Entrevistas

Lucíola Calderari


Lucíola Calderari, de Brasília (DF)

Tive o privilégio de ser professor da Lucíola em dois cursos de Direito Constitucional em Brasília (num deles, de exercícios específicos para a Câmara dos Deputados, acho que mais atrapalhei do que ajudei, porque a prova do concurso foi muito atípica, fugiu muito do que vinha sendo cobrado na maioria dos concursos). Foi sempre muito dedicada e detentora de uma concentração excepcional, estava o tempo todo ligadíssima na aula, fazendo suas anotações sobre tudo o que eu falava. Sempre me pareceu, também, uma pessoa tranqüila, madura, dessas que sabem muito bem o que querem da vida. E vim saber depois que, de fato, sabia exatamente o que queria: ser aprovada no concurso da Câmara dos Deputados!

Eu costumo dizer em sala de aula que concurso público é uma opção de vida, que exige planejamento e investimento árduos: logram êxito mais rapidamente aqueles que são mais decididos na vida, que abrem mão de outras oportunidades, que investem tempo e dinheiro na sua preparação. Você pode até ser aprovado de outra maneira, fazendo mil e uma coisas ao mesmo tempo, mas o caminho será longo, bem mais demorado, e de altos e baixos.

Eis uma pergunta que acho que todo concursando deveria fazer a si próprio: o que será melhor? Um período intenso de preparação e o êxito rápido ou ficar fingindo que estuda dois, três ou quatro anos até um dia passar num concurso?

Respeitados os que pensam diferente, sou do time da Lucíola: acho muito melhor fazer um planejamento sério, abrir mão de outros afazeres temporariamente e dedicar-se integralmente aos estudos, para sair logo do estresse! A decisão é difícil, exige coragem e dedicação, mas os resultados compensam – e vêm logo!

E o exemplo está aqui, sem mágica, sem rodeios: Lucíola, aos 23 anos de idade, aprovada no cargo que sempre almejou (depois de abrir mão de três outros concursos importantes: AFRF, AFC e Agente da Polícia Federal) e agora com todo tempo e tranqüilidade do mundo para melhor dedicar-se à família, aos amigos, às viagens e, lógico, ao maridão, que tanto a apoiou nos estudos (ela fez questão de frisar isso na entrevista e eu achei muito bonito, bonito mesmo; até porque, o que mais tem nessa fase é gente que atrapalha, que só sabe cobrar, reclamar da ausência etc.). 

Meus mais carinhosos parabéns aos dois, por terem pensado grande na vida: à Lucíola, pela firme decisão e dedicação aos estudos; ao seu marido, Aurélio, pelo incentivo a ela dispensado nos momentos difíceis da preparação. Que Deus cuide muito bem dessa união tão bem construída – e bonita de se ver.

Nesta semana, atrapalhei um pouco a paz da Lucíola, mas por um motivo justo: para que ela compartilhe um pouco sua experiência com outros concursandos que ainda estão procurando um “lugar ao sol”, ou, quem sabe, um “lugar na Câmara”.


Vicente:
 No ano de 2001 você foi aprovada em quatro importantes concursos públicos: Auditor Fiscal da Receita Federal, Analista de Finanças e Controle da Secretaria do Tesouro Nacional, Agente da Polícia Federal e Analista Legislativo da Câmara dos Deputados, tendo optado por este último cargo. Se você tivesse que dar um conselho para quem está começando hoje os estudos para concurso, que conselho seria esse?


Lucíola:
 Penso que quem está começando os estudos para concurso deve, antes de tudo, estabelecer um objetivo: passar no concurso A, B ou C. Quando terminei a graduação, decidi estudar para passar em um bom concurso público. Após fazer alguns concursos, nos quais não fui aprovada, percebi a importância da preparação para um concurso específico. Como o nível das provas está cada vez mais alto, é muito difícil para um concursando se preparar para vários concursos ao mesmo tempo. Assim, estabeleci como objetivo passar no concurso da Câmara, cujo Edital estava para ser publicado. Comecei estudando Direito Constitucional e Direito Administrativo, matérias básicas em qualquer concurso. Procurei fazer cursos com bons professores e estudar pelos melhores materiais.


Quando saiu o Edital do concurso da Câmara, avaliei quais matérias mereciam atenção especial, pelo grande peso e por nunca ter estudado antes. Foi importante fazer um cronograma de estudos, pois não perdi muito tempo com matérias de pouco peso e com matérias que sabia mais. Apesar de ter começado a estudar efetivamente para o concurso da Câmara após a publicação do Edital, não recomendo se faça o mesmo. O concurso da Câmara foi diferente, foram 4 meses do Edital à prova, e, como não estava trabalhando, tive tempo suficiente para ver e rever várias vezes toda a matéria. Entretanto, na maioria dos concursos, as provas são realizadas 7 ou 8 semanas após a publicação do Edital. Uma preparação a médio e a longo prazo é muito mais garantida.


Vicente:
 E se esse conselho fosse para quem já está estudando há algum tempo e, por não lograr êxito, está desanimado, com vontade de desistir de tudo?


Lucíola:
 Já passei por esse sentimento, assim como muitas pessoas que se preparam para concursos públicos. É muito frustrante quando a gente se dedica verdadeiramente a algo e não obtém o resultado desejado. Eu não passei no primeiro concurso ao qual me dediquei (Banco Central/2000). Fiquei nervosa durante a prova, não soube administrar o tempo e acabei não fazendo os pontos necessários. Depois da frustração inicial, procurei aprender com os meus erros, resolvi entrar de cabeça e provar a mim mesma que era capaz. Às vezes tinha uma recaída, ficava desanimada, mas então contava com o incentivo do meu marido, namorado na época, pensava em tudo que já tinha estudado, no meu objetivo, e isso me motivava novamente. 

Vicente:
 Você acha que o nervosismo prejudica muito no momento da prova? Que dica você daria para um candidato muito nervoso nas vésperas de um concurso?


Lucíola:
 Sem dúvida. Tão importante quanto estudar bastante para um concurso é traçar uma estratégia para fazer as provas. Essa estratégia tem que ser traçada antes e durante as provas. Quando fiz o concurso do Banco Central, estava muito nervosa e não tive o discernimento necessário para avaliar quais questões devia fazer primeiro, perdendo tempo valioso em questões muito difíceis e deixando de responder a questões muito fáceis. A partir de então, fiz vários concursos para testar minhas estratégias, avaliar quais tipos de questão levava mais tempo para resolver, enfim, adquirir experiência (não me desviando do meu objetivo, é claro!). Procurei fazer concursos com matérias em comum para não me dispersar. Dessa forma, mesmo sem estudar especificamente para o concurso de Agente da Polícia Federal/2000, acabei sendo aprovada (sem ter estudado Direito Penal, Direito Processual Penal...), o que me deu uma dose extra de confiança para as provas da Câmara.

Quanto ao candidato que fica muito nervoso nas vésperas de um concurso, poderia repetir o que todo mundo fala: o melhor a fazer é procurar relaxar, assistir a um filme, praticar um exercício físico, escutar música... Porém, isso nunca funcionou comigo. Prefiro rever (não estudar!) minhas notas de aula e resumos. Nada melhor para aumentar a minha confiança para o dia seguinte. Se não fizer isso, daí sim que fico mais nervosa. 


Vicente:
 Qual foi sua maior dificuldade durante a preparação (cursinho ruim, material ruim, professor ruim, ansiedade)? E o que mais te ajudou na preparação, o ponto mais positivo?


Lucíola:
 A minha maior dificuldade foi manter o ânimo. Ao me formar, preferi ficar desempregada e me dedicar em tempo integral para concursos. Como já mencionei, depois da frustração por não ter passado no concurso do Banco Central, procurei avaliar no que tinha errado, quais eram os meus pontos fracos. A partir de então, fiz quase tudo diferente. Passei a fugir de cursinho ruim, material ruim, professor ruim. Ficava atenta às dicas dos outros concursandos e dos professores. Procurei estudar com profundidade as matérias de peso maior no concurso da Câmara. Foi uma maratona de 5 meses, estudando de manhã, à tarde e à noite. Às vezes saía de casa às 7 horas da manhã e só voltava às 11 horas da noite. Quando é essa a rotina, deve-se ter muita determinação para não se deixar vencer pelo tempo. 


O que mais ajudou na minha preparação foi o apoio total e irrestrito que tive do meu marido. Nessa fase, é muito importante o candidato se cercar das pessoas certas, que sempre têm uma palavra de otimismo, de estímulo. As pessoas que vivem questionando se seu esforço vai valer a pena só atrapalham. Quando estava estudando, recusei mais de uma oferta de trabalho, pois estava num ritmo muito bom e achava o meu tempo de estudo mais valioso. Não é todo mundo que entende esse tipo de atitude.


Vicente:
 Como você organizou o seu programa de estudo? Quantas horas diárias? Como você dividiu o seu tempo entre cursinho, teoria e resolução de exercícios?


Lucíola:
 Depois do concurso do Banco Central, estavam iminentes editais de vários concursos. Optei por me preparar para o concurso da Câmara, mas, como tinha bastante tempo disponível por não estar trabalhando, resolvi me arriscar também no concurso da Receita. Fiz cursinho de Contabilidade e de Direito Tributário (o que reforçou os meus conhecimentos sobre Direito Constitucional Tributário). Vale ressaltar: meu foco sempre foi a Câmara! Priorizei, dentre as matérias de maior peso, as que nunca tinha estudado para valer. Fiquei cinco meses estudando basicamente Direito Constitucional, Direito Administrativo e Regimento Interno da Câmara. Quanto às matérias em que já tinha uma boa base, só fiz uma revisão. 


Nesses cinco meses, estudei, obsessivamente, em média 10 horas por dia, incluindo o tempo no cursinho. Procurava tirar o máximo proveito das aulas e do tempo livre. Nos finais de semana, diminuía o ritmo, procurava descansar um pouco. Por cerca de quatro meses, estudei a teoria, fiz resumos e exercícios. No quinto mês, que antecedia a prova da Câmara, revisei as minhas notas de aula, os meus resumos, e intensifiquei a resolução de exercícios (nada melhor para aprender a fazer provas de concurso do que resolver inúmeras questões de concursos anteriores). É importante dizer que, por opção, eu dispunha de muito tempo para estudar, mas as pessoas que não dispõem de tanto tempo assim também têm condições de fazer uma boa preparação. A qualidade do estudo é mais importante do que a quantidade de horas estudadas. 


Vicente:
 Para finalizar, você tem alguma mensagem de otimismo para os concursandos que ainda estão na luta?


Lucíola:
 Por mais difícil e tortuosa que possa parecer a caminhada rumo à aprovação num concurso público, devemos aprender com os nossos erros e não dar ouvidos a palavras de desestímulo. Temos que estar firmes no nosso propósito para não desistir da luta. Assim, cedo ou um pouco depois, atingiremos os nossos objetivos.