Prof. Igor Oliveira

04/10/2015 | 07:11
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O dia em que falhei miseravelmente

O primeiro concurso público que tentei estudar foi para o Concurso de Admissão à Carreira Diplomática (CACD). Na verdade, era o único que de fato me despertava interesse. Eu tinha um certo fascínio pela carreira diplomática (confesso, ainda tenho). A oportunidade de viver em qualquer local do mundo e servir diretamente ao meu país tinha tudo a ver com minha personalidade e com o espírito aventureiro que cultivamos em nossa família.

Eu me imaginava o tempo todo trabalhando em algum posto no estrangeiro, dando gargalhadas de terno em algum coquetel bacana falando alguma língua desconhecida com um “local”. Tinha dias que eu me imaginava Embaixador do Brasil na Turquia, resolvendo questões delicadas referentes à relação entre os dois países (não me pergunte o motivo de Turquia. A cabeça da gente é uma coisa de doido).

O sonho era doce demais e me impulsionou a começar estudar imediatamente.

Mas, como quase sempre acontece com esses processos, o esforço de sonhar não era, de longe, igual ao esforço de fazer. O concurso para diplomata, sabidamente, é um dos mais difíceis do Brasil. A título de exemplo, na época em que decidi estudar eram cobradas três línguas estrangeiras: inglês, espanhol e francês. Sendo que havia prova oral de inglês (hoje não mais). Meu nível de espanhol era o de todo brasileiro: acha que sabe, mas não sabe nada. Francês nunca vi. E o meu inglês, de zero a onze, sendo onze o nível da prova, era um. Estamos falando aqui apenas das línguas estrangeiras. Não estou nem entrando no mérito das outras matérias. Em resumo: uma pedreira tamanho do morro do Corcovado no Rio de Janeiro.

Entretanto, não me deixei abater. “Eu, um fuzileiro, ser barrado por uma provinha dessas” (sim, meu caro, faltava-me MUITA humildade naqueles tempos). Comecei em ritmo frenético, estudando o meu máximo, quase todas as disciplinas simultaneamente, com exceção das línguas estrangeiras, que optei por “matar” primeiro inglês.

Que desespero.

Chegava do trabalho exausto para outra rotina exaustiva e monótona. Não me respeitava, não ficava com minha família direito e tentei levar tudo no peito e na raça. Quando chegava o momento de estudar sofria muito. Uma verdadeira briga homérica se passava dentro da minha cabeça. O tico dizendo para eu continuar e o teco dizendo para eu parar. Naquela época não havia opções viáveis para o estudo de inglês na internet como há hoje. Era literalmente quebrando pedra com periódicos em inglês e dicionário do lado. Se você não manja de inglês você entende o tamanho do meu sofrimento. De cada dez palavras eu procurava umas oito, sem exagero. De forma que, para chegar ao nível elevadíssimo do concurso, eu teria que viver aquela rotina infernal por no mínimo uns quatro anos. Só o inglês eu iria levar uns dois anos para fechar, sendo brutalmente otimista. E isso acabou se mostrando verdade no final, pois foi justamente o tempo que levei para me formar no cursinho, já num passado mais recente.

A impressão que tinha era que eu movimentava uma tonelada de pedras por dia e o rendimento era quase nulo. Faltava-me tudo, não apenas humildade, mas também paciência para aprender aquele extenso material e concentração para ficar horas e horas analisando textos em inglês.

A falta de compatibilidade entre o sonho e a execução do planejamento para atingir esse sonho gera uma coisa bem chata: frustração.

E era assim que me sentia. Frustrado o tempo todo. Atribulado com tanta coisa para fazer e com o orgulho ferido demais para reconhecer que, realmente, naquele momento de vida, estudar para aquele concurso não era pra mim. Até que, depois de quase seis meses, minha esposa disse assim: “Igor, posso te ser sincera? Pare”. Acho que foi a única vez que ela disse isso pra mim na vida. Não que eu não conseguisse. Acho que iria acabar conseguindo. Mas o preço seria alto demais. Meu mau humor estava afetando tudo que me rodeava, inclusive o meu trabalho na Marinha e, obviamente, minha família.

Depois de tanto sofrer, gastar dinheiro e tempo, decidi parar. E vejo hoje que foi uma das melhores decisões da minha vida. Na época foi difícil chegar a essa conclusão, pois, afinal de contas, ninguém quer se ver feio no espelho ou se admitir incapaz. Mas enfim, não apenas parei, como decidi não fazer coisa alguma. Dediquei-me a mim mesmo, à minha família e ao meu Esquadrão de Helicópteros. Passei a ser bem visto em minha organização e reconquistei a paz em minha casa.

Com os pensamentos no lugar, investido de sobriedade, comecei um novo planejamento, desta vez para estudar para concursos públicos mais “padrões”. O final você já conhece. Acabei passando, etc, etc…

Nós somos uma sociedade voltada para resultados e é normal sonhar com esses resultados. Esse sonho é excelente para impulsionar você a começar sua jornada, mas, passado algum tempo, e na maioria dos casos, quase sempre não há o encaixe entre o sonho e a realidade maçante de estudar todos os dias.

O meu estudo posterior, para concursos que não o de diplomata, se mostrou muito eficiente, calmo, constante e disciplinado. Tudo resultado do aprendizado que tive com os erros do passado. Aliás, aprender com os erros foi um dos mecanismos mais poderosos e úteis que já vi. Você simplesmente sente que se aperfeiçoou. É como se você fosse imunizado contra o euforismo da massa e o comportamento errático, típico dos desesperados.

Foi nesses dias que aprendi lições valiosas, muitas delas transformadas em artigo, como o valor de focar na ação e esquecer dos resultados, pois eles virão de uma forma ou de outra. Decidi ainda parar de pensar no futuro e focar na jornada, pois é no momento presente que as coisas acontecem. Passei a me contentar em cumprir a missão diária de estudar com qualidade e transformei a própria tarefa em recompensa. Além disso, compreendi que começar devagar e aumentar paulatinamente de forma constante as metas de estudo era uma prática eficiente e natural. Descobri ainda o valor de uma vida organizada e de como se manter em equilíbrio ajuda a criar uma rotina sustentável de estudos (ninguém sabe quando vai passar ao certo, afinal).

Agora, a lição suprema: humildade para aprender. Ao contrário do estudo decoreba e forçado do meu passado como candidato à carreira diplomática, meu estudo para concursos regulares foi regido pelo interesse, pelo respeito e pela curiosidade, fruto de uma postura ultra humilde de aprendiz. Eu via as disciplinas com devoção, não com ódio.

O dia em que falhei miseravelmente foi-me muito útil na vida, tudo porque aceitei que errei e que aquele ali não era o meu caminho. E é justamente essa a lição de hoje. Se você, assim como eu naqueles tempos, sofre para fazer o que precisa ser feito, talvez seja uma boa dar um passo atrás, voltar para a prancheta e desenhar um outro planejamento para você, mais pragmático, disciplinado, evolutivo e focado na jornada. Pode ser esse tipo de postura talvez o casamento entre o seu sonho e a realidade.

Abs!

Igor Oliveira.

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Comentários

  • 15/10/2015 - Ellen Verri Lopes
    Igor, parabéns pelos textos! Eu estive um pouco ausente das leituras, pois acabei de ganhar bebê. Estou tirando o atraso na medida do possível. Adoro o que você escreve e, ainda mais, a forma que escreve. Um abraço!
  • 16/10/2015 - Prof Igor Oliveira
    Ellen! Parabéns pelo bebê! Filho é a melhor coisa do mundo. Sei que vc já escutou isso um monte de vezes (eu acho), mas aproveite, pois crescem muito rapidamente. Muito mesmo! O meu já tem 10 anos! Um rapazinho! rs...obrigado pela presença de sempre! Abs!
  • 09/10/2015 - Raul Lemos
    Olá, Igor!
    Seu depoimento foi muito valioso para mim. Ontem mesmo, estava pedindo orientação a Deus para que eu encontrasse uma direção. E o que acabei de ler, foi muito bom. Sempre que começo algo, igualmente como você fez, vejo mais o objetivo como uma batalha. Porém, percebi que sem a humildade de querer aprender, não irei a lugar nenhum. É como um desejo que vem realmente das entranhas, de vencer a tudo custo, sem pensar, refletir e me dispor a realmente aprender. Apenas ir jogando tudo no cérebro. Dessa forma, estou correndo, só que preso a uma corda. rs
    Gostei muito do que você expôs. Muito obrigado!
  • 09/10/2015 - Prof Igor Oliveira
    Que bom que gostou Raul. Fico feliz que o texto tenha te ajudado. Pois é. A gente tem que gostar mais de treinar que de vencer, né? rs...abs!
  • 08/10/2015 - Andre Luiz
    Muito bom lê sua história ouvindo Rolling Stones - Wild Horses e nada de Jorge e Mateus!!! kkkk.
  • 08/10/2015 - Prof Igor Oliveira
    hehehe...massa! Curto muito tb! Abs!
  • 06/10/2015 - Lorena
    Grande mestre, excelente artigo! Parabéns! Você é "o cara" rs
  • 06/10/2015 - Prof Igor Oliveira
    Valeu Lorena. Sou nada...rs...só depois de tanto apanhar acabei aprendendo a me defender...rs...abs! E obrigado pelo comentário. Igor.
  • 05/10/2015 - AlanCS
    Concordo contigo, Igor! Uma frase que resume bem toda essa história é: "nenhum sucesso profissional justifica um fracasso familiar". Forte abraço!
  • 05/10/2015 - Prof Igor Oliveira
    Olá Alan, eu tb penso assim. Cara, eu te digo que a melhor coisa que tenho hoje é chegar em casa e sentir aquela paz, aquela harmonia. Isso é bom, né? Não há dinheiro no mundo que pague sossego. Abs!
  • 05/10/2015 - Juliana
    Igor, obrigada pelo excelente texto e por compartilha-lo conosco também. Sempre inicio minha semana, lendo um de seus artigos p/ me sentir motivada a seguir adiante. Muita paz e luz p/ vc!
  • 05/10/2015 - Prof Igor Oliveira
    Eu é quem agradeço o comentário Juliana. Disponha sempre, viu? Abs!
  • 05/10/2015 - Leonardo David
    Igor, o seu texto caiu com uma luva para o momento que vivo, depois de ter sido reprovado na segunda fase, o resultado saiu há poucas horas, do CACD. Acho que o caminho que você adotou pode ser uma solução para os problemas que hoje enfrento. Abraços e parabéns pelo texto.
  • 05/10/2015 - Prof Igor Oliveira
    Leonardo, acho que o mais importante é vc esperar uns dias. Acalmar o espírito, deixar a poeira abaixar pra tomar alguma decisão. Como vc leu, eu levei cerca de 6 meses pra tomar essa decisão. Foi brabo, mas foi bom. Enfim...pense. Bota a cabeça pra funcionar. Abs!
  • 05/10/2015 - Antonio Jose
    Mestre, Muito obrigado por nos brindar com mais um excelente artigo. Grande abraço e fica na paz ;)
  • 05/10/2015 - Prof Igor Oliveira
    Eu é quem agradeço Antônio! Disponha sempre! Abs!
  • 04/10/2015 - Phelippe
    (O QUE EU PRECISAVA NESSA MANHÃ DE DOMINGO) Parabéns pelo EXCELENTE artigo, mestre! Sempre estamos aprendendo. O negócio é ter a tal da humildade. Obrigado pela sua dica e ajuda. Felizmente, ja fiz meus ajustes, não dá pra ser insano. Abraço.
  • 04/10/2015 - Prof Igor Oliveira
    Olá fera! Até dá, mas em determinados circunstância. Todo dia o tempo todo ninguém é. Adsumus!
  • 04/10/2015 - Leonardo Ferreira
    Valeu Igor! Obrigado por escrever sempre!
  • 04/10/2015 - Prof Igor Oliveira
    Valeu Leonardo, eu é quem agradeço o comentário. Vcs são minha força! TMJ!
  • 04/10/2015 - Juliana Frazao
    Ahhh... eu percebi seu interesse no MRE quando falamos da minha breve passagem por lá. É um local sui generis, de fato, mas eu acho que a sua nobre missão "aqui fora" é ainda mais especial.
  • 04/10/2015 - Prof Igor Oliveira
    kkk...me pegou, né? Mas confesso Ju, tenho muito mais vontade de ser astronauta que diplomata...rs...juro. Inclusive ontem vi o filme "Perdido em Marte" e achei TOP demais. Abs e obrigado pelo comentário! Igor.
  • 04/10/2015 - Marcia Magagna
    Grande Professor Igor!Obrigado por sempre nos ensinar o caminho certo a seguir. Um forte abraço!!!
  • 04/10/2015 - Prof Igor Oliveira
    Valeu Márcia! Obrigado pelo comentário. Disponha sempre! Abs!
  • 03/10/2015 - Francisco
    Saudações, Igor! Esse também foi o meu propósito por alguns anos na preparação para o CACD. Não estando competitivo para esse certame, parei e retomei o estudo para concursos regulares . Sensata decisão! Ousaria dizer que a humildade é a mãe da paciência! Que Deus o ilumine cada vez mais! Um abraço!
  • 03/10/2015 - Prof Igor Oliveira
    Valeu Francisco! Eu é quem agradeço o comentário! Um grande abraço! Igor.
  • 03/10/2015 - Jerley Dantas
    Excelente, Igor! A cada artigo, um novo aprendizado.A galera esquece, às vezes, de calçar a sandália da humildade e, entender que as disciplinas cobradas são verdadeiras ciências que precisam de tempo, dedicação, interesse e curiosidade para aprendê - las.Obrigado por mais esse artigo! Mais cedo ou mais tarde,a gente vai comemorar essa aprovação. Paciência, foco e fé na missão. Abs!
  • 03/10/2015 - Prof Igor Oliveira
    Isso mesmo Jerley! Tem que ter paciência. Às vezes a pressa de passar não combina com o processo de aprendizado, né? Foco na missão meu amigo! Abs!
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