
Histórias de Concurseiro -
Estes dias vi uma reportagem sobre os e-books. A notícia anunciava que pela primeira vez a venda dos livros eletrônicos havia ultrapassado a dos tradicionais livros em papel. Não lembro detalhes, mas aposto que se referia aos EUA. Fiquei pensando se esta moda pega no mundo dos concursos. Teria o lado prático, poderíamos até fazer um Ctrl+L (sei lá se isto é possível nestes aparelhos - ainda não conheci nenhum pessoalmente). O tal “localizar” ia ser uma beleza. Imagina aquela bíblia de Constitucional do VP e MA. Você esqueceu alguma coisa sobre controle de constitucionalidade abstrato. Você pega seu e-book, pensa na palavra mais rápida para encontrar o que quer. Digita abstrato. Aí aparecem lá vários trechos que falam disso e você seleciona o que lhe interessa. Delícia, não? Mas, calma. O papel tem seu charme. Só o livro de papel lhe proporciona o prazer de chegar num café com aquele mega volume de 900 páginas e ver o cara da mesa ao lado olhar para você com expressão de “nossa, será que ele vai ler tudo isso? Deve ser um nerd que não tem namorada e nunca jogou uma partida de futebol na vida.” Você olha para ele e, com um simples levantar de sobrancelhas, afirma: sim, eu estudo mesmo. Vou passar no concurso que quero, ganhar um salarião, curtir férias na Europa e assistir à final da Copa no camarote! E mais: eu tenho uma bela de uma namorada e sou o artilheiro do time das terças e quintas! O cara desvia os olhos e volta a tomar café, derrotado.
Você, satisfeito e vitorioso, senta, pede também um café – bem forte – abre sua bíblia de Constitucional; lê algumas linhas e, subitamente, seus pensamentos começam a passear. Você reflete sobre aquilo que o incômodo olhar do cara da mesa ao lado lhe transmitiu. Admite para si mesmo que faz um bom tempo que não joga futebol. Ah, como era bom, suspira você. Mas se eu for jogar hoje, não correrei dez minutos. Minha namorada é gata, claro, mas a gente tem se estressado devido à minha falta de tempo para ela. Você até pode ouvi-la dizendo: “Você só fala deste concurso, que saco! Nem repara mais em mim, não viu que eu cortei o cabelo, não liga para me dar bom dia, esqueceu do nosso aniversário de 10 meses de namoro.” Um gole de café. Bebe porque ela nem imagina o quanto você ainda vai ter que estudar.
Você volta seus olhos para a parede, lá estão pendurados alguns exemplares de jornal. Sim, jornal, que surpresa! Há quanto tempo você não via um jornal! Seu cérebro veloz começa a lhe fornecer diversas definições de jornal. Aquele papel, grande, difícil de manusear, que suja as mãos, impresso diariamente. O rolinho que um cara de bicicleta atira no seu quintal às 6h da manhã, acordando-o em pleno sonho com as discursivas. Aquele negócio que o seu cachorro adora comer. Aquele monte de papel que fica dias molhando na chuva, que o vizinho do seu prédio, por engano, sempre pega o seu. Aquilo que vendem no sinal; um cara de boné, vestido de amarelo, fica cantando “Olha a Gazeta, Gazeta de domingo”, e você, só por desencargo, verifica o relógio e descobre que ainda são 4h da tarde de sábado. Como é que eles conseguem prever o futuro? Por favor, meu caro concurseiro. Jornalista também merece descansar. Vida de jornalista é um perrengue. Ta bom, vai. Vida de concurseiro também. E o pior, sem remuneração!
Você fecha a bíblia de Constitucional, cria coragem e apanha o jornal. Confere a data. É de ontem. Você é tomado por um desespero, pois não consegue nem tocar em informação desatualizada. Isso lhe dá calafrios. O novo entendimento do STF sobre direito adquirido lhe vem à mente. Corta. Você foca novamente o bom - e velho - jornal. Você conclui que não tem mais tempo de ler jornal. Inicialmente se apavora, pensando que todos os japoneses do mundo devem estar, neste instante, lendo a versão – em japonês - do The Economist e você, ali, tomando café. Esquece o jornal. Você volta para o seu café. O incômodo vizinho da outra mesa já não está mais lá. Você fecha o livro de Constitucional, joga o jornal em algum canto e resolve que hoje à noite vai sair. Ah, faz tanto tempo que você não pega uma balada, não toma uma cervejinha com os amigos! Você merece, vai.
À noite estão todos no bar. Nenhum concurseiro no grupo para lhe salvar. Sua namorada está plenamente enturmada. O pessoal, que vive em um outro mundo o qual você já esqueceu, começa a falar das notícias. E você pensa: putz! Maldito jornal. Os assuntos variam desde a última lambança do Congresso até àquele terremoto terrível. Você não sabe nem de um nem de outro. Terremoto? Onde? Não foi um tsunami? No silêncio dos seus pensamentos, você relembra. Terremoto? Ah, tá... terremoto é o que a gente sente quando pega a prova e descobre que não sabe resolver metade das questões. A gente fica sem chão. O mundo desaba. Isso sim é terremoto. A conversa prossegue, todo mundo contando histórias engraçadas. E você só tem história de concurseiro para contar. Daquelas que só concurseiro entende e acha engraçadas. Você olha para sua namorada e faz sinal para irem embora. Ela pede mais uns minutinhos, você diz que não, pois amanhã tem que estudar. Ela faz careta, pega a bolsa, levanta, sorri, manda beijos para todos e vai andando, leve, pensando na agradável noite que passou. E você só consegue pensar que não aproveitou o bar e também não estudou. O diabinho lhe lembra: cuidado com os japoneses. Você o manda catar coquinho. Chega em casa, deita na cama, olha para o teto. Antes de dormir, promete a si mesmo que da próxima vez, antes de ir ao bar, vai ler o resumo da semana em algum jornal online ou levantar uma discussão sobre o significado do casamento. Enfim, decide que estará inteiro no momento e local onde estiver. Aí aparece um cara de Ferrari lhe convidando para uma disputa, lá no autódromo de Mônaco. Você está usando um macacão vermelho com o símbolo da Ferrari. Os motores roncam. Ah, esqueci de dizer que esta parte já é você sonhando... e o ronco é o seu!
Um grande abraço,
Gisele Sulsbach
Artigo 2 : (05/07/2010): Histórias do CF
Artigo 1 : (28/06/2010): Nem muquifos, nem baratas
1