Prof. Danuzio Neto

03/06/2016 | 17:32
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Tempo, mano velho

          “Cada dia traz sua própria faina. Viver cada dia como se fosse o último ou como se fosse o primeiro. Imagine que coisa mais banal e mais simples. É que não quero que me fiquem hoje coisas a fazer, porque não sei se amanhã vou estar aqui. E quero viver com toda a ilusão do mundo, como se fosse o primeiro dia (...). Que o importante da vida é realizar cada dia, vivê-lo, enchê-lo (...). Cada dia que passa somos mais velhos, e é um dia a mais ou um dia a menos, como você preferir ver. ”

 

        O tempo é o que existe de mais importante na vida do homem moderno, que acorda cedo e engole o café, que satisfaz suas necessidades fisiológicas em meio à correria, que conversa um pouco com os pais, com o cônjuge, com os filhos, que ajuda nos trabalhos domésticos, que exerce uma profissão entre uma jornada longa para sair e voltar para casa, e que, ainda por cima, arranja tempo para os estudos.

 

        Em meio a tudo isso, como se não bastasse, este homem, distraído, ainda insiste em entrar na internet prometendo ficar só um pouquinho. Surge então um texto interessante, uma polêmica, um artigo sobre uma tribozinha com cinco habitantes no meio do Oceania que está à beira da extinção. O homem se sensibiliza com o que um amigo apresenta sobre a caça predatória no interior da Tanzânia e ousa discordar de outro que fala sobre política. Que azar. Este homem é um só. E seus amigos, junto com todos os usuários das redes sociais, cheios de opiniões e um estoque infinito de textos e vídeos, são muitos. Impossíveis de se acompanhar. No fim do primeiro parágrafo é dito que o homem arranjaria tempo para os estudos. Mas, no meio de tantas atividades, será que ele consegue?

 

          Quando eu tinha uns dez anos, fazia parte das minhas preocupações o apocalipse que se anunciava para o ano 2000. Pra quem, no fim dos tempos, teria apenas quinze anos de idade, uma notícia como aquela era simplesmente desesperadora, mas cinco anos ainda era um tempo grande demais e, por um período, consegui deixar de lado a lembrança desse pesadelo. Esquecendo ou não, logo o tempo cuidou de me trazer novas preocupações, como o vestibular, que ainda surgia apenas como uma abstração no horizonte. De novo, porém, num piscar de olhos, o mundo tinha dado tantas voltas que eu já tinha até barba. E lá estava eu, pegando dois ônibus para poder sentar na sala de aula de uma faculdade pública, por mais incrível que isso pudesse me parecer. E assim também foi sobre passar num concurso.  E assim também foi sobre se tornar auditor fiscal. Estivesse eu preparado ou não, o tempo, incansável, passava – trazendo consigo as consequências dos meus atos.

 

          O caminhar do tempo, leve e constante, mostra-se tão escasso num mundo cheio de distrações que, desde já, eu tenho a frustração de não poder ler nesta vida tudo o que tenho vontade. Só os Nobel de Literatura são cento e doze, e ainda há as peças de Shakespeare, os clássicos gregos, os russos, o realismo fantástico da América Latina, os norte-americanos, a vasta literatura brasileira. E nem falo aqui dos lançamentos, dos novos autores e dos autores que não são de literatura, mas que também me interessam. Restam-me, como consolação, uns cinquenta livros por ano, que é o que cabe na vida que exige de mim também disponibilidade para outras atividades.

 

       Num texto passado, falei sobre Saramago e de como ele, com sessenta e quatro anos, iniciou uma brilhante carreira literária. No livro que eu havia citado, o que fala sobre a sua vida – e de onde retirei o trecho que abre este artigo –, Pilar, a sua esposa, diz: “(...) da profusão de solicitações, umas se aceitam, não se aceitam outras (...). Para nós o privilégio é que trabalhamos todos os dias, que José Saramago tem neste momento oitenta e cinco anos mas trabalha todos os dias. (...) Como outro dia, uma moça de Lisboa que dizia, me dizia emocionada, que queria ir com um frasco recolhendo tempo, que cada pessoa lhe desse o que pudesse, uma lhe desse uma hora ou lhe desse dez minutos, ou lhe desse um mês, ou lhe desse algo, e depois o tempo reunido ela daria a Saramago, porque nos faz muita falta. ”

 

Danuzio Neto 

 

P.S.: O livro que cito neste artigo é o “José e Pilar”, de Miguel Gonçalves Mendes.

P.S.2: Agradeço de coração aos alunos que sempre compartilham meus textos. O feedback que recebo é sempre bastante enriquecedor e gratificante.

 

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Contato: danuzioferreira@hotmail.com


Comentários

  • 01/06/2016 - Simone Azevedo
    Professor, maravilhoso texto.
    Obrigada por compartilhar tanta, tanta poesia.... em tempos de "guerra" rs
  • 01/06/2016 - Prof Danuzio Neto
    Muito obrigado, Simone! :)
  • 01/06/2016 - Chaiene Morais
    Profundo, como sempre!
  • 01/06/2016 - Prof Danuzio Neto
    Obrigado! :)
  • 01/06/2016 - Stephanie
    Olá Prof. Danuzio!
    Devo parabeniza-lo por esse texto. Para mim o seu melhor, oq é difícil de afirmar, ja que todos são muito bons. Inspirador, reflexivo e abrangente de um problema tão presente quanto subjetivo. O tempo, nosso maior bem e que lutamos tanto para fazer valer cada segundo.
  • 01/06/2016 - Prof Danuzio Neto
    Olá, Stephanie! Fico realmente muito feliz com suas palavras. Depois de ler uma mensagem dessa dá vontade de escrever mais uns dez textos :)
    Muito obrigado mesmo!!!
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