Prof. Danuzio Neto

03/05/2016 | 17:24
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José Saramago e os concursos públicos

       

José Saramago, prêmio Nobel de Literatura de 1998, construiu sua carreira literária escrevendo apenas duas páginas por dia. Duas páginas. Apenas. O que pode parecer pouco, ainda mais se considerarmos que ele começou a escrever numa idade avançada, aos sessenta e quatro anos, que é quando as pessoas geralmente já arrumam suas mesas para irem embora e dão por encerradas as suas atividades profissionais. 

 

Mas após uma vida inteira trabalhando como jornalista, Saramago, demitido, decidiu que ali seria o seu ponto de inflexão. Numa idade em que, imagino, uma pessoa pode esperar de tudo da vida, mas não que será vencedor de um Nobel por conta de uma carreira que ainda irá se iniciar. Isto em 1975, quando Portugal vivia tempos instáveis e difíceis por conta da Revolução dos Cravos. 

 

Como outros colegas que haviam sido mandados embora, ele poderia ter se recolhido à aposentadoria e ver o que a vida tinha para oferecer na tela da televisão. Preferiu, no entanto, outro caminho, que o tornou famoso e rico quando tudo isso pareceria improvável. Apesar de ter começado tarde, quando morreu, aos 87 anos, deixou como legado dezessete romances elogiados pela crítica e pelo público, afora seus contos, poesias, seus livros de memória e infantis. Tudo isso escrevendo apenas duas páginas por dia. Após os sessenta quatro anos de idade. Ao todo foram 41 obras publicadas, vendendo, só em Portugal, 3 milhões de exemplares e, no Brasil, 1,5 milhão. 

 

Duas páginas por dia. Caprichosamente trabalhadas. Incansavelmente. Sábados, domingos e feriados. Dos 64 aos 87 anos de idade.  

 

Num livro-documentário, sua esposa, Pilar (que ele também conheceu após sua bem-vinda demissão), fala sobre a constância do trabalho na vida do casal: “podemos um dia chegar quase ao limite de nossas forças, mas dormimos e recuperamos as forças, e vamos em frente, e desterramos a palavra cansaço. Que para isso já há muitíssimos jovens cansados, nasceram cansados e estão cansados o dia todo. Cansados desde que se levantam até que dormem. Alguém tem de não estar cansado no mundo. [...] Menino, depois vão ter toda a eternidade, que é um tempo que não cabe na nossa cabeça, para descansar! Além disso, descansar agora! Quando a gente está vivo e passa parte do tempo dormindo, que é como estar morto”. 

 

Trabalho, trabalho e trabalho. Será que isso tem alguma coisa a ver com a nossa realidade de pequenos prêmios, com as nossas pequenas lutas? Lembro que durante a minha preparação para concursos um dos sentimentos mais recorrentes que havia em mim era o da desistência. Quase todo dia eu tinha vontade de desistir. Pois este era, como sempre foi e sempre será, o caminho mais fácil a se tomar em meio às turbulências.  

 

Sempre que eu via o tanto de material que ainda tinha para estudar, e o tamanho do conteúdo programático, e mais aquele monte de conhecimentos que em nada tinham a ver com a minha formação, a única coisa que eu poderia pensar é que não seria capaz de alcançar minha meta, que essa história de concurso não era pra mim.  

 

Bem, como diria o poeta espanhol Antônio Machado, o caminho se faz é ao caminhar, e assim fiz o meu, motivado ou não, lendo minhas “duas páginas” por dia, incansavelmente, sábados, domingos e feriados, não deixando nenhum dia passar em branco, para alcançar o meu humilde Nobel, o cargo que eu queria. 

 

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Contato

e-mail: danuzioferreira@hotmail.com


Comentários

  • 16/06/2016 - Iamara Gomes Ribeiro
    Um estímulo para todos que pensam em desistir dos seus objetivos!
  • 16/06/2016 - Prof Danuzio Neto
    Obrigado, Iamara! :)
  • 03/05/2016 - Tereza
    Sempre admirei Saramargo, bela homenagem.
  • 03/05/2016 - Prof Danuzio Neto
    Obrigado!
  • 03/05/2016 - MARINA DUTRA
    Lindo artigo! Realmente a constância de propósitos resulta em vitórias!
  • 03/05/2016 - Prof Danuzio Neto
    Obrigado!!!
  • 03/05/2016 - Fabiane
    Eu não conhecia a história do José Saramargo. Fiquei encantada e estimulada! Obrigada pelo texto, professor Danuzio.
  • 03/05/2016 - Prof Danuzio Neto
    Olá, Fabiane! Muito obrigado!
    Ainda há mais o que falar sobre a vida dele. Um dia, possivelmente, voltarei ao tema.
    Espero que goste dos próximos textos também.
    Bons estudos!
  • 03/05/2016 - Nalcisa de Almeida
    Boa noite, professor!

    Maravilhoso o seu texto. Sou leitora admiradora de José Saramago e pretendo ler toda a obra dele. Cheguei aos 60 anos e há oito anos estudo para concursos, aliás, há 25 anos, pois em 91 fiz a minha primeira prova. Estou no terceiro cargo público por meio de concursos. Atualmente estou tentando mudar do cargo de nível médio para o de nível superior. As pessoas ficam dizendo que eu devo curtir a minha velhice, que é tempo de eu descansar. Eu respondo que quando jovem não tive oportunidade de estudar e digo também que não estou cansada. Dessa caminhada só saio se Deus quiser e me chamar antes da chegada.
  • 03/05/2016 - Prof Danuzio Neto
    Boa noite, Nalcisa! Fiquei muito feliz com a sua história e muito confiante de que você conseguirá muito em breve realizar seus objetivos. É de gente corajosa assim que o serviço público precisa.
    Comigo acontecia algo muito parecido com o que acontece com você, mas pelo fato de eu ter começado a estudar para concursos muito novo, com 21 anos. Lembro que não era raro as pessoas acharem um absurdo eu ficar trancado para estudar nos horários em que meus amigos saíam.
    Bem, o que posso dizer é que não me arrependo nem um pouco de minhas escolhas, assim como você não deve tá nem um pouco arrependida das suas também. Depois que a prova passa a gente pode aproveitar tudo com muito mais intensidade e com a consciência bem mais tranquila.
    Um dia vou escrever um artigo com o gancho que a sua história deixou, pois já fiquei orgulhoso dela. Eu teria mil coisas pra te dizer, mas aí já ia virar outro artigo rs.
    Não esqueça de mandar sempre notícias .
    Saudações literárias :)
  • 03/05/2016 - Stephanie s. B.
    Parabéns professor Danuzio!
    Que exemplos de vida como de saramago e o seu contagiem todos os dias mais pessoas a avançarem com mais foco, força, fé... um aprendizado por dia. Bem executado... desenvolve mais impacto do que as pressas de maneira massante.
  • 03/05/2016 - Prof Danuzio Neto
    Obrigado, Stephanie!!!
    Espero que você esteja também firme no seu propósito e com constância na sua luta.
    Bons estudos! Espero que os próximos textos te agreguem novos conhecimentos :)
  • 02/05/2016 - Fabio Aragão Morais
    O texto que você escreveu é perfeito, professor Danuzio Neto, ele retrata o exemplo de um escritor vitorioso. Os concurseiros do nosso país sentem um cansaço e um peso enorme quando vão estudar. Por que os estudantes não agem de outra maneira, de uma forma mais calma e interessada para aprender os conteúdos das matérias, não é verdade? O estudo não precisa ser algo cansativo e maçante. O estudo produtivo e de qualidade pode ser contagiante e com energia. Muito bom o texto. Parabéns!
  • 02/05/2016 - Prof Danuzio Neto
    Olá, Fábio! Como diz o texto, alguém tem de não estar cansado nesse mundo, e eu espero, sinceramente, que você faça parte desses alunos que não estão cansados, dos que estudam com o sangue nos olhos e estão fazendo de tudo para alcançar a aprovação.
    Quando estudamos com uma mentalização clara dos objetivos que pretendemos alcançar tudo se torna bem mais fácil, pois a fase de preparação é apenas transitória, enquanto o cargo vai ser pra vida inteira.
    Muito obrigado por ter gostado do texto!
    Abs!
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