Prof. Danuzio Neto

09/07/2016 | 18:24
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De como os concursados estão salvando o Brasil

          Até pouco tempo atrás, cantava-se em verso e prosa que uma das maiores catástrofes do nosso país acontecia nas salas dos cursos preparatórios para concursos públicos, onde milhares de jovens, dizia-se, desperdiçavam talento e energia em busca de uma “atividade improdutiva”. Variações dessa frase eram quase um mantra no meio jornalístico naquele Brasil de antes da crise, quando o setor público estava em baixa com a sociedade e o PIB nos acenava como uma esperança de dias melhores.

 

          Apesar de alguns números bons na economia, descobre-se, hoje, que o que tínhamos, e que nos alegrava, era apenas um capitalismo de compadrio, onde o setor produtivo vivia em sistema de concubinato com o alto clero da política, mantendo privilégios a uns poucos eleitos que tinham deixado de lado qualquer tipo de moralidade. O Estado decidia quem merecia ganhar dinheiro por meio do BNDES, dos programas sociais, dos incentivos fiscais, enquanto o setor privado, incluído o meio artístico, que também era beneficiado, sentia-se obrigado a retribuir esses favores.

 

          Agora, que quase a totalidade desses esquemas não é mais protegido por casamatas ou restaurantes chiques onde os nosso tributos eram desperdiçados, no auge do que parece ser a maior crise pela qual esse país já viveu, descobre-se que os protagonistas no “lado do bem” são justamente aqueles que nadaram contra a maré pessimista que dizia que entrar no serviço público significava se submeter a uma atividade menos complexa e de menor prestígio. Os que investigam, prendem e decidem, hoje, são concursados. São juízes, promotores, investigadores, policiais, auditores que redesenham o Brasil e tentam mudar a imagem de paraíso da impunidade com que nos acostumamos a enxergar a nossa pátria.

 

          Até quando os escândalos explodem no epicentro dos órgãos públicos, como foi na Petrobras, no BNDES, na Caixa Econômica, nos Correios, no Banco do Brasil, além de cada minúscula repartição por onde há fluxo de dinheiro público, o que se nota é que na maioria dos casos não há qualquer envolvimento de concursados, mas sim de detentores de cargos comissionados que nem deveriam estar ali, se vivêssemos num país um pouco mais transparente e normal.

 

         Claro que não podemos ter a síndrome de Lula e acreditar que o Brasil foi criado recentemente, e que antes não havia nada que se pudesse aproveitar. O nosso presente é feito de pequenas conquistas passadas, as quais nós damos nossa pequena contribuição diariamente com estudo e horas de trabalho. Mas até no seio do legislativo, por exemplo, onde as leis são debatidas por representantes eleitos, há um corpo técnico de altíssimo nível de excelência que redige e pensa as leis junto aos políticos. E esse corpo técnico, também, é composto por cidadãos altamente capacitados que se submeteram ao escrutínio de um exame público.

 

         O Juiz Paulo Bueno de Azevedo, que determinou a prisão do ex-ministro de Estado Paulo Bernardo, tem apenas 38 anos, cinco a menos que o juiz Sérgio Moro. Paulo Bueno se tornou Juiz com 31 anos e já era concursado desde os seus vinte e poucos. Como se vê, uma vida dedicada à coisa pública. Sérgio Moro, um concursado, entrou na lista deste ano da revista americana Time como uma das cem personalidades mais influentes do mundo (como curiosidade, deixo registrado aqui que ele se tornou Juiz Federal com apenas 24 anos de idade). Os jovens concursados que entraram no serviço nos últimos vinte anos, como estes dois exemplos, tomaram as rédeas do poder, e agora, respaldados pelas leis, já são capazes de algemar e mandar prender um político ou um empresário graúdo, e colocá-los na cadeia.

         

          Nesta semana, o ministro Dias Toffoli determinou a soltura do ex-ministro Paulo Bernardo, contrariando a decisão de primeira instância, e o Juiz Paulo Bueno, que pertence a essa nova geração de servidores públicos, mesmo sendo parte de um meio em que os elogios aos pares são regra vindas desde tempos imemoriais, não deixou de demonstrar seu descontentamento com a decisão emanada pelo Supremo.

 

          Como se vê, dizia-se que com tantos jovens interessados no serviço público o país iria afundar, mas o que se testemunha hoje é que estes jovens, na verdade, estão salvando o país.

 

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Contato: danuzioferreira@hotmail.com


Comentários

  • 15/07/2016 - Stephanie
    Bom dia professor!
    De fato um texto esplêndido. De boa escrita e otimas informações, creio que tais curiosidades nos deixam boquiabertos, como por exemplo: como tão jovens ambos juízes escolheram a vida pública. Espero q a cada dia esses jovens concursados, por vezes tratados como "posers", cresça e limpe nosso país, para então avançarmos numa só voz.
  • 15/07/2016 - Prof Danuzio Neto
    Excelente comentário!!! Muito obrigado mesmo pelo feedback, enriquece bastante o debate! :)
  • 10/07/2016 - Guilherme de Sanctis
    Excelente texto!
    Precisamos parar com essa mamata do "comissionado, de livre nomeação e exoneração" e colocar nesses cargos pessoas concursadas - funcionando como um "upgrade" na carreira.
    Enquanto não cortarmos essa "herança maldita" do Patrimonialismo, continuaremos a ver a devassa nos cofres públicos e o desânimo do concursado sendo chefiado por um "compadre" que sequer aparece para trabalhar e não decide nada importante.
    Vamos continuar trabalhando para mudar essa vergonha!!!!

    Parabéns, mais uma vez, pelo texto! Abs
  • 10/07/2016 - Prof Danuzio Neto
    Excelente contribuição, Guilherme. Você descreve exatamente o que ainda ocorre muito nas repartições públicas - realidades que como servidor e cidadão já cansei de presenciar.

    E muito obrigado pelos elogios! Eles contribuem para eu escrever novos artigos.

    Abraços!
  • 05/07/2016 - Renata Paz
    Excelente abordagem! Destaco, ainda, nesse governo interino, em meio à crise, a quantidade de cargos em níveis mais altos, diretores de estatais, secretários, ministros e chefes de gabinete, sendo exercidos por técnicos e servidores públicos de alto gabarito. Há muito o que melhorar em termos de meritocracia, mas é nesses momentos em que a sociedade força a mudança, que podemos começar a perceber avanços e valorização dos agentes públicos.
  • 05/07/2016 - Prof Danuzio Neto
    Muito bem observado, Renata! Ótimo comentário!
  • 04/07/2016 - ana paula da silva v
    Excelente! Realmente só através do esforço e da competência podemos valorizar o que alcançamos e não permitir que quem chegou ao poder por pura indicação política continue se sentindo "dono" do Estado...
  • 04/07/2016 - Prof Danuzio Neto
    Exatamente, Ana Paula!
  • 04/07/2016 - Elaine Goulart
    Lindo texto!!! Aliás, adoro seus textos!!! Parabéns!!!!
  • 04/07/2016 - Prof Danuzio Neto
    Muito obrigado, Elaine, pelo elogio e pelo feedback! Fico realmente feliz em saber que os textos são bem aproveitados :)
  • 02/07/2016 - Walmir Rodrigues
    Belo texto, Prof. Danuzio.
    Tem também a participação dos agentes administrativos dando suporte.
  • 02/07/2016 - Prof Danuzio Neto
    Obrigado, Walmir! Concordo com você! Fui técnico judiciário do TRT e sei bem como os técnicos e analistas eram importantes para o trabalho dos juízes e desembargadores. O mesmo se dá em instâncias superiores, em que os ministros tanto precisam dos agentes administrativos.
  • 02/07/2016 - Marcelo
    Parabéns, quase nunca comento os artigos, mas este é digno de nota.
  • 02/07/2016 - Prof Danuzio Neto
    Obrigado, Marcelo!!!
  • 02/07/2016 - Adriano da Silva
    Excelente texto. Parabéns.
    Acredito que termos milhares de estudantes que nunca irão alcançar o serviço público é um caso a se refletir.
  • 02/07/2016 - Prof Danuzio Neto
    Obrigado, Adriano! Sim, o que você diz tem muito sentido (e pode ser tema de um próximo texto).
  • 02/07/2016 - Roberto Silveira
    Tá legal, eu aceito argumento, mas não dá para salvar o Brasil jogando a agua suja
    da bacia
    Sem a criança dentro? Lá se foram mais De1000000 de empregos...
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