Prof. Vicente Paulo

28/02/2013 | 23:25
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Questões Objetivas X Questões Discursivas

Bom dia.

Estou de volta...

Nos últimos dias, recebi e-mails e mais e-mails de candidatos preocupados com a repercussão que terá a notícia de que a Fundação Getúlio Vargas (FGV) e Universidade Federal Fluminense (UFF) realizaram importante estudo sobre o instituto "concurso público" e apontaram, dentre outras conclusões, a recomendação de que as provas objetivas sejam substituídas por questões dissertativas.

Em primeiro lugar, parece-me indiscutível que temos que parabenizar iniciativas desse jaez, da realização de tão importante estudo, haja vista que, certamente, será por meio de trabalhos como esse - e das discussões deles advindas - que construiremos condições para o aperfeiçoamento dos certames públicos.

Entretanto, não vejo razões para o aparente "desespero" de alguns candidatos diante da "recomendação" de que as provas objetivas de concursos sejam substituídas por questões discursivas, com ênfase na prática (no exercício) do cargo.

Primeiro, porque se trata de mera "recomendação" acadêmica. Não há lei, nem decisão governamental nesse sentido. Aliás, tal recomendação não traz, em si, nenhuma novidade, tendo em vista que, nos últimos anos, cresceu significativamente o número de concursos que passaram a exigir questões discursivas em suas provas (não substituindo totalmente as questões objetivas, mas complementando-as). Ou seja, muito antes de tal estudo, muitos órgãos públicos já vinham caminhando nessa direção, de conferir importância às questões discursivas em seus certames.

Segundo, porque, se por um lado, é muito fácil criticar e apontar falhas na adoção de questões objetivas em concursos, por outro, é praticamente utópica a ideia de substituí-las por questões dissertativas! Imaginem um concurso público com 60.000 candidatos, ou mesmo com mais de 500.000 candidatos, como tivemos alguns nos últimos anos! Quantos professores seriam necessários para correção das provas de todos os candidatos, considerando-se todas as disciplinas do concurso? Haja trabalho!

Como minimizar o subjetivismo do examinador na correção e atribuição de pontos às respostas dos candidatos? Todos sabem que não é fácil, na correção de milhares de respostas a uma mesma questão, manter-se o "mesmo peso" da mão, na atribuição de pontos!

E mais: quanto a FGV cobraria de um órgão público para corrigir as questões discursivas de um concurso que tenha exigido, por exemplo, 40 questões discursivas, envolvendo 16 disciplinas distintas e tenha tido 80.000 candidatos inscritos? Acredito que as bancas examinadoras engordarão seus faturamentos, pois é certo que o valor cobrado para a realização de um concurso como esse, composto exclusivamente de questões discursivas, deverá ser, infinitamente, maior do que aquele hoje cobrado (já que as questões discursivas não poderão ser corrigidas eletronicamente, como hoje acontece com as objetivas!).

Bem, acho que nem precisamos continuar com essa enumeração para demonstrar o quanto é complicada - e perigosa! - essa ideia de adoção só de questões discursivas em concursos públicos...

Enfim, com todos os seus males, parece-me que a adoção de questões objetivas - combinando-as com questões discursivas, sempre que a complexidade das atribuições do cargo justificarem - ainda é a forma mais eficiente para assegurar a igualdade e a lisura nos concursos públicos - pelo menos até que surja outra (que não seja essa "reinvenção da roda", de mera substituição de todas as questões objetivas por discursivas!).

Ou, em outras palavras, e ressalvando-se os distintos contextos, podemos, aqui, em favor da manutenção (da imperfeição) das questões discursivas, parafrasear Churchill, para o qual "a democracia é o pior de todos os sistemas - com exceção de todos os outros"!

Para mim, o engraçado dessa história é o fato de tal conclusão ter sido emanada, pelo menos em parte, dos estudiosos da FGV! Logo da FGV, que conseguiu, mais do que ninguém, dar ares de "puro concurso", de "pura decoreba" às provas da OAB, com a cobrança de 80 questões objetivas! Sério, no ano passado, submeti-me ao exame da Ordem (fui aprovado, tá!) e, acredite, saí das provas com certa "pena" dos novos bacharéis em Direito! Nunca vi discrepância tão grande, dissintonia tão grande entre o que é ensinado numa faculdade e o que é, ulteriormente, cobrado nas provas do Exame da Ordem! E cobrado por quem? Ora, pela FGV, que, agora, nesse estudo, pugna pela substituição das provas objetivas em concursos públicos por provas discursivas, ligadas ao exercício profissional dos servidores!

Ora, se os estudiosos da FGV não têm conseguido conferir "cara de prática", de "exercício profissional" nem mesmo às provas da OAB, como "viajam" nessa história de eliminação das questões objetivas em concursos públicos! Sim, Senhor, porque o exame da ordem é aplicado a uma só classe de profissionais (bacharéis em Direito), nele não há concorrência entre os bacharéis (pois não há limite de vagas para o exercício da profissão) e o único objetivo é o bacharel provar a sua competência para o exercício da profissão! Pois é, com todo esse objetivo prático/profissional, o que a FGV tem feito é cansar os bacharéis com uma bateria de 80 questões objetivas, mais "decorebas" do que as de muitos concursos públicos por aí...

Um abraço - e até breve,

Vicente Paulo


Comentários

  • 21/05/2013 - Cezar Mariano
    Bom dia professor.
    Gostaria de saber se vossa senhoria conhece algum julgado judicial, favorável a candidato a concurso público com relação a reprovaçõ em redação, pois, acredito que a chances de reverter esse tipo de reprovação, tendo em vista o subjetivismo adotado nas correções, ou seja, por que um candidato obteria 1,2 pts em um quesito e não 1,3 ou 1,0? Outra coisa...Concurseiro que obteve por ex. 4,5 em prova de redação, não poderia ter obtido 5,0 caso fosse corrigida em outra banca examinodra? quanto o senhor cobra para mover uma ação judicial nesse sentido?
  • 03/04/2013 - MARCELO DE PAULA
    Professor, vc sabe quando terá outro concurso para Auditor da Receita Federal? abs
  • 03/04/2013 - Prof Vicente Paulo
    Meu caro, eu não tenho essa informação. Em Brasília, há boatos de que a partir de setembro/2013 teremos novo edital, mas, de fato, são meros boatos... Abraço,
  • 02/04/2013 - Marcos Bischoff
    A subjetividade de uma prova dissertativa é muito grande. Não me agrada essa ideia. O mais democrático e transparente seriam as questões objetivas, com uma redação de tema geral. Esta redação teria caráter eliminatório somente.
  • 28/03/2013 - Caio Augusto
    Nilma: ENEM??? Essa é a base a ser buscada? Não, obrigado. Não quero gastar meses/anos da minha vida estudando e depois ficar sujeito a uma avaliação que confere nota máxima a redações com "TROUSSE" e "ENCHERGAR".
  • 27/03/2013 - Marcelo Paes Landim
    O modelo gerencial do neoliberalismo não conseguiu acabar com o Estado e com os competentes Servidores Públicos. Então, estão tentando implementar o Clientelismo nos Concursos Públicos. Provas dissertativas, subjetivismo, editais não permitem vista das correções. Isso me cheira a muita corrupção, isso sim. Um abc a todos
  • 06/03/2013 - Lenilma
    Em minha opinião, se a sugestão da FGV fosse colocada em prática os custos dos concursos públicos aumentariam muito. Oneraria tanto os cofres públicos quanto as finanças dos candidatos, que já tem um gasto considerável na preparação para os concursos. O valor da inscrição para alguns certames aumentaria significativamente, tornando-se proibitivo para uma parte dos candidatos.
  • 04/03/2013 - Rodrigo
    Pois é Nilma,porém o que você esqueceu de citar no seu comentário é que o ENEM teve DIVERSOS problemas com relação às correções das discursivas.Foram centenas ou milhares de recursos e de pessoas indignadas com as correções que foram feitas nas provas discursivas. Pessoas que sempre obtiveram notas altas em redações feitas em cursos ficaram com notas baixas no ENEM.Com certeza a demanda é muito alta para o tanto de pessoas aptas a estar fazendo as correções dessas questões dissertativas e isso faz com que as correções sejam feitas de maneira RUIM e com certo grau de SUBJETIVIDADE,o que prejudica muito as correções e o concurso público.Obrigado.
  • 04/03/2013 - SAles
    Ainda embarcando no comentário da Nilma, é oportuno dizer que o ENEM tem uma frequência muito ínfima quando comparado com "os concursos públicos". ENEM se faz uma vez por ano? E concursos? Quantos são feitos a cada ano? Realmente desacredito na possibilidade segura de substituição de modelo atual (mescla entre objetivas e subjetivas) por um modelo mono.
    Abraço a todos.
  • 02/03/2013 - Luciana
    A FGV e a UFF deram um jeito de aparecer no cenário "concurso público" e esqueceram o tamanho do país, a isonomia, a impessoalidade e a constituição. E deram uma enorme contribuição ao "desespero dos concurseiros". FGV e UFF, neste caso em especial, totalmente desnecessárias!!!
  • 02/03/2013 - Nilma
    Prof. Vicente Paulo, respondendo sua indagação: sim, eu também acho que debate, sem dúvida, é muito positivo e que a FGV exagerou nas suas conclusões. Mas, independente da FGV ou do Ministério da Justiça e PNUD que encomendaram a pesquisa, o futuro aponta para um peso cada vez maior que as discursivas terão na pontuação total das provas. Por exemplo, o ENEM tem prova objetiva e discursiva. Cada uma representa 50% da pontuação máxima. E todos os 4,1 milhões de candidatos em 2013 tiveram suas redações corrigidas.
  • 01/03/2013 - Rodrigo Marcal Bravo
    Parabéns pelo artigo Vicente Paulo! Concordo plenamente com o que você escreveu. Seria totalmente inviável a realização de concursos públicos somente com questões discursivas,em parte pelo altíssimo custo e, em maior parte,pelo fato de poder aumentar, em muito, a subjetividade do certame. Quanto menor a subjetividade nas correções melhor é o certame,assim,quanto mais questões objetivas tiver também melhor é o certame.Claro que questões discursivas são interessantes,mas,infelizmente,no nosso país,questões discursivas abrem "brechas" para correções subjetivas e aumento das fraudes! Sendo assim,o melhor mesmo é manter, ou melhorar, os concursos públicos no sentido de cada vez mais AUMENTAR a objetividade e DIMINUIR a subjetividade! Obrigado.
  • 01/03/2013 - Nilma
    Prof. Vicente Paulo, entendi seus comentários , mas, não consegui identificar seu posicionamento sobre o assunto. Parece com aquela situação jocosa de "não sou contra nem a favor, muito pelo contrário". No início, você elogia a iniciativa, mas, depois disso, critica as conclusões do trabalho e a própria instituição que o realizou. Por que, então, os parabéns para algo tão desastroso?
  • 02/03/2013 - Prof Vicente Paulo
    Os meus parabéns, Nilma, foi para a iniciativa do estudo, em si. Estamos numa democracia, se algo não está funcionando bem, temos que estudar, debater o assunto com a sociedade, defender nossos pontos de vista. Enfim, debater o assunto é sempre positivo, ainda quando, no início, tenhamos conclusões precipitadas, ou mesmo equivocadas, como, na minha opinião, foram essas da FGV/UFF. Por exemplo: não estaríamos, aqui, agora, debatendo esse assunto abertamente se não houvesse o tal "estudo" e as "recomendações" da FGV/UFF, concorda? Um abraço,
  • 02/03/2013 - Prof Vicente Paulo
    Retificando o meu comentário anterior: onde se lê "Os meus parabéns, Nilma, foi...", leia-se "Os meus parabéns, Nilma, foram...".
  • 01/03/2013 - Ricardo
    Nilma, ele parabeniza a iniciativa, a tentativa de se buscar o aperfeiçoamento da seleção de candidatos em concursos públicos. Mas é claramente contra a idéia de provas apenas discursivas. Todos os argumentos dele são contra esta idéia.
  • 01/03/2013 - Rosana
    Do meu ponto de vista a opinião do prof. Vicente ficou bem clara - que continuem os concursos com questões objetivas e subjetivas -, quando a importância do cargo assim o exigir. Quero complementar sobre a FGV que fez o concurso do último MPE-MS (03/02/13), não divulgou o nº de candidatos x vaga e até o momento, após 28 dias do concurso, ainda não respondeu aos recursos formulados em virtude das questões mal feitas...a FGV pode ser referência em Graduação e Pós graduação, mas em concurso...como um próprio ex-aluno dessa Instituição - hoje doutor em sua área - certa vez me falou: "a FGV não sabe fazer concurso".
  • 01/03/2013 - Daniela
    Na minha opinião, as propostas da FGV/UFF foram infelizes e vergonhosas, não só em mudar a avaliação das provas, como também no limite de 3 inscrições por órgão (isso é democracia?), na correção das provas feitas por 50% professores universitários (professores estes que "avaliam" quem bem entendem, mesmo através de concurso público, para atuar nas universidades brasileiras... uma vergonha nossas universidades), enfim, o Brasil a cada dia que passa me decepciona mais e mais, demonstrando que o poder de poucos ainda é o que direciona o nosso futuro.
  • 01/03/2013 - Rafael
    Realmente vergonhosa a proposta da FGV. Acho que a FGV precisa muito mais de reformulação que os concursos públicos, ao fazer uma proposta para substituir critérios objetivos por subjetivos que dão uma margem muito maior para fraldes dentro dos concursos. Onde o pessoal da FGV estava com a cabeça para escrever tamanho absurdo?
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