei impressionado com sua objetividade (“sempre digo aos alunos que estou preparando-os para fazer uma prova de concurso, não para ser advogados; quem quiser ser jurista ou fazer ciência, que procure a Universidade!”), alegria e otimismo no que faz – ainda que estudando no interior do nordeste, sem cursinhos, sem apoio. Convidei-o, então, para colaborar com o Vemconcursos na preparação de outros candidatos do País, incentivando-os, por meio desta entrevista.

É isso Ricardo: que seu otimismo e alegria incentivem outros candidatos como você, que estão se preparando longe dos grandes centros, mas que não se deixam desanimar por isso – e também, mais ainda, que acordem os que estão nos grandes centros, que têm tudo nas mãos e ficam por aí, acomodados, na indecisão do dia-a-dia, sendo atropelados pela caravana interiorana, integrada por gente como você e o Gustavo, de Santa Maria (RS)!!!

E, de minha parte, que Deus lhe dê muita felicidade e realização nos seus projetos familiares e profissionais, especialmente nesse de dedicação ao ensino, à preparação de candidatos em Campina Grande, no qual certamente você poderá ajudar muitas e muitas pessoas.

Aliás, é impressionante como tenho observado nos últimos tempos, com bons olhos, a entrada de gente nova (e competente!) nessa área de preparação para concursos, todos recentes ex-concursandos (como são exemplos os meninos de Salvador, que lançaram um livro de Previdenciário; do Vélter, de Santa Maria; do Marcelo em Direito Tributário, do Rio de Janeiro etc.), aposentando os “dinossauros desatualizados” que rondavam no meio... 

Bem, enquanto não chega o curso de formação do AFRF na Esaf (ocasião em que terei a satisfação de conversar pessoalmente com o Ricardo, pois estou na coordenação e instrutoria desse curso), fiz ao Ricardo as seguintes perguntas:

Vicente: Você foi aprovado em diversos concursos públicos, inclusive muito bem aprovado no último Auditor da Receita, mesmo estudando no interior do País. Na sua opinião, o que é mais importante para se preparar sozinho para os grandes concursos nacionais, concorrendo com os candidatos que estão nos grandes centros, como São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília?

Ricardo: A maneira como o candidato encara esse fato pode transformá-lo numa grande vantagem comparativa. Um exemplo ajuda a esclarecer a afirmação: muitos concurseiros daqui de Campina Grande sentem calafrios com a simples idéia de enfrentar os “feras de Recife” (êta complexozinho de interiorano danado!). Se eu fosse nessa linha de raciocínio, não teria nem tentado um concurso federal. Ao invés de cair na tentação de utilizar essa desculpa antecipada para justificar futuros fracassos, inverto a situação: quando estou estudando e o medo ameaça aparecer, penso: “tem um bocado de recifense preso no trânsito, enquanto eu garanto meus pontinhos na tranqüilidade interiorana”, respiro fundo, fecho os olhos e visualizo meu nome numa excelente posição no Diário Oficial. “Problema deles que estão no trânsito!”. 

Outro detalhe a ser sempre lembrado é que a evolução dos meios de comunicação democratizou o acesso a material de qualidade de forma que o mesmo conteúdo que se estuda lá (grandes centros) se estuda cá (interior). 

Vicente: Numa preparação para concurso, a gente sempre comete erros e acertos. Com base nos erros e acertos cometidos por você, se você recebesse hoje a incumbência de orientar e coordenar os estudos de um candidato que vai começar agora, do zero, a se preparar para um concurso da área fiscal, qual seria a sua orientação? Como ele deveria começar os estudos? Por onde começar? Que material comprar? Quantas horas mínimas diárias de estudo?

Ricardo: Primeiro que tudo, abandonar os complexos e preconceitos. No primeiro concurso que fiz para o serviço público federal, eu ficava pensando: “como um técnico em telecomunicações vai concorrer com o povo da faculdade de Contábeis, numa prova em que Contabilidade tem tanto peso?” Minha resposta foi partir para a ação, passei noites a fio rolando no chão brigando produtivamente com um bom livro da área. Depois, durante o curso de formação, descobri que tinha feito mais pontos em contabilidade que a maioria dos contadores aprovados.

Então a regra é simples: pague o preço, concentre boa parte do tempo disponível nos seus pontos fracos. Não adianta se transformar num profundo especialista no que você já sabe, gabaritar uma prova e ser pego pelo corte noutra.

A qualidade do material é importantíssima: não adianta comprar livros que podem formar cientistas, mas colidem com a opinião das bancas. Ouça quem faz e fez prova para não cair em furadas. Eu já comprei desde falsas apostilas que me fornecem apenas o nu, cru e frio texto da lei, a outras, volumosas e extremamente dispersas, todas assemelhadas pelo simples fato de não conter nem a metade do que cai na prova. Hoje, sempre que preciso, procuro no site do Vemconcursos, meu guru, as obras indicadas para o concurso que desejo prestar, sei que quem as indica já fez o test-drive, aprovou e foi aprovado!

Quanto ao tempo de estudo, cada um tem seu limite. Respeite-o e vença-o. Organize seus horários e cumpra-os. Se você separou uma hora para jogar futebol, jogue e não se sinta culpado, é um relaxamento para seus neurônios estressados! Só não exagere, você está no meio de uma preparação séria e tem um preço a pagar. Por isso, durante as horas que separou para estudar, mande o futebol para as cucuias. A sensação de dever cumprido é estimulante e extremamente produtiva.

Vicente: E se esse conselho fosse para um candidato que já está estudando há algum tempo numa cidade que não tem cursinho e, por não lograr êxito, está desaminado, com vontade de desistir de tudo?

Ricardo: A esse candidato eu diria que não jogue prá cima a preciosa vantagem que ele já conseguiu frente ao enorme contingente de pessoas (a maioria) que vai começar quase do zero a partir do Edital ou, no mínimo, do boato de Edital. Mantenha o foco. Tenho uma dica infalível para manter a motivação: descubra o que põe você em movimento e use essa idéia como âncora para evitar a dispersão. Se o que realmente te empolga é o dinheiro, faça com que esta idéia trabalhe em seu favor, não tenha vergonha de pensar naquele carro! Jogue essa imagem colorida e reluzente na sua tela mental e “ancore” sua motivação, ninguém vai ficar sabendo do seu profundo materialismo! Houve uma época em que meu maior objetivo era me livrar de um determinado chefe. Estudei feito um louco e, quando a sombra do desânimo ameaçava aparecer, eu lembrava de-ta-lha-da-men-te do rosto, das idéias e da voz do meu maior incentivador. Resultado? Fui segundo colocado nacional no concurso.

Vicente: Você comentou comigo que descobriu recentemente “o prazer de ensinar, de dar aulas”. Como isso começou? O que você já fez aí na sua cidade em termos de ensino? 

Ricardo: Sempre tive muita vontade de passar minhas experiências para quem está se preparando para concursos públicos, de criar uma mentalidade de preparação antecipada na minha cidade, de fazer com que as pessoas descubram que podem. Criei, junto com minha namorada, um cursinho preparatório, o Pré-Concursos, disposto a mostrar que é possível oferecer preparação de alto nível, mesmo afastado dos grandes centros. Passei a dar aulas utilizando todas as ferramentas que julgo úteis, desde as tradicionais exposições a quadro e giz, até preparação psicológica e cursos de memorização. Além disso, faço palestras sobre temas jurídicos e, sempre que encontro um grupo de pessoas querendo informações que eu conheça, ou possa adquirir, e alguns minutos disponíveis, não deixo a oportunidade passar. Uma vez vi Jô Soares se definir como um gordo exibido. Daí pensei: “Taí, eu tenho que admitir, sou um cara exibido”. Meu fraco é platéia, adoro a sala de aula, faço tudo para que meus alunos consigam sucesso e compartilho um pouquinho da felicidade advinda do resultado. 

Alguém já disse que ser professor é uma maneira de se atingir a eternidade, pois você nunca sabe onde cessa sua influência. Creio que na área de concursos essa frase é ainda mais verdadeira: um concurso muda a vida de uma pessoa.

Vicente: E nesse seu cursinho, os resultados já começaram a aparecer?

Ricardo: Já. Ainda temos sofrido muito com aquele típico comportamento suicida de só estudar quando da liberação do Edital. Mesmo assim, numa “turma” em que só tínhamos três alunos para TRF, conseguimos uma aprovação (33% é razoável, não é?) Também aprovamos no último TFC e em concursos locais, sempre concorrendo com menos meia dúzia de alunos. Parece pouco, mas as pessoas passaram a acreditar que é possível e as turmas cresceram. Agora, vamos começar o “projeto INSS”, com uma preparação séria e antecipada. Tenho certeza que nossos alunos entrarão com muita chance na disputa das vagas deste importante concurso. É um trabalho de formiguinha, mas, com o tempo, vou fazer tudo que estiver ao meu alcance para que haja muita gente de Recife, João Pessoa, Natal e outras cidades maiores, preocupada com os “feras de Campina Grande”. É só trabalhar e aguardar o resultado dos próximos concursos! 

Vicente: E de escrever material para concurso, você gosta?

Ricardo: Sim, gosto, tenho elaborado algumas apostilas para os meus alunos.

Vicente: Se você tivesse que apontar a maior dificuldade durante sua preparação, qual seria ela?

Ricardo: Sem dúvida foi resistir às tentações, deixar a diversão fácil e imediata de lado e visualizar o futuro. Para preparar-se com sucesso você tem que vencer a sensação que está deixando de viver momentos importantes. É por isso que ressalto a importância de separar aquela horinha de futebol, praia, música ou outra diversão, pois além de relaxar a mente para recomeçar o esforço, vai te ajudar a, durante este, dizer para o diabinho das tentações: já me diverti, agora é trabalho, é alto nível, é produtividade.

Vicente: Como você organizou o programa de estudo para o concurso de Auditor? Quantas horas diárias? Você gosta de estudar disciplina por disciplina ou várias disciplinas simultaneamente? Como você dividiu o seu tempo entre estudo e teoria, resolução de exercícios e revisão?

Ricardo: O tempo foi muito curto (felizmente, curto para todos!) e, para piorar, o meu, é muito escasso: estava terminando a faculdade, trabalhando na Receita como TRF além de dar aulas no pouco de tempo livre que me restava. Então parti para a avaliação criteriosa do custo/benefício do uso de cada minuto disponível. Como eu dou aulas de Direito Tributário/Constitucional/Administrativo – posso considerar que venho há muito tempo me preparando nessas disciplinas. Quando o Edital saiu, deixei-as de lado. Naquelas de peso um, em virtude de minha preparação para concursos anteriores, não havia perigo de corte em nenhuma, além de Inglês e Matemática serem pontos fortes meus, também não usei meu tempo para estudá-las. Contabilidade foi revista por meio de resolução de exercícios. Agora o mais importante: todo, todo o tempo restante foi investido exclusivamente nas provas que valiam mais pontos e onde eu tinha maior dificuldade (estava partindo quase do zero): Relações Econômicas Internacionais e Comércio exterior. Adquiri todos os livros indicados por quem passou em aduana (o e-book do Missagia me deu preciosos pontinhos!). Pela ordem: li o que foi possível, elaborei resumos, resolvi as provas anteriores e exercícios e voltei a ler os resumos. Resultado? Na soma das duas disciplinas foi minha prova de maior pontuação. E eu não conhecia quase nada dos assuntos! 

É claro que só pude me dar ao luxo de usar todo o meu tempo em duas disciplinas por já estar razoavelmente preparado nas outras. Ninguém, absolutamente ninguém, conseguiria aprender tudo, começando do zero, no tempo disponibilizado. Sem preparação antecipada, hoje é impossível passar num bom concurso!

Vicente: Para finalizar, que mensagem de otimismo você deixaria para os candidatos que ainda estão na luta?

Ricardo: Não importa sua formação, onde você mora. Você não precisa ser um gênio. Dedicação, preparo antecipado, organização, motivação “ancorada” e acesso a um bom material (“o” material ) são praticamente infalíveis. Deve-se ressaltar que não existe fórmula mágica nem fórmula única. Cada pessoa aprende melhor de determinada maneira: uns precisam ler em voz alta; outros, escrever tudo; uns precisam procurar evitar o corte em uma disciplina que outros vão gabaritar... 

Concurseiro, você pode até ter um modelo como parâmetro, mas é imprescindível descobrir como você funciona, sua estratégia única e infalível, lembrar de como você sempre estudou no colégio para as provas mais difíceis – enfim, descobrir suas próprias habilidades (para utilizá-las da melhor forma possível) e suas dificuldades (para descobrir como superá-las).