Prof. Igor Oliveira

09/04/2016 | 11:34
Compartilhar

A teoria de tudo, parte 4 - Mindfulness

Budistas têm uma analogia muito útil sobre o comportamento de nossa mente. Eles comparam nossos pensamentos a macacos pulando freneticamente nos galhos de uma árvore. E nós, se não estivermos conscientes disso, alternamos de maneira frequente e frenética nossa atenção entre esses macacos. Como não conseguimos focar nossa atenção na tarefa que nos propomos fazer, justamente por estarmos absorvidos em acompanhar os macacos pulando, arruinamos a nossa eficiência. Ficamos exaustos e tomamos decisões inócuas.

Essa é praticamente a condição humana. A maioria de nós vive assim. Não conseguir focar naquilo que se está fazendo talvez seja uma das maiores causas de insatisfação da humanidade, especialmente no campo profissional. Muitas pessoas não gostam de seus trabalhos, exatamente porque não conseguem se concentrar no que fazem. E por não se concentrarem, não se envolvem. Envolvimento e concentração são dois estados que andam juntos.

Nossa atenção talvez seja nosso recurso mais precioso. É a partir do foco que conseguimos trabalhar, dar atenção a quem amamos, criar nossos projetos, ajudar os outros, estudar, etc. A lista de atividades que são relacionadas à nossa capacidade de concentração é infinita. E, infelizmente, a desperdiçamos.

Se criarmos um coeficiente fictício no intuito de representar nossa eficiência, colocando resultado no numerador e esforço no denominador, teríamos uma boa noção do quanto ficar divagando detona nosso trabalho. É como se, regidos pela algazarra dos micos, fizéssemos o esforço de 100, por exemplo, para extrair 30 de resultado. Os outros 70 pontos seriam desperdiçados alternando a atenção entre os diversos monólogos internos.

A maioria desses pensamentos não tem base na realidade concreta. São puros pensamentos, ou seja, jatos de energia sem fundamento. Potência sem controle, geralmente ligados a situações que ocorreram no passado ou especulações sobre o futuro.

Muitos de nós vive assim, reagindo, por reflexo, a essa onda de impulsos. E, se esses pensamentos são repetitivos, prendem-se ao nosso estilo de vida e viram hábitos, manias, como mau humor frequente ou o hábito de reclamar de tudo sempre.

Quando você se agarra a um pensamento desses, e começa a dialogar com ele, parece que o processo se intensifica e o pensamento passa a povoar todos os aspectos de sua vida, como se fosse uma colonia de bactérias, que cresce exponencialmente encontrando as condições corretas.

Mas como se livrar dessa onda de impulsos? Como aumentar sua produtividade, aumentando de 30 para 80 o resultado do seu índice de eficiência, por exemplo? Eu não vou inventar moda aqui, pois essa ferramenta já existe há mais de 2.500 anos e se chama atenção plena ou, para quem gosta de um nome chique, mindfulness.

Atenção Plena

Como disse, quando estamos realizando uma tarefa, desperdiçamos boa parte de nosso trabalho divagando por aí, jogando no lixo parcela de nossa energia conversando com nossa mente. É uma questão de matemática. Se diminuirmos a divagação, conseguimos alocar mais energia na tarefa em si e seremos mais eficientes. A meta então é diminuir a divagação.

Mindfulness é o estado de contemplação passiva de nossos pensamentos e ações. Passiva porque não julgamos. Contemplar é estar consciente das situações sem julgá-las.

Parece confuso, mas não é. Há muita diferença entre as sensações e nossas reações a elas. Você sabe que precisa ler com atenção o livro para absorver melhor o conteúdo, mas sua reação é ler depressa no intuito de passar logo. Você sente fome, mas já pensa logo que vai comer batata frita com refrigerante. O julgamento bloqueia nosso entendimento do que está realmente acontecendo. É como se você estivesse vestindo uma versão primitiva de entendimento da realidade.

Ou seja, nossas sensações, pensamentos não podem afetar a forma como agimos. Melhor dizendo, nós não podemos reagir a essas ondas de impulsos. Estar vigilante quando o impulso, sensação ou pensamento surge é o mesmo que dar um curto circuito no sistema e impedir que a onda de impulsos condicione você.

Esses pensamentos, impulsos, surgem, independentemente de nossa vontade, mas a forma como lidamos com eles é que realmente conta. E isso nós podemos gerenciar. Não é que não podemos nos esbaldar de pizza e refrigerante de vez em quando, tomados por nossos impulsos. O que não podemos é nos tornar reféns disso.

O mindfulness é como se criássemos um espaço para respirarmos e tomarmos uma decisão madura. Em resumo, a ideia é que você esteja presente no momento, não se deixando influenciar pelos jatos de pensamentos geralmente ligados ao passado ou ao futuro.

Isso é muito lindo de ouvir e difícil de fazer. Um homem médio, que vive num grande centro, como eu, por exemplo, dificilmente estará presente o tempo todo. É virtualmente impossível. Mas, ainda assim, com prática, é possível aumentar o nosso coeficiente de eficiência de uma forma que afete muito positivamente nossa vida.

Chego de lero-lero. Vamos à prática!

A primeira vez que tive contato com meditação, achei que algum instrutor barbudo, com muitos panos enrolados ao corpo, iria entrar levitando na sala entoando canções sinistramente sinistras. Mas não é nada disso. É uma higiene mental. Assim como lavamos a mão para tirarmos o barro, meditamos para lavarmos nossa cabeça de pensamentos inúteis.

A prática de meditar, apesar de ter suas raízes no budismo e hinduísmo, não está ligada a nenhuma religião. Como disse: é um exercício de higienizar a mente.

Eu já tentei várias técnicas, mas a que se mostrou mais eficiente pra mim, como geralmente sempre acontece, foi a mais simples. Não sou instrutor de meditação e você tem toda razão em questionar isso. Entenda que sou um amigo e quero compartilhar o que aprendi. Vejamos:

- sente-se confortavelmente com a coluna ereta. Não precisa dobrar as pernas, nem morder a testa. Malabarismos são bonitos, mas pouco eficientes. Apenas sente-se confortavelmente.

- adote uma postura simétrica. Mãos sobre as coxas.

- feche os olhos e respire pelo abdômen.

- encontre um ponto de atenção para sua respiração. Pode ser a barriga inflando/esvaziando de ar ou o ar entrando no nariz (este é o meu preferido e falarei dele).

- observe o ar entrando e saindo, batendo na região entre seu nariz e sua boca.

- permaneça assim. Quando um pensamento surgir, apenas deixe ele ir. Vão surgir muitos pensamentos. Deixe pra lá. Não se atraque com nenhum deles. Observe-os como nuvens passando no céu. No início é uma doideira. Você se sentirá um pouco confuso. Mas depois melhora.

- ao notar a divagação, traga a atenção de volta para a respiração.

Só isso.

A meditação não exige que você zere seus pensamentos. Não espere muito. A própria tentativa já é a prática. Você não vai conseguir livrar a mente de todos os pensamentos. A prática é trazer o foco novamente quantas vezes for necessário.

Tudo no início é mais chato e complicado. É como andar de bicicleta. No início você tomou alguns tombos até chegar na sua condição atual.

Se você já inventou a desculpinha de que é muito agitado pra isso, então é você mesmo quem precisa.

Creio que 5 minutos por dia, antes de estudar, já vai ajudar demais!

Você deve estar se perguntando: "isso é realmente útil"? "Como isso vai me ajudar a estudar"?

Meditar é uma daquelas coisas que o custo é tão baixo que vale a pena tentar. Você não vai dobrar garfos com seus pensamentos, nem sair levitando entoando canções mágicas, mas vai ser mais feliz que a maioria das pessoas que conhece, bem como vai conseguir focar nas tarefas de uma forma que jamais sonhou, justamente porque saberá se envolver mais com aquilo que está acontecendo.

Onde a mágica acontece

No momento em que você consegue observar o ar entrando e saindo, mais tarde, com a prática, você conseguirá aplicar essa contemplação nos pensamentos e emoções. É aqui que a mágica acontece. Quando observamos esses impulsos, sensações, que surgem sem nos avisar, eles diminuem de intensidade e simplesmente...param de nos incomodar. Sem muitos macacos pulando nos galhos, os que sobram não afetam nossa eficiência.

Assim, quando surgir um pensamento mandando você ir para sofá quando tem matéria para estudar, apenas observe. Investigue, sem se deixar levar. Traga o foco para a tarefa. A ideia é que você permita que as emoções venham e vão sem se identificar a elas, sem fazer dramas ou se apegar. Como se fosse um vento batendo no seu rosto. Se você inventar de pensar em não pensar, vai estragar tudo. Apenas observe.

Ao sentar para estudar, faça-o com espírito de renúncia, sem se apegar a ideias, sem julgar a matéria como chata. Simplesmente faça o que precisa ser feito e aceite as coisas como elas realmente são. O livro é o livro. Não é uma máquina de tortura. Você vai passar, quando estiver preparado, não quando você deseja.

Logo antes de irmos estudar, geralmente vem a nossa cabeça pensamentos do tipo: "como é que vou conseguir estudar por 3h seguidas essa matéria tão chata"? Encare isso como mais um pensamento, observe e siga para a escrivaninha.

Se os pensamentos sobre a incerteza do futuro começarem a incomodar você, dê uma pausa. Pare o que está fazendo e respire. As pausas vão ajudar você a tomar um ar para pensar mais racionalmente no que está fazendo. Se o celular apitar, alguém lhe chamar, apenas observe e não reaja. É mais impulso. Crie o curto circuito utilizando uma pausa estratégica.

O cérebro pode ser condicionado, desde que você pratique. Se você não agir deliberadamente, você será condicionado pela enxurrada de emoções e processos complexos que é sua vida. De outro lado, se você cultivar a eficiência, a presença, você será mais presente e eficiente.

A proliferação desordenada de pensamentos é o nosso verdadeiro obstáculo. A barreira de pensamentos é a primeira barreira a ser quebrada ou a única verdadeira.

A vida e a preparação para um concurso público se tornam mais simples quando aceitamos as coisas como são e tentamos nos envolver profundamente com nossos projetos.

Abs!

Igor Oliveira.

Coaching para concursos.

Programa Motivacional para Concursos.

===

E-books gratuitos:

Por que ainda não deu certo?

Ninguém quer ser concurseiro em uma tarde de verão.

===

Curta minha Fanpage.

Siga-me no twitter.

Periscope: @comandanteigor.

Igor[arroba]pontodosconcursos.com.br


Comentários

  • 20/06/2016 - Antonio
    Mestre, pra variar, essa série de artigos é incrivelmente simples e simplesmente incrível (parafraseando o palestrante Daniel Godri). Grande Abraço ;) Vamos em frente, sempre!
  • 28/06/2016 - Prof Igor Oliveira
    hehe...obrigado pela participação Antônio! Abração!
  • 20/04/2016 - POLIANA STRZALKOWSKI
    Olá, comandante Igor!
    Acredito que o grande desafio do desenvolvimento mental, espiritual e emocional seja o de não permitir que nossas emoções nos controlem. Nos somos emocionais mas precisamos começar a disciplinar nossas emoções. Se você não disciplinar e conter as suas emoções, elas vão usa-lo. Grata por comentar sobre a técnica do mindfulness. Há 3 anos tento por em prática, mas sempre estou recomeçando. E preciso coragem para agir, para recomeçar de novo. A proposito, gostaria de parabeniza-lo pelo Ponto+, ficou sensacional. Abraços, Poliana.
  • 20/04/2016 - Prof Igor Oliveira
    Valeu Poliana! Obrigado pelo comentário! Com certeza. Se não nos disciplinarmos, estamos fritos! rs...adsumus!
  • 12/04/2016 - Lucimar
    Sensacional seu texto!!! Muito bom mesmo! Venho acompanhando essa série da teoria de tudo, fechada com chave de ouro. Muito bem escrito, claro, objetivo, preciso! Vou imprimir esse texto e colocar num lugar visível para ler todos os dias!!! Abraço!
  • 12/04/2016 - Prof Igor Oliveira
    Valeu Lucimar, obrigado mesmo. Mas não fechou não...hehehe...ainda falta muita novela...hehe...abs!
  • 12/04/2016 - Rafael Zordam
    Sensacional professor. Nos últimos 3 dias li os 3 textos dessa série, e graças a Deus li esse quarto texto nessa noite. Inspirador nesse momento de tensão/insegurança para segunda fase da ANAC. Hoje mudaram o cronograma e o dia foi bastante intenso. Creio que essa técnica ajudará muito. Baixei seus dois e-books e pretendo ler um texto por dia. Obrigado pela inspiração professor.
  • 13/04/2016 - Prof Igor Oliveira
    Valeu meu camarada! Conte sempre comigo! Adsumus!
  • 11/04/2016 - Amanda
    Muito bom o texto!!!!
    Explica facilmente como a técnica de meditação ajuda no processo de não-identificação e como a não-identificação nos ajuda a sermos livres e felizes.
    Sempre encontrei muitos textos complexos falando do assunto e neste está de uma forma simples e fácil.
    Obrigado!!!!
  • 11/04/2016 - Prof Igor Oliveira
    Valeu! Obrigado mesmo pela participação! ;)
  • 11/04/2016 - PATRICIA DANTAS
    Sou literalmente sua fã, rs. Obrigada pelo texto, uma prática preciosa para quem precisa encontrar mais paz e tranquilidade. Não perder o foco, concluir a entrega rumo aos objetivos.
  • 11/04/2016 - Prof Igor Oliveira
    Obrigado Patrícia! Disponha sempre! Adsumus!
  • 11/04/2016 - Sharllene
    Parabéns pelo artigo, mestre!! Adorei!
  • 11/04/2016 - Prof Igor Oliveira
    Valeu Sharllene! Disponha sempre! Abs!
  • 11/04/2016 - Concurseira de Suces
    Como a outra colega disse: Leveza para estudar para os concursos! Grata por nos ensinar mais esta técnica!
  • 11/04/2016 - Prof Igor Oliveira
    Legal...que bom que gostou! Conte comigo! Abs!
  • 11/04/2016 - Renata
    Igor, parabéns pelos textos! São sempre ótimos!
    Virei fã e toda semana venho conferir..
    Você fez o curso do Arte de Viver? As suas palavras são bem parecidas, inclusive para quem desejar é uma boa dica para praticar o que você descreve nesse texto.

    Abs!
  • 11/04/2016 - Prof Igor Oliveira
    Oi Renata, obrigado por ler meus artigos. Não fiz o curso, mas parece ser legal. Obrigado pela indicação! Abs!
  • 11/04/2016 - Luciane
    Fala prof!!! que texto maravilhoso, só de lê-lo já deu uma certa leveza. "Eta bichinhos" danados os pensamentos. Parabéns pelo texto. Muito obrigada por você nos presentear com tais textos.
    Um abraço. Deus o abençoe.
  • 12/04/2016 - Prof Igor Oliveira
    Valeu Luciane, eu é quem agradeço! Danados mesmo...rs
  • 10/04/2016 - SIlvana Alves
    Mestre, excelente artigo, comprovando que pode sim existir "leveza" na vida e na preparação para os concursos. Gostei demais e vou praticar. Te agradeço!!!!
  • 10/04/2016 - Prof Igor Oliveira
    Valeu Silvana! Obrigado por tudo! ;)
  • 09/04/2016 - Isael
    Genial Professor! Uma forma simples, barata e eficaz de focarmos no que é realmente importante. Parabéns pelo excelente artigo: conceito 5.
  • 09/04/2016 - Prof Igor Oliveira
    Conceito 5 foi ótimo...rs...vc é de Marinha, aposto! hehe...obrigado pelo comentário. Abs!
  • 09/04/2016 - Alexandre
    Olá, Igor! Bacana o texto! Uma dúvida: como instalar diversos hábitos simultaneamente enquanto estudamos para concursos? Alimentar bem, exercícios, estudar, meditar... Tenho dificuldades em implementar tantas atividades... Abração!
  • 09/04/2016 - Prof Igor Oliveira
    Um por vez...hehe...é sério. Tudo ao mesmo tempo, é complicado. Melhor ir devagar. Abs!
  • 09/04/2016 - LOPES
    Obrigado professor é bom sempre relembrar e aprender mais alguns detalhes sobre a importância da meditação como uma pratica diária.
  • 09/04/2016 - Prof Igor Oliveira
    Valeu meu camarada! Conte comigo! Abs!
  • 09/04/2016 - Ana Silva
    Professor, parabéns pelo artigo! Palavras sábias! Obrigada pela generosidade de compartilhar conhecimentos tão enriquecedores.
    A propósito, estava com saudades de seus artigos.
    Abraço!
  • 09/04/2016 - Prof Igor Oliveira
    Obrigado Ana! Pois é, fiquei duas semanas sem escrever. Confesso que a Páscoa e um casamento deixaram tudo meio confuso aqui em casa...rs...obrigado pela participação! Abs!
  • 09/04/2016 - Edimar
    Arrasou Comandante. Texto fascinante! Envolvimento e concentração naquilo que queremos. Abraços.
  • 09/04/2016 - Prof Igor Oliveira
    Envolvimento e concentração. Pode crer. Resumiu bem Dra. Obrigado pela amizade! Abs!
  • 09/04/2016 - Denise
    Mais um texto maravilhoso! essa de não precisar morder a testa foi sensacional, pior é imaginar alguem tentando morder a testa! kkkkkkkkkkkkk
  • 09/04/2016 - Prof Igor Oliveira
    hehe...pois é...hehe...obrigado pela participação! Abs!
Comentar este artigo
MAIS ARTIGOS DO AUTOR
Compartilhar: