Prof. Danuzio Neto

12/08/2016 | 16:20
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Melancia, eu te nomeio servidora!

         Incitatus foi Senador de Roma e por muito pouco não foi também Cônsul. Tinha dezoito criados pessoais, pedras preciosas que adornavam seu pescoço e dormia com roupas de cama de cor púrpura, a cor privativa dos membros do Império.

 

          Já Tião foi um morador do Rio de Janeiro que ficou conhecido pelo seu mal humor democrático. Jogava lama em que lhe cruzasse o caminho, que o diga o então prefeito da cidade, Marcello Alencar, o homem que viria a ser governador do estado entre os anos de 1995 e 1999. Tião recebeu quatrocentos mil votos na disputa por uma cadeira de vereador no Rio, ficando em terceiro lugar na disputa por uma das doze vagas.

 

          Mais sorte teve Cacareco, que, sem ser bem ou mal-humorado, obteve cem mil votos para a câmara municipal de São Paulo nas eleições de 1959, obtendo o primeiro lugar para aquele pleito.

 

          Incitatus era um cavalo, Tião, um macaco e Cacareco, um rinoceronte. Como se não bastasse a indiferença ou chacota com que já trataram a coisa pública durante nossa história recente, como se vê nesses e em outros episódios, ganhamos na semana passada mais um caso que ganhará destaque no anedotário popular: o senador que disse poder nomear até uma melancia, se assim o quisesse, para a Secretaria do Patrimônio da União.

 

         Como já vimos, o descaso na escolha de ocupantes para cargos público não é nenhuma novidade. Tanto mandatários quanto mandantes dão de ombro ao procurar os melhores quadros para a população. Já colocamos no cargo mais importante da República alguém que tinha como grande orgulho o fato de não possuir diploma. Animado com seus altos índices de aprovação popular, este mesmo alguém chegou a dizer que elegeria até um poste se quisesse. Veio Dilma, e deu no que deu, como bem sabemos.

 

         Eneas Carneiro, que no imaginário folclórico era tido por louco, mas profissionalmente era um médico renomado e professor em inúmeras disciplinas (matemática, física, química, biologia, português, etc.), certa vez fez um questionamento interessante sobre a natureza dos pleiteantes a cargos públicos eletivos no nosso país: “Para pilotar um avião exige-se um curso específico, para dirigir uma escola exige-se que a pessoa tenha um diploma, mas para ser Presidente da República não se exige nada? ”.

 

          No texto passado falei sobre a estabilidade para os servidores públicos e de sua importância para a sociedade. Em paralelo, a fim de ilustrar meu raciocínio, falei também sobre a situação política da Turquia. Essa visão pareceu algo distante para alguns alunos, que falaram até das benesses de uma possível flexibilização da estabilidade, assunto que pretendo explorar adequadamente num texto futuro.

 

        Como vivemos numa democracia relativamente nova e que ainda é constantemente ameaçada por partidos com viés autoritário, acho que não custa nada relembrarmos os malefícios que a instabilidade institucional já provocou neste país para o serviço público. No golpe militar de 64, por exemplo, por meio da suspensão das garantias constitucionais, anulou-se o direito à estabilidade dos servidores públicos civis e militares. Só “entre 1964 e 1966, cerca de 2 mil funcionários públicos foram demitidos ou aposentados compulsoriamente”, conforme narra Elio Gaspari, em A Ditadura Envergonhada. Este é um bom alerta sobre o momento que vivemos.

  

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contato: danuzioferreira@hotmail.com


Comentários

  • 22/08/2016 - JOSE IZEL
    Aqui no Amazonas foi nomeada uma ex-BBB para o Tribunal de Justiça. Não que eu duvide das qualificações da pessoa. Mas o fato é que existem diversos candidatos aprovados em concurso público que não estão sendo nomeados por falta de dotação orçamentária, segundo informam.
  • 22/08/2016 - Prof Danuzio Neto
    Um fato lamentável para os concurseiros que aguardam nomeação!
  • 13/08/2016 - Leonardo Ferreira
    Seria muito cômico tal artigo, se não o fosse trágico. A nossa política, e aqueles que a exercem, nos apresentam essas aberrações muito em face de conceitos assim. Na verdade, o golpe a que se refere, foi, na essência da verdade, um contragolpe apoiado pela maioria do povo - uma reação (urgente) à tentativa de implantação de uma ditadura comunista/socialista (dita 'do proletariado') no Brasil.
    Se temos essa politicalha hoje, isso se deve à cegueira política disseminada pelos esquerdistas. Não vemos, hoje, EMC e OSPB, por ex., que nos ensinavam o assunto. Tanto é que a leniência do povo hoje demonstra isso.
    Vc evoca o livro de um comunista, o mesmo que assevera ter sido o afastamento daquela senhora um golpe - qualquer neófito em direito constitucional sabe que tudo correu dentro da normalidade das instituições. O que dizer de um livro dele? Eu, por minha vez, evocaria o livro do Cel Ustra. Ler "A verdade sufocada" nos esclarece das verdadeiras verdades (redundância convicta).
  • 07/08/2016 - Pedro Figueiredo
    Conquanto já tenhamos experimentado governos que ora produziram efetividade na sociedade brasileira e também políticas com resultados desastrosos, uma marca fica em comum entre eles todos: a falta de compromisso com a validação das instituições. Vezes há que fragilizam o Congresso, outras o judiciário...
    Mas fica a sensação de quem deixa o Planalto deve estar falando aquela máxima: depois de mim, o dilúvio.
    Viva nossa "res publica"!
  • 06/08/2016 - ADRIANO DE ARAUJO VI
    Nomear um poste, nomear uma melancia, já era de se esperar desses que se dizem representante do povo. Uma vergonha que temos que aceitar dos políticos atuais sem credibilidade e não fazendo nada para melhorar. Muito triste quando leio sobre corrupção em um país tão rico em recursos, que poderíamos está muito melhor do que estamos hoje.
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