Prof. Luiz Campos

09/10/2013 | 05:44
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Recursos questões objetivas Comunicação Social MPU 2013

Prezadas alunas e alunos,

Neste artigo faço algumas sugestões para recursos para a prova de conhecimentos específicos de Comunicação Social do Ministério Público da União – Cargo 3 - 2013. Comento duas questões, a 61 e a 109. Considero a 109 a questão mais discutível da prova, dado o gabarito preliminar. Mais tarde, deverei postar outro artigo comentando mais questões.

Considerando os procedimentos de organização de eventos, bem como as dimensões de cerimonial e protocolo, julgue os próximos itens.

109.O Decreto Presidencial n.° 70.274/1972 — o qual define a ordem de precedência entre as autoridades nacionais — é um exemplo de protocolo utilizado em todos os eventos oficiais no Brasil.

Gabarito preliminar: (C)

O decreto citado pode ser considerado um protocolo e define precedências, mas não é utilizado em “todos os eventos oficiais” no Brasil, por aspectos legais e práticos.

Primeiro, o art . 1º  do decreto dispõe : “São aprovadas as normas do cerimonial público e a ordem geral de precedência, anexas ao presente Decreto, que se deverão observar nas solenidades oficiais realizadas na Capital da República, nos Estados, nos Territórios Federais e nas Missões diplomáticas do Brasil”. (grifei)

A menção de governos (Estado com letras maiúsculas), não localização geográfica, sugere que a legislação não se aplica necessariamente a eventos oficiais nos municípios, desde que não estejam envolvidas autoridades estaduais nem federais.

Segundo, vários órgãos e governos estaduais, na prática, regulam a matéria e eventualmente divergem do decreto.

Exemplo: a Câmara dos Deputados do Congresso Nacional. O art . 1º do capítulo do decreto dispõe: “O Presidente da República presidirá sempre a cerimônia a que comparecer”. O art. 94 estabelece a precedência do Presidente da República sobre as outras autoridades. Mas a Câmara abre uma exceção para essas disposições do decreto.

O Manual de Eventos da Câmara dos Deputados (facilmente encontrado na internet) assim se justifica:

“O principal documento sobre cerimonial público é o Decreto nº 70.724, de 9 de março de 1972, que estabelece as normas de cerimonial e público e a ordem geral de precedência, a serem observadas nas solenidades oficiais na capital federal, nos estados, nos territórios e nas missões diplomáticas do Brasil.

Embora o decreto seja a principal referência para a aplicação das regras de cerimonial na esfera pública, na Câmara dos Deputados, com o passar do tempo, percebeu-se a necessidade da introdução de regras específicas, que permitam a seus membros zelar pelos princípios de convivência com os demais poderes, com os representantes da esfera política internacional e com a sociedade. O Ato da Mesa nº 70/2013 estabelece as normas protocolares e a ordem geral de precedência da Câmara dos Deputados.

Nas dependências da instituição, o presidente da Câmara dos Deputados presidirá sempre as cerimônias às quais comparecer e será representado, em caso de impossibilidade de comparecimento, na forma do art. 18 do Regimento Interno ou por deputado especialmente indicado para este fim.”.

O Anexo II do Ato da Mesa nº 70/2013 dispõe a ordem formal da precedência, esclarecendo que o Presidente da Câmara poderá ceder a precedência dentro do mesmo grupo de autoridades, mas tem a precedência em relação ao Presidente da República:

“ANEXO II

ORDEM DE PRECEDÊNCIA COM A PRESENÇA DE AUTORIDADES EXTERNAS À CÂMARA DOS DEPUTADOS

     Poderá haver, por deferência e a critério do deputado que conduzir a cerimônia, alteração na ordem de precedência, desde que dentro do mesmo grupo, conforme se segue.

Grupo 1

1. Presidente da Câmara dos Deputados,

2. Presidente da República,

3. Presidente do Senado Federal,

4. Presidente do Supremo Tribunal Federal, e

5. Vice-Presidente da República.”.

O Ato da Mesa nº 70/2013 extinguiu o Ato da Mesa nº 152, de 29/01/2003, que dispunha, sobre essa questão, basicamente o mesmo.

Outro exemplo: O Decreto nº 11.074, de 5 de janeiro de 1978, que aprova as Normas do Cerimonial Público do Estado de São Paulo, o faz nos seguintes termos: “Considerando a necessidade de atualizar as normas do Cerimonial Público do Estado de São Paulo, harmonizando-as, no que couber, com as estabelecidas, no âmbito nacional, pelo Decreto Federal nº 70.274, de 9 de março de 1972,...”. (grifei).

 

Acerca das teorias da comunicação, julgue os itens subsequentes.

61. Por meio do agendamento entende-se como a agenda de temas da mídia tende a influenciar a agenda social, impondo o que os indivíduos vão pensar a longo prazo.

Gabarito preliminar: (E)

Em artigo anterior, abordei a questão e recomendei marcar com base no entendimento de que “a hipótese do agendamento determina sobre o que pensar, não o que pensar de certos temas” (veja aqui para uma argumentação sobre o tema e uma revisão de questões da banca Cespe sobre o assunto, incluindo questões que divergem da acima).

Com base nesse entendimento, marcaríamos (E) porque o agendamento não determina o que se pensa sobre os temas da agenda.

Mas aqui vou fazer o papel de advogado do diabo (rs). Minha opinião coincide, neste caso, com o gabarito. No entanto, acho o problema muito complexo para ser resumido desse modo.

O argumento central contra o gabarito preliminar é que estudos mais recentes sobre a teoria do agendamento têm gerado o posicionamento de que a teoria pode determinar sim o que pensar sobre os temas pautados pelas mídias na agenda social.

Assim argumenta Traquina, em Teorias do Jornalismo, vol. II, Florianópolis, Insular, 2005, na pág. 16 da Introdução:

A teoria inicialmente postulava que os media podem não dizer às pessoas como pensar sobre os assuntos, mas são bem sucedidas ao dizer às pessoas no que pensar. Mas, depois de mais de vinte anos de investigação sobre a teoria do agendamento, numa análise retrospectiva da evolução da investigação, McCombs e Shaw sustentaram que a teoria do agendamento é muito mais que a asserção de que as notícias influenciam aquilo em que as pessoas pensam. Escrevem McCombs e Shaw (1993:65): “A clássica exposição da marcação de agenda por Bernard Cohen (1963) – os media podem não nos dizer o que pensar, mas são supreendentemente bem-sucedidos quando nos dizem no que pensar – foi virada de pernas para o ar. Investigações recentes explorando as consequências da marcação da agenda e do enquadramento dos media sugerem que os media não só nos dizem no que pensar, mas também como pensar nisso e, consequentemente, o que pensar”.

McCombs retoma o argumento no livro A Teoria da Agenda – A Mídia e a Opinião Pública, Petrópolis, RJ, 2009. O raciocínio é mais ou menos o seguinte:

1. As pessoas têm atenção seletiva. As decisões dos indivíduos, como o voto, baseiam-se em poucos aspectos das questões.

2. O agendamento não é só enquadramento (framing) dos temas, mas também sugestionamento (priming).

3. O sugestionamento consiste em, ao expor os temas, ressaltar certos aspectos em detrimento de outros.

4. Assim, as pessoas absorvem os temas sob certo ponto de vista, com ênfase nos aspectos salientados pela mídia.

5. Dada a atenção seletiva, esses aspectos influenciam a opinião do público, ou seja, influenciam o que pensar sobre os temas.

Para quem acha que vale à pena entrar com um recurso, McCombs dá exemplos de estudos empíricos no capítulo 8 do livro citado.

Essa história toda é pelo menos útil para mostrar que Comunicação Social não é ciência exata. O nível de incerteza e discussão é bem grande.

É isso, abraços, e estou torcendo por vocês todos, especialmente meus alunos.

Luiz Campos


Comentários

  • 09/10/2013 - TATIANA LIMA DE MAGA
    Professo concordo com o senho na questão 109 e acrescento o Decreto .° 70.274/1972 Art . 5º Parágrafo único. A precedência entre Adidos Militares será regulada pelo Cerimonial militar. O que eliminaria também a possibilidade de ser em TODOS os eventos.
    Acrescento aqui algumas outras:
    69 - As notas oficiais Gabarito: E
    As matérias podem ser pagas e têm o formato jornalístico!
    77 - Grupos focais Gabarito: E
    Como a questão utilizou a palavra "é possível" acredito que não teria erro. Só se dissesse que é obrigatório e ponto. Mas q é possível, é!
    84 - O examinador inverteu os conceitos de planejamento tático e operacional.
    93 - A abertura política e democrática no Brasil...protagonismo dos sindicatos.Gabarito: C
    Não concordo q seja o protagonismo dos sindicatos, mas o avanço e expansão das comunicações em rede e o efeito dela na sociedade. Se ele tivesse determinado período histórico, teria tornado correta, mas em tempos hodiernos os sindicatos não protagonizam.
  • 09/10/2013 - Prof Luiz Campos
    Oi Tatiana,

    É, na 109, chega a ser engraçado como cada órgão faz questão de regular seu próprio cerimonial. Entendi assim: 69. Fala que todas as notas são pagas. E. Podem ser pagas. 77. Ficou polêmica com o "é possível". O moderador pode ficar receptivo a temas que emergem na discussão e ao mesmo tempo utilizar uma lista de tópicos a serem cobertos. 84. O Cespe vai citar o livro da Kunsch, da qual extraiu os termos da questão. 93. Teria situado o período histórico, a época da abertura. Abraços! Luiz
  • 09/10/2013 - Priscila Silva
    Professor, obrigada pelas dicas! Gostaria de saber se você vai comentar a prova discursiva também. Achei o tema um tanto amplo e as perguntas um pouco confusas - difícil saber exatamente o que ele vão considerar como resposta correta. Sei que o seu curso é focado na prova objetiva, mas agradeço se puder escrever um artigo sobre a redação. Abraços.
  • 10/10/2013 - Prof Luiz Campos
    Oi, Priscila, vou tentar. Escrevi mais um artigo sobre questões objetivas. Abs , Luiz
  • 09/10/2013 - Joao Ebling
    Concordo quanto a do Decreto, mas gostaria de uma opinião em relação a outras 3 questões:

    108 - "Os processos que definem a construção de imagem institucional têm uma dimensão histórica, uma vez que a imagem é uma elaboração de longo prazo, sendo construída no decorrer do tempo." Qual o erro nessa?
  • 10/10/2013 - Prof Luiz Campos
    Oi, João, veja o segundo artigo publicado. Abs Luiz
  • 09/10/2013 - Joao Ebling
    Continuando:

    110 - Cerimônias são manifestações de natureza...

    112 - O evento, devido a sua intangibilidade, é um produto que não...

    Qual o erro nessas duas questões? Obrigado!
  • 10/10/2013 - Prof Luiz Campos
    Oi João,

    110. A pegada da questão é "reorganizar hierarquias, condutas e lugares de fala". As hierarquias e lugares de fala não são reorganizados. Ao contrário, são reiterados. O cerimonial com suas regras e ordem estrita de precedência não dá muita margem para modificações.

    112. O problema é que a banca deve argumentar que eventos são singulares, dependem de atitudes e comportamentos dos participantes. Se a gente pensa em termos de recursos somente, a situação é mais previsível e passível de teste. Mas eventos envolvem uma série de fatores humanos e logística muito difícil de reproduzir. Não quero dizer que não vale à pena tentar um recurso, mas pode ser menos provável nesta questão.

    Abraços
    Luiz
  • 09/10/2013 - Lia Carmo
    Questão 107. Os processos que definem a construção da imagem institucional têm uma dimensão histórica, (...), sendo construída no decorrer do tempo. O gabarito oficial foi E. Onde está o erro da questão?
  • 10/10/2013 - Prof Luiz Campos
    Oi Lia, veja o segundo artigo que publiquei. Abraços Luiz
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