Prof. Igor Oliveira

01/02/2016 | 10:43
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Não há nada que prepare você pra isso

Sir. Ernest Henry Shackleton nasceu em 1874 na Irlanda. Ele foi um explorador antártico, protagonista de uma das aventuras mais extraordinárias de que já se ouviu falar.

Em 1914, Shackleton organizou uma expedição para Antártica chamada de Expedição Transantártica Imperial, cujo objetivo consistia em atravessar a pé o continente antártico. A ideia era simples: atracar um navio de um lado da Antártica, desembarcar o pessoal, atravessar a pé e, do outro lado, outro navio resgataria esse pessoal.

Durante a seleção, consta que Shackleton recebeu cerca de cinco mil candidaturas, incluindo uma carta de “três raparigas desportistas”, seja lá o que for isso. O fato é que a viagem foi exigente desde a seleção, pois apenas vinte e oito foram escolhidos para compor a tripulação.

Dada a rusticidade que empreitada exigia, o navio de Shackleton ganhou um nome singular: Endurance, que, em português, significa resistência.

No dia 08/08/1914 o Endurance partiu de Londres, navegou e fez uma pausa na Ilha Geórgia do Sul, já bem próximo da Antártica. Na Ilha Geórgia do Sul, Shackleton foi alertado, pelos baleeiros que ali residiam, que as condições climáticas não estavam favoráveis. De todo jeito, partiu de lá no dia 05/12/1914, rumo ao Mar de Ross, já no continente antártico, local escolhido para atracação e desembarque dos homens.

O Endurance percorreu cerca de 1500 Km e, por uma coincidência climática (vento, temperatura, basicamente), foi aprisionado no banco de gelo, a 200 Km de seu porto de destino, em 19/01/1915.

Já em fevereiro de 1915, dada a gravidade da situação, Shackleton determinou que os homens parassem de tentar libertar o navio e o transformasse em uma base para suportar o rigoroso inverno antártico. Na verdade, a esperança era de que o navio fosse libertado na primavera, com o aumento da temperatura e o desprendimento dos blocos de gelo.

No entanto, quando a primavera chegou, os gigantescos blocos de gelo, que se desprenderam, começaram a exercer forte pressão no casco do Endurance que, em 21/11/1915, simplesmente afundou, deixando a tripulação isolada na Antártica.

Imagine você, em 1915, na Antártica, sem equipamento de comunicação, olhando para o seu navio afundando, em meio a enormes blocos de gelo. Veja a cena: 


Situação desesperadora, né? Só que nem começamos ainda...

A travessia a pé

Com a iminente possibilidade de afundamento, os homens já haviam montado um acampamento improvisado. A ideia agora era a seguinte: carregar três botes salva-vidas até a abertura para o mar e partir para algum lugar seguro.

Só que não era tão simples assim. As banquisas de gelo não são asfaltos. São extremamente irregulares. Considere ainda o frio, a fome, o vento e a falta de equipamento. E, claro, o peso da carga. Estamos falando de três barcos de madeira enormes, cães, ferramentas, e todo uma parafernália necessária à sobrevivência. Veja:

 

Durante a travessia, a caça era muito escassa e os cães tiveram que ser sacrificados. Eles andaram por seis meses, por um deserto de gelo, quando, em 09/04/1916, finalmente lançaram os botes ao mar.

Até aqui, os homens já estavam há quinze meses presos na banquisa de gelo, comendo pouco, dormindo pouco e trabalhando exaustivamente para sobreviverem. Hora de comemorar? Só que não. Havia ainda muita coisa pela frente.

Abaixo uma foto de um dos acampamentos levantados durante a travessia:


A Ilha Elefante

Os três barcos foram em direção à Ilha Elefante, onde atracaram em 15/04/1916. Os homens estavam há exatos 497 dias sem pisar em terra firme. Apesar de ser uma ilha, não visualize a Ilha Elefante como uma ilha do Caribe. Era inóspito, frio, seco e fora da rota de qualquer navio. Eles tinham que dar um jeito de chegar à Ilha Geórgia do Sul. Desta feita, em 24/04/1916, um dos três botes partiu rumo à Ilha Geórgia do Sul, com seis tripulantes, na esperança de encontrar resgate.

 


Os outros dois barcos se transformaram em abrigos para os 22 homens que ficaram na Ilha Elefante. Num trecho do livro, o autor descreve a conversa entre dois dos homens que ficaram na Ilha Elefante. A conversa foi achada no diário de um deles. Eles falavam baixinho, à noite, para não acordar os companheiros:

- Quando você voltar para Inglaterra, qual comida você vai comer primeiro?

- Eu acho que pudim, respondeu o camarada.

- Pudim é uma boa, mas eu ainda estou em dúvida. Enfim...acho que pudim é melhor mesmo.

Essa conversa me marcou muito em face do contexto. Eles estavam praticamente há um ano só comendo proteína, carne de foca e cachorro. Imagine as restrições físicas, o cansaço, que foram impostos pela falta de uma alimentação adequada. Abaixo uma foto dos homens que ficaram na Ilha Elefante:


A travessia para Ilha Geórgia do Sul

Para alcançar a Ilha Geórgia do Sul, o carpinteiro reforçou um dos três botes. Era realmente necessário. A Ilha Geórgia ficava a cerca de 1.300 Km da Ilha Elefante, dez vezes mais longe que a distância que eles percorreram para chegar à Ilha Elefante. Além disso, eles iriam enfrentar um dos trechos mais temidos pelos navegadores de todo o planeta, em pleno inverno, com ventos de até 130 Km/h e ondas gigantescas.

Como se nada disso bastasse, no meio da travessia eles enfrentaram um furacão! Depois, ficaram sabendo que o mesmo furacão havia afundado um navio a vapor de 500 toneladas.

Chegaram à Ilha Geórgia do Sul em 09/05/1916, 15 dias depois de terem saído da Ilha Elefante. Nessa altura do campeonato você já deve estar pensando: ainda bem que acabou! Nada disso...

Eles ainda tiveram que atravessar 51 Km a pé, através de um terreno extremamente complicado, sinuoso, cheio de geleiras gigantescas, para chegar na estação baleeira.

Após descanso e planejamento, partiram rumo à estação baleeira, onde chegaram em 20/05/1916, depois de 36 horas de caminhada.

Em 1955, o explorador britânico Duncan Carse reproduziu a mesma travessia que Shackleton fez à pé com seus homens e relatou: "não sei como conseguiram, exceto que tinham de o fazer – três homens da idade heroica da exploração da Antártida com 16 metros de corda entre eles – e uma plaina de carpinteiro".

Faltava agora resgatar os 22 homens que ficaram na Ilha Elefante. Shackleton não conseguiu navios na Inglaterra, pois a Europa estava no meio da Primeira Guerra Mundial.

Ainda assim, no dia 30/08/1916, quatro meses após terem zarpado da Ilha Elefante, Shackleton resgatou seus companheiros a bordo de um rebocador cedido pelo governo do Chile.

Os 28 homens sobreviveram.

Já na Inglaterra, Shackleton foi voluntário para lutar na Primeira Guerra Mundial, mas teve sua candidatura negada, em face de sua idade. Ele ainda participou de outras expedições ao continente antártico. Na última delas, Shackleton faleceu de um ataque cardíaco, em 1922, na Ilha Geórgia do Sul, onde foi enterrado, a pedido da esposa.

Fotos de Shackleton e seu túmulo:




A lição

Ao longo de toda a expedição, por maiores que fossem as dificuldades, os homens se mantiveram organizados e buscaram um conduta racional de comportamento e pensamento. Shackleton organizou jogos, brincadeiras, eventos, tudo para manter seus homens com a mente ocupada. A estrutura de comando foi obedecida, houve revezamento de tarefas e o estabelecimento de rotinas bem definidas.

Sem equipamentos modernos, destinados a uma morte lenta e dolorosa por congelamento e fome, eles se agarram na disciplina diária de fazer o que precisava ser feito.

Vejo que há alunos que, ao errarem uma única questão, já começam a esmurrar a mesa. Estão estudando há 3 meses e ficam tristes por não terem resultados fabulosos. Quando não passam no primeiro concurso que fazem, desistem e arrumam um monte de desculpas para embasar a desistência: eu trabalho, eu tenho filho, eu estudei em escola pública, eu não tenho apoio, eu não gosto de matemática, etc, etc. Quando o assunto é desculpa, o candidato é criativo.

Os homens de Shackleton, eu, você, todos nós, não nascemos apenas para comer, dormir e reclamar que a internet está ruim. Somos grandes. Carregamos dentro de nós a honra, o heroísmo, a coragem e o espírito de sacrifício. Foram pessoas como você e eu que, com espírito empreendedor, construíram o mundo como o conhecemos hoje. Quando você se diminui, você está indo contra sua verdadeira natureza.

A história de Shackleton mostra que, se nos agarrarmos aos princípios imutáveis do comportamento humano, como coragem e disciplina, por exemplo, com esforço, por maiores que sejam o obstáculos, conseguiremos conquistar nossos objetivos. A história é um exemplo de que há muita nobreza dentro de cada um nós, ainda que não consigamos enxergar.

Há certos desafios na vida que não há como você se preparar. O desafio é a própria preparação. A escola não ensina você a ficar no gelo passando fome, nem abrir mão de seu conforto para enfrentar o monótono desafio diário de estudar para um concurso público. Sempre haverá incertezas e você nunca estará 100% preparado. São experiências que você deve, simplesmente, enfrentar.

O brasão da família de Shackleton tem uma inscrição em latim que traduz bem o espírito que devemos conservar em nossas batalhas: “Fortitude Vincimus”, que significa Vencemos pela Resistência.

Abs!

Igor Oliveira.

Observação: há anos eu ensaio para escrever este artigo. Eu sou fã de carteirinha da história e já li muita coisa a respeito. Além disso, tive a grata satisfação de conhecer o continente antártico, quando ainda era aspirante, nos idos de 2001. Durante a viagem, muito se conversava sobre o que os homens de Shackleton haviam passado e a liderança bem sucedida do comandante.

Indicação de livro: A Incrível Viagem de Shackleton - Alfred Lansing.

Turma de coaching aberta.

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Comentários

  • 03/02/2016 - LOPES
    Professor gostei muito do texto, a alguns anos li um livro sobre o assunto. Segue para quem tiver curiosidade: http://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=10967
    ABAIXO DA CONVERGÊNCIA - Expedições à Antártica 1699-1839
    Alan Gurney.
    É sempre bom saber que podemos fazer muito mais do que imaginamos possível.
  • 03/02/2016 - Prof Igor Oliveira
    Rapaz, sabia que vc curtia isso não...rs...legal...rs...conte sempre comigo! Abs!
  • 03/02/2016 - Francisco
    Puxa! O cara viveu uma verdadeira e real aventura com seus companheiros.
    Me emociona tanta coragem mas, acima de tudo, tanta grandeza de espírito (rara hoje em dia). Com certeza lerei o livro, Igor.
    Obrigado pra compartilhar!
    Abs
  • 03/02/2016 - Prof Igor Oliveira
    Que bom que gostou Francisco! Legal demais suas ponderações! Conte comigo sempre! Abs!
  • 02/02/2016 - Phelippe
    Excelente mestre! É interessante como podemos resistir aos obstáculos. Esse caso me mostrou que obstáculos podem ser motivos de aprendizagem/resistência ou desistência. Estudar é assim, vai surgir os problemas. Temos que continuar, cumprir a missão sem desculpas e fazer qualquer planejamento que for necessário, como Shackleton. Abraço Igor. Muito obrigado.
  • 02/02/2016 - Prof Igor Oliveira
    Que bom que gostou meu camarada! Disponha sempre! Abs!
  • 01/02/2016 - Edimar
    Ei Igor, obrigada por compartilhar mais uma história de resistência. Um forte abraço!
  • 01/02/2016 - Prof Igor Oliveira
    Sua cara Edimar...rsrs...
  • 01/02/2016 - Simone Miranda
    Uau!!!
    Com essa artigo já começo bem a semana.
    Motivação, inspiração...
    Obrigada, Comandante!
    Adsumus
  • 01/02/2016 - Prof Igor Oliveira
    Sua cara também...rsrs...aliás, conheço vários com quem eu compartilharia experiências assim...ADSUMUS!
  • 01/02/2016 - Silvana Alves
    Que leitura agradável e motivadora. Obrigada Mestre Igor, por nos presentear com esse artigo. Perfeito! Adsumus!!!
  • 01/02/2016 - Prof Igor Oliveira
    Que bom que gostou Silvana! Como disse, vcs são do time! rs...abração!
  • 01/02/2016 - Douglas
    Excelente artigo Professor! Já li o livro e é incrível ver a capacidade que temos de superar os mais adversos obstáculos. Creio eu, e peço que me corrija se estiver enganado, que um dos maiores erros que cometemos é deixar margem para a dúvida entrar e assim atrapalhar nossas metas, abalar nossa crença.
    Agradeço por mais este artigo! Um grande abraço!
  • 01/02/2016 - Prof Igor Oliveira
    Eu concordo contigo Douglas. Não pode haver dúvidas. Temos que iniciar com a cabeça no objetivo. Sem pensar. Isso sempre dá certo. Abração e obrigado!
  • 01/02/2016 - RENATA MENEGHELO
    Igor, meu marido tem esse livro aqui em casa, ele sempre me pediu que lesse. Agora, com esse artigo, será o que farei nas próximas férias. Sensacional artigo.
    É isso mesmo, a vida não lhe prepara muito para os grandes desafios não, mais da metade dos problemas estão na nossa cabeça. Fazer o que precisa ser feito. Ainda indico um artigo sobre o lema dos Seals da Marinha Americana: "o único dia fácil foi ontem". bjs e bons estudos pessoal!
  • 01/02/2016 - Prof Igor Oliveira
    Oi Renata, vc é uma guerreira, como o próprio Shackleton. Leia o livro. Vc vai gostar. Um grande abraço e conte sempre comigo! Adsumus!
  • 01/02/2016 - Marcella
    Poutz tu foi pra Antártida Igor? Mas isso é o máximoooooo
  • 01/02/2016 - Prof Igor Oliveira
    Fui...rs...tem que ver as fotos. Muito legal mesmo. Foi um presente de Deus. Abs!
  • 01/02/2016 - Wilson Eduardo
    Muito show Igor!!!

    Parabéns!
  • 01/02/2016 - Prof Igor Oliveira
    Valeu Wilson! ;)
  • 01/02/2016 - Maria Carolina
    Grande texto motivacional, mestre! Parabéns! Quero um dia dizer, depois de vencer na batalha dos concursos: Venci pela resistência!
    Adsumus!
  • 01/02/2016 - Prof Igor Oliveira
    Eu não tenho dúvidas de que esse dia está mais próximo que vc imagina Maria Carol! rs...adsumus!
  • 31/01/2016 - Rafaela
    Uau! Que história incrível, Igor! É isso mesmo: o desafio é a própria preparação. Isso acontece diversas vezes na vida. É a beleza de viver, de aprender sempre.. :) Obrigada por compartilhar essa bela lição conosco. Abs!
  • 31/01/2016 - Prof Igor Oliveira
    Que bom que gostou! História incrível mesmo. Parece até mentira...rs...abs!
  • 31/01/2016 - Carla Pereira
    Nossa Igor, incrível esse artigo. Fiquei imaginando a dificuldade destes homens. São verdadeiros heróis. Dá até vergonha de achar que estudar para concurso é coisa difícil. Perto do que eles passaram, estudar para concurso parece até moleza.
    Que legar vc ter ido até a Antártida. deve ter sido o máximo, sabendo dessa história de tanta resistência.
    Obrigada Mestre.
    Abçs
  • 31/01/2016 - Prof Igor Oliveira
    Valeu Carla. Eu é quem agradeço! Fico feliz que tenha gostado! Abs!
  • 31/01/2016 - Lucas Sousa
    Esse cara foi um líder nato. sempre procuro ouvir essas histórias para tentar extrair algo e aplicar na minha preparação. Belo artigo, Igor!!!
  • 31/01/2016 - Prof Igor Oliveira
    Valeu Lucas. A história é muito estudada nas forças armadas como um exemplo de liderança. Fico feliz que tenha gostado! Abs!
  • 31/01/2016 - Elia Guimaraes
    Igor Parabéns pelo artigo realmente é uma história fascinante e que serve de lição para nós concurseiros.
  • 31/01/2016 - Prof Igor Oliveira
    Que bom que gostou! Conte sempre comigo! Abs!
  • 31/01/2016 - Samara
    Prezado professor, já tem um dias que conclui a leitura do seu e-book gratuito "Por quê ainda não deu certo" desde então o sigo no face e tenho procurado ler com frequência tudo que escreves. Gostei muito do texto e da lição que passou. Mais uma vez a disciplina vem como carro chefe na nossa preparação para concursos.
    Muito obrigada por nos dar a oportunidade de ler seus artigos que nos fazem tão bem.
    Abs
  • 31/01/2016 - Prof Igor Oliveira
    Que bom Samara. Obrigado por me acompanhar. Fico contente com isso. Disponha sempre! Abs!
  • 31/01/2016 - Luiz Fernando Amaral
    Oi, Igor, blz? Seus textos são muito bons. Parabéns! Comecei meus estudos há pouco tempo. Tive a sorte de ler um artigo seu em que você sugere a pessoa a começar devagar. Isso tem dado certo para mim. Neste momento estou com POR, DCO e DAD. Mais pra frente penso em inserir RL. Em média, estudando 2h30/dia, em quanto tempo um candidato dedicado costuma estar pronto para concorrer (sei que é relativo, só quero ter uma ideia)? Obrigado!
  • 01/02/2016 - Prof Igor Oliveira
    Oi Luiz, obrigado por ler meus textos. É muito relativo mesmo. Eu passei em um ano. É só estudar de maneira concentrada e cadenciada. Quando o edital surgir, vc estará preparado. Não perca o foco e saia fazendo tudo...isso é um erro grave...abs!
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