Entrevistas

Leandro Cadenas Prado


O Ponto entrevista Leandro Cadenas, juiz federal em Foz do Iguaçu

Inicialmente, fiquei em dúvida se eu faria esta apresentação do Doutor Leandro Cadenas, ou se delegaria esse papel à Carol do Ponto. Dúvida porque, como se sabe, não é fácil escrevermos a respeito de pessoas que admiramos muito, devido à tendência de parcialidade. Mas, ao final, acabou pesando o orgulho, a honra que para mim seria desempenhar essa tarefa – e aqui estamos!

Conheci o Leandro há muitos anos (em 2000), quando ele ainda exercia o cargo de Técnico do Poder Judiciário. Nessa época, eu e o Marcelo Alexandrino acabávamos de ingressar no cargo de Auditor-Fiscal da Receita Federal e começávamos a dar os nossos primeiros passos em nossa parceria (na internet e na publicação de livros). Parece-me que o Leandro tomou conhecimento do que escrevíamos na internet e gostou da nossa objetividade e clareza na exposição dos conteúdos. Trocamos alguns e-mails, discutindo questões polêmicas dos direitos Administrativo e Constitucional, e provavelmente aí tenha nascido a minha admiração.

Posteriormente, o Leandro foi aprovado no concurso de Auditor-Fiscal da Receita Federal e, então, como eu e o Marcelo Alexandrino ministrávamos aulas no curso de formação desse concurso, nos encontramos na Esaf/Brasília. Daí por diante a nossa amizade se consolidou, e também nossas parcerias profissionais (publicação de livros, palestras, aulas no Ponto etc .).

Pois bem, o que para muitos seria o fim de jornada (aprovação no cargo de Auditor da Receita), para o Leandro era só o início! Numa das nossas primeiras conversas em Brasília, ele foi logo me dizendo: “meu sonho, Vicente, é ser juiz federal; vou cursar Direito e prestar o concurso até passar”.

E assim foi feito! O Leandro formou-se em Direito, fez toda uma programação de estudo, tirou licença sem remuneração para estudar e, em menos de dois anos de preparação, foi aprovado em dois concursos da magistratura, (ambos 1º lugar!) – e agora, desde o ano passado, é “Excelentíssimo Senhor Doutor Juiz Federal” na cidade de Foz do Iguaçu (PR), vinculado ao Tribunal Regional Federal da 4ª Região.

Eu digo, sempre, que estudar para concursos exige, acima de tudo, empenho, disciplina, determinação. Não é assunto para fracos, nem para mimados. Você verá, nas páginas seguintes, um exemplo vivo de que a aprovação não é um acaso, nem sorte, nem genialidade; é apenas o resultado de um plane jamento sério, fielmente cumprido, regado de suor, humildade e de muitas abdicações temporárias. Valorize as palavras do Doutor Leandro Cadenas. Eu não tenho dúvida de que essa (extensa) entrevista será um marco na história de preparação de muitos concursandos por esse Brasil afora...

Vicente Paulo: Qua l foi a prime ira vez que você pensou em ser servidor público? Qual foi a motivação para isso?

Leandro Cadenas: Meu amigo Vicente Paulo, inicialmente, quero agradecer a gentileza das palavras, e o inegável exagero, fruto, sem dúvida, da amizade sincera e fraternal que nos une há tantos anos. Sinto-me bastante à vontade para falar no assunto “concursos”, pois vivo nesse “mundo concursal” há duas décadas.

Venho de uma família sem nenhuma tradição no serviço público. Ninguém nela buscou essa via, ao contrário, meus parentes sempre atuaram no setor privado.

Contudo, bem por acaso, esses “acasos” que mudam c ompletamente o rumo das nossas vidas, passei diante de uma agência dos correios e vi um cartaz que dizia que estavam abertas as inscrições para o concurso para preenchimento de cargos na Justiça Federal do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, com vagas para Curitiba, onde eu nasci e morava.

Eu não tinha a menor idéia do que era um T RF, só sabia que o salário era bom, cerca de oito vezes o que eu recebia como estagiário de Engenharia Elétrica, curso que eu freqüentava.

Fiz a inscrição e ali mesmo comprei uma apostila com o conteúdo da prova: português e noções de Direito. Costumo brincar que eu não tinha a menor noção da diferença entre STF e STJ, carta precatória ou carta rogatória, por exemplo.

Mas estudei, fiz a prova e passei!!! Recebi um telegrama (sim, telegrama...) comunicando minha nomeação no meu aniversário de 21 anos!! Grande presente que mudaria, daí por diante, toda minha vida.

Então, esse foi meu primeiro grande contato com o serviço público e, confesso, creio que minha motivação foi quase que exclusivamente salarial. Não me lembro de algum outro motivo que me levou a fazer aquela prova.

Vicente Paulo: E qual foi o primeiro concurso que você prestou? Olhando, hoje, depois de tantas aprovações, como você “julgaria” essa sua primeira experiência de preparação?

Leandro Cadenas: Eu havia feito outras provas antes. Fiz “concursos” para estagiário e também um para um cargo temporário no DET RAN do Paraná, que, apesar de aprovado, sequer assumi, pois o salário era baixo e havia previsão de multa se o abandonasse antes do fim do prazo. Mas esses não contam.

O primeiro sério foi esse de técnico judiciário. Mas, sejamos honestos, era outro tempo. Estamos falando em 1993 quando fiz a prova. O “mundo concursal” não existia como é hoje. Ninguém falava em concurso, não existia cursinho, editoras na área eram raras, e se limitavam a apostilas muito resumidas, mal feitas, desatualizadas e difíceis de achar. Internet? Não existia. Bons livros pra concurso? Nem se sonhava com isso. Acesso a provas anteriores? Nem pensar.

A prova, então, era o que se poderia classificar hoje como “uma piada”. As questões eram fáceis, diretas, sem a menor preocupação com o raciocínio do candidato.

Preocupava-se tão somente com um pouco de conhecimento técnico (jurídico) e do idioma brasileiro, nada mais.

Mesmo assim, em razão das dificuldades com material didático, poucos passavam. Por exemplo, naquele concurso que fiz eram, salvo engano, aproximadamente 1300 candidatos. Somente 111 obtiveram a nota mínima na prova. Ao fim dos quatro anos de validade do certame, todos estavam nomeados. Noutras palavras, naquele tempo, obtendo a nota mínima havia grandes chances de ser nomeado no decorrer do tempo.

Hoje a realidade é totalmente distinta. Soube de um concurso para técnico judiciário em que eram oferecidas sete vagas. Se a memória não me falha, onze candidatos gabaritaram a prova! Nesses concursos onde a prova é do tipo “decoreba”, acertar 90% das questões costuma ser sinal de reprovação. No concurso que fiz, acertando o mínimo, estava dentro.

Enfim, comprei àquela apostila, em uns dias, uma hora por dia, li duas vezes a parte de direito (a parte de português sequer abri) e fui pra prova. Pelo que me lembro, fiquei em 33º lugar, e fui nomeado já na segunda turma (na primeira foram uns 15, três meses antes).

Quem lê esta resposta hoje certamente pensa: “Por que eu não pensei em concurso nessa época?”.

Respondo: em primeiro lugar, não olhe para o passado, mas sim para a realidade de hoje.

É óbvio que a prova era muito mais fácil, não se compara. Também o acesso à informação era bem mais difícil.

Olhando especificamente para o concurso da magistratura, por exemplo, provas realizadas há vinte anos eram, aos olhos de hoje, muito fáceis. Praticamente não se cobrava jurisprudência. O acesso a ela era por livros, editados muitos meses depois do julgado. E hoje? Você tem no seu email, de graça, as notícias do que está sendo julgado hoje, no STF!

É o mundo da informação, então, sem ela, você não chega muito longe na sua caminhada.

Portanto, a experiência desse meu primeiro concurso em nada se aplica aos meus concursos posteriores, salvo o fato de saber que sim, é possível, e ser aprovado só depende da gente, e não do sobrenome ou se algum dos seus pais tem um cargo influente. Só depende do candidato. Estudando, a aprovação chega.

Vicente Paulo: Como Técnico Judic iário, você certamente via ali, no ambiente de trabalho, o dia a dia de um Juiz. Você lembra quando decidiu, verdadeiramente, que queria ser um magistrado?

Leandro Cadenas: Eu gostava do que eu fazia, me sentia útil atendendo ao público, ajudando, ainda que de forma simples, as pessoas que precisavam do Judiciário.

Mas eu era estudante de Engenharia, e gostava disso também.

Então, enfrentei um primeiro conflito sério acerca do meu futuro profissional: gostava do serviço público e gostava de engenharia.

Passei a avaliar os prós e contras de cada uma das possibilidades e, especialmente em razão da estabilidade e das possibilidades remuneratórias para um recém formado, além, claro, de gostar do que fazia, acabei optando pelo serviço público.

Mas o meu cargo era de nível médio, e me sentia um pouco limitado nele. Então passei a estudar para o concurso da Receita Federal, um dos melhores cargos para graduados em outras carreiras que não o Direito.

Nessa fase, melhorei muito minha capacidade técnico-jurídica, em razão dos estudos para o concurso de Auditor que, como sabemos, exige muito do candidato.

Foi nessa época que o juiz com quem eu trabalhava me convidou para ajudá-lo a minutar as decisões dos processos a cargo dele. E foi aí que, verdadeiramente, me senti com a vontade de ser juiz, já que percebia que, de fato, poderia mudar a vida das pessoas, a judá-las a ter o que elas tinham direito. Até então, minhas atividades eram meramente burocráticas, com sua inegável importância, é óbvio, mas sem que se pudesse perceber um resultado concreto. Ajudando aquele juiz, apesar de caber a ele a assinatura da decisão, eu me sentia muito útil para a sociedade.

Passei no concurso da Receita com uma idéia fixa: fazer a faculdade de Direito e prestar o concurso para a magistratura. E assim foi.

Vicente Paulo: Quando se fala em concurso para a magistratura, a reação norma l das pessoas é pensar que se trata de algo quase inatingível para os “mortais”! Eu mesmo conheço muitos, muitos candidatos que se formaram em Dire ito com o sonho de serem juízes, mas passaram em algum concurso de técnico ou analista do Judic iário e nele estacionaram. No início, você também não tinha essa sensação, de que seria quase impossível a aprovação na magistratura?

Leandro Cadenas: Sim, de fato, essa é uma sensação geral. Contudo, inicialmente, sem saber direito das dificuldades, eu achava que era perfeitamente possível chegar lá, tanto é que acreditava que os três anos de prática jurídica exigidos a partir da EC nº 45/2004, que se transformam em tempo de preparação, era tempo suficiente para estudar...

E acabei iniciando meus estudos apenas seis meses depois da formatura. Foi só estudando que percebi o quão difícil é, realmente, esse concurso. Assim, passei dois anos só fazendo cursinho, sem estudar, até perceber que, naquele ritmo, talvez demorasse dez anos para passar, ou talvez nunca passasse. Foi o volume de matéria que me levou a pedir licença sem remuneração para ficar totalmente focado no estudo para o concurso. Essa foi minha decisão pessoal. Boa parte dos aprovados acaba passando enquanto trabalha, é dizer, trabalhar não é um empecilho.

Curioso é que entre os que estudam para a magistratura estadual essa sensação de dificuldade se repete. Certa vez, conversando com um colega antes da prova de juiz estadual, comentei que eu queria ser juiz federal, ao que ele prontamente respondeu: “isso não é pra mim, não imagino isso nem nos meus melhores sonhos, é muito difícil!”.

Essa sensação, então, é bastante comum e, digo mais, com boa parcela de razão. Difícil é sim, impossível não!

É bom que se diga: todos os concursos são difíceis, cada um com suas características e peculiaridades. Hoje em dia não há concurso fácil.

Por último, acrescento que o que mais se vê são pessoas querendo um certo cargo mas não se submetendo ao caminho que essa aprovação exige, ou se ja, querem o cargo, mas não querem o caminho para chegar até ele. Assim, acabam sendo aprovados em outro cargo, eventualmente mais fácil de passar, e nele se acomodando, mesmo que não se ja onde gostariam de estar. Vi muitos exemplos assim na minha preparação.

Se você está satisfeito no seu cargo, seja ele qual for, ótimo. Todos tem suas peculiaridades, com vantagens e desvantagens. Se você quer ser delegado, você será delegado, não desista enquanto a aprovação não chegar. Se quer ser juiz ou membro do Ministério Público, idem, batalhe até conseguir. Repito: se ficou satisfeito no cargo no qual foi aprovado, pode se aposentar da carreira “concursal” e ir aproveitar a vida. Mas é importante fazer uma boa avaliação do que quer e do que o faz feliz. O cargo é só um detalhe na sua vida.

A pior opção, me parece, é ficar remoendo o resto da vida uma não aprovação para um cargo que se optou não mais estudar.

De outro lado, também não é bom passar e ficar reclamando do trabalho, das funções, das competências. Lembre-se: dinheiro, poder, “status”, são coisas que podem até deslumbrar candidatos, mas dificilmente substituem o prazer de se trabalhar com aquilo que dá alegria e satisfação. Mesmo em concursos muito difíceis vemos aprovados insatisfeitos com a função, especialmente aqueles que não tem a respectiva aptidão ou que escolheram o cargo pelo salário. Então, antes de escolher o cargo que pretende, avalie, muito além da dificuldade da prova, também suas aptidões e gostos pessoais. O caminho escolhido pode surpreender você!

Vicente Paulo: Eu conheci melhor você quando ingressou no cargo de AuditorFiscal da Receita Federal. Mesmo naque le momento – de superação, pósaprovação -, você já fa lava firmemente no seu ingresso na magistratura. Da li por diante, parale lamente ao exercício do cargo de Auditor, você cursou Dire ito. O exercíc io de um importante cargo público (Auditor da Receita Federal) aux ilia ou atrapa lha na aprovação em um concurso da magistratura?

Leandro Cadenas: É verdade. É que eu já tinha vontade de ser juiz antes de ser auditor. Como era engenheiro, eu tinha duas opções: ficar como técnico e fazer a faculdade de Direito para, depois, enfrentar o concurso da magistratura, ou já fazer um concurso de nível superior e depois fazer Direito. Optei por este caminho, pois sentia que podia produzir muito mais do que estava produzindo. Para tanto, era necessário um cargo de nível superior. Dentre eles, o que mais me agradava era o de AFRFB e, de fato, gostei muito de ser auditor. Se acaso não tivesse logrado êxito na magistratura, ficaria nele até a aposentadoria muito satisfeito, por se tratar de um cargo ótimo, inserido em um órgão de excelência, onde há uma infinidade de oportunidades de realização profissional, servindo ao interesse público.

O exercício de outros cargos antes da magistratura é muito importante para a formação profissional do futuro juiz, dando-lhe outros pontos de vista, outras percepções que, talvez, alguém que assuma a magistratura sem essa experiência, não tenha.

Hoje a CF/88 exige prática jurídica de três anos, que podia ser suprida por cursos de pós graduação, já não mais aceitos. Me parece óbvio que um novo juiz, que não teve experiência profissional, terá muito mais dificuldades do que aqueles que a tiveram. Com o exercício de outros cargos o novo juiz tem mais facilidade para compreender o que as partes pedem, vivenciam, desejam, sofrem. Com outras experiências o exercício do cargo acaba sendo mais completo, melhor e útil para a sociedade, objetivo último ao assumir um cargo público, ou seja, efetivamente “servir ao público”.

São muito comuns aprovados nesse concurso que antes eram procuradores, delegados, defensores, analistas, técnicos, auditores. Essa diversidades só engrandece a magistratura e o serviço judiciário.

Outro ponto que me parece relevante é que, em razão da dificuldade própria desse concurso, como já citei, é comum também os candidatos serem aprovados para outr os cargos no decorrer da preparação. Isso, então, é igualmente relevante para o concursando, já que representa uma espécie de “caminho”, cada vez passando por novos postos até atingir seu objetivo final. O meu atingi e fiquei plenamente satisfeito, tanto com o destino quanto com o caminho percorrido!

Vicente Paulo: E o cargo de Técnico do Judic iário facilitou a ulterior preparação para a magistratura?

Leandro Cadenas: Na preparação não foi relevante, contudo, foi durante o exercício desse cargo que eu passei a ter vontade de ser juiz, a ter contato com o mundo jurídico, pois, quando fiz esse concurso, tinha apenas 20 anos e era estudante de engenharia, sem ter a menor noção do Poder Judiciário.

Outro fator muito importante foi vivenciar o trabalho sob o ponto de vista do servidor. Como se diz, para poder determinar o que deve ser feito, melhor saber como se faz. E isso creio que aprendi bem, pois foram oito anos como servidor, fazendo todo tipo de trabalho burocrático e, mais, compartilhando o cotidiano co m os demais colegas, o que inclui as inevitáveis fofocas, intrigas e disputas por funções gratificadas.

E essa experiência é fundamental hoje em dia, na administração da vara, dos servidores, do serviço. Como passei por tudo isso, tenho uma visão diferenciada, algo que os colegas que nunca foram servidores podem não ter, o que gera essa dificuldade extra no exercício do cargo.

Para o concurso, enfim, influenciou muito pouco; para a vontade de fazê-lo, muito.

Vicente Paulo: Em todo o período do “Projeto Juiz Federal”, qua l foi a sua maior dificuldade? E o que fez para superá-la?

Leandro Cadenas: Sem nenhuma dúvida foi manter a motivação para estudar durante o tempo necessário para aprender o suficiente para a aprovação.

Essa, com certeza, é a parte mais difícil da preparação. A matéria, me parece, não é a pior parte. Afinal, todos nós já passamos tantos anos estudando até a graduação que isso, bem ou mal, já sabemos fazer.

Porém, o estudo para o concurso é diferente.

No ensino tradicional, estudamos um pouco de matéria para uma prova específica, em geral, dois meses de aula e prova. Saímos da prova e passamos a nos preocupar com o conteúdo dos próximos dois meses, e assim chegamos ao fim da graduação.

No concurso o ritmo é outro. Temos que estudar tudo, de todas as matérias, para uma prova só. “Tudo ao mesmo tempo agora!”

Então, o tempo necessário para a preparação, de regra, é largo, o que acaba gerando ansiedade no candidato e, no mais das vezes, dificuldades de concentração, prejuízo para os estudos e, em casos extremos (e comuns), a desistência.

Em resumo: para passar em concurso, é necessário um bom tempo de dedicação aos estudos e à preparação em geral. E manter a motivação durante esse tempo vai ser a diferença entre a aprovação ou não. Portanto, a princ ipal dica que tenho para dar é essa, arrume algo para manter sua motivação. Cada um deve procurar o que mais representa seu dese jo de assumir o cargo e, cada vez que estiver desanimado, deve lembrar do que lhe fez decidir por seguir esse caminho, tortuoso, mas recompensador. E, uma vez reanimado, retomar os estudos com força total.

Esse “fator motivacional” vai ser muito particular de cada candidato. Uns pensam no salário, na posição, no reconhecimento social, no poder. Outros na estabilidade, na garantia de um bom “emprego”, na aposentadoria. Outros, ainda, na possibilidade de dar uma vida confortável para a família, uma boa casa, trocar de carro todo ano ou viajar para conhecer o mundo. Tem também aqueles que pensam em uma nova esposa ou em um novo marido! Mas, apesar de todos esses “motivos” pessoais, não nos esqueçamos do que realmente importa, afinal, estamos buscando um cargo público, ser servidor público. Então, um ponto muito importante é lembrar que, uma vez aprovados, passamos a ter uma função social muito relevante, qual seja, a de servir ao público, e isso nunca podemos perder de foco. Se isso não nos agrada, estamos buscando a carreira errada!

Enfim, cada um tem suas prioridades! Eleita a sua, use-a como um amuleto, cole na parede uma foto representativa do seu dese jo e, a cada recaída (esteja certo, elas ocorrerão várias vezes durante esse percurso), olhe para a foto, feche os olhos, pense no que lhe move, e siga seu caminho, até a aprovação! Ela virá!

Mas, nos momentos mais dramáticos, como logo em seguida a uma reprovação que lhe pareça justa ou não, ou um baque mais significativo, aí a solução talvez seja um pouco mais demorada. Pode ser fechar o livro, ir dormir, brincar com as crianças, andar no parque, passar um fim de semana na praia, ir ao cinema. Mude seu foco por um tempo, que sempre deve ser curto. E retome os estudos tão logo consiga.

Portanto, na minha opinião, manter a motivação é o ponto crucial para a preparação para essa batalha. Busque a forma de manter a sua e perceberá que o estudo flui com mais tranqüilidade, e a aprovação será apenas uma conseqüência disso tudo.

Vicente Paulo: Agora, vamos esquecer um pouco a magistratura e falar de outros concursos. Eu sei que você tirou licença sem remuneração e foi para Curitiba (PR) para focar nos estudos. Sei, também, que você fez cursinho preparatório, leu muito e acompanhava dia e noite a jurisprudência dos tribunais superiores. Agora, levando essa sua experiência para outros concursos – menos complexos do que o da magistratura -, qua l a combinação que você cons idera ideal numa preparação (curs inho + leitura + exercícios etc.)?

Leandro Cadenas: Há alguns anos concurso virou uma coisa séria. Deixou de ser, na maioria das provas, mera “decoreba” da legislação ou coisa para principiantes ou sortudos.

Hoje em dia, uma preparação integral é fundamental. Isso inclui uma série de ações que devem ser tomadas pelo estudante.

Costumo recomendar o seguinte conjunto:

1 – comece fazendo cursinho. Nele você aprende o foco para estudar. Iniciar, sozinho, costuma ser um caminho tortuoso, já que, como já referi, a preparação para essa prova é bem diferente de tudo que já fizemos na nossa vida acadêmica. O enfoque das questões idem. Aprender Direito Constitucional na faculdade é bem diferente do que no cursinho para concurso. Fazer essa prova na faculdade não tem nada a ver com a prova do concurso. Assim, não é porque você fez Direito que não precisa ir para as aulas de Direito no cursinho. Você vai descobrir um mundo novo. No cursinho, então, vai aprender como passar em concurso. Depois de algum tempo, muitos já se sentem aptos para estudar sozinhos, o que é muito natural.

2 – mantenha um caderno completo e atualizado. Esse vai ser o “seu manual”, o seu “tesouro”. É ele que vai te acompanhar durante todo esse processo. Os livros ficam desatualizados e você os substitui por novos, mas o caderno será o mesmo até a posse! Eu fiz o seguinte e, preste atenção, essa certamente vai ser uma das melhores dicas desta entrevista: eu anotava tudo em sala de aula durante um ano. No ano seguinte, passei a limpo o caderno, deixando de lado partes que eu já sabia bem e, portanto, não precisaria mais estudar. Tirei fotocópia desse material, deixando o verso em branco, e encadernei. No ano seguinte, quando ia para a aula (repetindo o que já havia feito antes), levava essa cópia e prestava atenção à aula (note que, antes, eu anotava tudo, depois eu ficava de braços cruzados ouvindo o professor). Se houvesse alguma informação nova, eu anotava nesse “caderno”, para isso deixei o verso em branco. Estudando em casa, se visse algum novo julgado, nova lei etc, pegava meu “caderno” e anotava esse detalhe. Ou seja, no fim, tinha um material que, apesar de ter sido produzido há quase quatro anos, estava sempre atualizado. E essa foi a base do meu estudo, já que li e reli por volta de umas quarenta vezes todos esses “cadernos”.

3 – leia a doutrina especializada. Quando comecei a estudar para auditor, não havia quase nada voltado para concursos. Aliás, nessa época é que conheci o Vicente e o Marcelo, que iniciavam suas aulas na internet. Pouco depois vieram os livros da Editora Impetus, pioneira na produção de livros de qualidade voltados para concursos. Hoje a realidade é outra. Há tanto material específico para essa área que ouso dizer que o problema se inverteu: antes, quase não havia; hoje, há tanto que é necessário separar o joio do trigo. De fato, há muita coisa ruim no mercado. Assim, procure descobrir os bons livros para concursos e leia-os com atenção. Se julgar conveniente (eu fiz isso) destaque as partes principais e depois releia só essas. Alguns livros li quase dez vezes, uma vez completa, e as outras só a parte destacada. A repetição é importante para a apreensão do conteúdo.

4 – faça muitos exercícios de provas anteriores. O treino é parte indissociável do aprendizado. Como fazer uma prova de concurso sem nunca antes ter resolvido umas questões em casa? O sucesso acaba ficando comprometido. Hoje há inúmeros sítios de internet onde é possível ter acesso às provas antigas, inclusive separadas por assunto, banca, ano etc . Além disso, também estão disponíveis no mercado livros de questões comentadas que podem ser ótimas ferramentas para a preparação. Use e abuse delas, quanto mais treino, melhor o desempenho quando for para valer.

5 – mantenha-se atualizado com a jurisprudência, se seu concurso a exigir. Alguns concursos não, mas outros exigem muito conhecimento da jurisprudência. Isso se intensificou em uma época de poucas novidades legislativas. Como são tantos concursos cobrando o mesmo conteúdo, não há mágica, e a repetição acaba sendo um caminho necessário. Então, para tentar inovar, as bancas passaram a cobrar também jurisprudência. Já vi prova com quase 25% das questões cobrando esse tipo de conhecimento. Portanto, atenção a ele. Sugiro, no mínimo, a leitura semanal dos Informativos do STF e do STJ, gratuitamente enviados por e-mail, pelo respectivo Tribunal, para quem nele se cadastra. De outro lado, toda semana envio as partes que julgo mais importantes do Informativo do STF para meus alunos. Se você tiver interesse de receber, me escreva: leandro@cadenas.com.br.

Além disso tudo, não devemos esquecer que alguns cargos exigem mais que uma prova de conhecimento. Há aqueles nos quais é necessária prova de digitação, prova física, que o candidato tenha um determinado tipo de habilitação para dirigir veículo etc .

Assim sendo, verifique o que o edital do seu concurso contém acerca desse assunto e se prepare de maneira completa. Já vi gente aprovada na fase de conhecimento e reprovada no exame físico... nada mais decepcionante. A preparação deve ser com o tempo necessário para alcançar a aprovação. Em geral, depois do resultado da primeira fase não dá mais tempo para se preparar para a seguinte. Leve isso em conta no seu planejamento.

Vicente Paulo: Você já se preparou s imultaneamente com o trabalho e, agora, na reta final para o cargo de Juiz Federal, optou por tirar licença do trabalho e www.pontodosconcursos.com.br ficar só estudando. O que você nos diz dessas duas experiências? O que poderia dizer a candidatos que têm a eterna dúvida “se para ou não de trabalhar para estudar”?

Leandro Cadenas: Com organização, é possível trabalhar e estudar para qualquer concursos.

Claro que não trabalhar tem a conseqüência de “sobrar” mais tempo. Mas qualquer opção tem seus prós e contras. Aquele que não trabalha tem mais tempo, mas não tem dinheiro no fim do mês, o que gera uma dose extra de ansiedade. Aquele que trabalha tem menos tempo para estudar, mas tem mais tranqüilidade financeira. Então, a opção deve levar em conta esses e outros vários aspectos.

Destaco também um “problema” comum entre os que só estudam: a sensação de que se tem muito tempo, portanto, pode folgar um pouco mais, deixando para depois o que poderia fazer hoje. Resultado: o tempo passa e não estuda. De o utro lado, aquele que tem pouco tempo tende a fazer render suas folgas com mais eficiência. Cuidado com as armadilhas do tempo!

A decisão, destaco, é algo muito pessoal. Durante muito tempo eu não tinha a disciplina necessária para estudar sozinho, então, precisei f requentar cursinhos, pois, em casa, não conseguia estudar.

É muito importante conhecer e reconhecer suas limitações. Não adianta ter o dia todo para estudar e se distrair com TV, telefone, internet, comida... O candidato deve olhar para si e, com honestidade, avaliar a melhor solução pessoal.

Pedir demissão do emprego, ou licença sem remuneração, é uma decisão muito importante, que deve ser tomada com cautela e reflexão, pois influenciará sua vida financeira e, no lugar de trazer mais tempo, pode trazer mais preocupações e pressões.

Eu avaliei isso e, com três anos de antecedência, decidi que iria pedir essa licença. Mas era uma situação peculiar, pois eu sentia que tinha (e tinha, de fato) muito para estudar e, com pouco tempo por dia, demoraria muito tempo. Além disso, eu mantinha uma série de atividades fora da Receita Federal, como as aulas, os livros e um cursinho para concursos do qual eu era sócio na época. Necessitava, então, abrir mão de algo para me focar nos estudos, e decidi abrir mão da Receita e de 90% das aulas, passando a estudar todo o tempo que me restava.

Graças a Deus deu certo. Dois meses antes de vencer minha licença de dois anos tomei posse no meu cargo atual, encerrando minha vida de concursando!

Se não tivesse feito isso, certamente demoraria muito mais tempo para alcançar a aprovação.

Avalie sua situação pessoal, seus limites, suas virtudes. Ve ja o melhor caminho e siga por ele, com fé. O resultado virá.

Vicente Paulo: Todo mundo fa la da importânc ia de exercitar, de fazer exercícios e provas anteriores. Você já disse que considera mesmo fundamental. Fale um pouco mais sobre isso.

Leandro Cadenas: Como já citei antes, sim, isso é essencial para um bom resultado.

A prática gera segurança para enfrentar o dia da prova com mais tranqüilidade. Nada como treinar antes da competição. Conhecendo a banca e a forma de ser cobrado o conteúdo, fica muito mais fácil fazer a prova.

Depois de analisar diversas provas de um determinado concurso ou de certa banca, percebe-se que há uma forma mais ou menos esperada de avaliar o candidato. Como diz Sun Tzu, “conhece teu inimigo e conhece-te a ti mesmo. Se tiveres cem combates a travar, cem vezes serás vitorioso.”

O “inimigo”, aqui, é o concurso, a banca, a prova. E você só o conhece estudando. No caso, resolvendo provas anteriores.

Agregue-se a isso a já citada repetição de questões. É muito comum tal repetição. Assim, pode ser que você veja pontos na sua prova já cobrados antes, e já resolvidos por você durante sua fase de preparação.

Vicente Paulo: Você é um ótimo exemplo de candidatos que já obteve sucesso em concursos não jurídicos (Técnico do Judiciário, Auditor-Fiscal da Receita Federal) e, agora, em jurídicos (aprovação para Defensor Federal e em concursos para Juiz). Quais seriam as principa is diferenças no tocante a se preparar para um concurso fiscal e um concurso jurídico?

Leandro Cadenas: Pelo que percebo, a diferença fundamental está na lista de disciplinas e na prova.

Os ditos concursos jurídicos costumam ter mais fases, como prova escrita e oral. Ultimamente até o concurso para Auditor, e outros não jurídicos, passaram a exigir também uma prova escrita, mudança muito positiva para uma melhor seleção dos candidatos.

Quanto à lista de disciplinas, nos certames que exigem bacharelado em Direito, praticamente só são cobradas matérias desse ramo do conhecimento, salvo língua portuguesa, exigida em alguns deles.

Já nos demais, o rol costuma ser mais abrangente, incluindo outras, como matemática, estatística, língua estrangeira, contabilidade, arquivologia, raciocínio lógico etc . Sob determinado ponto de vista, pode ser ainda mais difícil, por avaliar do candidato um leque diversificado de conhecimentos, enquanto que aqueles concursos jurídicos se restringem a uma área do saber. Contudo, neste caso, as questões, em geral, são mais aprofundadas e, naquele, podem ser mais superficiais.

Então, creio que essas são as principais diferenças, a gerar uma preparação direcionada. Se for o caso de prova com variadas áreas de conhecimento, acho interessante a idéia de mesclar as matérias. Quando estiver cansado de ler Direito Constitucional, resolva alguns exercícios de matemática financeira. Depois, faça uma redação, e assim por diante. Se as questões de uma área são superficiais, não perca tempo se aprofundando nela.

Vicente Paulo: Que conselho inicia l você daria para um candidato não graduado em Direito que fosse começar a estudar hoje para um concurso que exija vários ramos do Dire ito (quase todos cobram!)? Por onde começar?

Leandro Cadenas: Em primeiro lugar, deixe de lado todo e qualquer preconceito que você eventualmente tenha contra essas matérias. Não pense, como eu pensava, que Direito era chato e se resumia à mera leitura e “decoreba”.

É muito mais que isso.

Abra sua mente para esse novo mundo de informações, entenda o Direito e o porquê de cada uma de suas regras, tentando, muito mais do que mera memorização, a compreensão da matéria. Isso facilitará, e muito, na hora da prova. Claro, na sua vida também!

Costumamos não gostar daquilo que não conhecemos ou não dominamos. Isso não é diferente com o Direito. Depois de aprender, tudo muda. Eu não gostava de controle de constitucionalidade, achava chato, difícil, cheio de peculiaridades que eu não entendia. Também ouvi isso de muitos alunos. Como era um dos pontos mais cobrados em prova, me dediquei a estudar e, como recompensa, passou a ser um dos assuntos de Constitucional que eu mais dominava, acertando quase todas as questões de concursos.

Matérias de Direito serão cobradas na prova? É fundamental para sua aprovação? Se sim, então, aos estudos, sem preconceitos e com boa vontade. Pense assim: matéria interessante é aquela que me faz passar!

Vicente Paulo: Além de concursando de sucesso, você é também autor e coordenador de obras jurídicas (coordenador, por exemplo, das Coleções “1001 Questões Comentadas” e “Direito de Bolso”, publicadas pelo GEN/Método/Vicente & Marcelo). Você também já fa lou sobre a importânc ia do materia l didático. Então, que recado você de ixaria para os concursandos a respeito de “material de estudo para concursos”?

Leandro Cadenas: Como já referi, temos à disposição, atualmente, todo tipo de material didático voltado para concursos.

Mas a quantidade não se reflete, necessariamente, em qualidade. Justamente vemos o contrário: uma infinidade de livros que não tem compromisso com a qualidade, a atualidade, a didática ou o conteúdo direcionado. Infelizmente, o novato só vai descobrir depois que comprou. Pior, às vezes sequer depois de ler o livro se apercebe da sua má qualidade, já que, por vezes, o leitor não tem condições de avaliar a publicação.

Diante disso, a melhor saída é confiar na indicação dos professores ou concursandos mais experientes, dando preferência a autores especialistas nessa área, de reconhecida excelência.

Dessa forma, você otimiza seus estudos, e não perde tempo “aprendendo” e “desaprendendo” com materiais de baixa qualidade.

A dica, em resumo, é: você precisará de bons livros, então, abuse das indicações e do currículo do autor.

Vicente Paulo: Você também já foi sócio de curso preparatório para concursos, em Campo Grande (MS), como já citou. Nessa época, você certamente vivenciou os maiores “sofrimentos” dos candidatos. Em gera l, quais são as maiores angústias dos candidatos durante uma preparação?

Leandro Cadenas: A mais freqüente característica que pude perceber foi a falta de paciência, característica que é comum nas nossas vidas. Queremos resultados “para ontem”, e não estamos dispostos a investir o tempo necessário para alcançá-los. Iniciamos um regime e queremos emagrecer, em um mês, o que comemos a mais durante anos. Começamos as aulas de uma língua estrangeira e queremos sair falando logo. Começamos um cursinho e queremos passar na primeira prova, de preferência com poucos meses de estudos.

Ora, isso não é possível. Então, o que eu vi nessas quase duas décadas vivenciando o mundo “concursal”: muita gente sonhando com um cargo, fazendo um cursinho, e desistindo no meio do caminho.

Os poucos que não desistiram, passaram.

Os alunos também acabam gastando muita energia e muito tempo com questões que fogem do seu controle, como demora para a publicação do edital, falta de previsibilidade da Administração Pública, mudanças nas matérias, excesso de questões anuladas, greve, reajuste salarial etc .

São questões, sem dúvida, importantes, mas que não tem nenhuma possibilidade de serem resolvidas pelos candidatos e que, por outro lado, lhes tiram o foco dos estudos.

Para resumir, importante que o aluno tenha em mente que vai passar muito tempo estudando até lograr alcançar seu objetivo final, e que é nisso que ele deve focar. Se não pode decidir quando será publicado o edital, então concentre seus esforços nos estudos. Quando for ele, enfim, publicado, o candidato já estará quase pronto, apenas precisando adequar o que estudou ao novo edital. E, com paz de espírito, ir fazer a prova e comemorar o resultado positivo!

Vicente Paulo: E os ma iores erros cometidos pelos candidatos? Ou, mesmo, erros que tenham sido cometidos por você – e que, hoje, você não os cometeria novamente?

Leandro Cadenas: Da mesma forma que queremos os resultados a curto prazo, costumamos avaliar nosso desempenho positivamente de maneira exagerada. Já passei por isso e já ouvi muitos dizerem: “estudei muito, estou pronto para passar!” Depois, ao conferir o resultado, decepção grande!

Sigo um pensamento que diz: “seja pessimista na avaliação e otimista na ação”. Noutras palavras, eu diria: estude mais do que você acha necessário, sempre considere que você foi pior do que realmente foi.

Posso listar outros erros comuns, alguns já aqui analisados: uso de material indevido, estudo de conteúdo que não cai ou itens que são cobrados e não estudei, esquecer do horário de verão e chegar atrasado, não conferir o endereço da prova, estar cansado na hora da prova, comer muito ou pouco no grande dia etc .

Leia o edital, isso é importante! Já fui fazer uma prova em que era possível a consulta à legislação e não a levei. Noutra, o cartão de respostas deveria ser preenchido com caneta preta e eu só tinha azul...

Enfim, importante “conhecer seu inimigo...”. Preste atenção aos detalhes do edital, para não ser surpreendido depois.

Mas, além do estudo, dos livros, da prova, do edital, há outros itens que erramos e sequer nos damos conta. Refiro-me a aspectos paralelos, acessórios, secundários.

Sempre chamo a atenção a outros pontos que costumamos desprezar. Muito importante ter um bom ambiente de estudos: mesa, cadeira, iluminação, temperatura, som ambiente. O conforto para ler é tão importante quanto a qualidade do livro. Ler um bom livro em condições inadequadas dificulta o aprendizado. Organize seu local de estudos e mantenha-o em ordem, isso ajudará na absorção da matéria e no menor desgaste físico e mental durante os estudos.

Limite o uso da internet, da TV, do telefone. Converse com os familiares para que você tenha tranqüilidade para estudar, sem precisar atender à campainha ou ao telefone.

Nesse ponto confesso meu maior “atrapalhador” de estudos: internet. Tanto não conseguia me manter afastado dela que tomei uma atitude radical: o primeiro ano, em casa, só estudando, foi sem internet. Usava no curso que eu frequentava, para aonde ia uma hora mais cedo. Era o tempo que eu tinha para resolver minhas coisas na net. Depois disso, só no dia seguinte. Deu certo, meus estudos deslancharam e eu não perdia momentos valiosos com a internet.

Portanto, avalie quais são as pedras no seu sapato e tente eliminá-las ou minimizar a interferência, você perceberá a melhora no seu desempenho.

Vicente Paulo: Recentemente, você publicou um pequeno livro no qual é contada a sua trajetória de sucesso (Concurso Público, eu passei! Memórias e dicas de um concursando que não desistiu. Editora Método.). O que lhe estimulou a isso?

Leandro Cadenas: Vários foram os motivos, mas posso dizer que, dentre os principais, foi o de divulgar a minha história, de modo a estimular as pessoas a perseguirem seus sonhos. A persistência costuma andar próxima ao sucesso mas, infelizmente, é uma característica de poucos. Como já citei antes, somos muito “imediatistas”, queremos tudo para já. Não suportamos o caminho, desejamos o resultado final pulando a parte “chata”. E isso tem um efeito devastador para muitos, que acabam desistindo muito rápido.

Quis mostrar que conseguimos chegar onde queremos, se tivermos dedicação e paciência para seguir pelo caminho que, embora longo, é necessário e, ao final, recompensador.

Venho de uma família sem qualquer histórico com concursos e, por méritos próprios, sem ajuda do sobrenome ou de algum padrinho poderoso, alcancei um dos cargos mais desejados da República.

E isso se deve tão somente às minhas condutas, aos meus sacrifícios, às minhas escolhas. Claro que a a juda da família, dos amigos, dos professores, sempre foi muito importante, mas quero dizer que cheguei aonde cheguei de forma absolutamente honesta, lícita e ética. E desejei mostrar isso para outras pessoas que estão na mesma situação que eu, que não pensem que o sucesso depende da posição ocupada por um parente ou padrinho, mas sim do seu próprio esforço.

Além disso, sempre fui muito questionado por alunos, amigos, leitores e até desconhecidos sobre minha história, meus métodos, minhas sugestões de estudo, bibliografia etc . Portanto, escrever esse livro foi como um fechamento da minha vida de concursando, encerrada com a aprovação para juiz federal, “pagando” uma dívida que tinha (e tenho) com o mundo “concursal”, dando uma retribuição de tudo quanto dele recebi.

A partir dessa aprovação, deixei definitivamente minha condição de candidato, mantendo-me nessa seara como professor, autor, palestrante, não mais como concursando.

Aos que ainda estão na batalha, recomendo a leitura desse livro. Ele é pequeno, de leitura fácil e rápida, direto ao ponto. Pode ser um bom instrumento de motivação nas horas de desânimo!

Vicente Paulo: Se você tivesse que dizer, em uma só palavra, o que cons idera fundamenta l para uma aprovação em concurso, que palavra seria essa? E se fossem duas palavras? E se fossem três pa lavras? E se lhe fosse perm itida uma frase?

Leandro Cadenas: Vontade. Vontade e dedicação. Vontade, dedicação e perseverança.

Meu pensamento preferido, sempre repetido em sala de aula: “Difícil é para todo mundo. Muitos desistem pelo caminho. Os que não desistem, passam.”

Vicente Paulo: Qual a sua orientação para os candidatos da área não jurídica que estão começando a estudar agora?

Leandro Cadenas: Para quem nunca estudou para concursos é importante dizer que esse é um mundo completamente diferente.

Parece que a vida passa em outro ritmo. Será outro ambiente, outros amigos, outras conversas, outras perspectivas.

Normalmente, quem não faz parte desse mundo não consegue entender bem o que acontece com a gente. Olham de fora e veem pessoas que só estudam, só falam em concursos, se estressam com um tal de “edital” ou com a espera por um gabarito ou resposta a um recurso. Esse é o nosso mundo incompreendido pelos “alienígenas”.

Então, se você já está nesse mundo, ótimo, você sabe do que eu estou falando. Se não está, lhe digo: sim, é um mundo diferente de tudo o que você já viveu até agora, de certo isolamento do mundo “normal”, mas que, ao final, seguindo as dicas da nossa cartilha, te dá de presente um cargo público, com um bom salário, estabilidade e tranqüilidade financeira para o resto da vida! Agregue-se a isso a possibilidade real de poder servir, servir ao público, fazer a diferença em sociedade.

Comece se inteirando do que se trata. Minha sugestão de sempre: faça um cursinho. Lá todos os demais estão no mesmo barco que você. Ali o clima é de concurso, você conhecerá esse mundo, aprenderá sobre as bancas, as provas, os cargos, os livros, os professores. Aos poucos, você vai se acostumando com isso e podendo fazer suas próprias escolhas.

E, uma vez “enturmado”, perceberá todas as nuances da preparação para um certame, e encontrará apoio dos demais para seguir a trilha até seu objetivo final. Curioso que, no mais das vezes, os candidatos se ajudam mutuamente. Pouco vi, nesses anos, sentimentos de competição, egoísmo ou boicote. Você sempre encontrará, tanto nos colegas de turma, quanto nos professores, ajuda para as suas dificuldades.

De outro lado, daqueles que não conhecem “nosso mundo”, normalmente só ouvimos críticas e gozações.

Mas, se sua decisão for por ser servidor público, uma dica importante: afaste-se dos maus humorados, dos pessimistas, dos inve josos. Você vai ouvir muitos discursos que não te ajudarão a prosseguir no caminho, em especial das pessoas próximas que não entendem nossa escolha, nossa ansiedade e nossa angústia.

Em casa, no lugar de se afastar, prefira uma boa conversa, e explique o que é o mundo “concursal” e suas agruras. O apoio da família faz toda diferença. Portanto, se você é novato nesse mundo, procure informação, e se aproximar de pessoas que já estejam nele, isso facilitará muito suas escolhas.

Vicente Paulo: E para os candidatos que são graduados em Direito, mas acham que a aprovação em um concurso de Juiz é algo praticamente imposs ível, coisa para gênio?

Leandro Cadenas: Não é coisa para gênio, é coisa para dedicados e persistentes. Atendidos os critérios objetivos (formado em Direito, três anos de prática jurídica etc), qualquer um pode alcançar sua aprovação.

Como já antes referido, no início, o principal ponto a ser observado é o tempo: o candidato precisará de muito tempo para lograr o sucesso nas provas. Estando ciente e consciente disso, o próximo passo é estudar. E depois, estudar. E depois, estudar. E depois, estudar. E depois, comemorar a aprovação.

E, no caso específico da magistratura ou do Ministério Público, como são várias fases, perceba que o estudo contém variantes importantes, cada fase tem suas características próprias. Avançando de uma em uma, vai alterando a forma de estudar, até conseguir chegar na prova oral e passar!

Não tem segredo. Se você conseguir manter-se motivado não se deixar abater com a passagem do tempo, uma hora a aprovação chega. Aposte nisso e depois me conte!

Vicente Paulo: E para aque les que já estão na árdua caminhada há a lgum tempo e ainda não conseguiram a tão sonhada aprovação? Ou, mesmo, que já estão pensando em des istir, em razão daquele ta l pensamento “eu não vou passar nunca”?

Leandro Cadenas: Quantas vezes eu pensei em desistir, quantas vezes pensei que nunca passaria! Foram várias. Em todas elas eu parava, lembrava dos motivos que me levaram a estar ali, de licença sem remuneração, estudando de oito a doze horas todos os dias da semana, renovava minhas energias e seguia estudando.

Digo o seguinte: avalie, com honestidade, o que você vem fazendo. Ve ja se, de fato, está estudando ou está se enganando. Se tem feito sua parte. Verifique como está sendo teu desempenho. O mais relevante, a meu ver, não é necessariamente ir bem já nas primeiras provas. Mais que isso, o que realmente importa é sua evolução. Anote como você tem se saído a cada novo certame e, se não está melhorando a cada prova, na média, precisa rever onde está errando. E corrigir o erro.

Desistir é o caminho mais rápido e fácil. Sempre cito que é mais fácil ficar na piscina, na praia ou vendo novela que estudando. Mas é estudando que se alcança a tranqüilidade tão desejada.

Mas, enfim, desistir do concurso não é o fim do mundo. A iniciativa privada está aí, cheia de ótimas oportunidades e desafios. Se não “se achou” no mundo público, assuma isso, não perca mais tempo, e invista na sua carreira privada. Tem suas vantagens e desvantagens, como tudo na vida. Você não terá estabilidade no emprego, mas também não terá teto remuneratório. Eventualmente, você poderá ganhar um salário de cem mil reais por mês, patamar jamais alcançado, de forma lícita, no serviço público.

Faça sua opção, consciente, levando em conta seu perfil, e não o que é mais fácil hoje. Pense onde pretende estar daqui uns anos, e o que precisa para tanto. Isso vai lhe ajudar a bem decidir. E seja feliz!

Vicente Paulo: Você disse que se aposentou da sua vida de “concursando”. Com a assunção do cargo de Juiz Federa l, você pretende continuar a atuar no segmento de concursos? Enfim, você ainda tem projetos no tal mundo dos concursos, ou já guardou a chute ira de vez?

Leandro Cadenas: De fato, encerrei minha vida de concursando, pois cheguei onde eu queria. Foi um caminho árduo. Imagine que desejei ser juiz muito tempo antes de iniciar a faculdade de Direito! O meu caminho, então, era ainda mais longo que o normal. Eu ainda tinha que entrar na segunda faculdade, cursar seus cinco anos, cumprir os três anos de prática jurídica, e, simples, passar em uma das provas mais difíceis no ramo dos concursos.

Mas, apesar de várias recaídas, não desisti pois estava convicto dos meus sonhos.

E é por isso que permaneço nesse mundo. O que mais me agrada e satisfaz é poder participar, ainda que de forma indireta e minimamente, do sucesso dos meus alunos e leitores. Fico imensamente feliz cada vez que recebo email de alguém que passou em um concurso e me escreve para contar! No fundo, o sucesso dos alunos é minha felicidade.

Assim, continuarei dando aulas, proferindo palestras, escrevendo livros, respondendo a todos os emails. Quero continuar retribuindo para a sociedade tudo de bom que dela recebi, incluindo aí, meu amigo Vicente Paulo, a ajuda que você e o Marcelo Alexandrino, de forma incógnita, me deram, quando divulgaram, naquela época, aulas gratuitas na internet, que muito me ajudaram nos estudos.

Agora é minha vez de retribuir, ou continuar retribuindo. Podem contar com isso.

Vicente Paulo: Qua l seria sua mensagem para quem já foi aprovado?

Leandro Cadenas: Se você que está lendo esta entrevista é um feliz servidor público, nomeado e já em exercício, nunca se esqueça dos seus valores pessoais, e de todo o tortuoso caminho percorrido até seu momento atual. Lembre-se de que você escolheu o caminho do serviço público e, exatamente por isso, sua principal atribuição, qualquer que seja o seu cargo, é servir ao público. O cidadão que precisa de seu serv iço não é um problema em sua vida, um incômodo. Ele é o destinatário final de todo o seu trabalho, ele é a razão de ser do seu cargo. Afinal, se não fossem as necessidades dele, seu cargo não existiria e você não teria essa atividade.

Mantenha uma conduta ética, proba, irretocável. A sua remuneração é suficiente para suas necessidades, por isso você optou por assumir esse cargo. Se não for, há três opções lícitas: i) peça exoneração e busque outro trabalho que o remunere melhor; ii) continue estudando em busca de uma posição mais confortável financeiramente; iii) acumule sua função pública com outra que seja licitamente autorizada.

Só não siga parte dos servidores que se dedicam a reclamar do trabalho e do valor que recebem, mas nada fazem para melhorar sua situação pessoal. Esse time (e sim, eles existem, aos montes) é de perdedores que vão reclamar sempre, qualquer que seja o valor depositado em suas contas. Afaste-se deles.

Enfim, você tanto estudou para ser aprovado e para ser feliz. Em verdade, é isso o que importa.

Seja feliz no cargo que você escolheu e, se não for possível, continue na busca da felicidade, estudando e fazendo outras provas, se esse for o caso.

Vicente Paulo: Qual seria sua mensagem final para quem está lendo sua entrevista?

Leandro Cadenas: Quero dizer, de forma genérica, independente do tema concursos públicos, que somos movidos a sonhos. Sem eles, a vida fica monótona, sem graça, sem sentido.

Se é assim, então devemos dar atenção especial a eles. E persegui-los deve ser tão interessante quanto atingi-los. Desistir no meio do caminho, algumas vezes, pode ser necessário e não deve ser visto como um fracasso. Mas, em geral, não desanime. Corra (ou ande, ou engatinhe) em direção a eles.

Que estas linhas lhes inspirem a não desistir dos seus sonhos!

Sucesso!

Leandro@cadenas.com.br