Prof. Júnia Andrade

10/11/2015 | 18:49
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Aquele português da FGV, compreenda-o

 



 Não é raro um aluno resolver provas da FGV e ficar muito chateado com seu desempenho. É lógico que isso acontece com todas as bancas, mas a FGV traz uma marca em especial: a capacidade de apresentar respostas aparentemente inexplicáveis, à luz da gramática ou da teoria textual. 



Então, neste artigo, quero apresentar a você a semente do entendimento de onde deriva isso. Se você quiser saber mais, ter mais clareza quanto a isso, vamos convidar você para assistir ao webinário - encontro "on-line" ao vivo - que teremos no dia 20/11, a partir das 20:30 horas. 



E, depois, se você quiser aprender mais sobre isso, poderá ser nosso aluno no curso de português em PDF que ofertaremos para a FGV. E tem mais: se quiser treinar provas comentadas, temos no Ponto Vídeo o curso de provas comentadas da FGV para os concursos do TJ-PI, Sefaz - Niterói, Oficial de Chancelaria etc. 



Mas vamos falar da forma como o português da FGV opera. 



 



O sofrido português da FGV – como trabalhar suas questões e por que não consigo acertar em cheio a prova da banca



 



        A FGV traz prova de português difícil?



        Sem balela, não traz!



        O que falta é entender o que a banca quer dizer com “adaptação do conteúdo”. Ela traz isso em todo edital – a observação fica logo abaixo do programa de português.



        Você sabe, por exemplo, que numa prova de múltipla escolha, podemos ter como gabarito qualquer opção seguinte:





    1. resposta correta;



    1. resposta errada;



    1. resposta parcialmente correta, ou seja, na falta da correta, marca-se aquela que se aproxima do que é certo;



    1. resposta menos incorreta, entre as demais que são piores do que ela.

 



       A FGV tem o costume de não concordar com o cerne do assunto. Entenda:



 







Para servir de comparação: nas provas da Esaf ou nas do Cespe, por exemplo, a maior parte das respostas deve atingir, com profundidade, a correção. Em outras palavras, é preciso estar quase 100% seguro de que todas as características da opção ou item avaliado compreendem exatamente o que foi questionado. Em resumo, as referidas bancas exigem que você chegue à prova com conhecimento prévio bem definido.





 



 







Nas provas de português da FGV, costuma ocorrer o contrário do que ocorre nas do Cespe e nas da Esaf: o gabarito costuma atacar a tangente, ou seja, não o cerne do que realmente é o assunto, mas, sim, o último fio, a última característica de correção do que lhe foi solicitado.



Mas, “como assim?”



É lógico que vamos demonstrar isso a você nas próximas linhas. Entenda, antes, que a FGV toma determinado assunto X para perguntar qual é a opção correta sobre ele. Suponhamos, então, que temos o seguinte nas opções:





    1. Regra Geral do que é X.


    1. Uma característica central que pertença a X.


    1. Uma característica final que ainda pertença a X.



A resposta costuma ser a do modelo do item C, porque a banca escolhe um exemplo que representa exceção à regra geral, que foge à característica central, mas que conserva um fio daquilo que lembra X.





 



 



Então, em português, vocês aprenderão que, em boa parte das respostas da FGV, predomina a teoria da tangente, e não a do centro, a da profundidade da resposta. Por isso, vocês, naturalmente, julgam que algumas respostas da FGV, na prova de português, são evasivas, pouco reais, conceitualmente falando.  



Por óbvio, sem compreender o mecanismo de resolução de questões que se aplica à prova da nossa banca, o resultado do rendimento em português pode ser pouco favorável às suas expectativas.



Isso explica por que, mesmo o aluno tendo acesso a aulas que atacam a essência de determinados assuntos, ele não consegue sucesso com as provas da FGV.



Juro que a tarefa não é difícil – atestarei isso com exercícios comentados. O que falta em quase 90% dos cursos e dos livros de português para as provas da FGV é adequar o conteúdo ao formato de trabalho da banca, conforme é sempre solicitado nos editais:



“Observação: os itens deste programa serão considerados sob o ponto de vista textual, ou seja, deverão ser estudados sob o ponto de vista de sua participação na estruturação significativa dos textos.”



Jogando luz nisso, o que banca propõe é que você analise as opções tendo em vista o que está diante dos seus olhos.



Os conhecimentos gramaticais ou textuais prévios são apenas componentes de uma carteira de apostas que, somados ao olhar atento do candidato, servirão para que você possa analisar a melhor tática ou jogada para marcar a opção mais adequada ao gênero textual que foi proposto como base da questão: seja um texto verbal, seja uma charge, seja uma curta frase.



Então, além de a gente demonstrar neste encontro o nosso trabalho, em linhas gerais, com o primeiro conteúdo do programa de português, vamos ajudar você a compreender como se dá esse mecanismo de resposta tangencial, presente em alguns exercícios extraídos das provas da FGV.  



Então, vamos à explicação: a gente vai partir de uma teoria e depois a gente vai aplicar essa teoria em questões da FGV. 



 



 Começaremos por um assunto que abre os programas de português da banca: GÊNERO TEXTUAL E TIPO TEXTUAL.



GÊNERO (TIPO) DO TEXTO: NARRATIVO, DESCRITIVO, ARGUMENTATIVO



 



A TEORIA



 



Observe este quadro sintetizador:





Classificação





Conceito e características





Exemplos





Gênero Textual





Materializa a prática da linguagem, possui função social e é infinito.





Ofícios, e-mails, poemas, reportagens, cartas, manuais, editais etc.





Tipo Textual





É a forma como o texto se apresenta dentro de algum gênero. Possui classificação limitada.





dissertação (expositiva, argumentativa), narração, injunção e descrição .





 



Vamos lembrar que a FGV chamará tudo de Gênero. Isso mesmo! Ela faz uma pequena confusão e chama de GÊNERO tanto os próprios gêneros quanto os tipos textuais.



Mas, sem sofrimento, porque o que a gente precisa fazer é entender características gerais dos TIPOS textuais para identificá-los em textos e ou em partes de textos. Mas vamos nos lembrar de que assim como os gêneros podem mesclar-se, dentro deles também pode haver mesclas de TIPOS TEXTUAIS.



Observamos, então, o segundo quadro cujos termos em amarelo precisam estar bem claros em sua cabeça, porque você precisará deles em prova:



 





Tipos textuais





Conceito





Características





Estilo





Exemplos





Narrativo





Trata-se de um relato, ou seja, o contar de uma história que pode ter como personagem outra ou outras pessoas, ou o mesmo quem narra os fatos.



 





A narração pode ser marcada por elementos como TEMPO, ESPAÇO, PERSONAGENS.



 





Facilmente encontramos nas narrativas ADVERBIOS DE TEMPO e DE ESPAÇO.



Geralmente a presença mais marcante é a do verbo flexionado do PRETÉRITO PERFEITO (Exemplo: fez, pensou, teve, assistiu etc.)





Na tarde de sábado, Mauro, com intuito de passar trote, telefonou para a Delegacia de Polícia de sua cidade, notificando a ocorrência de um furto de veículo que estava na garagem de sua casa. Identificado, posteriormente, foi indiciado por denunciação caluniosa.





Descritivo





Consiste em uma caracterização de pessoas, lugares, objetos etc.  





 No texto descritivo, encontramos ideias de formato, estrutura, cor, tamanho, função etc. A descrição está para o texto assim como a fotografia está para as imagens.





A descrição é amplamente marcada pela presença de ADJETIVOS. Como a descrição envolve o olhar, ela emprega bastantes verbos no PRESENTE. Mas em concursos, notaremos a descrição que provém do fluxo de memória, ou seja, aquela repleta de verbos no PRETÉRITO IMPERFEITO (exemplo: era, possuía, tinha, vinha etc.). 





O fidalgo os recebia como um rico-homem que devia proteção e asilo aos seus vassalos; socorria-os em todas as suas necessidades, e era estimado e respeitado por todos que vinham, confiados na sua vizinhança, estabelecer-se por esses lugares. (José de Alencar)





Argumentativo





Trata-se de um subtipo da dissertação. A argumentação consiste na apresentação de uma ideia central – o objetivo do texto -, conhecido também como TESE. Esta tese é seguida de argumentos, ideias e comprovações, que dão validade a ela.





Nota-se claramente a defesa de uma opinião, apoiada em argumentos que podem ser históricos, ou de prova concreta (baseado em números), ou de testemunhos (autoridades sobre o assunto), ou de exemplificações.





Linguagem fortemente crítica ou elogiosa. Há forte Inter-relação entre as partes: introdução, desenvolvimento e de conclusão.





A atual situação econômica do Brasil vem causando muita preocupação e os motivos que levaram à atual situação econômica do Brasil são muitos. Como explica Delfim Netto, merecem um destaque: a total falta de investimentos em infraestrutura e os gastos impensados do governo em ano eleitoral.





Partindo desse quadrinho, vamos ao que apraz de fato: a prática de exercícios da FGV:





QUESTÃO – funart 2014





assunto





 



Brasileiro, Homem do Amanhã (Paulo Mendes Campos)



Há em nosso povo duas constantes que nos induzem a sustentar que o Brasil é o único país brasileiro de todo o mundo. Brasileiro até demais. Colunas da brasilidade, as duas colunas são: a capacidade de dar um jeito; a capacidade de adiar.



A primeira é ainda escassamente conhecida, e nada compreendida, no Exterior; a segunda, no entanto, já anda bastante divulgada lá fora, sem que, direta ou sistematicamente, o corpo diplomático contribua para isso.



Aquilo que Oscar Wilde e Mark Twain diziam apenas por humorismo (nunca se fazer amanhã aquilo que se pode fazer depois de amanhã), não é no Brasil uma deliberada norma de conduta, uma diretriz fundamental.



 (...)



QUESTÃO 11 Entre as definições do gênero crônica abaixo transcritas, aquela que se refere mais adequadamente ao texto desta prova é:



(A) compilação de fatos históricos;



(B) prosa ficcional apoiada em fatos recentes;



(C) representação genealógica de uma família tida por nobre;



(D) coluna de periódicos, dedicada a comentários, opiniões;



(E) texto literário breve, de trama pouco definida.





Estudo dos gêneros textuais





COMENTÁRIO:



Veja bem – o gênero crônica traz em seu cerne a ideia de TEMPO (cronos (gr.)= tempo).



Assim,



      o tempo da crônica pode abranger fatos atuais, históricos ou mesmo futuros.



      Ela pode ser ficcional (tratar de uma invenção) ou pode ser um comentário sobre fatos reais.



      Temos crônicas humorísticas, jornalísticas, literárias etc.



      Desse modo, apenas o item C não traz qualquer característica do que possa ser uma crônica.



Desvendando os itens restantes:



Item a = apesar de trazer um conceito do que seria crônica, o item não está adequado ao tipo de crônica apresentado pela FGV. Lembre-se de que a FGV não quer somente o conceito, mas exige, sobretudo, aplicação deste à situação apresentada no texto. Como nele não há fatos históricos compilados, ou seja, reunidos, o item não está adequado ao que consta no texto.



Item b = o texto não é ficcional, porque não é puramente “inventado”. O que há nele é a apresentação, à luz do pensamento do autor, de uma característica do brasileiro: “a capacidade de dar jeito” e “a capacidade de adiar”.



Item d = esta é a resposta mais adequada. Veja que raramente nas provas da FGV mencionarei “resposta correta”. Raramente falarei isso, porque a FGV apontará vários dados pertinentes ao conceito de um determinado assunto. Mas é muito raro, conforme expliquei lá no início, que a proposta do exercício se encaixe exatamente no cerne do conceito. Geralmente esta proposta irá buscar como verdade a resposta que está na tangente, ou seja, aquela que não representa o centro do conceito, mas que também não está totalmente fora dele.



 Como a geometria explica, a tangente só toca um ponto da circunferência = esta é a jogada da FGV em muitas questões das provas de português. Ela quer a opção que toca um ponto da resposta, o que é exatamente o recorte de adequação do conceito ao tipo de exercício ou frase que ela propôs como modelo.



Como as crônicas podem fazer parte de colunas jornalísticas, evidenciando uma mescla de gêneros , esta pode ser a resposta mais adequada. Mas, por ser algo tangente, você só chegará a ela depois de percorrer todo o raio de opções da FGV. Aí, sim, você terá descoberto o ponto tangencial da resposta: o gabarito. 



Item e = uma crônica pode ser literária ou não, mesmo que ela lide com assuntos reais – a literatura não é feita somente de ficção – invenção – ela pode ser também uma releitura da condição humana real, feita de forma inovadora ou poética. Então, a primeira parte do item não invalida a resposta. Mas o que invalida mesmo o item E é dizer que o texto é uma trama e, pior, dizer que se trata de uma trama pouco definida. Ora, trama, gente, faz parte da TIPOLOGIA NARRATIVA, já que a trama consiste em uma sucessão de acontecimentos que constituem a ação de uma história – a trama é basicamente o enredo da narração.



Se vocês relerem o texto, notarão que, dentro deste gênero CRÔNICA, está o tipo textual argumentação, pois temos claramente exposta a opinião do autor sobre o que ele chama de características do brasileiro.



 



GABARITO: D





 



         



 





QUESTÃO – AL - MT/2013





assunto





Fora de foco



Deve‐se ao desenvolvimento de remédios e terapias, a partir de experimentos científicos em laboratórios com o uso de animais, parcela considerável do exponencial aumento da expectativa e da qualidade de vida em todo o mundo. É extensa a lista de doenças que, tidas como incuráveis até o início do século passado e que levavam à morte prematura ou provocavam sequelas irreversíveis, hoje podem ser combatidas com quase absoluta perspectiva de cura.



Embora, por óbvio, o homem ainda seja vítima de diversos tipos de moléstias para as quais a medicina ainda não encontrou lenitivos, a descoberta em alta escala de novos medicamentos, particularmente no último século, legou à Humanidade doses substanciais de fármacos, de tal forma que se tornou impensável viver sem eles à disposição em hospitais, clínicas e farmácias.



(...)



questão 12 - O texto lido é, quanto ao gênero textual, classificado como



(A) descritivo.



(B) narrativo.



(C) dissertativo expositivo.



(D) dissertativo argumentativo.



(E) injuntivo.



 





Estudo dos Tipos Textuais





COMENTÁRIO:



Como os TIPOS TEXTUAIS são mais matemáticos do que os gêneros, ou seja, são menos numerosos e, por isso, menos imprecisos, nosso gabarito será, geometricamente falando, o centro:



 GABARITO: D



Entendamos o caso: observando a introdução, fica claro que temos a opinião do autor que defende estar o avanço da medicina para a cura de doenças ligado ao uso de animais em laboratório. 



Note também que o primeiro argumento do autor é baseado na menção à história, conforme destacamos no texto.



Desvendando os itens restantes:



Item a = não há predominância de descrição, porque não temos adjetivações numerosas para indicar forma, cor, tamanho de algum objeto, animal, lugar ou pessoa.



Item b = o autor não está contando história nenhuma. Não há personagens, marcações predominantes de tempo ou de lugar. No segundo parágrafo, até há verbos no passado, mas essa ida ao passado foi feita apenas para trabalhar com argumento histórico, o que não seria difícil de ser executado em tempo diferente. Mas o primeiro parágrafo, que traz a tese, e os demais do texto – não reproduzidos aqui – estão com presença maciça de verbos no presente.



Item c = dissertação expositiva diz respeito à explicação, desprovida de tentar o convencimento do leitor. Trata-se do texto imparcial.



Mas fique esperto: se seu edital não prevê “dissertação expositiva”, você já sabe que normalmente (olhe meu português!) não marcamos essa opção, porque o assunto não consta no programa de português. A FGV adora jogar nos itens assunto não previsto em edital. Por isso, ter o edital consigo e consultá-lo sempre que for estudar é importante para que você acompanhe e fiscalize as aulas dos seus professores e para esteja atento a “pegadinhas” de prova.



Item e = a injunção é tipologia típica dos gêneros manuais e receitas. Trata-se de textos de comando, que ensinam como proceder para executar algo.





 Deixei estes dois exemplos para mostrar o comportamento da banca: ora ela irá no cerne do conteúdo sobre a questão ora optará pela resposta tangente ao conteúdo. 



Natualmente os candidatos tendem a errar os exercícios em que banca tangencia a resposta. Por isso, é preciso treinar as questões da FGV, compreender em que partes do estudo do português há maiores riscos de haver resposta tangente em lugar de resposta certeira. 



    Se você gostou do artigo, poderá ler, com mais detalhes, sobre este assunto, clicando em  https://www.pontodosconcursos.com.br/cursos/produtos_descricao.asp?desc=n&lang=pt_BR&codigo_produto=53950.



ou participando do nosso webinário ao vivo para elucidar, com mais exemplos, a forma de a FGV apresentar seus gabaritos. 



 



Sucesso nos seus estudos e nas suas escolhas!



 



Profa. Júnia Andrade


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