Prof. Luiz Campos

10/10/2013 | 00:59
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Recursos questões objetivas Comunicação Social MPU II

Prezadas alunas e alunos,

Continuo aqui o artigo anterior realizando mais sugestões para recursos para a prova de conhecimentos específicos de Comunicação Social do Ministério Público da União – Cargo 3 - 2013.

Das três questões comentadas neste artigo, acredito que a 86 é a mais questionável. A 108, a menos, mas a questão lida com uma concepção enraizada que está se alterando (assim, não pude resistir a um comentário, rs).

 86 - A matriz SWOT é cada vez mais utilizada no planejamento de comunicação organizacional, pois possibilita o mapeamento analítico de contextos nos quais são delineadas ameaças, demandas e oportunidades típicas do ambiente externo, ao mesmo tempo em que permite identificar a reação da organização quanto aos seus pontos fortes e fracos.

Gabarito preliminar : C

 A maioria das descrições da técnica SWOT menciona ameaças e oportunidades do ambiente externo e pontos fortes e fracos da organização (ambiente interno).

 A questão introduz “demandas” do ambiente externo e a “reação da organização quanto a seus pontos forte e fracos”.

 As oportunidades e ameaças não são demandas do ambiente externo. Uma organização pode reagir às oportunidades e ameaças de maneiras diferentes, inclusive convertendo ameaças em oportunidades. Não há demandas específicas.

 Henrique Silveira, por exemplo, no capítulo SWOT do livro organizado por Kira Tarapanoff, Inteligência Organizacional e Competitiva, Brasília, Editora UNB, 2001, define as oportunidades como “fatos ou situações do ambiente externo que a organização pode vir a explorar com sucesso” e ameaças como “antíteses das oportunidades...situações do ambiente externo com potencial de impedir o sucesso da organização”.

 Em relação à “reação da organização quanto a seus pontos fortes e fracos”, entendo que a descrição é ainda mais inapropriada. Não se trata da reação da organização, mas de suas características ou recursos.

 Silveira conceitua pontos fortes como “fatos, recursos, reputação ou outros fatores” que podem significar uma vantagem competitiva da organização ou diferencial no cumprimento da missão; são “competências distintivas”.

 Pontos fracos são “deficiências ou limitações” que podem comprometer o desempenho da organização. Pontos fortes e fracos se relacionam ao ambiente interno.

 Em suma, o que se pretender identificar com a técnica SWOT são os pontos fortes e fracos da organização, não suas reações a eles. Analogamente, em relação ao ambiente externo, são as ameaças e oportunidades, não as demandas ambientais.

98 - Por meio de uma rede de comunicação digital social, solidária e colaborativa, a atuação do coletivo Mídia NINJA pautou a mídia corporativa e os telejornais durante a transmissão das manifestações.

 Gabarito preliminar : C

A questão é necessariamente subjetiva, pois envolve interpretação de acontecimentos recentes.

 O Mídia NINJA cobriu as manifestações de junho de 2013 ao vivo, utilizando celulares e publicando os vídeos, muitas vezes longos e sem cortes, na internet. Houve muita repercussão, inclusive porque foi mostrada a violência policial na repressão às passeatas.


No entanto, embora simpático ao movimento e independentemente das recentes denúncias na imprensa relativas ao Fora do Eixo e Mídia Ninja (verdadeiras ou não), não acredito, no caso, que a “mídia corporativa e telejornais” tenham sido pautados.

 Entendo que pautar significa cobrir acontecimentos que a mídia não teria coberto ou, mesmo, impor um posicionamento à cobertura da grande mídia.

 Nada disso aconteceu. É claro que é possível que os celulares tenham “chegado primeiro” ou mesmo coberto determinados eventos que as mídias não puderam cobrir. Mas seria isso pautar? As mídias corporativas pareceram sempre dispostas a cobrir os acontecimentos, inclusive a repressão policial, inclusive porque isso garantiu audiência. A cobertura da mídia chegou a ser exaustiva.

 As mídias corporativas também mantiveram um posicionamento claro, aliás, uma unanimidade quase estarrecedora (certa ou errada, não importa): as passeatas são boas, mas são prejudicadas pela violência. Matérias com angulação contrária certamente foram exceções.

 Assim, a mídia corporativa cobriu os acontecimentos rápida e intensamente e manteve um ângulo claro na cobertura. Não foi pautada, entendo.

  108. Os processos que definem a construção de imagem institucional têm uma dimensão histórica, uma vez que a imagem é uma elaboração de longo prazo, sendo construída no decorrer do tempo.

 Gabarito preliminar: (E)

A princípio, nem haveria discussão sobre essa questão. Muita gente vê a imagem como “instantânea”, enquanto a reputação sim, essa seria construída ao longo do tempo.

 No entanto, entendo que essa visão não resiste a um exame crítico. É impossível para uma instituição mudar sua imagem desvinculada de um esforço a longo prazo, em bases históricas.

 A imagem é mais fragmentada que a reputação e está associada a certo público (há várias imagens). A reputação é mais “geral”, uma convergência das várias imagens. Imagem trata de representação simbólica, o que não quer dizer que símbolos são instantâneos.

 Muitos estudos têm procurado associar memória e história com imagem institucional e comunicação organizacional/relações públicas.

 Paulo Nassar, diretor presidente da Aberje - Associação Brasileira de Comunicação Empresarial, em sua tese de doutorado (Relações públicas e história empresarial no Brasil: estudo de uma nova abrangência para o campo das relações públicas. USP, São Paulo, 2006), escreve (grifei sempre):

 É esta dimensão ligada à construção da cultura e da identidade organizacional que interessa aos estudos de relações públicas, por terem como componente o conjunto de símbolos, comportamentos e processos de comunicação que desenha a personalidade e a imagem corporativa. Sabemos que símbolos, comportamentos, personalidades e os processos de comunicação organizacionais são construções históricas, que têm como referência a sociedade (suas questões, tensões e tendências) e as ações das organizações e de seus gestores. (p. 140)

 Os comunicadores da Rhodia constataram, por meio de pesquisas feitas na época, que percepções dos públicos são construídas pelos marcos históricos da empresa:

 As pesquisas indicam que a imagem da Rhodia é positiva, mas difusa. A empresa tem um bonito rosto, mas poucos conseguem descrevê-lo com exatidão. Há até quem o associe somente ao velho lança-perfume, que deixou de ser fabricado há mais de vinte anos. Tal constatação preocupa porque a Rhodia é uma empresa com 65 anos de Brasil e atividades as mais diversas.

 (falando do plano de comunicação empresarial da Rhodia, p. 146)

 ...de inúmeros elementos fundamentais para a construção da imagem organizacional: pessoas, símbolos e marcas, rituais, filosofia, valores, crenças, produtos, serviços, tecnologias e conhecimentos e relacionamentos públicos consolidados ao longo da história das empresas. (p.148)

 O consumidor e o funcionário têm na cabeça uma imagem, que é histórica. Uma imagem viva, dinâmica, mutável, ajustável, que sofre interferências de toda natureza. A imagem é determinante para o cidadão, no momento da decisão da compra, e para o empregado, na hora de se aliar à causa da empresa. (p. 152-153)

 Bem, de qualquer modo, recorrer contra essa questão é recorrer contra ideias bem solidificadas.

 Abraços e sucesso a todos!

 Luiz campos


Comentários

  • 11/10/2013 - Jacqueline Araujo
    Professor, concordo com o senhor na questão 98. A mídia tradicional não passou a abordar em seus veículos as manifestações populares porque o coletivo Midia Ninja o estava fazendo pela internet; as manifestações já estavam sendo veiculadas, já estavam pautadas, o que aconteceu foi que o viés da cobertura midiática mudou - e, sinceramente, nem acho que mudou tanto... Achei a questão extremamente subjetiva também...
  • 11/10/2013 - Prof Luiz Campos
    É, não só porque foi coberto na internet quer dizer que as mídias corporativas foram pautadas...Abraços Luiz
  • 10/10/2013 - Rafaela
    Muito obrigada pela ajuda, professor! =)
  • 11/10/2013 - Prof Luiz Campos
    Disponha, Rafaela. Boa sorte! Luiz
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