Prof. Ricardo Wermelinger

14/04/2016 | 00:54
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Zerar o edital? 80% de 90% é mais que 70% de 100%.

Olá pessoal! 

Os alunos costumam se preocupar muito em “zerar o edital”. Estudar todos os pontos, sem exceção. Acontece que o custo x benefício disso é questionável.

Existem tópicos de matérias mais complicadas que, pra entrar na sua cabeça, levarão umas 10 horas de estudo (ao longo de semanas ou meses, considerando todas as revisões). Isso pra acertar 1 ou 2 questões numa prova.

Porém, há outros que com 2 ou 3 horas você será capaz de pegar. Para acertar também 1 ou 2 questões.

Se o tempo é infinito, claro que vale estudar tudo.  Porém, o tempo normalmente é finito. Mais do que isso, sua capacidade de retenção é finita. Você pode até estudar tudo, mas conseguirá gravar tudo? Saber tudo em caso de cair na prova?

O concurseiro costuma pensar que, ao estudar tudo de todas as matérias, simplesmente terá chance de acertá-las na prova. Porém, qual é essa chance? Naturalmente, quanto mais tempo ele gasta em uma matéria específica, maiores as chances. E se ele gasta pouco tempo em cada pra poder estudar muitas, fica com menos chances.

Eu sou professor de direito tributário. Praticamente só lido com direito tributário. Leio vários livros, artigos... já fiz, e comentei, milhares de questões da matéria. E vira e mexe erro alguma quando sai uma prova nova.

Então imagine o aluno que deu uma estudada UMA VEZ em um tópico de uma matéria que ele nunca tinha visto antes na vida?

Além disso, os alunos minimizam a necessidade de revisões. Estudar um volume absurdo de matéria hoje significa revisar esse volume amanhã, depois de 7 dias, de 30, 60, 90...

Estudar e não revisar direito acaba reduzindo ainda mais as chances de acertar questões daquela matéria na prova.

Uma conta que os concurseiros não costumam ponderar é a seguinte: 80% de 90% é mais do que 70% de 100%. Calma, eu explico.

Imagine uma prova de 100 questões, divididas por várias matérias. A intensidade com que você estuda cada ponto das matérias te dá um percentual de chance de acertar esse ponto na prova.

Se estuda tudo, mas era muita matéria, fica com uns 70% de chance de acertar 100% da prova. Ou seja, chance de atingir 70 pontos.

Porém, se você pega uma disciplina que ocupa 10% da prova e abandona, sobra tempo pras outras. Pode abandonar matemática, inglês, algo que seja peculiar e em que você tenha muita dificuldade. Sabe aquela matéria que não entra na cabeça? Quanto tempo te sobraria se você pudesse abandoná-la?

Você passa a ter, digamos, uns 80% de chance de acertar 90 questões. Chance de alcançar 72 pontos.

Percebe que suas chances aumentaram?

Você não precisa abandonar uma disciplina em si, até porque em muitos concursos existe nota mínima por disciplina, mas pode fazer esse exercício dentro de cada disciplina. Está estudando tributário pra Receita Federal? Que tal abandonar o ICMS, que é super chatinho, cheeeio de regrinha, e que tem a mesma chance de cair do IPI, que é infinitamente mais simples?

Conhecimentos bancários? Já pensou em abandonar o Acordo da Basileia?

Matemática financeira? Você pode ficar com o desconto comercial, e abandonar o desconto real. Melhor o que misturar os dois na prova. Mais vale um pássaro na mão...

Não é uma decisão fácil, e operacionalizá-la pode ser arriscado se o aluno não faz um bom estudo do que mais cai, daquilo que ele levaria mais tempo pra aprender, do peso de cada tópico, de cada matéria, enfim, o “dever de casa” de montar a estratégia de estudo.

Escrevi aqui mais para chamá-lo à reflexão, não para passar uma receita de bolo. O debate nos comentários, inclusive, será muito bem vindo!

Tenha isso em mente ao estudar. Ao fazer a próxima prova, se falhar, imagine como teria sido seu estudo se tivesse focado só nos 80% mais importantes da prova e deixado os 20% mais difíceis ou que menos caem pra lá.

Apenas reflita, e leve isso para seu próximo planejamento.

E na hora do desapego, do abrir mão, cantarole a musiquinha mais chiclete da atual geração de crianças...

Let it go, let it goooooo....

 

frozen


Comentários

  • 23/05/2016 - ÍCARO
    exatamente isso... claro que certos macetes so aprendemos com o tempo... tivesse eu a noçao disso tempos atrás teria me estressado menos... a propósito, estou deixando de lado uma matéria agora pra o concurso de delegado pernambuco...a matéria é empresarial, que está com dir civil... como nao estava estudando pra ela, creio q o tempo dispendido pra ela pode ser melhor aproveitado para as outras.....


    mais um detalhe, creio q essa técnica do abandono é ainda mais eficiente quando a prova é Certo/Errado e varios sao os assuntos
  • 23/05/2016 - Prof Ricardo Wermelinger
    Valeu Ícaro! Realmente, com poucos assuntos não temos muita margem para abrir mão de nada. E nas provas da CESPE, chegar no dia sabendo alguma coisa mais ou menos é pedir pra errada anular a certa, tem horas que é preciso humildade pra deixar em branco...
    Abraço!
  • 16/04/2016 - Alair
    Prezado Ricardo, essa teoria assemelha-se com o Princípio de Pareto...
  • 16/04/2016 - Prof Ricardo Wermelinger
    Precisamente, Alair! É toda baseada nela mesmo.
    Eu sempre cito o diagrama de Pareto nas minhas aulas demonstrativas, pra ajudar os alunos a orientarem seus estudos da matéria. No coach uso muito também.
    Obrigado pelo comentário!
  • 14/04/2016 - Adenilson
    Legal o artigo, Mestre! Mas pensei no seguinte: com relação às matérias que poderão ser objeto de prova discursiva, como poderemos fazer tal ponderação?
    Abraço!
  • 14/04/2016 - Prof Ricardo Wermelinger
    Olá Adenilson!
    Essas, naturalmente, sempre exigirão um certo foco. Porém, veja: se na prova houver matérias passíveis de discursivas, e outras não, é meio caminho andado. Você pode abrir mão de parte daquelas que estarão apenas na objetiva, e se concentrar mais no estudo das que também cairão na discursiva.
  • 14/04/2016 - Prof Ricardo Wermelinger
    Agora, dentro da matéria que cai na discursiva, também podemos identificar aqueles tópicos com mais ou menos chances de cair. Veja as provas anteriores da banca, ou mesmo de outras bancas. Como o assunto costuma ser cobrado? Gestão governamental, por exemplo, que é um assunto que trato em vários cursos de discursivas, engloba a parte de gestão de pessoas, porém, é bastante raro isso ser objeto de discursiva, e, quando cai, é sempre gestão por desempenho. Acabo sugerindo que os alunos não se preocupem muito com solução de conflitos, por exemplo, um tema que as bancas deixam de lado.
  • 14/04/2016 - Prof Ricardo Wermelinger
    É aquilo: o objeto de estudo do concurseiro não é a matéria, são as provas anteriores, a banca. A primeira coisa a fazer ao estudar é ver o máximo de provas anteriores possíveis. Não fazê-las como simulado, apenas vê-las, para entender como o assunto é cobrado. E aí sim você parte pro estudo, já conseguindo direcioná-lo para o que precisa.
    Você não aprende a matéria. Aprende a fazer as provas.
    Muito grato pelo comentário, fico feliz que tenha gostado do artigo. Um abraço!
  • 14/04/2016 - Adriano Silva
    Parabéns pelo texto! Sempre monto essa estratégia. As vezes é preciso coragem para abandonar algumas coisas... mas no final tudo dá certo!
  • 14/04/2016 - Prof Ricardo Wermelinger
    Valeu, Adriano! Existe um limite entre a ousadia e a falta de juízo, e tal limite é a técnica. Fazendo certinho, o resultado é ótimo!
  • 14/04/2016 - Adenilson
    Valeu, Mestre! Obrigado pelos esclarecimentos.
  • 14/04/2016 - Prof Ricardo Wermelinger
    Tamu junto!
  • 14/04/2016 - Irênio Maia
    Eu concordo se o Edital vier com novidades, caso contrário, é um tiro no pé.
    Receita Federal sem ICMS - oba vou errar a discursiva que é sobre LC 123 - Simples Nacional - Gostei do artigo. Não nego! Mas para quem tem de fazer mínimos em provas...questiono em alguns pontos! Bons estudos a todos e parabéns pelo post!
  • 14/04/2016 - Prof Ricardo Wermelinger
    Olá Irênio,
    Antes de mais nada, obrigado pelo comentário. É o que falei, trouxe mais para gerar um debate, não é receita de bolo. O ICMS foi só um exemplo (e, na minha opinião, SIMPLES é uma coisa, ICMS "puro" é outra. Estava falando de não decorar as operações tributáveis ou não, exceções específicas e tal. Enfim, foi só um exemplo).
    Como falei com outro colega, se tem discursiva aí a parada é outra: na verdade você deve abrir mão das matérias que não caem na discursiva, pra focar nas que caem.
    Quis trazer a discussão muito por causa da teoria da cauda longa, conhece? Temos poucas matérias que caem muito, e muitas matérias que caem pouco. Se o aluno quer estudar todas igual, faz um cálculo errado, acaba dedicando tempo igual a matérias que trarão resultados diferentes.
    Seja como for, adorei seu toque. Realmente é bom trazer os contras, pras pessoas verem que não é só sair cortando as matérias chatas do estudo. Existe uma ciência por trás.
    Abraço!
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