Prof. Claudia Kozlowski

14/08/2013 | 15:20
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EPPGG/MPOG - Recurso de Língua Portuguesa

Olá, pessoal,

No fim de semana, foi aplicada a prova para Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental (EPPGG), do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão (MPOG).


Bem, algumas questões geraram algumas polêmicas e sobre a maior delas falarei mais tarde. Por ora, vou apresentar uma possibilidade de recurso a uma questão sem resposta. Trata-se da questão 19, da prova 1 – gabarito 1, de Língua Portuguesa.

A banca indicou como gabarito a opção A, ou seja, este item apresentaria erro de pontuação, erro esse inexistente, como veremos.

Primeiramente, vamos transcrever a questão na íntegra.


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19- Os trechos a seguir constituem sequencialmente um texto adaptado de O Globo de 9/6/2013.


Assinale a opção que foi transcrita com erro de pontuação.


a) O país abriu recentemente os olhos para a questão dos portos, os quais possibilitam as entradas e as saídas das mercadorias relacionadas ao comércio exterior brasileiro, mas deveriam também cumprir papel mais importante na distribuição de bens comercializados entre uma região e outra do país.


b) À medida que se tornem mais eficientes, os portos poderão exercer tal tarefa, aumentando consideravelmente seu movimento, com ganhos de escala que podem traduzir-se em redução de custos e benefícios para todos.

c) Mas os portos não são ilhas isoladas e dependem de bons acessos terrestres, marítimos ou fluviais. A formação dos corredores de transportes quase sempre extrapola as divisas de um município, um estado ou mesmo uma região, o que implica mais comprometimento do governo federal no planejamento e no estímulo à realização de investimentos.

d) Isso é essencial, porque um dos pontos negativos citados em pesquisas sobre a capacidade de atração de investimentos externos é, no caso do Brasil, a infraestrutura.

e) Estados e municípios, consideradas as suas capacidades financeiras, não podem ficar alheios a esse esforço de dotar o país de uma razoável infraestrutura, pois serão beneficiários dos ganhos que vierem das melhorias resultantes de uma economia nacionalmente mais ativa.


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Vamos, agora, analisar os sinais de pontuação empregados e os que porventura deixaram de sê-lo.

A vírgula após “portos” tem o papel de introduzir oração subordinada adjetiva explicativa (os quais possibilitam as entradas e as saídas das mercadorias relacionadas ao comércio exterior brasileiro), enquanto a seguinte introduz oração coordenada sindética adversativa, iniciada pela conjunção “mas”. Tudo na mais perfeita ordem, como prevê a gramática normativa.

Os advérbios “recentemente” e “também” não se encontram isolados por vírgulas por serem de pouca monta, tratando-se, pois, de pontuação facultativa como nos ensinam Celso Cunha e Lindley Cintra em sua obra “Nova Gramática do Português Contemporâneo”: “Quando os adjuntos adverbiais são de pequeno corpo, costuma-se dispensar a vírgula.”.

Assim, não há nenhuma justificativa para a resposta apresenta como gabarito preliminar.

Considerando que as demais opções tampouco apresentam erros de pontuação, requer-se a anulação da questão 19, por ausência de opção que atenda ao enunciado.

Como reforço da argumentação acima, transcrevemos trecho do texto que, adaptado, serviu de base à questão.

Notem que foram mantidos todos os sinais de pontuação no texto da opção A.

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O país abriu recentemente os olhos para a questão dos portos, que são as entradas e as saídas das mercadorias relacionadas ao comércio exterior brasileiro, mas que deveriam também cumprir um papel mais importante na distribuição de bens comercializados entre uma região e outra do país.

À medida que se tornem mais eficientes, os portos poderão exercer tal tarefa, aumentando consideravelmente seu movimento, com ganhos de escala que podem se traduzir em redução de custos e benefícios para todos.

Mas os portos não são ilhas isoladas e dependem de bons acessos terrestres, marítimos ou fluviais. A formação dos corredores de transportes quase sempre extrapola as divisas de um município, um estado ou mesmo uma região, o que implica mais comprometimento do governo federal no planejamento e no estímulo à realização de investimentos.

Algo essencial, porque um dos pontos negativos citados em pesquisas sobre a capacidade de atração de investimentos externos é, no caso do Brasil, a infraestrutura.

Estados e municípios, dentro de suas capacidades financeiras, não podem ficar alheios a esse esforço de dotar o país de uma razoável infraestrutura, pois serão beneficiários dos ganhos que advirem (*sic) das melhorias resultantes de uma economia nacionalmente mais ativa.

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A questão que gerou mais discussão nas redes foi a 9 (gabarito 1), que considerei a maior “maldade” da ESAF nos últimos tempos. Vejam como a banca sabe bater e bate quando quer...rs... Vamos relembrar a questão.

Texto para a questão 9.


1. Em uma revista, Max Gehringer explicou a um leitor

que, em certas empresas, para produzir efeitos de

competência e modernidade, empregam-se muitas

expressões que, de fato, não signifi cam nada, tais

5. como “vivenciar parâmetros holísticos”, “fatores

inerciais de natureza não técnica”. Excelente

exemplo de humor fundado no exagero do jargão

é apresentado por Carlos Queiroz Telles, em um

de seus livros: “Se não preservarmos já o meio

10. ecorrenovável brasileiro, estarão condenados os

grupos autopreserváveis, e isso será o fi m do

ciclo organoalternativo.” Forma mais sofi sticada

de humor é a tradução de provérbios, na forma

de caricatura, como ilustra o trecho a seguir, de

15. Millôr Fernandes: “Quando o sol está abaixo do

horizonte, a totalidade dos animais domésticos

da família dos felídeos são de cor mescla entre o

branco e o preto” para “De noite, todos os gatos

são pardos.”

(Possenti, Sírio. Humor, língua e discurso. São Paulo: Contexto, 2010, p. 70-77, adaptado).

9 - Com relação a aspectos gramaticais do texto, assinale a opção correta.

a) Mantém-se a coesão textual no período que inicia o texto, ao se substituir o trecho “que, em certas empresas, para produzir efeitos de competência e modernidade,”(l.2 e 3) por “que certas empresas, para produzirem competência e modernidade”.

b) A oração “empregam-se muitas expressões”(l.3 e 4) poderia ser substituída corretamente por “são empregadas bastantes expressões”.

c) A oração “Se não preservamos já o meio”(l.9) poderia ser substituída por “Se caso não preservemos, já, o meio”, estrutura em que são enfatizados o conector, que expressa condição, e, por meio do emprego de vírgulas, a palavra que denota tempo.

d) Com igual correção, o trecho “e isso será o fim”(l.11) pode ser reescrito da seguinte forma: “que acarretará na extinção”.

e) A forma verbal “são”(l.17), que concorda com o núcleo do sujeito da oração (“animais”), poderia ser substituída por “é”, visto que, como faculta a norma gramatical, o verbo poderia concordar com a palavra “totalidade”.

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A resposta foi B, e sem dúvida a substituição da forma passiva pronominal “empregam-se muitas expressões” pela analítica “são empregadas bastantes expressões” (com a correta flexão do pronome “bastante”, em concordância com o substantivo “expressões”) é perfeitamente válida.

A dúvida residiu na opção E, e muita gente boa não percebeu a “casca de banana” da opção. Sim, é possível a concordância com termos partitivos. Sim, o verbo poderia realizar a concordância com “TOTALIDADE” (exatamente como o fez), mantendo-se no singular, ou com “ANIMAIS”, flexionando-se no plural. Então, onde está o erro da opção? Na indicação do termo que atua como NÚCLEO do sujeito. Este núcleo é TOTALIDADE, e não “animais”. Não acredita? Então, releia a opção:

“A forma verbal “são” (l.17), que concorda com O NÚCLEO DO SUJEITO DA ORAÇÃO (“ANIMAIS”)...”

Pronto! Está aqui o erro da opção. O núcleo do sujeito é TOTALIDADE, e não “animais” (que atua como COMPLEMENTO). Por isso, esse item foi considerado ERRADO e o gabarito deve ser mantido.

Foi ou não foi uma maldade?

É... rapadura é doce mas não é mole!

Um abraço a todos!


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