Prof. Igor Oliveira

26/09/2015 | 11:56
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Votos de sacríficio

Por hábito entendemos um comportamento que se repete de maneira automatizada logo após um gatilho ou deixa. Imagine por exemplo uma pessoa viciada em chocolate. A cada vez que ela senta no sofá de sua casa (gatilho, deixa) ela sente uma compulsão por comer um pedacinho de chocolate. Se ela obedece ao impulso, será recompensada com o prazer do açúcar misturado ao cacau entrando em seu organismo. Quando isso ocorre, nosso cérebro associa o prazer ao gatilho, gerando um anseio ou desejo de comer chocolate toda vez que a pessoa senta no sofá. É como se fosse criada uma pequena linha nas profundezas do seu sistema nervoso central. No início, essa linha é bem fraca, quase apagada. Mas a cada vez que você repete o comportamento de sentar no sofá e comer um chocolate, essa linha é reforçada. Associe agora o seguinte fato: se você não come o chocolate você sofre. Ou seja, se você come, você sente prazer. Se você não come o danado do chocolate, você sofre. Você está literalmente cercado por um processo de retroalimentação chamado loop do hábito.

Quanto maior a recompensa e o sofrimento da abstenção, mais forte é a relação entre essas engrenagens mentais. Mais poderoso é o processo de retroalimentação do cérebro, a ponto de a pessoa não ter controle sobre seu comportamento e ser guiada exclusivamente pelo desejo de recompensa. É o que acontece com viciados em drogas, por exemplo. A dualidade recompensa x sofrimento é poderosíssima neste caso.

Implementar hábitos com recompensas fortes é bem fácil e óbvio. E hábitos que não possuem uma recompensa assim tão óbvia? Ou melhor, que, em sua atual perspectiva de vida, não há recompensa alguma. Um exemplo? Fazer atividade física diária. Outro? Estudar para concurso público todos os dias. Nesses exemplos, quando chega o momento de executar o hábito você sofre e depois que você termina a atividade, você também não consegue palpar uma recompensa concreta. O processo do loop é fraco e a tal linha, aquela das profundezas do seu cérebro, não consegue sequer se formar. O mecanismo de automatização do comportamento, característica de qualquer hábito (bom ou ruim), não se implementa.

Além dos componentes citados, há um outro muito importante, que compõe as engrenagens da formação ou quebra de hábitos: a força de vontade.

A força de vontade é o vetor que coloca você dentro ou fora de um loop de hábito. Quanto maior sua força de vontade ou seus motivos, maior sua capacidade de gerenciamento e autocontrole. Isso ocorre tanto para os hábitos bons (estudar, malhar), quanto para os hábitos ruins (comer uma barra de chocolate todo dia na hora do almoço, salvo melhor juízo). No primeiro caso, para você conseguir ligar o gatilho ao comportamento você precisará usar sua força de vontade. No segundo caso, você precisa de sua força de vontade para quebrar a relação entre gatilho e recompensa. Em ambos os casos, vale ressaltar que a SUA atuação deve ser DELIBERADA. Dito de outra forma, você tem que querer de verdade. Estar ali, lutando contra seu cérebro de maneira voluntária e consciente. E é justamente neste ponto que entra o tema deste artigo.

Faça seu voto!

Votos de sacrifício são como o espinafre do personagem de desenho animado Popeye. Eles reforçam sua capacidade de autocontrole e gerenciamento do hábito. É um super poder! Se você estuda para um concurso público porque simplesmente acha legalzinho ter uma carreira estável, muito provavelmente está com dificuldades de implementar o hábito de sentar todos os dias na mesma hora e estudar. Na verdade, achar maneirinho não é suficiente para vencer as forças invisíveis que atuam no sentido contrário ao da não implementação do hábito.

É preciso mais espinafre. É preciso um motivo grande.

Eu aprendi que votos feitos em público são ótimos nessas situações. E gostaria de compartilhar com você um pouco da minha experiência.

Dizer que você estuda para concurso público no âmbito das forças armadas é quase como se você estivesse dizendo para seu cônjuge que está o(a) traindo. É uma verdadeira comoção. E foi justamente o que eu fiz. Disse pra todo mundo, em alto e bom som: “eu, Capitão-Tenente, Fuzileiro Naval, Oliveira, estudo para concurso público”. Este foi um dos meus votos de sacrifício.

Depois de ter dito aquilo eu não poderia voltar atrás. O preço era alto demais. Seria visto como uma verdadeira chacota. Alguém sem palavra ou moral. Além disso, sabia que ali, naquele pronunciamento, minha carreira como oficial estava virtualmente encerrada. A Marinha não iria dar, para um demissionário declarado, as oportunidades de ouro. Se eu não passasse ou desistisse estaria condenado a uma vida medíocre. Simples assim.

O meu voto de sacrifício foi um motor nuclear. Toda vez que eu pensava em desistir antecipava mentalmente as gargalhadas das pessoas em face da minha fraqueza e voltava para a minha escrivaninha. Por pior que fosse a matéria ou o dia, eu estava ali, honrando minha palavra. Não sou mais forte que ninguém. Posso ser apenas mais maluco. Mas o fato é que funcionou lindamente! Em pouco tempo, motivado por meu voto, consegui implementar o hábito de estudar com qualidade.

Utilizei esse poderoso mecanismo algumas outras vezes quando, por exemplo, quis (e precisava) emagrecer. A balança da nutricionista não mentiu quando a procurei. Eu estava muito acima do peso. Cheguei a me assustar. Se eu não cumprisse o planejamento proposto, iria ter que enfrentar novamente a tirânica balança e me decepcionar. Toda vez que olhava um doce lembrava do raio da balança. Resultado: emagreci pra caramba.

Experimente para você ver. Comente com seus parentes ou amigos chatos que você vai passar num concurso público ou emagrecer. Sua força de vontade para implementar o comportamento relacionado à atividade será enorme. O mais importante: isso deve ser feito de maneira consciente. Você DEVE honrar sua palavra. Sem justificativas ou plano B.

Mas…

Há pessoas que não lidam bem com esse tipo de técnica. O compromisso público, ao invés de reforçar a força de vontade, funciona como um paralisador. A pessoa congela de medo. Se você é desse tipo pense bem antes de sair dizendo no Facebook que está estudando para concurso público. Você terá que estudar ou será visto como um derrotado. Nessa situação, você pode contar apenas para sua mãe, esposa, marido ou um amigo mais chegado que também estuda para concurso público. Melhor ainda! Você pode disputar com esse amigo quem passará primeiro! Imaginou? Viu como funciona?

Em resumo, para sair ou entrar no loop do hábito você deve querer. E a expressão de sua “querência” é a sua força de vontade. Dizer que é legalzinho ou que você “gostariiiaaaa de ter um emprego melhor” não é suficiente para mover a roda mental que reforça ou quebra a relação entre gatilho e comportamento. É preciso mais espinafre. Utilize conscientemente (e com uma dose de loucura) compromissos públicos por meio de votos de sacrifício para bombar sua força de vontade.

Boa sorte e juízo! ;)

Abs!

Igor Oliveira.

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Comentários

  • 28/09/2015 - Antonio Jose
    Mestre, acredito que meu "voto de sacrifício" mais forte é a família, pois consegue ser ao mesmo tempo "público" no que diz respeito ao seu sentido mais amplo, assim como, também é privado em relação à minha esposa e meus dois guris (kkkkk). Muito obrigado pela excelente reflexão! Vamos em frente e fica na paz ;)
  • 28/09/2015 - Prof Igor Oliveira
    Eu ia citar isso Antônio. Minha família não chegava a me cobrar, mas eu me cobrava por eles, uma vez que todos estão se sacrificando por mim. Ótimo ponto! Conte sempre comigo! Abs!
  • 28/09/2015 - Phelippe
    Muito obrigado Igor.Vamos manter a força de vontade. Não dá para querer só um pouquinho; tem que ter fome de verdade, e pela comida certa. Eu assisti a um filme maravilhoso, Whiplash. Não recomendo filmes, mas esse é outra história, um dos mais motivadores que já vi. Abraço mestre!
  • 28/09/2015 - Prof Igor Oliveira
    Cheguei a pegar esse filme para ver e não vi, neste final de semana! Quanta coincidência! rs...realmente, tem que querer de verdade. Abs!
  • 27/09/2015 - Taisi
    Massa a sua experiência professor, mas eu não consigo me ver fazendo o mesmo. És um homem destemido! Eu não consigo me ver em cima do banco da praça, Sete de Setembro, aqui da minha cidade falando em alta voz que estou estudando para concurso, não rola rs. Já tem um bom número de pessoas que sabem, é o suficiente. Vou ingerir mais espinafre rsrs. Abs!
  • 27/09/2015 - Prof Igor Oliveira
    kkkk...pode crer Taisi. É uma boa também, né? rsrs...mas acho que vc já tem motivo suficiente pra ser sua melhor hoje. ;)...conte sempre comigo! Abs!
  • 27/09/2015 - Mariana
    Igor, excelente! Incrível como seus artigos conseguem traduzir o nosso cotidiano. Todos os dias, ao sair do trabalho, posso sentir o gosto do brigadeiro em minha boca. A recompensa, por sua vez,é imediata e deliciosa! Já o estudo...era deixado pra um "daqui a pouco" que custava a sair, pois somos guiados pelos imediatismos de outras tarefas. Sem contar que ficamos muito inseguros pensando se teremos alguma recompensa com esse esforço todo. Mas graças a sua ajuda, tenho conseguido me guiar pelo compromisso diário, em me tornar vencedora no dia de hoje. Muito obrigada! Mesmo! Abraços.
  • 27/09/2015 - Prof Igor Oliveira
    Legal Mariana! Bom saber que vc está conseguindo estudar com constância. O esforço vale muito a pena. Pode ter certeza! ;)...obrigado pelo comentário e conte sempre comigo! Abs!
  • 26/09/2015 - Meire Ferreira Caeta
    IGOR, como de costume, nos presenteou com um texto ma-ra-vi-lho-so! Vc me inspira, viu?! E o que dizer qdo a pessoa precisa estudar muiiito e emagrecer mais ainda?! Dureza! Rsrs. Muito obrigada pelo apoio que nos oferece! Abços.
  • 26/09/2015 - Prof Igor Oliveira
    Obrigado Meire pelo comentário! Emagrecer e estudar...hummm...sei exatamente como é...rs...o mecanismo mental é o mesmo: não pensar e fazer. Acabei de comer uma banana com canela doido pra comer um chocolate...hehehe...tamu junto Meire. É todo mundo igual...rs...abs!
  • 26/09/2015 - Mariana
    Mestre, maravilhoso texto. Eu estou utilizando a primeira opção: "pessoal, estou estudando para concurso público". Para mim funciona mais. Digo que é uma planejamento de longo prazo (para não me sentir sob pressão) e acho interessante saberem, pois não me incomodam se eu digo "não posso, preciso estudar". rssss...
  • 27/09/2015 - Prof Igor Oliveira
    Legal Mariana. Ainda tem essa, né? Eu tb já fiz isso: "não posso, preciso estudar". Obrigado por compartilhar seus pensamentos. Abs!
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